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Aula de 01/08/1995 – O tempo negativo e seus predicados – De que matéria é feito o espírito?

Vocês sabem o que é organismo? Organismo é a matéria viva, tá?!
 
Por exemplo: esse óculos é de vidro, o vidro não é uma matéria viva, então pro Leibiniz, o vidro é uma matéria? Elástica. A matéria é elástica.
 
Claudio pega um objeto e pergunta: Então isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Elástico.
 
Ele repete a pergunta pegando outros objetos e depois segue com a aula.
 
A vida é a matéria orgânica.
Por exemplo:
Claudio pega um objeto (uma planta) e pergunta: Isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Orgânico.
 
A vida para o Leibiniz é plástica.
 
A duas matérias no universo: A matéria elástica inorgânica e a matéria plástica orgânica.
 
Entendeu? Elástica e plástica.
 
Um aluno pergunta: O que que é a matéria plástica?
Claudio responde: A plástica é a orgânica.
O que é a matéria plástica, o que é? A matéria plástica é a síntese de dois instantes.
É quando dois instantes estão juntos um do outro, chama-se matéria plástica.
 
O que quer dizer isso? Só há vida quando houver síntese.
Só há vida quando houver síntese.
 
Vou voltar outra vez.
Ninguém precisa se preocupar, porque vocês vão entender.
 
Eu vou voltar para a natureza e retirar o espírito.
 
Claudio: O que é a natureza sem o espírito?
Alunos: Mens momentanea.
Claudio: O que é a mens momentanea?
Alunos: Tica tac...
Claudio: Tica tac...
 
Claudio: Tá. Então vê se eu posso chamar a natureza de sensações vibratórias...
 
Silêncio.
 
Claudio prossegue: Vocês não entenderam... A natureza vibra. Ela é uma vibração. A natureza é um processo vibratório. Entenderam? (...)
É vibrar. Claudio gesticula e fala: Pá! Pá! É um processo de vibração.
O processo vibratório é a natureza elástica. A natureza elástica é vibratória. Ela vibra o tempo todo. E a natureza plástica, ela é contraente. Então a vida contrai a vibração. É difícil pra burro, né?!
 
A natureza é processo vibratório e a vida vai ¬Claudio tá um tapa na mão¬ e contrai aquilo.
Junta elementos que estão separados... na natureza... junta. A vida junta. E essa junção...
 
Não se preocupem, nem que com trinta aulas, mas vocês vão entender isso.
 
A vida, ela produz sínteses nos elementos vividos. (...) A vida é quando duas vibrações se juntam. Por isso a vida, ela pega a matéria elástica e dobra a matéria elástica; junta o que tá aqui com o que tá aqui (Claudio apontando de uma ponta a outra no espaço).
 
Não sei se vocês entenderam?
 
O ser vivo é constituído de mil, mil, mil e mil dobras. Nós somos como se fosse um tecido barroco. Nós somos cheios de dobras. Se você pegar o estômago e abrir ele, ele é imenso. Porque são as dobras feitas pelas contrações. Essas contrações geram a matéria plástica. A matéria plástica é o organismo.
 
Tá muito difícil isso?
Mihaela, você, eu vou cobrar muito de você, viu? Você é muito jovem e isso implica em dizer que nada te impede de entender essas coisas. (...)
 
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Então eu estou dizendo pra vocês que uma força... Vê se eu posso dizer isso e se alguém não entender, levanta o dedo... Uma força contemplativa...
 
Claudio: O que é essa força contemplativa?
Alunos: O espírito.
Claudio: O espírito.
 
Então ... marca isso: força contemplativa não é ação. É contemplação. A força do espírito contempla e contrai. E quando contrai, nasce o organismo.
 
Claudio: Então o organismo é o espírito? Ou é um resultado do espírito?
Alunos: Resultado.
Claudio: Resultado.
 
O organismo é o que se chama vida orgânica. O espírito que contempla é o corpo sem órgãos.
Alunos: ?
Claudio: Corpo sem órgãos.
 
Por exemplo: pra você entender o que eu estou dizendo. O Rubens Correa, ele costuma representar o Artaud... não sei se vocês já viram, muito bem. É um Artaud muito cheio de gritos. Não tem nada a ver com o Artaud.
 
O Artaud criou uma figura na obra dele chamada corpo sem órgãos. Corpo sem órgãos é uma categoria que vai nos explicar, depois que nós entendermos ela, vai nos explicar o que é o desejo, o que é o prazer, o que é o instinto de morte, vai nos explicar tudo isso. Eu estou dizendo pra vocês que o nascimento da vida pressupõe a vibração dos instantes separados.
 
