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Aula 9 – 03/02/1995 – Personagem conceitual e personagem estético

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 5 (A Fuga do Aristotelismo); 6 (Do Universal ao Singular); 8: (As Singularidades Nômades); 11 (Conceitos); 12 (De Sade a Nietzsche) e 14 (Literatura) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Parte I

duas ideias que percorrem a obra do Deleuze, a obra que ele faz junto com o Guattari, e que não são ideias originárias neles - são ideias que eles tomaram e renovaram. Então, antes de eu entrar, prestem atenção ao que eu disse - tomar uma ideia e renovar aquela ideia: é exatamente essa a grande prática da filosofia.

A filosofia não tem a função de ser uma invenção permanente de ideias: toma-se uma determinada ideia - e renova-se aquela ideia. Por exemplo, a ideia de código quer dizer repetição periódica. Quando houver um código, necessariamente aparece o que eu chamei de repetição periódica. Não é preciso falar mais nada, que isso daqui é suficiente para se compreender o que vem a ser um código. E o código está presente em qualquer ser vivo. Todo ser vivo pressupõe um código e, vai, segundo o que eu falei, conduzindo as repetições periódicas. Mas acontece um fenômeno raro para o nosso conhecimento, mas frequente na vida - que se chama transcodificação ou transdução. A transcodificação é a estranha potência - a mais incompreensível das potências - que um determinado ser vivo (logo, codificado) tem de roubar um pedaço do código do outro vivo.

Então, o ser vivo é capaz de arrancar... Arrancar - o processo não é, evidentemente, meter a mão e arrancar, mas ele tem a capacidade de retirar de outro ser vivo um pedaço do código dele, desse outro ser vivo, e quando isso ocorre chama-se transcodificação. Por exemplo, a aranha: a prática da aranha, que todos nós conhecemos, é fazer teia. E a teia da aranha - que evidentemente é feita pela aranha - não reproduz o código da aranha. No entanto, a teia da aranha reproduz o código da mosca. É como se a aranha tivesse dentro dela uma mosca, mas não uma mosca enquanto um corpo de mosca, uma figura de mosca, uma forma de mosca - porque a transcodificação não é apreender do outro as suas formas ou figuras; mas é apreender do outro os afetos. Então, a prática de transcodificação ou transdução é quando um determinado vivo rouba de outro um pedaço do seu código. Então, pelo que eu disse, a teia de aranha nada mais é que um conjunto de afetos de moscas. (Vocês conseguiram entender transcodificação?).

Esse fenômeno chamado transcodificação não é raro na natureza - é um fenômeno permanente, que na linguagem do Deleuze chama-se núpcias contra-natura. Ou seja, uma composição entre uma aranha e uma mosca; entre uma orquídea e uma vespa; entre uma gota d'água e uma folha, e assim por diante.

Aluno: A língua de um sapo, que pega uma mosca?...

Claudio: Não, não é pegar, não é porque pega. O sapo provavelmente não tem nada da mosca codificado nele, nenhuma transcodificação. A transcodificação é quando, por exemplo, a aranha (é o melhor exemplo!) coloca dentro dela ou aparece dentro dela uma mosca em afeto. Não é a forma da mosca - é a força do voo da mosca, é o tamanho da mosca, é a linha de voo que ela faz, ou seja: todos os pontos afetivos de uma mosca são capturados pela aranha. Quando a aranha captura os pontos afetivos da mosca - e faz a teia; essa teia vai necessariamente prender uma mosca. Então, aquilo que eu quero que vocês se importem é com o fenômeno da transcodificação - que é a potência que um vivo tem de capturar o código de outro vivo.

Isso rompe com duas figuras que estiveram presentes na compreensão de determinados fenômenos como, por exemplo, a prática da aranha fazer teias - o inatismo e o aprendizado. Nenhuma aranha aprende a fazer mosca, nem é inato na aranha fazer teias - o que a aranha faz, é capturar o código da mosca. Quando esse fenômeno se dá - uma aranha capturou o código da mosca, uma vespa capturou o código da orquídea - aparece, no caso da aranha, um motivo de mosca dentro dela. Esse motivo de mosca - são os afetos de mosca; e a esses afetos (de mosca) eu vou chamar de Ritornello.

O que é o ritornello? O ritornello é quando você tem um ser que é apenas um bloco de afetos. Então, a mosca que está dentro da aranha não é a mosca que nós conhecemos aí no mundo - é um bloco de afetos de mosca; e esse bloco de afetos chama-se ritornello.

De outra maneira, eu posso, perfeitamente, chamar o Fernando Pessoa de aranha. Por quê? Porque o que o Fernando Pessoa faz é produzir heterônimos; e cada heterônimo do Fernando Pessoa é um ritornello. Cada heterônimo do Fernando Pessoa - é um bloco de afetos. (Atenção, eu vou voltar, hein? Eu vou voltar).

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Vejam o que estou utilizando. Por exemplo, vamos dizer que eu seja um pintor - e vou pintar uma mosca... Não! Eu sou um fotógrafo - e vou fotografar uma mosca: pá! Fotografei a mosca. Aí aparece o retrato da mosca, exatamente ou mais ou menos parecido com o que a mosca é.

Agora, eu sou um carnavalesco. Eu me fantasio de mosca... Então, há um processo em que eu represento a mosca na fotografia; e um processo em que eu me fantasio de mosca. Esses dois processos chamam-se mimesis. A fotografia está imitando a mosca; e eu estou imitando a mosca na minha fantasia.

O processo da aranha também se chama mimesis; só que está sendo inaugurada uma nova linha de mimética - porque esta mimética é a mimética dos afetos, e não a clássica - a da representação. Você não representa o ser - você extrai apenas os afetos dele.

Eu não sei se o Fernando Pessoa é uma aranha... não sei! Mas ele construiu na vida dele uma série de heterônimos; e cada heterônimo desses era um ritornello. Cada heterônimo, um ritornello. (Vocês conseguiram entender?). Cada heterônimo, um bloco de afetos. Então, esse bloco de afetos, esse ritornello... não tem história pessoal, não tem existência individual, e não se constitui por sentimentos. Ele é apenas uma força afetiva. (Eu sei que é muito difícil o que estou dizendo!).

Para vocês entenderem, eu comparei esse fenômeno de transcodificação ou o que gera a transcodificação - que é o ritornello - aos heterônimos do Fernando Pessoa. Mas me parece que a comparação não foi boa, eu não sei os efeitos que produziu...

A questão agora é pensar que cada heterônimo do Fernando Pessoa é um motivo, um bloco de afetos que ele tem dentro do pensamento dele. Ou seja, o heterônimo não tem história pessoal; não tem passado pessoal; ele não tem biografia - ele é apenas um conjunto de afetos de pedra, afetos de mar, afetos de luz... Pouco importa que tipo de afeto ele é. O que importa é que esse fenômeno que aparece na literatura com o Fernando Pessoa - a produção de heterônimos - está todo se passando dentro da natureza, com a produção da transcodificação.

Então, esse fenômeno da transcodificação - que é um fenômeno da natureza, mas de uma maneira da natureza fantástica, porque reúne seres que são de espécies completamente diferentes - reúne, em núpcias, orquídeas e vespas, aranhas e moscas e emerge a figura do afeto ou, no caso do Fernando Pessoa, a figura do heterônimo.

Da mesma maneira, quando a gente pega a filosofia - Platão, Aristóteles, Descartes, Hegel, Kant, toda essa filosofia tradicional ou não-tradicional - todos os filósofos vão fazer uma prática de transcodificação; vão fazer uma prática de heteronímia, vão produzir o que se chama personagem conceitual.

- O que vem a ser o personagem conceitual? Por exemplo, na obra de Platão existe uma figura tão estranha, que ela não tem nome e a obra de Platão é uma obra escrita em diálogos. E o diálogo sempre pressupõe que quem está falando tenha um nome. Mas vai aparecer um personagem na obra de Platão, chamado Estrangeiro de Eléia, que tem a função explícita de heteronímia, a função explícita de ritornello. O que o personagem conceitual faz, quando fala, é dizer a filosofia de Platão. Ou seja, para o filósofo passar a sua filosofia, ele produz um personagem conceitual, e se associa com ele, para que aquele personagem conceitual diga, por ele, a sua filosofia. Uma filosofia se manifesta, se expressa exatamente por essa figura que eu estou construindo para vocês chamada - personagem conceitual - o personagem conceitual na filosofia. Então, eu coloquei o Estrangeiro de Eléia como exemplo da obra platônica; mas quando você vai para a obra do Fernando Pessoa, e você encontra um heterônimo - Alberto Caieiro é um heterônimo do Fernando Pessoa.

