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A Filosofia é a mais inocente das ocupações – Manuscrito 18

"Este texto, este trabalho, pretende-se poético, como se fosse um poema. Em torno do que diz Hölderlin sobre o poema: o que é inteiramente inocente, a mais inocente de todas as ocupações: a poesia. É um sonho, e coloca em primeiro plano os sonhadores. Mas também um enfrentamento – o mais inocente, do espírito consigo próprio. O diálogo silencioso. Por exemplo, como em Duns Scot, que se coloca a questão da metafísica. Qual o objeto da metafísica, o ser ou Deus e as inteligências separadas? Avicena e Averroes. Avicena tem razão, diz ele. E, a partir daí, nasce uma filosofia, com seu cortejo de idéias e problemas.
 
A filosofia é a mais inocente das ocupações."

Aula de 01/08/1995 – O tempo negativo e seus predicados – De que matéria é feito o espírito?

Vocês sabem o que é organismo? Organismo é a matéria viva, tá?!
 
Por exemplo: esse óculos é de vidro, o vidro não é uma matéria viva, então pro Leibiniz, o vidro é uma matéria? Elástica. A matéria é elástica.
 
Claudio pega um objeto e pergunta: Então isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Elástico.
 
Ele repete a pergunta pegando outros objetos e depois segue com a aula.
 
A vida é a matéria orgânica.
Por exemplo:
Claudio pega um objeto (uma planta) e pergunta: Isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Orgânico.
 
A vida para o Leibiniz é plástica.
 
A duas matérias no universo: A matéria elástica inorgânica e a matéria plástica orgânica.
 
Entendeu? Elástica e plástica.
 
Um aluno pergunta: O que que é a matéria plástica?
Claudio responde: A plástica é a orgânica.
O que é a matéria plástica, o que é? A matéria plástica é a síntese de dois instantes.
É quando dois instantes estão juntos um do outro, chama-se matéria plástica.
 
O que quer dizer isso? Só há vida quando houver síntese.
Só há vida quando houver síntese.
 
Vou voltar outra vez.
Ninguém precisa se preocupar, porque vocês vão entender.
 
Eu vou voltar para a natureza e retirar o espírito.
 
Claudio: O que é a natureza sem o espírito?
Alunos: Mens momentanea.
Claudio: O que é a mens momentanea?
Alunos: Tica tac...
Claudio: Tica tac...
 
Claudio: Tá. Então vê se eu posso chamar a natureza de sensações vibratórias...
 
Silêncio.
 
Claudio prossegue: Vocês não entenderam... A natureza vibra. Ela é uma vibração. A natureza é um processo vibratório. Entenderam? (...)
É vibrar. Claudio gesticula e fala: Pá! Pá! É um processo de vibração.
O processo vibratório é a natureza elástica. A natureza elástica é vibratória. Ela vibra o tempo todo. E a natureza plástica, ela é contraente. Então a vida contrai a vibração. É difícil pra burro, né?!
 
A natureza é processo vibratório e a vida vai ¬Claudio tá um tapa na mão¬ e contrai aquilo.
Junta elementos que estão separados... na natureza... junta. A vida junta. E essa junção...
 
Não se preocupem, nem que com trinta aulas, mas vocês vão entender isso.
 
A vida, ela produz sínteses nos elementos vividos. (...) A vida é quando duas vibrações se juntam. Por isso a vida, ela pega a matéria elástica e dobra a matéria elástica; junta o que tá aqui com o que tá aqui (Claudio apontando de uma ponta a outra no espaço).
 
Não sei se vocês entenderam?
 
O ser vivo é constituído de mil, mil, mil e mil dobras. Nós somos como se fosse um tecido barroco. Nós somos cheios de dobras. Se você pegar o estômago e abrir ele, ele é imenso. Porque são as dobras feitas pelas contrações. Essas contrações geram a matéria plástica. A matéria plástica é o organismo.
 
Tá muito difícil isso?
Mihaela, você, eu vou cobrar muito de você, viu? Você é muito jovem e isso implica em dizer que nada te impede de entender essas coisas. (...)
 
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Então eu estou dizendo pra vocês que uma força... Vê se eu posso dizer isso e se alguém não entender, levanta o dedo... Uma força contemplativa...
 
Claudio: O que é essa força contemplativa?
Alunos: O espírito.
Claudio: O espírito.
 
Então ... marca isso: força contemplativa não é ação. É contemplação. A força do espírito contempla e contrai. E quando contrai, nasce o organismo.
 
Claudio: Então o organismo é o espírito? Ou é um resultado do espírito?
Alunos: Resultado.
Claudio: Resultado.
 
O organismo é o que se chama vida orgânica. O espírito que contempla é o corpo sem órgãos.
Alunos: ?
Claudio: Corpo sem órgãos.
 
Por exemplo: pra você entender o que eu estou dizendo. O Rubens Correa, ele costuma representar o Artaud... não sei se vocês já viram, muito bem. É um Artaud muito cheio de gritos. Não tem nada a ver com o Artaud.
 
O Artaud criou uma figura na obra dele chamada corpo sem órgãos. Corpo sem órgãos é uma categoria que vai nos explicar, depois que nós entendermos ela, vai nos explicar o que é o desejo, o que é o prazer, o que é o instinto de morte, vai nos explicar tudo isso. Eu estou dizendo pra vocês que o nascimento da vida pressupõe a vibração dos instantes separados.
 
Primeiro elemento: a vibração dos instantes separados.
 
Claudio; Qual é o nome da vibração dos instantes separados?
Alunos e Claudio: Mens momentanea.
Dois: Um espírito que contempla.
 
Agora, quando eu falo espírito que contempla, eu vou abrir um parênteses:
A contemplação foi feita, na história da humanidade aparece o Mito de Narciso. Narciso é aquele que contempla a sua própria imagem. Sabia disso? Narciso contempla a sua própria imagem. O narcisimo vai ser dividido em dois: narcisismo material e narcisismo formal.
 
O narcisimo material é quando alguém contempla a sua imagem fora dele. Você contempla a sua imagem fora de você. (...)
 
Por exemplo: Narciso contemplando a imagem dele refletida nas águas. Agora é um momento magnífico, vamos ver se eu consigo explicar isso daqui pra vocês. O narcisismo formal é quando o espírito contempla e ao contemplar contrai os elementos do qual ele é feito. Os elementos com os quais ele é feito. E os elementos com os quais o espírito é feito são os instantes. Dificílimo, não é?
 
Vamos fazer alguma coisa... vou pegar um objeto aqui assim. E aqui vai ficar um pouco diferente do que eu quero dizer. Porque quando você pega a natureza. A natureza vista sob o modelo clássico, ela é constituída por quatro elementos: água, terra, fogo e ar. Esse é o modelo clássico, os quatro elementos que constroem a natureza. A partir da descoberta atômica, não se fala mais nos quatro elementos, fala-se fósforo, enxofre, silício, carbonos... você fala em elementos atômicos. Mas vamos dizer que a natureza seja constituída pelos quatro elementos. Então esse instante que faz assim [Claudio gesticula com as mãos, uma dobra] são os quatro elementos. A matéria do instante são os quatro elementos.
 
A natureza, ela é constituída de quatro elementos: terra, fogo, ar, água. Um filósofo chamado Empédocles disse que existe na natureza os quatro elementos e duas forças. Uma força chama-se amor e a outra força chama-se ódio. Na hora que a força do amor prevalece , os quatro elementos se juntam. Na hora que a força do ódio prevalece, os quatro elementos se separam. Então para o Empédocles a natureza é um ciclo que oscila entre o amor e o ódio. O que eu estou dizendo é que o processo do espírito contemplativo é um processo de amor. O espírito contempla os quatro elementos. Mas o espírito quando contempla os quatro elementos, ele próprio é os quatro elementos. E ele junta os quatro elementos.
 
Eu vou agora explicar de outra maneira: você pega uma semente de vagem e joga a semente de vagem na terra. Não sei quanto tempo depois você vai naquele lugar com uma semente de jasmim... você joga na terra. Seis meses depois você volta e tem um jasmineiro. Um jasmineiro. O que é o jasmineiro? É a semente que contrai a matéria que a circunda. A matéria que circunda a semente é a lama. Ela contrai aqueles elementos que estão ali. E aqueles elementos vão se transformando em jasmins. Vocês entenderam?
 
Como é que de uma pequena semente pode nascer uma árvore imensa? É porque a árvore é constituída desses elementos que a semente juntou e contraiu e transformou em folha, fruto, casca... madeira. É uma contração que a semente faz.
 
Então o que ocorre no nascimento da vida é exatamente isso: a matéria com a qual a natureza é constituída se contrai, se junta, e na hora que ela se junta ¬usando Leibiniz¬ ela se transforma em matéria elástica e matéria plástica. E a vida é isso. A vida é orgânica. É importante que se isso for entendido, a gente distinguir o processo do nascimento do organismo e quem produz a vida não é o organismo. O produtor do organismo é o espírito que contrai. Por isso você pode dizer: a vida, ela não é orgânica, ela torna-se orgânica. Ficou difícil...
 
Até onde nós fomos? Até onde nós conseguimos ir nessa aula? E até onde nós não conseguimos ir?
 
Essa aula é uma aula que eu adiei durante umas três aulas. Eu fui impedido de dar ela. Mas agora eu vou começar a seguir nessa aula.
 
O que eu estou dizendo para vocês é que a tese que eu estou passando é que o tempo é subjetivo. Não há tempo se não houver contemplação.
 
Essa agora... num processo terminal, essa explicação que eu dei para vocês, ela teve dois conceitos básicos: o conceito de repetição da vibração e o conceito de diferença no espírito que contempla, que junta as (penetrações ? 15:15). Vocês entenderam isso? Repetição e...? Diferença. Repetição e diferença. A contemplação que o espírito faz introduz, dentro da natureza, a diferença. (...) Eu vou dar essa aula até vocês entenderem. Eu vou dar ad nauseam.
Porque com essa compreensão nós vamos poder entender todos os processos da vida. Foi bem a aula, não é?!
 
(...)
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:
Parte 4:

 
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Primeiro livro de Claudio Ulpiano será lançado na PUC

Jornal do Brasil – Cultura – Domingo, 24 de março: PROFESSOR QUE MESCLAVA A FILOSOFIA COM A VIDA TEVE UMA MULTIDÃO DE SEGUIDORES

Ulpiano foi um filósofo que revolucionou o ensino da filosofia no RioGilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento, versão em livro da tese de doutoramento de Claudio Ulpiano, é a única obra escrita pelo autor com intenção de publicação.  O livro, de 280 páginas, será lançado pela Editora Funemac Livros e pelo Centro de Estudos Claudio Ulpiano, no dia 8 de abril, na PUC-RJ.

Ulpiano foi um filósofo que revolucionou o ensino da filosofia no Rio de Janeiro quando, no início dos anos 80, levou a filosofia para fora das universidades. Suas aulas eram disputadas em incontáveis grupos de estudo frequentados por pessoas de todas as profissões e idades, em vários locais do Rio. Além de acompanhar fascinados pelas brilhante explicações filosóficas de Ulpiano, muitos de seus alunos gravavam suas disputadas aulas.

Também na UFF e na UERJ, onde foi professor, suas aulas eram assistidas por uma enorme quantidade de alunos, de dentro e de fora da instituição.  Durante toda a sua vida, Claudio privilegiou a tradição oral do ensino da filosofia, deixando em todos que assistiram suas aulas uma impressão profunda, causada pela limpidez de suas exposições e o rigor do seu pensamento.

Embora possa ser considerado o maior divulgador do pensamento de Gilles Deleuze no Brasil, sua associação com este filósofo vai muito além de uma simples reprodução teórica.  Ulpiano foi um singular intercessor de Deleuze, revelando e desdobrando os conceitos e referências do filósofo francês; trazendo o pensamento deleuziano para dentro da vida cotidiana.

A originalidade de Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento começa na  própria escritura do livro, rizomática, quase literária, a literatura se compondo com a filosofia no que esta tem de vigorosa, criativa, revolucionária. Ulpiano faz com Deleuze o que este fez com Bergson, Kant, Hume, Nietzsche – não o explica, antes associa-se a ele, tornando “ato” o pensamento do filósofo, liberando ideias presentes em sua obra, mas não atualizadas por ele.

Esta é a grande originalidade desse livro, nascido do interior da filosofia, mergulhado no seu movimento próprio, o autor consegue expandir a compreensão da obra deleuziana. Em Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento, a filosofia está viva. Melhor dizendo, na escrita de Ulpiano, como outrora em suas aulas, não há diferença entre a filosofia e a vida.

História de vida

Claudio Ulpiano nasceu em Macaé, em 1932. Começou sua carreira acadêmica no final dos anos 70, dando aulas na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e na UFF (Universidade Federal Fluminense). Era fácil descobrir em que sala da universidade ele se encontrava, e mesmo em que corredor ficava esta sala. Uma multidão de alunos, vindos de diferentes cursos e até de fora da instituição, lotava o local onde ele dava aula, espalhando-se pelo chão, pelo corredor, usando até mesmo o espaço das janelas para garantir um lugar.

Os anos 80 marcaram o início dos inúmeros grupos de estudo que se formaram em torno dele. O primeiro aconteceu no próprio apartamento de Claudio, na rua Araucária, onde alguns alunos da UERJ e seus amigos passaram a se encontrar todos os sábados para assistir aulas que podiam se estender por dez horas seguidas. Sempre de preto, cigarro nas mãos, a figura de Claudio, serena e firme, causava forte impressão.

Pouco depois, foi um grupo de professores da UFF que começou a se reunir no apartamento de um deles. Deste segundo grupo originou-se a primeira turma formada por alunos que não vinham diretamente das universidades onde Claudio era professor.

Daí em diante, esses grupos independentes se disseminaram pelo Rio de Janeiro, reunindo pessoas de todas as idades e profissões. Os cursos aconteciam não só nas casas dos alunos, mas também em espaços alternativos, escolas particulares, centro culturais etc. De 1980 até 1998, quando a doença o impediu de continuar, suas aulas seguiram atraindo um público cada vez maior e mais variado: estudantes, cientistas, músicos, donas-de-casa, economistas, empresários, artistas de todas as áreas etc.

Ulpiano não fazia distinção entre a filosofia e a vida, ou entre pensar e viver. Para este filósofo, pensar era um ato que servia, acima de tudo, para aumentar a potência da vida – da vida de cada um, e da Vida em si mesma. É por essa razão que suas aulas marcaram de modo indelével o espírito de todos que as assistiram.

Para Claudio, que conhecia tão profundamente a história da filosofia, que dominava com tanta facilidade a diversidade dos saberes, o que importava era atingir, através do pensamento, a mais difícil das questões humanas: a finitude.

Ele trazia esta questão até cada um, forçava a pensá-la, e procurava, com o rigor do seu saber e o encanto da sua criatividade, a saída mais bela: a da ética. A luta mais essencial: a da liberdade. Uma pergunta se levantava ao final das suas aulas, e continuava ecoando quando seus alunos – ou seguidores - voltavam para casa. Era como se o filósofo  perguntasse, silenciosamente: O que fazer com a nossa única vida? – ao mesmo tempo em que ensinava, com o exemplo dos gregos, e instigava, com a beleza de suas aulas, a fazer desta única vida uma obra de arte.

LINK para a reportagem: http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2013/03/24/primeiro-livro-de-claudio-ulpiano-sera-lancado-na-puc/

LANÇAMENTO – LIVRO DE CLAUDIO ULPIANO

O Centro de Estudos Claudio Ulpiano e a Funemac Livros têm o prazer de convidá-los para o lançamento do livro “GILLES DELEUZE: A GRANDE AVENTURA DO PENSAMENTO”, de CLAUDIO ULPIANO.  O evento, promovido pelo Departamento de Direito da PUC e organizado pelo Centro de Estudos Claudio Ulpiano, será na próxima 2ª feira, 8 de abril, a partir das 19:30, no auditório B8, na cobertura do Edifício da Amizade, Ala Frings.

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Local: PUC-Rio - Campus da Gávea - Auditório B8 - cobertura do Edifício da Amizade - Ala Frings - Rua Marquês de São Vicente 225 - Gávea - Rio de Janeiro - RJ

 

Abertura:

- Maurício Rocha (PUC-Rio)

- Silvia Ulpiano (CCLULP)

Professores Palestrantes:

- Tatiana Roque (UFRJ)

- Mario Bruno (UERJ-UFF)

- Alterives Maciel (PUC-Rio)

- Luiz Manoel Lopes (UFC)

- Elton Luiz (UNIRIO)

Artistas, Alunos, Leituras e falas:

- Marici Passini e Renata Bergo Duarte (CCLULP - Ritornelo Livros)

- Marcelo Braga (dançarino, coreógrafo)

- Sascha Amback (músico, compositor)

- Eduardo Goldenstein (cineasta)

- Paulinho Moska (cantor, compositor)