Primeiro elemento: a vibração dos instantes separados.
 
Claudio; Qual é o nome da vibração dos instantes separados?
Alunos e Claudio: Mens momentanea.
Dois: Um espírito que contempla.
 
Agora, quando eu falo espírito que contempla, eu vou abrir um parênteses:
A contemplação foi feita, na história da humanidade aparece o Mito de Narciso. Narciso é aquele que contempla a sua própria imagem. Sabia disso? Narciso contempla a sua própria imagem. O narcisimo vai ser dividido em dois: narcisismo material e narcisismo formal.
 
O narcisimo material é quando alguém contempla a sua imagem fora dele. Você contempla a sua imagem fora de você. (...)
 
Por exemplo: Narciso contemplando a imagem dele refletida nas águas. Agora é um momento magnífico, vamos ver se eu consigo explicar isso daqui pra vocês. O narcisismo formal é quando o espírito contempla e ao contemplar contrai os elementos do qual ele é feito. Os elementos com os quais ele é feito. E os elementos com os quais o espírito é feito são os instantes. Dificílimo, não é?
 
Vamos fazer alguma coisa... vou pegar um objeto aqui assim. E aqui vai ficar um pouco diferente do que eu quero dizer. Porque quando você pega a natureza. A natureza vista sob o modelo clássico, ela é constituída por quatro elementos: água, terra, fogo e ar. Esse é o modelo clássico, os quatro elementos que constroem a natureza. A partir da descoberta atômica, não se fala mais nos quatro elementos, fala-se fósforo, enxofre, silício, carbonos... você fala em elementos atômicos. Mas vamos dizer que a natureza seja constituída pelos quatro elementos. Então esse instante que faz assim [Claudio gesticula com as mãos, uma dobra] são os quatro elementos. A matéria do instante são os quatro elementos.
 
A natureza, ela é constituída de quatro elementos: terra, fogo, ar, água. Um filósofo chamado Empédocles disse que existe na natureza os quatro elementos e duas forças. Uma força chama-se amor e a outra força chama-se ódio. Na hora que a força do amor prevalece , os quatro elementos se juntam. Na hora que a força do ódio prevalece, os quatro elementos se separam. Então para o Empédocles a natureza é um ciclo que oscila entre o amor e o ódio. O que eu estou dizendo é que o processo do espírito contemplativo é um processo de amor. O espírito contempla os quatro elementos. Mas o espírito quando contempla os quatro elementos, ele próprio é os quatro elementos. E ele junta os quatro elementos.
 
Eu vou agora explicar de outra maneira: você pega uma semente de vagem e joga a semente de vagem na terra. Não sei quanto tempo depois você vai naquele lugar com uma semente de jasmim... você joga na terra. Seis meses depois você volta e tem um jasmineiro. Um jasmineiro. O que é o jasmineiro? É a semente que contrai a matéria que a circunda. A matéria que circunda a semente é a lama. Ela contrai aqueles elementos que estão ali. E aqueles elementos vão se transformando em jasmins. Vocês entenderam?
 
Como é que de uma pequena semente pode nascer uma árvore imensa? É porque a árvore é constituída desses elementos que a semente juntou e contraiu e transformou em folha, fruto, casca... madeira. É uma contração que a semente faz.
 
Então o que ocorre no nascimento da vida é exatamente isso: a matéria com a qual a natureza é constituída se contrai, se junta, e na hora que ela se junta ¬usando Leibiniz¬ ela se transforma em matéria elástica e matéria plástica. E a vida é isso. A vida é orgânica. É importante que se isso for entendido, a gente distinguir o processo do nascimento do organismo e quem produz a vida não é o organismo. O produtor do organismo é o espírito que contrai. Por isso você pode dizer: a vida, ela não é orgânica, ela torna-se orgânica. Ficou difícil...
 
Até onde nós fomos? Até onde nós conseguimos ir nessa aula? E até onde nós não conseguimos ir?
 
Essa aula é uma aula que eu adiei durante umas três aulas. Eu fui impedido de dar ela. Mas agora eu vou começar a seguir nessa aula.
 
O que eu estou dizendo para vocês é que a tese que eu estou passando é que o tempo é subjetivo. Não há tempo se não houver contemplação.
 