Um heterônimo do Fernando Pessoa - é um personagem estético. Então, na filosofia, o personagem conceitual; na arte, o personagem estético. O que é exatamente isso?

É que esses personagens - o estético, o conceitual e mesmo aquele ritornello da aranha - o que eles vão perder é a estrutura (atenção, aqui começa a aula): eles perdem o esquema sensório-motor; eles não têm esquema sensório-motor. O esquema sensório-motor é aquele que nos obriga a perceber o mundo e a devolver o movimento ao mundo. O personagem conceitual e o personagem estético não têm nenhum compromisso com esse esquema sensório-motor. O que eu estou chamando de esquema sensório-motor é aquilo que faz com que um ser vivo possa viver - porque o esquema sensório-motor que nos a apreensão do mundo e nos permite a devolução do movimento para o mundo. Então, a construção desses personagens - a construção pelo filósofo e a construção pelo artista do personagem conceitual e do personagem estético - é a construção de personagens que não possuem o esquema sensório-motor. Seriam, portanto, seres sem nenhum compromisso com a prática existencial; seres cuja existência - no caso dos heterônimos do Fernando Pessoa - seria apenasmente estética; e no caso do Estrangeiro de Eléia de Platão seria apenasmente conceitual. (Certo?) Isso é feito pelo filósofo, isso é feito pelo artista.

O artista não se define pela obra que ele faz, não é a obra que ele faz. O artista se define pelos instrumentos que ele produz para afastar de si o domínio do sensório-motor e o domínio do sujeito pessoal. Então, quando eu falei para vocês do Proust, a beleza do Proust quando ele fala no sujeito artista... é que o sujeito artista não tem a função de produzir nenhuma obra - a função do sujeito artista é quebrar o domínio que há sobre nós do sujeito pessoal. Eu estou dizendo, então, que a grandeza do artista é construir esses personagens, esses ritornellos, personagens conceituais, personagens estéticos - porque eles poderão produzir afetos e perceptos; enquanto que o sujeito pessoal - ou seja, esquemas sensórios-motores - nunca conseguirão produzir isso. Então a arte... a arte é, antes de tudo, uma aventura existencial. Ela é, em primeiro lugar, uma aventura existencial. Ou seja, tem muita gente que quer ser artista, é cheia de bons sentimentos, é cheia de lindas emoções - mas não é isso que é a arte. A arte é uma experimentação; é uma experimentação que se faz na sua própria vida. Experimenta-se a sua própria vida - pinta-se, desenha-se ou faz-se música com o seu próprio corpo. (Certo?)

Aliás, tem uma menina aqui, que hoje não veio, que o trabalho dela em arte é exatamente isso, de uma maneira terrivelmente franca - pintar com o próprio sangue...

Mas o que eu estou dizendo para vocês é que a ideia de transcodificação - usando a transcodificação na aranha-mosca - vai-nos mostrar que no interior da aranha existem ações do código da aranha; e ainda no interior da aranha existem expressões do pedaço do código da mosca. Então, na hora em que a aranha se manifesta, ela pode se manifestar como codificada ou como transcodificada. Na hora em que faz a prática de transcodificação, o que a aranha rouba da mosca não são as formas da mosca, mas os ritmos, os ritmos da mosca. Então, esses ritmos que um ser retira do outro - foi assim, exatamente, que o Fernando Pessoa construiu os seus heterônimos. Nada me impede de chamar os heterônimos de Fernando Pessoa de personagens rítmicos.

Vejam, então: o artista não tem compromisso com a história, não tem compromisso com o campo social. O único compromisso que o artista tem é com a própria vida. Ele faz um compromisso com a própria vida e esse compromisso o leva a extremos, porque ele chega aos limites da histeria para, por exemplo, fazer como Kafka - que fazia uma experimentação no seu próprio corpo, uma experimentação de insônia: ele produzia insônias prolongadas, para que se modificassem as relações afetivas que ele tinha com o espaço e com o tempo... (Certo?) Eu vou repetir: Kafka - experimentações de insônia, para fazer novas relações com o espaço e com o tempo. Porque a arte ela é exatamente uma experimentação com o próprio corpo: ela experimenta o próprio corpo.

(A menina que eu citei foi aquela que está em pé ali... Eu citei você!).

Bom! Voltando...

Aluno: [inaudível] o sensório-motor. O sensório para apreender movimento, o motor para devolver. Enquanto que o personagem estético [inaudível] afetos e perceptos, sem o motor. --- no caso das experimentações com o sensório- motor ----.

Kafka2

Claudio: O que o artista faz, por exemplo, nesse caso do Kafka, que eu estou citando? Ele vai tentar quebrar o regime do sensório-motor. Qual é o regime do sensório-motor? Apreender movimento e devolver movimento. Quando você passar na rua, todo mundo está fazendo isso - apreendendo e devolvendo movimento. Então, a experimentação do Kafka era... receber movimento pelo sensório, mas em vez de prolongar o movimento, ir gerando a insônia no corpo dele - que então adquiria uma feição inteiramente nova. Ele, aí, começava a experimentar o tempo de forma diferente... e o espaço a passar de outra forma... Alguém pode dizer, e a droga? De alguma maneira, é a mesma coisa.

Aluno: Por causa da hesitação?...

Claudio: Não, não é por causa da hesitação. É o seguinte, eu vou voltar para você compreender; primeiro, eu vou falar do esquema sensório-motor.

O esquema sensório-motor é simplíssimo. Primeiro, é o grande fenômeno que ocorre com o aparecimento da vida, porque os seres não-vivos, quando recebem movimento, eles devolvem movimento por todas as suas partes. Ou seja, o não-vivo, por exemplo, o átomo - o átomo recebe movimento e imediatamente devolve esse movimento, que ele recebeu por todas as suas partes. Agora, o vivo, não. O vivo - vamos usar o homem, que fica melhor, por ser mais fácil compreender, embora todo vivo seja a mesma coisa. O vivo recebe o movimento apenas por uma parte, chamada sensória - é a nossa parte sensória que apreende o movimento do mundo. E, no homem, o sensório está praticamente rostificado: nós temos praticamente todo o nosso sensório no rosto. O vivo é esquartejado - porque recebe movimento por uma parte e devolve movimento por outra parte. Então, a quebra do esquema sensório-motor é cortar esse prolongamento: corta-se o prolongamento. Por exemplo, eu acho que eu até citei o cinema sueco, que trabalha com o moribundo, exatamente para impedir que o movimento se prolongue do sensório para o motor.

A arte seria uma experimentação. Nos exemplos que eu dei do Kafka, por exemplo, (a aranha aí ainda não serve) é uma experimentação no esquema sensório-motor: você experimenta o seu corpo e quebra (aí é que vem a dificuldade!) você quebra com as leis que a natureza imprimiu nele.

Você quebra com as leis que a natureza imprimiu nele! É como se a arte fosse uma experimentação contranatura: é isso que estou dizendo, e que eu procurei mostrar para vocês em todo esse curso.

Aluno: Essa questão que a natureza não tem [inaudível] ou você falou uma expressão ao contrário?

Claudio: Não, não falhei na expressão. Eu falei que a natureza nos imprime, que ela nos impõe, nos impôs um esquema sensório-motor. Nós temos um esquema sensório-motor. Por acaso, você escolheu, você pediu para ter esse esquema sensório-motor? Você não pediu para ter - você tem um esquema sensório-motor! Então, esse esquema sensório-motor, que constitui o seu corpo, é evidente que vai constituir a maneira de você fazer suas reflexões; usando até extremadamente, a maneira de você pensar o mundo - sempre segundo o modelo orgânico. Por exemplo: o organismo funciona segundo uma determinada batida, segundo um determinado tempo. Então, você projeta esse tempo que você tem como o único tempo universal.

Quando você quebra o esquema sensório-motor e você sai da dominação do orgânico, você começa a penetrar em outra vida - é isso! Então, evidentemente que qualquer artista é um revolucionário assim excessivo... O que se dizia de Kafka na década de sessenta, que ele era um alienado, é uma tolice sem limites, porque ele não tinha alienação nenhuma. A experimentação dele era uma experimentação radical, para romper, com o quê? Com os modelos impostos pela natureza.

(Não sei se vocês conseguiram entender o que eu disse...).

É como se você resolvesse - e é isso que o artista resolve - assumir a sua própria liberdade; resolvesse assumir a experimentação da sua própria vida, não deixasse a sua vida ser governada por poderes exteriores e viesse a fazer dela o que bem entendesse. Ser dono da sua vida e dono da sua morte, dono da sua tristeza e dono da sua alegria - é exatamente essa a ética do artista. Essa ética, como início, pressupõe (foi a pergunta do Marcelo!) a quebra do esquema sensório-motor.

A quebra do esquema sensório-motor é o meio que nós vamos ter para conquistar o tempo. Por quê? Porque o esquema sensório-motor apreende o movimento do mundo e prolonga esse movimento na estrutura motora, com a qual nós respondemos ao movimento. Quando você quebra o esquema sensório-motor, você quebra as notícias do sensório. Você separa o sensório do motor, separa um do outro - eles ficam separados; você fica esquartejado. E quando essas notícias do sensório chegarem àquilo que eu chamei de pequeno intervalo, esse pequeno intervalo, ao invés de prolongar o movimento, ele retorna ao sensório; ele volta para o sensório. E aí os procedimentos passam a ser completamente diferentes. O artista não é aquele que arma um cavalete; não é aquele que pega uma página e sai escrevendo... se isso fosse arte, o Rio de Janeiro estaria cheio de artistas. Todo mundo diria assim: sou artista! Artista não é isso.

A arte é uma experimentação ética, é uma experimentação existencial, uma experimentação na própria vida. Você faz uma experimentação na própria vida. É como dizia o Fernando Pessoa: eu sou um mártir da civilização, eu me escolhi como mártir, eu vou sacrificar a minha vida, eu vou experimentar o meu corpo. Para fazer alguma coisa...

[fim da fita]

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Parte II

(...)

Geralmente não acontece isso (não é?), porque o artista começa a conduzir essa experiência para a totalidade da sua vida. Começa a conduzir para a totalidade da sua vida!... Aquilo é como se fosse uma... mescalina; não sei, uma droga. Ele vai-se drogando de si próprio, vai-se drogando de beleza e... não tem volta; não tem volta! O artista é próximo do filósofo: é muito próximo do filósofo. As posições são um pouco diferentes, mas o artista literalmente - na primeira aula eu disse isso para vocês e agora eu posso dizer com mais certeza - só tem uma coisa para pensar; apenas uma - o seu próprio corpo, mais nada! Por quê? Porque não há mais nada para pensar - a não ser o corpo.

Resultado de imagem para o estrangeiro camus livroO pensamento é exatamente isso: o pensamento é direcionado para o corpo - esse corpo que tem insônia, esse corpo que delira, esse corpo que se apaixona, esse corpo que odeia, esse corpo que desfaz, esse corpo que junta... Então, toda essa força infinita que percorre a nossa vida - e de que nós nos esquecemos, em favor (no caso da apresentação desta aula) do esquema sensório-motor. Vou citar uma frase patética (só para fechar esse caminho de aula, tá?), uma frase patética, ao mesmo tempo muito bonita, do Albert Camus, quando um dos personagens dele - o Mersault - diz: “Meu Deus, o que eu vou fazer com esta minha única vida?”

A questão do artista é essa: a questão do artista é uma ética. E ética, quer dizer modo de vida. O que eu faço com a minha vida? Qual é a direção que eu vou dar para a minha vida? Essa pergunta é a pergunta que cria a potência da arte.

No caso da aranha e da mosca, que foi um golpe muito forte que eu apresentei na aula para vocês, é um fenômeno chamado transcodificação. A gente tem que pensar esse fenômeno como código. O código - qualquer código - implica numa repetição periódica. E, quando você captura um código - no caso da aranha, que captura um código da mosca - esse código da mosca, esse pedaço do código da mosca que vai para a aranha, não vai com repetição periódica, ele vai com ritmo; e o ritmo (olha a definição!), o ritmo é aquilo que nunca se repete.

Aluno: Claudio, na sua especificação, rouba um pedaço do código genético [inaudível] ele não pode também transportar a forma, que já é outro indivíduo?

Claudio: Não... não transporta, a potência... A natureza não fez isso, ele só pode capturar afetos.

Aluna: Mas não é o código genético?!...

Claudio: É o código! É!... Éééé o código genético!...

Aluno: Tenho impressão que eles pegaram um pedaço do DNA---

Claudio: DNA! DNA! Ele rouba um pedaço do DNA. Ele tira um pedaço do DNA. Porque é um procedimento... (Vamos colocar para vocês entenderem:)

Quando nós pensamos a vida... pode-se dizer: a tradição do pensamento da vida tem o modelo do Lineu, que eu acho que eu já até falei para vocês que é uma taxionomia. Você divide a vida em espécies (não é?), você faz aqueles quadros, você divide em espécies. Então, os pensadores da vida eram homens bem casados, homens bem comportados, porque reencontravam na vida o bom comportamento: era tudo de bom senso - a espécie A com a espécie A; a espécie B com a espécie B; os cachorros com as cachorras; as vacas com os bois... Então, nenhuma família se preocupava com seus filhos serem pesquisadores das espécies - porque todos os ideais do bom senso estavam ali. Mas, o que estou mostrando para vocês, é que é preciso confrontar-se com os ideais do bom senso; fazer um confronto com esses ideais do bom senso - e a etologia é a ciência que mergulhou nisso; o que a faz, portanto, ser espinosista. E, numa definição simples, a grande questão do Espinosa é se confrontar e desfazer o bom senso. Ele desfaz o bom senso... e, aí, você invade esse mundo.

Vocês podem ver um exemplo na televisão, na TV Cultura. De vez em quando eles passam uns pequenos filmes de etologia, em que vocês vão ver essas relações - como a da abelha com a orquídea, etc. Mil relações! Quando isso ocorre, em vez de você ter quadros específicos, você vai ter uma figura chamada núpcias contranatura. Ou seja, a natureza traz dentro de si a sua própria perversão: seriam essas núpcias contranatura. As misturas mais estranhas se dando na natureza, ao ponto de um ser vivo se preocupar em capturar, não as formas do outro ser vivo, mas os afetos, as forças, as ondas de vida do outro ser vivo. O importante é que vocês compreendam que essas ondas, essas forças, esses afetos que uma aranha captura da mosca, o Fernando Pessoa - que nunca estudou etologia - produziu as suas “moscas”: os heterônimos!...

Os heterônimos são seres inteiramente afetivos: eles não reproduzem a subjetividade pessoal, eles não são sujeitos pessoais; porque o artista, o pensador está permanentemente num confronto - é essa a questão dele! O confronto dele é com o bom senso em mim. Ou melhor: com o bom senso em mim, o senso comum em mim.

É claro que o bom senso em mim me permite entrar nos restaurantes, me permite conversar com os outros; que o senso comum me permite trabalhar, me permite subir no elevador, estender a mão para o ônibus; mas a arte e a filosofia não precisam do bom senso: o bom senso e o senso comum são questões do homem normal. O artista não é isso; o artista é um experimentador.

Então, numa linguagem bergsoniana, a primeira coisa com que o artista tem que lutar para quebrar em si mesmo - é o esquema sensório-motor. Em linguagem deleuzeana - é quebrar o bom senso e o senso comum.

Então, na hora em que esse fenômeno se dá, o fenômeno de quebra dessas forças que se exercem sobre nós - forças que em toda a nossa vida estão sobre nós. A diferença, o diferencial que o artista ou o pensador faz, é o confronto que ele exerce contra essas forças. Esse confronto geralmente pode levar à morte ou à loucura. São confrontos que levam à morte ou à loucura. Por isso - a gente até pode dizer isso - o século XX não é um exaltador dos seus heróis ou dos seus santos. Nós não exaltamos mais heróis, nem santos - nós exaltamos artistas. Mas não exaltamos artistas como homens que tranquilamente produziriam uma obra e depois receberiam o fardão na Academia Brasileira de Letras. Não, não é isso! O artista é uma experimentação radical da vida.

Qual o valor que isso tem? É que com essa experimentação radical de vida que o artista faz, ele abre novas possibilidades de vida. E a arte é isso: a arte é abrir, para cada um de nós, uma nova possibilidade existencial. No sentido de que o sujeito pessoal, o esquema sensório-motor, os modelos do homem normal tornam a vida de qualquer um - pelo menos nesse fim de século - insuportável. Insuportável! Todos nós sabemos da mediocridade que é a nossa vida como sujeito pessoal. Todos nós sabemos isso! Não adianta qualquer um de vocês chegar para vocês próprios e dizer: não é assim... porque é! Os grandes acontecimentos das nossas vidas se dão nos momentos de exaltação. Esses momentos de exaltação geralmente aparecem em termos de exaltações amorosas ou exaltações sexuais... Mas o que eu estou dizendo para vocês é que as nossas grandes exaltações são exaltações feitas pelo pensamento. O pensamento... pode mergulhar... mergulhar em todas as matérias que aparecerem para ele. O meu pensamento é profundamente materialista, mas não é materialista vulgar: não é um materialismo vulgar! O pensamento, sim, ele não para de mergulhar em matérias - em pedras, cores, sons. É exatamente que o pensamento se exerce. O pensamento necessita de alguma coisa para ele produzir as suas linhas, produzir os seus rizomas, produzir os seus caminhos novos.

Então, no exemplo que eu dei e que eu chamei de núpcias contranatura - que seria a prática da transcodificação - essa prática faz aparecer o que eu chamei de ritmo. Ou seja, eu sou um ser codificado - logo, a minha existência se dá pelas repetições periódicas: toda a minha existência funciona pelas repetições. Se eu consigo produzir em mim o ritmo - eu constituo dentro de mim alguma coisa que não tem esse modelo de repetição periódica. Porque o ritmo - não é assim que nós entendíamos ritmo - ritmo é aquilo que não se repete, é aquilo que é sempre desigual.

Por isso (é um risco que eu vou correr, hein?), quando você pegar uma música que tenha por objetivo acalmar, repousar, tranquilizar - essa música não é ritmo - porque o ritmo não tem nenhum objetivo desses, pelo contrário: o ritmo exalta e estimula o pensamento. É sempre uma exaltação e uma estimulação para o pensamento - são os momentos em que a vida começa a se exacerbar. É o que eu coloquei para vocês: é como se tudo em nós transbordasse, tudo em nós começasse a transbordar, a sair dos limites. Nós sentimos isso (não é?), o corpo transborda, a vida transborda. Você lê um texto do Nietzsche, lê um texto do Fernando Pessoa, vê uma tela do Iberê, vê um filme do Cassavetes - e nasce em você assim uma força criativa quase que insuportável! Você tem que escrever, gritar, falar, pintar... Por quê? Porque é exatamente isso que se chama a seleção pelo pensamento, a seleção pela potência de vida: você selecionar os seus encontros - fazer de cada encontro que você fizer, alguma coisa que possa potencializar a sua própria vida. Esses encontros podem nos levar para a loucura e podem nos levar para a morte, porque são encontros extremados e são eles que podem fazer da nossa vida uma potência superior. Então, aqui, pelo que eu disse para vocês, pensar tem como ponto de partida o acaso dos encontros.

Eu estou concluindo em torno de uma aula de Platão, pelo que eu disse que ‘pensar pressupunha a contradição'. Não! Não pressupõe a contradição - são os acasos dos encontros; são os encontros que você faz ao longo da sua vida, encontros que não foram planejados, porque a vida toda é um conjunto ondulante de contingências; é um conjunto permanente de contingências. Nós não paramos de nos envolver nessas contingências; são elas que vão traçar as trilhas e os destinos da nossa vida.

[Intervalo para o café]

Eu vou dar uma aula acadêmica para vocês. Geralmente quem dá esse tipo de aula são os meus alunos. Geralmente eu não faço, eu nunca dou esse tipo de aula. Eu vou dar uma aula bem acadêmica sobre Nietzsche para vocês. É para fechar essa aula, para explicar para vocês o que é corpo, para vocês entenderem...

Aluno: Você citou o Carmelo Bene, é um procedimento que corta fora, é...

Claudio: Chama-se amputação! Existem vários textos sobre o assunto, mas existe um principal, que é um livro do Deleuze chamado Superposições.

Aluno: Eu não encontro os livros do Carmelo Bene em lugar nenhum.

Claudio: Ah! Mas encontra... encontra. Tem também filmes do Carmelo Bene. É. Depois eu falo sobre isso com você Marcelo.

Olha, o que eu vou fazer nesse final de aula... Eu vou dar uma aula de Nietzsche para vocês, explicando o que é corpo em Nietzsche - o que o Nietzsche entende por corpo. Então, uma aula bem acadêmica, bem... Bom, Nietzsche não é muito simples (não é?).

Aluna: Nem muito acadêmico.

Claudio: É, nem muito acadêmico.

Nietzsche parte de uma ideia muito vivida pela física - pelo menos a física de Newton - que é a ideia de força. O Nietzsche tem essa ideia presente em toda a obra dele. Inicialmente, parece que o Nietzsche delirou, e resolveu dar esses nomes; depois, eu mostro que não: ele vai dizer que há dois tipos de força - uma, que ele chama de força reativa; e outra, que ele chama de força ativa.

(Vocês têm que prestar bem atenção, viu? Porque qualquer coisa que escapar vocês não irão entender.).

A força reativa tem uma essência. A essência da força reativa é obedecer. Então, sempre que eu falar em força reativa, essa figura vai aparecer. Ela é obediente (Certo?). Logo, Nietzsche pode chamar a força reativa de força escrava - pelo fato de que a essência dela é a obediência. E a força ativa é conquistadora, é usurpadora, é dominadora. Existiriam então esses dois tipos de força.

Um corpo - quando eu falo corpo não é só o corpo do homem, é o corpo da linguagem, o corpo do Estado, o corpo da Igreja; se vocês quiserem, o corpo de Deus, o corpo do poema... qualquer corpo! Porque tudo que está aí é... corpo - o corpo da xícara, o corpo do discurso, o corpo do poema, o corpo do homem; qualquer corpo é constituído pela composição dessas duas forças. Então, em todo corpo você encontra a força ativa e a força reativa. Você não terá um corpo em que uma dessas forças não esteja presente - as duas forças estão sempre presentes.

Agora, aqui vai aparecer uma surpresa para vocês:

Vai aparecer uma nova linguagem para falar na força reativa: essa força é conservativa - toda questão dessa força é a conservação. Quando, na composição dessas duas forças, há a dominação da força reativa, quando num corpo houver a dominação da força reativa sobre a força ativa - agora pode haver uma surpresa - os escravos podem dominar o senhor. É isso que o Nietzsche chama de senhor - que o marxista nunca entendeu... O senhor do Nietzsche é essa força, o aristocrata é essa força: a força ativa! A força ativa pode ser governada, dominada, pela força reativa. No momento em que ela é dominada pela força reativa, há a presença determinante da conservação - a produção do que se chama mundo sedentário. Produz-se um mundo sedentário, produz-se um espaço estriado, produz-se um tempo pulsado, produz-se um tipo de música, um tipo de habitat, um tipo de cidade, um tipo de alimentação, um tipo de amor e um tipo de sexo. Quando a força reativa domina, a força ativa não desaparece - porque essas duas forças nunca desaparecem - as duas forças estão permanentemente presentes. Então, no momento em que a força reativa domina e a força ativa se deixa subjugar, quando a força ativa se subjuga - vai nascer o que se chama homem orgânico.

O homem orgânico é o homem médio, o homem banal, que toda a questão da vida dele é a conservação. É um sedentarismo assustador! (Aqui eu vou ter um pouco de dificuldade de ligar isso para vocês). Essa força reativa é responsável (Está no ponto de eu responder a você) pelo mundo da representação. Por quê? Porque a força reativa se manifesta exatamente como ela é: ela não se bota em questão. Então, ela é como se fosse o que a gente chama o natural, não o natural do Oliver Stone (não é?).

Aluno: Você falou na outra aula - a entropia, não é?

Claudio: É... Ela é isso... ela procura reproduzir aquilo que ela é. (Vocês vão entender. Eu vou seguir mais rápido para vocês entenderem).

Se a força ativa dominar, na força ativa não há o que ela é - porque a força ativa não tem essência, ela é contingente. A força reativa, não; ela tem uma configuração. Em linguagem psicológica, ela tem uma gestalt, ela tem uma forma, ela tem uma definição, ela tem limites - e ela sente orgulho em se submeter a esses limites, ela quer se submeter a esses limites. A força ativa é sem limites - é ilimitada. Então, essa força ativa não se submete a nenhum modelo - o único modelo que ela tem é ela própria: ela é seu próprio modelo.

Então, aqui já fica totalmente claro e compreensível o platonismo: o platonismo é o domínio da força reativa. É o domínio do mundo orgânico, das forças orgânicas.

A força ativa, como não tem nenhum modelo, as questões dela não são as permanências e as invariâncias, as questões dela são os devenires e as turbulências.

Isto, vocês vão encontrar, com a maior facilidade, nas pesquisas. Existe uma física - olhem como é nietzscheano o que eu estou dizendo - uma física reativa. Existe uma física reativa - uma física da força reativa. Aí você diz assim: “Cláudio, essa física da força reativa é falsa? A física da força ativa que é verdadeira?” Não é essa a questão, porque a questão do falso e do verdadeiro só quem tem é o reativo. Para o ativo - olha a surpresa! - tudo é falso. Tudo falso: não há verdade a se encontrar - essa questão da verdade é do universo reativo.

Então, a força reativa produziu uma física. Essa física nasce no mundo mágico religioso - no mundo egípcio, por exemplo, que é a distribuição das águas, a produção dos diques... (Não sei se vocês sabem disso). E aí vai nascer toda uma física chamada física laminar - que está até hoje...

E do outro lado, uma física da turbulência: uma física da força ativa. E a primeira vez que isso aparece na história do pensamento é na obra do Lucrécio, no século I a.C. O Lucrécio era a expressão do que se chama uma alma ativa. Ele dedicou a vida dele a se confrontar com dois grandes inimigos, que ele chamava de os dois maiores inimigos da vida - a religião e o mito. Ele luta tanto contra esses dois - porque a religião e o mito são produto da força reativa - que ele escreve um livro De Rerum Natura que, segundo ele, tinha um único objetivo - provar que depois de mortos nós estamos mortos. Por quê? Porque as forças reativas da religião e do mito, ao afirmar que depois da morte existe vida, provocam em nós uma fragilização. E ele disse que isso é um meio de nos produzir terror, e eu acho que ele não errou, porque a questão do homem - em todos os momentos da história, pouco importa o século - é a sua alma permanentemente atormentada. (Esse livro, vocês encontram em Os Pensadores, que eu considero a melhor publicação, por ter mantido a numeração dos parágrafos).

O homem é um ser que traz a sua alma profundamente atormentada e esses tormentos, que vêm da alma, se originam na força reativa - que é a força da paixão triste, que é a força da tirania... Por exemplo, o Marquês de Sade. O Marquês de Sade é uma coisa, assim... quase que de assustar, porque ele mostra que essa força reativa produz leis - e as leis geram os tiranos: se não houvesse lei, não haveria tirano. As leis são a razão da existência do tirano; e o tirano é a razão do sofrimento da nossa alma. Então, para ele, é preciso destruir o tirano - destruindo a lei. Por isso, (é fantástico!) o Sade vai procurar uma entidade fantástica chamada mal puro, mal radical. A função desse mal radical é uma só: destruir as leis - e esse mal radical, diz o Sade, só aparece em pequenos lapsos de tempo, entre um governo que cai e outro que se constrói - é a anarquia.

A anarquia é o momento em que esse mal radical vai aparecer, vocês podem ler o Dolmancé, (não é?). ele excita também (não é?), o Sade excita. Vocês leiam o Sade que vocês vão ler, nesse caso como eu falei, uma alma altamente nietzscheana, no sentido de que toda questão dele é uma exaltação das forças ativas.

Um corpo, pelo que eu expliquei para vocês, é constituído pelas duas forças - as forças ativas e as reativas. A força reativa... (...)

[final de fita]


Parte III

(...) aquelas cadeiras. Figural!

Ou seja: a arte é uma demonstração clara do poder dessa força ativa. Ela é insaciável, insaciável. Ela não para, é uma tensão assustadora. E é ela que se opõe, com uma violência terrível, à pulsão de morte, que busca constantemente a paz. (Eu acho que está bom. Tá?)

Eu fiz alguma coisa que eu não fazia há muito tempo, como eu disse para vocês, que era dar uma aula acadêmica... Porque perde... a gente fica preso... Mas eu senti a necessidade dessa aula acadêmica, para poder ligar o que eu falei de transcodificação, ritmo, etc., à questão do corpo: pensar o corpo como relações de força - não há coisa mais bonita; não há nada mais bonito, mais poderoso para o pensamento da gente crescer...

Aluna: Claudio, o ancestral Zaratustra, o super-homem, seria [inaudível] da transmutação?

Claudio: É. Seria. Esse ancestral, parece que ele está por aí. Ou seja, o que eu estou dizendo, o que eu disse para vocês é: nós estamos próximos do super-homem. Mas ninguém fique assim... Oba! Vai chegar o super-homem, não - porque a gente não sabe o que ele vai fazer... não sabe o que ele vai fazer...

Aluno: Você falou que [inaudível] aponta para a informática [inaudível] sociedade de controle [inaudível] informática como instrumento de controle.

Claudio: Isso! Foi o que eu expliquei na aula toda. A mesma coisa pode ser ativa e reativa... Foi isso que eu expliquei na aula: o mesmo corpo pode ser reativo e ativo! Há instrumento mais lindo do que a televisão? Há porcaria pior do que a televisão? Quer dizer, vamos destruir a televisão? Vamos fazer um feitiço para que a televisão acabe? Não! Vamos nos apoderar das forças da televisão. Foi o que Guattari fez! O Guattari foi lindo! O Guattari passou a vida dele fazendo rádios livres... televisões livres...! Era isso que ele fazia da vida dele. Isso é o que se chama devenires no campo social. Você não destrói as invenções técnicas - passa a utilizá-las a favor da vida! (Foi bem respondido assim, Luiz? Certo?) Fazer assim em todos os níveis!

Claudio: Quer falar?

Aluno: Bom, aí eu me pergunto, por exemplo, a genética, a coisa da biologia moderna [inaudível] fazem com que se perca o controle que se produz. Num rádio e numa televisão você tem a alternativa, por exemplo, de ligar ou desligar. Mas quando você produz novos homens, cria, --- inventa, --- o código, novos homens, como é que fica aí? -------? Eu fico com medo!

Claudio: Porque quando você entra na... Olha, se você tem medo dessa possibilidade, eu te dou os parabéns! Porque eu tenho medo do que é! (Risos). O que é, é o que me causa medo. Eu tenho angústias, tem dias em que eu não posso dormir, tem dias em que eu tenho que tomar Lexotan... Mas eu não sou idiota! Eu não sou um idiota! Eu me pergunto: de onde vem isso? De onde vem esse Lexotan? De onde vem esse medo? De onde vem essa angústia? Passa essa questão... Porque são forças reativas que estão se apoderando de você. Elas se apoderam da gente! Então, são dessas forças que eu tenho medo. Ou melhor, quando eu ouço alguém falar em liberdade, em justiça e em fraternidade, eu saio correndo.

(Risos)

A Vida Dupla de Verónique (1991)Aluna: Mas se for o Kieslowski, aí não, não é?

Claudio: O Kieslowski, por vários motivos, sobretudo por causa de Veronique, eu digo que sim, eu concordo. Sobretudo, a música de Veronique... eu concordo (não é?).

Aluno: A força reativa [inaudível] obsessão [inaudível] é totalmente reativa

Claudio: Reativa? Não! Não! Não! Depende, não tem isso, é o que estou dizendo - acaba a dualidade, não há mais dualidade! Olha, quando eu pego um texto para ler... eu sou um obsessivo, eu quase enlouqueço com aquele texto ali... Eu fico vinte dias sem dormir, numa obsessão enlouquecida. Eu sei que estou fazendo aquilo... para quê? Para contar para vocês!

Aluno: Mas é uma obsessão ativa. Porque tem a obsessão reativa...

Claudio: Ah! Claro! Tem amor reativo, amor ativo. É tudo assim, tudo assim. Não há dualidade. Acabam-se as dualidades.

Aluno: Eu não sei se... você tem milênios de dominação das forças reativas. Que indícios, indícios concretos, nos dão essa afirmação sua de que o super-homem está para nascer?

Claudio: Lê o Zaratustra. (Risos). Faz o favor, faz esse favor. Não é para mim, é para você. Lê o Zaratustra; você vai começar a entender. O Nietzsche... as forças reativas dizem que o Nietzsche é louco. Que o Nietzsche é louco, é demente... Concordo, ele é louco, demente - mas tem que enlouquecer! Porque senão, não atravessa... não atravessa... é impossível! Muitas vezes um pensador chega a um momento de insuportabilidade. Ele chega a níveis... Ele o que o homem comum não vê. Ele vê coisas tão terríveis, que a saúde orgânica dele não resiste... não resiste. Aí dão o diagnóstico do Nietzsche: cérebro mole.

Aluno: O artista também --

Claudio: O artista... qual a composição que o artista faz no século XX? Muito menos com o salão e muito mais com a psiquiatria. Muito mais. O artista e a loucura são primos... primos próximos (não é?). Mas mais do que isso, o artista e a droga, o artista e o álcool, o artista e a loucura, o artista e o delírio, o artista e a insônia... são todas as forças com que ele começa a se agenciar para poder atravessar a vida dele. Em vez de você pensar o álcool...

(Eu só vou falar isso daqui, viu?)

Por exemplo, o álcool... O alcoólatra tenta produzir nele um órgão novo - uma faculdade do esquecimento. Ele tenta produzir nele uma força que gere o esquecimento, no sentido de que a memória reativa não se esquece de nada - por isso que o homem reativo é vingativo. Ele passa o tempo todo se vingando..., porque ele não se esquece! É preciso produzir em nós, o que Nietzsche diz das forças ativas - uma faculdade do esquecimento: fazer com que a gente se esqueça, para poder voltar a nossa alma para o futuro. (Tá?)

Aluno: Aí, cada um de nós pode [inaudível] super-homem...

Claudio: Todos nós, todos nós! Tudo pode! O que as pessoas ficam confundindo às vezes, quando eu falo artista... - Ah! O pintor, o cineasta...

Não! Inventa a arte. Pega um pedaço de bambu, pega um pedaço de pano... Inventa! Inventa! Nenhuma dessas artes tem a função de se tornar entretenimento para ninguém. Essas artes são quase que enlouquecidas, porque são das forças ativas, conquistadoras. Produzir outros tipos de vida, sair desse engasgo em que nós estamos, sair do Lexotan.

[Palmas...]

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Aula de 19/12/1989 – A Idéia de Perfeição

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 4 (Diferença, Alteridade, Multiplicidade); 6 (Do Universal ao Singular); 9 (A Imagem Moral e a Liberdade) e 17 (Aion) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

PARTE I

Pode ser que seja um excesso meu, mas quando nós formamos a ideia de perfeição, admitimos que aquilo que é perfeito está contente consigo próprio. O que seria [o mesmo que] dizer que a perfeição é uma coisa completa, acabada, na qual não falta nada: tudo nela está realizado! Parece que isso é absolutamente necessário a esse tipo de pensamento - aquilo que é perfeito é completo e acabado. (Certo?)

Por outro lado, se nós verificarmos tudo aquilo que está sob os efeitos do tempo, seja lá o que for, o que estiver sob o efeito do tempo é necessariamente inacabado, ou seja: o que está no tempo está em passagem, em mutação. Em filosofia se usa - até de uma maneira muito fácil de se entender - que aquilo que está no tempo é e não-é ao mesmo tempo. Porque é, está deixando de ser aquilo que é. O que faz uma clara distinção entre a ideia de perfeição e aquilo que está no tempo.

De outro modo, a ideia de perfeição não recobre aquilo que está no tempo. Não há - entre a ideia de perfeição e o que está no tempo - uma relação de cobertura. Em filosofia se usa a palavra subsunção. A perfeição não subsume o que está no tempo. Então, há uma diferença entre as coisas que estão no tempo e a ideia de perfeição. Se vocês entenderam, eu vou passar a usar, como eu já expliquei noutras aulas, a noção de ideia da maneira que eu usei a de perfeição: a ideia... não é aquilo que possui representantes no mundo. Mas é aquilo para o qual os representantes do mundo tendem. (Entenderam?)

Essa ideia, eu chamei para vocês numa outra aula, de ideia regulativa ou ideia normativa. E a ideia de perfeição é inteiramente normativa, porque todos os seres buscariam a perfeição sem nunca atingi-la. Então, sempre que eu usar a noção de ideia, é exatamente isso. (Entenderam bem?) Em oposição à ideia de conceito: conceito seria aquilo que teria representantes no mundo.

Numa linguagem kantiana, o conceito é aquilo que recobre a matéria da experiência ou a matéria da intuição. E a ideia é aquilo que está acima. Nada neste mundo aqui é recoberto por essa ideia. Mas essa ideia é o arquétipo desse mundo. (Está bem compreendido?...)

Um grande pensador - que eu vou pedir para vocês lerem - chamado Mircea Eliade, no livro O mito do eterno retorno (é lindíssimo, o livro!! se não me engano edições 70... um livro de capa preta) quer mostrar que os povos antigos existiam segundo esse modelo platônico que eu coloquei. Para ele, existiam arquétipos e as práticas do mundo seriam repetições ou reproduções dos arquétipos. Da mesma maneira, sem poder realizá-los.

Então, para o Mircea Eliade - e isso é uma coisa muito definitiva - os povos antigos, à maneira de Platão, fariam uma ontologia dos arquétipos. Ontologia dos arquétipos é a produção dessas ideias que são inatingíveis, mas que são sempre buscadas. Então, para esses povos antigos, todas as práticas do mundo deveriam imitar as ações originais dos deuses, dos heróis fundadores e dos antepassados. Essas ações originais seriam os arquétipos. Sabendo-se que elas nunca poderão ser atingidas. Eu vou chamar a prática dos povos antigos, descrita por Mircea Eliade, de uma ontologia arcaica.

A ontologia arcaica é a constituição dos arquétipos; e as práticas, imitação desses arquétipos. Segundo Mircea Eliade, - ele não se interessa muito por isso, ainda que ele faça essa narrativa -, ele diz que a obra de Platão é sustentada nessa ontologia arcaica. Essa ontologia arcaica é a constituição de arquétipos, que seria aquilo que estaria para lá do campo experimental. (Acho que está bem claro, não está? Muito bem, então, deixem de lado.)

Se eu disser: este isqueiro é amarelo... todos vocês concordarão que isso que eu estou falando é verdadeiro. Por que vocês vão concordar? É evidente que a concordância de vocês se sustenta na verificabilidade. Você estão verificando que este enunciado que eu estou produzindo - este isqueiro é amarelo - é inteiramente verdadeiro. Se eu produzir um enunciado - este isqueiro não é amarelo -, pelo mesmo processo de verificação, vocês vão dizer que meu segundo enunciado é falso, correto?

Agora, se vocês disserem que o meu primeiro enunciado é verdadeiro, ele é verdadeiro porque ele se adéqua plenamente à coisa. Então, a verdade, vocês a retiraram da adequação daquilo que eu digo e da coisa sobre a qual eu falo.

E o outro enunciado, vocês afirmaram que era falso, pelo fato desse enunciado não se referir a nada. Porque quando eu digo que este isqueiro não é amarelo, eu não estou falando sobre nada.

Então, o primeiro se garante pela adequação daquilo que eu digo com a coisa. (Entenderam?) Mas acontece que... se eu digo, neste instante, este isqueiro é amarelo. .. ou melhor, eu escrevo aqui - este isqueiro é amarelo - e vocês concordam que a minha escrita é verdadeira... mas... se passarem uns dois anos e esse isqueiro começar a desbotar, este enunciado, que era verdadeiro, agora torna-se falso. Por quê? Porque as coisas estão sujeitas ao tempo e, por causa disso, trazem atributos contraditórios.

A grande questão da filosofia é buscar um objeto que seja estável. E que eu escreva aqui sobre esse objeto, e que essa escrita seja verdadeira pela eternidade afora. (Conseguiram entender?) Então, esse objeto estável, que seria sobre o qual eu estaria produzindo um enunciado imediatamente verdadeiro, seria um objeto fora da verificabilidade. (Agora vocês vão dizer se vocês me entenderam.)

Aluno: Isso aí é o quê?

Claudio:. Platão! O Aristóteles...

Aluno: E assim ele combate o sofista?

Claudio: Por exemplo..., por exemplo!... O meu problema aqui, L., é mostrar para vocês que o objetivo de constituir a Ciência e a Filosofia está relacionado com a produção de um objeto que seja verdadeiro sempre. E não um enunciado que seja verdadeiro agora e não seja daqui a pouco. Então, para ter um enunciado que seja sempre verdadeiro, você tem que ter um objeto que não esteja submetido às contradições do tempo. Um objeto que tenha sempre os mesmos atributos! (Entenderam..., não? Muito bem!...)

O que ocorre é que, para Platão, as coisas que estão neste mundo não têm uma verdade, porque elas estão sujeitas à contradição. A verdade... só têm as coisas que estão para lá deste mundo - o que aproxima Platão da ontologia arcaica, que ambos dirão que só tem realidade aquilo que for do tempo mítico, e não aquilo que for do tempo histórico. Um se aproxima do outro.... mas nos traz um grande problema:

O problema é que nós estamos, o tempo inteiro, procurando a verdade. E essa verdade, que nós procuramos, se garante naquilo que nós chamamos de real. Porque, para nós, só é verdadeiro o que for real. Só ele, o real, é verdadeiro! E, na ontologia arcaica, só o arquétipo é real. Na ontologia platônica, só as ideias são reais. Então, nessa posição, nós teríamos uma nítida obsessão de realidade. É a realidade que a ontologia arcaica procura; é a realidade que Platão procura.

Para Platão, todos os objetos que por acaso imitarem essa realidade serão boas imagens. Todos os que imitarem essa realidade. Para a ontologia arcaica, tudo aquilo que imitar os arquétipos também será uma boa imagem.

O nosso mundo é o mundo da imagem boa ou má - a boa é a que imita a realidade. As imagens que imitam a realidade... é o que vamos considerar de bom nesse mundo... porque são imagens que imitam a realidade!

O ponto de partida está aí.

Se por acaso, nesse sistema de pensamento, aparecer um filósofo ou um pensador e disser que existem arquétipos... mas que no nosso mundo nada consegue imitar esses arquétipos... eles estão semelhantes ao mundo de cá [referência a um gráfico, onde aparecem dois mundos], e com uma diferença: porque no mundo de cá as imagens imitam a realidade. No outro, existe essa realidade, que é o arquétipo, mas o que está ali não imita essa realidade.

As duas posições têm arquétipo: uma coloca que há imitação do arquétipo; a outra, que não há imitação desse arquétipo. A primeira... vou chamar de iconofílica; a segunda, de iconoclasta. O que significa que tanto o iconofílico quanto o iconoclasta pressupõem um arquétipo. Ambos pressupõem um arquétipo - arquétipo, modelo ou ideia. Na primeira posição há imagens imitando; na segunda, as imagens não imitam.

Esculturas cicládicasNa iconofilia as imagens chamam-se ícones, porque imitam. Na segunda posição as
imagens chamam-se ídolos, porque fingem imitar... mas não imitam. Então, temos do lado de cá o mundo dos idólatras; e do outro lado, o mundo dos iconofílicos, em que há imitação.

É nítido que Platão é um iconofílico, porque está supondo a existência dessa realidade superior. Enquanto que, na outra posição, esses arquétipos, esses paradigmas existem... mas, em momento nenhum, podem ser atingidos.

O que ocorre nesse mundo platônico, que é chamado por alguns mundo da iconofilia, é que essas imagens que estão cá no nosso mundo trazem uma espécie de lei. A lei delas é o "progresso infinito". Progresso infinito, porque elas pretendem sempre se aproximar desse arquétipo... sem que consigam em momento nenhum atingi-lo, conforme a noção de perfeição anteriormente colocada.

No mundo iconofílico há um estímulo para o progresso. Há um estímulo permanente para o progresso. Há um estímulo para aquilo que Sócrates chama de "as melhores práticas". A ação do melhor para atingir essa posição, etc.

Vamos entrar nas práticas platônicas:

Existe na Grécia uma prática chamada erística; prática que só pode aparecer numa cidade em que a palavra mágico-religiosa - que na próxima aula nós começaremos a investigar - já desapareceu. É lindíssimo! Nos remete a mil campos...

Há, na cidade, a presença da palavra-diálogo, que conduz os homens aos debates. E nesses debates, o objetivo do erístico é apenas um: a vitória. [Para isso], inclusive, o erístico, se serve dos instrumentos discursivos, evidente! (Ele não usa um pedaço de pau para bater na cabeça de ninguém!) Ele se serve de qualquer instrumento discursivo para obter a vitória nos debates. Para combater a prática da erística, aparece a dialética. E a dialética - nós vamos ter que começar a trabalhar intensamente nela - é a arte das questões e das respostas. Mas não é simplesmente dizer que a dialética é a arte das questões e das respostas; é preciso que o dialético saiba questionar e saiba responder.

O dialético não visa a mesma coisa que o erístico. O que o dialético visa é a verdade. Ele visa a verdade! E é magnífico e estranho que o dialético, que visa a verdade, na hora que ele perguntar - o que é um isqueiro? - se você mostrar um isqueiro, ele não aceita: porque a verdade para o dialético estaria nos arquétipos.

Então, o dialético, sem dúvida nenhuma, faz parte daquele campo da ontologia arcaica. Ele visa a busca da verdade através das questões e das respostas, mas não aceita nenhuma resposta que possa ser contraditória. Poder ser contraditória significa que, num momento do tempo, os atributos que aquela resposta tem podem se modificar. Então a questão dele é [encontrar] uma resposta que esteja lá, no campo das ideias. É nítido que a resposta verdadeira, que o dialético visa, está fora do campo da verificabilidade.

Vocês estão entendendo a ideia de verificabilidade? Ela [a resposta verdadeira] está fora do campo da verificabilidade, porque é impossível verificar-se a resposta que ele pretende.

Nas suas práticas, o dialético usa o que chamei de questões e de respostas. (É assim que ele trabalha!) E vai procurar desqualificar as respostas que lhe são dadas no início. Desqualifica as respostas que se sustentam nos exemplos: não aceita esse tipo de resposta! Só aceita um tipo de resposta que seja uma verdade definitiva.

Se o dialético obtiver êxito nas suas práticas, sem dúvida nenhuma o erístico terá que desaparecer. Terá que desaparecer, porque ele trabalha com a persuasão no nível da retórica; enquanto que o dialético quer persuadir pela verdade. Então, a vitória da dialética fundará, dentro da cidade, o acordo entre os homens. Todos os homens entrarão em acordo na verdade da resposta do dialético.

Vejam que, quando eu faço uma questão, as respostas que podem ser dadas àquela questão são múltiplas. O dialético não as aceita. Ele aceita apenas a resposta una. Mas... que a resposta una não saia das práticas experimentais!

Então, a resposta una que o dialético visa... é uma resposta que está para lá do campo experimental - fora do campo experimental. O que nos leva a entender que o dialético não pode utilizar as mesmas práticas que os outros homens usam. Porque os outros homens, para darem respostas, se sustentam em campos experimentais. Ele não! Ele vai querer uma resposta superior. E esta resposta superior será "a verdade" da multiplicidade. (Vejam se vocês entenderam!) A resposta será a verdade da multiplicidade. (Vocês entenderam isso?) O que significa que o múltiplo está submetido ao uno. Essa foi a primeira prática platônica - submeter o múltiplo ao uno!

O que quer dizer o múltiplo? O múltiplo quer dizer: as diferenças! Por exemplo, eu pergunto - o que é a coragem? - a um general, a um político, a um amante. Cada um me dará uma resposta diferente da outra. Então, na multiplicidade campeia a diferença. Platão não é contra essa diferença. Mas quer colocá-la no interior da unidade. Então, para Platão é o uno e o múltiplo: a diferença submetida ao modelo da unidade. Esse é o primeiro tema platônico. Prestem atenção a isso, porque a obra de alguns anti-platônicos será libertar a diferença da unidade. (Certo?) Esse é o ponto primeiro da obra de Platão.

O segundo ponto é que essas verdades que o dialético vai encontrar são verdades fora do campo experimental.

Na ontologia arcaica há o costume de constituir arquétipos para explicar o mundo. E esses arquétipos, que estão fora da prática experimental, são os mitos. Então, o que garante os arquétipos, na ontologia arcaica, são as narrativas míticas. Platão está se aproximando desses costumes porque ele quer constituir unidades superiores, fora da prática experimental. Para atingir seus arquétipos, Platão lançará mão da arte dialética, que é a arte das questões e das respostas; e de outros instrumentos metodológicos que ele vai usar para fazer essa prática.

Agora, o que é exatamente o mito? O que é o mito?

O mito, na ontologia arcaica, é a descrição das práticas dos heróis e dos deuses no tempo arcaico. É o universo perfeito. Foi um deus que construiu esse universo. Então, o mito é uma narrativa sobre almas, universo e deus. Almas, universo e deus seria exatamente aquilo que estaria fora das práticas experimentais.

(Prestem atenção: o que eu estou falando vai retornar mais tarde!)

Eu estou explicando que a narrativa do mito é uma narrativa daquilo que não pode ser dado na prática experimental. E o que não pode ser dado na prática experimental é a existência dos heróis e dos deuses, das almas; a existência daquele universo arquetípico e perfeito e a criação daquilo feita por deus. Deus, mundo, cosmos e alma.

Para Platão é a mesma questão: a mesma questão!

Então, nós teríamos o nosso mundo governado por arquétipos superiores e não poderíamos, em momento nenhum, fazer experimentações neles; não poderíamos, porque eles estariam acima de nós. A fim de [produzirem] isso, os primitivos narram mitos e acreditam nos deuses. A questão platônica é que ele não pode se sustentar apenas em práticas míticas. O que Platão vai fazer é o que se chama - processo de analogia. O processo analógico.

{Falar sobre] o processo analógico é falar sobre as perfeições das ideias e das semelhanças das práticas experimentais. Para atingir esses arquétipos, Platão vai se utilizar do processo de analogia.

(Eu vou "despesar" um pouco a aula!)

O que aconteceu aqui não é surpreendente, em função daquilo que eu comecei a falar: porque tanto os primitivos quanto Platão trazem um objetivo. O objetivo deles é a realidade: o real. E como é fácil entender que o real platônico e o real primitivo são aquilo que deve-ser - e não aquilo que é!

É o isqueiro em si mesmo, a beleza em si mesma, a mesa em si mesma. .. e não as coisas que estão sujeitas ao tempo, à transformação, às contradições, etc.

Então, os seres que habitam a ontologia arcaica e a ontologia platônica são os deveres-ser. É o dever-ser. É então que passa a existir tanto cá na ontologia arcaica como no platonismo aquilo que é - que é o dever-ser; e aquilo que parece ser, mas não-é - o nosso mundo! A distinção clássica da filosofia - fundamento da história da filosofia: o real e a aparência - surge como a distinção clássica de todo o modelo da filosofia. Até que...

No século XIX, Nietzsche afirma que esta divisão dever-ser, real / o que é, aparência, conforme a ontologia arcaica, conforme a prática platônica, é a história do mais longo erro. Nietzsche, ao dizer que isto é a história do mais longo erro, tem a pretensão de fazer sua reversão. (E é bastante difícil esse trabalho... se nós tivermos coragem, vamos trabalhar até um dia entender, porque essa questão que eu estou levantando é bem difícil!) Então, toda a questão do Nietzsche é a reversão desse modelo real-aparência.

Que diferença há entre a iconoclastia e a iconofilia?

É que no mundo iconoclasta as coisas não imitam o modelo. Na iconofilia as coisas imitam o modelo. É a diferença que existe entre elas. Ou seja, as duas posições colocam que há uma realidade arquetípica. Ambas constroem a mesma coisa: para uma não há imitação dos arquétipos; para a outra há imitação dos arquétipos.

A posição da iconofilia vai nos conduzir ao politeísmo. E a da iconoclastia ao monoteísmo. (Ainda não há meios de clarear isso aqui: é impossível! Mas essas duas posições vão começar a surgir e nós as tornaremos compreensivas pela relação politeísmo x monoteísmo...).

O sofista é alguém bastante presente no universo platônico, nesse universo que eu acabei de descrever - da iconofilia, das ideias regulativas, dos modelos e dos arquétipos, das imagens ícones... O sofista está inteiramente presente nesse universo.

Entre Platão e os sofistas vai haver um confronto: um grande confronto! Se por acaso... (prestem atenção: vejam a organização que eu estou fazendo!) Se por acaso nós só tivéssemos o mundo da iconofilia e o mundo da iconoclastia, vocês teriam que dizer imediatamente que o sofista era um iconoclasta. Seria a conclusão imediata, porque eu só falei em iconofilia e iconoclastia. Mas acontece que ele não é um iconoclasta: o sofista vai ser chamado por Platão de simulacro.

Platão colocaria em cima do sofista alguma coisa que por enquanto nós não entendemos bem o que é, mas que tem toda uma postulação em relação à iconofilia e à iconoclastia.

O simulacro - à diferença da iconofilia e da iconoclastia - é uma imagem que tem uma positividade, mas não está submetida a nenhum modelo. A diferença inicial, já bem clara, entre simulacro, iconoclastia e iconofilia é que a iconofilia e a iconoclastia trazem um modelo. O modelo, para ambas, é a realidade. Logo, o simulacro, não trazendo com ele nenhum modelo, é aquilo que é inteiramente irreal. (Entenderam. irreal?)

Por que motivo ele é irreal? Porque ele não está ligado a nenhuma realidade!

Neste instante, o que o simulacro introduz de original é que ele não tem nenhuma relação com a realidade. (Vamos ver se vocês entenderam:). Nenhuma relação com a realidade: não tem nenhuma relação com os paradigmas, com os arquétipos, com os modelos. Ele é literalmente irreal.

O que eu estou chamando de irreal... (vocês não precisam fazer nenhuma confusão semântica!) o que eu estou chamando de irreal é apenas aquilo que não é constituído pelos arquétipos.

(Pronto! É facílimo de entender. Não precisam levar para as confusões discursivas das práticas cotidianas...)

O simulacro é simulacro porque é irreal. É irreal porque não se constitui pela realidade do paradigma. (Não precisam fazer nenhuma confusão semântica!) Porque quando eu falei naquela questão do discurso que se adéqua a este isqueiro, a realidade do discurso é o isqueiro! O simulacro não tem nenhuma realidade por trás dele. Ele é um ser de espessura fina. - vazio - não tem nada por trás dele. Nada! Por causa disso, ele é inteiramente irreal. (Vejam se vocês conseguiram...)

O demiurgo... (eu já expliquei para vocês o que é demiurgo). O demiurgo, quando faz o nosso mundo, ele o faz copiando as formas inteligíveis. Então, aquilo que o demiurgo faz são ícones: tem uma posição de realidade.

O demiurgo produz fantasmas, produz simulacros? Não, ele não produz simulacros: o simulacro é aquilo que não está imitando nada!

Passando para a ontologia arcaica. Aqui está o primitivo. Se esse primitivo imitar aquilo que os deuses e os heróis fizeram nos tempos míticos, esse primitivo tem realidade. Se ele não fizer isso, ele é um simulacro. (Entenderam?) Então é exatamente isso que é o simulacro: é alguma coisa inteiramente irreal.

Diz o Platão que o sofista é produtor de simulacros. Então, de um lado o Platão está identificando o sofista ao demiurgo - porque o sofista é tão produtor quanto o demiurgo; e está separando um do outro - porque o demiurgo produz reais e o sofista só produz simulacros. Simulacro é aquilo que não tem nenhuma realidade.

(Vou começar:)

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Atenção: estou no mundo da iconofilia. Eu quero atingir a realidade. A realidade é o quê? São os arquétipos. Qual é o processo? Hein?.... O processo é que eu tenho que partir dos ícones para atingir a realidade que está lá em cima. Platão diz, com todas as letras: eu só atinjo a ideia de Beleza através dos corpos belos. Então, eu só atinjo aqueles paradigmas, aquelas realidades, através das imagens ícones que estão aqui.

Agora, na iconoclastia não há nada aqui que imite a realidade. Nada! