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Aula de 19/05/1992 – A arte tem que lidar com a aurora do mundo

A nossa preocupação com a matéria, ao longo da nossa existência, é permanentemente a mesma: que o presente reproduza o passado. Porque se o presente não reproduzir o passado, não reconheceremos o que estamos vendo. E o reconhecimento é o fundamento para ultrapassarmos o caos objetivo, assim como as regras da associação de ideias são o fundamento para ultrapassarmos o caos subjetivo. Esse caos objetivo e subjetivo é anterior ao homem. (...) O homem vai nascer dotado de uma percepção, mas tudo nele – a própria percepção, a memória, o hábito, a afecção, a ação – será comandado pelas regras e pela semelhança. Veremos o mundo a partir destas regras, ou então do reconhecimento exterior. Nossa constante preocupação – terrível – é de que o passado possa não coincidir com o presente. Imaginem se amanhã o Roberto entra aqui na aula e não é mais o Roberto; se o Roberto da terça-feira passada não coincidir com o Roberto de hoje. Estes princípios do sujeito humano o afastam do caos. (...) Falemos de Cézanne, agora. O ponto de partida da obra dele é definitivo: só posso fazer uma obra de arte se fizer uma prática de desumanização. O que seria esta desumanização? Seria sair destas regras, sair do reconhecimento, voltar ao caos. Ele diz: a minha percepção de maneira alguma me dá o caos original, o caos irisado, o mundo anterior aos homens, a aurora do mundo. A arte tem que lidar com a aurora do mundo, o mundo antes de ser governado por estas regras. Para Cézanne, então, a primeira coisa que tem que ser quebrada no artista é a percepção, porque a percepção está regulada pelo princípio da semelhança.

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

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Aula de 15/09/1994 – Essências cativas

Um acontecimento de Proust. Vou mostrar um acontecimento de Proust para vocês. O meu objetivo ao mostrar isso é pra vocês sem (depois eu passo pra aula. Eu vou fazer isso daqui, mostrar, aí vocês façam a avaliação que vocês acham que devem fazer – como é que vocês devem trazer isso para vocês e eu vou em frente). O Proust, na obra dele, ele faz uma distinção (eu não vou nem explicar agora, porque isso não importa) entre essência e sujeito. Ele vai fazer essa distinção na obra dele. (Talvez eu até entre na aula por aí) Ele faz essa distinção. E diz que essa distinção entre essência e sujeito, o Proust vê nela a única prova possível (Preste atenção!) a distinção entre essência e sujeito – diz o Deleuze – é tão importante que Proust vê nessa distinção – entre essência e sujeito – a única prova possível da imortalidade da alma. (Preste atenção!) Ele está querendo aqui dizer que nessa distinção entre sujeito e essência, ele vai achar que aqui está a prova da imortalidade da alma. (É um negócio! Mas, por quê?) Mas ele está dizendo, fazendo esta afirmação. E, em seguida, ele diz que as essências não existem fora do cativeiro que elas têm dentro da alma humana. As essências são cativas dentro da alma humana. (Lindo aqui!) As essências são nossos reféns: morrem se morremos; mas se são eternas, de alguma forma somos também imortais. Aí, conclui o Proust, as essências tornam a morte menos provável. A essência é a única prova: a única chance é estética.
 
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Esta aula é a segunda de uma série de 9 aulas cuja gravação está excelente! São aulas bem longas, podem durar até 3 horas.  O tema principal que as percorre é Arte e Estética, e a filosofia de Nietzsche, de Espinoza, dos neoplatônicos, sempre "sob a inspiração de Deleuze". A primeira desta série foi a aula de 11/09/1994: Nietzsche: universo e diferença.
 

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Parte 2: 
Parte 3: 
Parte 4: 
Parte 5: 

 
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