Essa agora... num processo terminal, essa explicação que eu dei para vocês, ela teve dois conceitos básicos: o conceito de repetição da vibração e o conceito de diferença no espírito que contempla, que junta as (penetrações ? 15:15). Vocês entenderam isso? Repetição e...? Diferença. Repetição e diferença. A contemplação que o espírito faz introduz, dentro da natureza, a diferença. (...) Eu vou dar essa aula até vocês entenderem. Eu vou dar ad nauseam.
Porque com essa compreensão nós vamos poder entender todos os processos da vida. Foi bem a aula, não é?!
 
(...)
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:
Parte 4:

 
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Aula de 19/12/1995 – A dobra e o barroco – Clarões orgânicos na noite escura

(...) Sempre é difícil acompanhar; então, durante algum tempo até eu dizer "agora", não é propriamente aula: é uma fundamentação para uma aula que eu vou dar.Eu vou começar dando fundamentação e, à partir dessa fundamentação, a aula começa. Aí eu aviso "vai começar a aula agora". O que vocês podem fazer é se sustentar naquilo tudo que eu fundamentei, tá?!
 
Eu vou começar . Cada tema que eu falar, vocês dizem “já entendi”. Porque a partir desses temas é que a aula vai se desencadear.
 
No século XVII um filósofo chamado Leibiniz. Um filósofo ¬difícil se considerar o que eu vou dizer¬ um filósofo Barroco, integralmente Barroco. Ele, entre outras práticas,  constituiu um conceito que pode receber o nome de harmonia pré-estabelecida ou harmonia universal. O Leibiniz construiu um conceito chamado ¬melhor¬ de harmonia universal.
 
O que quer dizer exatamente esse conceito de harmonia universal?
Quer dizer o seguinte: que tudo o que existe na Natureza... tudo o que existe na Natureza está ligado (uma coisa à outra). Então, não existe na Natureza, nenhum elemento dentro da Natureza, que não esteja relacionado a outro elemento. Então você nunca encontrará na Natureza o que se chama “estrutura atômica”. A noção de “estrutura atômica” é uma noção de alguma coisa isolada. Na Natureza não existiria nada que fosse isolado. Tudo estaria conjugado.
 
Muito bem... o que que ele estabelece? Ele estabelece que tudo na Natureza está em relação. A Natureza é uma rede é uma cadeia de relações. Isso chama-se “rizoma”.
 
Aluna: Rizona?
Claudio: Rizoma! (Claudio soletra: R-I-Z-O-M-A)
 
O que é um rizoma?
O rizoma é que tudo o que existe está relacionado. Tudo o que existe está relacionado.
Então vamos supor aqui... vamos lá...
 
Claudio pega um biscoito e fala: Biscoito. Olha esse biscoito aqui. (Para vocês entenderem, tá?!) Aí chega o rato. O rato entra em contato com esse biscoito. O rato entrou emcontato com esse biscoito.
 
Claudio pergunta: Se ele entrou em contato com esse biscoito, ele entrou em contato com todo o universo?
Aluna: Entrou, claro.
Claudio: Por que?
Claudio e alunos: Por causa da “harmonia universal”.
 
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O que esse filósofo está dizendo é que quando nós entramos em contato com um elemento qualquer, de imediato, nós entramos em contato com o universo inteiro.
Voltando... agora eu vou complicar um pouquinho...
 
Esse biscoito entra em contato com essa xícara. Isso significa que esse biscoito entrou em contato com o universo. Isso chama-se “harmonia universal”. A noção de "harmonia universal" estabelece uma ideia que é: logo que você se encontra com um elemento, isso significa que você se encontra com (agora eu vou complicar) com o infinito. Então o contato com um elemento só, remete você para o infinito da natureza.
 
A Natureza, ela é infinita, e todos os seres que estão na Natureza entram em contato com todos os seres.
 
Todos os seres que estão na Natureza entram em contato com todos os seres. Então vamos voltar... vamos voltar...
 
Olha esse biscoito aqui. Vamos fingir que esse biscoito seja um rato. Olha esse rato aqui. Esse rato, ele tem limites, olha só... ele tem limites: ele tem um lado, ele tem um outro lado menor e aqui ele vai aumentando. Ele tendo limites, isso significa que este ser que está aqui, ele é finito. Finito quer dizer: tem limites. Então esse ser que está aqui, ele é um ser limitado, logo ele tem limites. Mas quando ele entra em contato com outro objeto, logo em seguida ele entra em contato com todo o universo. O que significa que os seres finitos contém dentro deles o infinito da Natureza.
 
Claudio: Ficou difícil?
Aluna: Acho que não...
Claudio: Os seres finitos contém dentro deles o infinito da Natureza.
 
Esse filósofo do século XVII chamado Leibiniz vai dizer que estes seres finitos que têm dentro de si o infinito do mundo inteiro chamam-se “mônadas”. (Claudio soletra: M-Ô-N-A-D-A)
 
A mônada é aquilo que a natureza é constituída. A natureza é constituída por uma infinidade de mônadas. Mas cada mônada conhece o infinito da natureza, tá?!
 
Então todas as mônadas, elas têm dentro delas o infinito da natureza.

Agora veja...acho que foi compreendido, né?!
 
Compreendeu Luiz?
 
A mônada tem dentro dela o infinito da natureza.
 
continua...
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:

***

 
Esta é uma aula célebre. Além de ser belíssima, Claudio se aborrece no final. Irritado com o que chama de "tolices" , interrompe o que dizia, levanta-se e deixa a sala, e esta foi a única vez em que isto aconteceu. Para ele, a dificuldade de compreensão dos alunos não atrapalhava uma aula; mas o que chamava de "interrupções por conta de tolices", era algo que o impedia de prosseguir.  Não cortamos estes minutos finais, pois eles expressam sua postura como filósofo e professor.

Na Parte II, entre os 23:36  e  27:47 minutos, há 4 minutos apenas de conversas indistintas, no intervalo para o café; mas depois a aula prossegue normalmente.
 
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Aula de 03/05/1995 – O caos e o crivo – O conjunto dos possíveis

(...) O meu objetivo [nesta aula] é, como eu disse pra vocês, a Teoria do Acontecimento, que o Deleuze aponta como sendo originária nos Estoicos, em Leibniz e em Whitehead. (Certo?) Então, o meu objetivo em torno do Whitehead é atingir a Teoria do Acontecimento. E essa Teoria do Acontecimento vai gerar quatro conceitos. E nós temos que lidar com esses quatro conceitos do Whitehead (que são de extremada dificuldade de compreensão!), que são: Extensão, Intensidade, Indivíduo e Objeto Eterno. Então, de alguma forma, nós temos que nos inteirar deles [desses quatro conceitos].
 
(...)
 
Então eu vou indicar um livro para vocês, um livro chamado “A Dobra” [A Dobra: Leibiniz e o Barroco] , um livro do Deleuze que trata do Whitehead, trata do Leibniz e trata do Barroco.
 
(...)
 
O Deleuze, em um capítulo que ele trata do Acontecimento, no livro “A Dobra”, ele introduz dois conceitos em inglês: “Many” e “One”. [Quando] ele introduz esse dois conceitos. Normalmente, um leitor de filosofia exulta, todo de peito erguido:  É comigo mesmo! –diz o leitor de filosofia, “Many” quer dizer “Mútiplo” e “One” quer dizer “Um”. Então “Um” e “Múltiplo”. É um hábito que todo estudante tem... desde que nasce ele está estudando estas duas coisas: , o “Um” e o “Múltiplo”... mas quando ele vai se aprofundar, [ele vê que] não tem nada a ver. Não tem nada a ver... Estes dois conceitos [em Whitehead] estão próximos a uma questão bergsoniana não interessa neste momento.
 
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Mas o Deleuze vai liberar estes dois conceitos, com o objetivo de falar em outros dois conceitos, que são o conceito de “Caos” e o conceito de “Crivo”. (...) Ele usa esses dois conceitos e coloca que o conceito de “Caos” é uma abstração, no sentido de que o “Caos” não aparece sem a presença do “Crivo”. Então, quando eu digo que “A” não aparece sem “B”, eu digo que “A”  isolado  é uma abstração. É isso que ele está dizendo.
 
Então o conceito de “Caos” para ele seria uma abstração, como eu disse. Em seguida, o Deleuze vai apontar – para entender o que ele está dizendo em termos de “Caos” e de “Crivo”– (...) ele aponta para uma questão Física [para você ver qual a dificuldade do texto!], a Eletromagnética; ele aponta uma questão da Biologia, que é a membrana polarizada – Ninguém nem sabe o que é isso...– ; e, em terceiro lugar, ele aponta Platão (...).
 
Então, o que eu vou fazer nessa aula é um trabalho em Platão, mas um trabalho de uma dificuldade e de uma originalidade muito grande; no sentido de que, nas escolas de filosofia, vocês não encontrarão uma leitura deste tipo que eu vou fazer.
 
continua
 

Parte 1:
Parte 2:

 
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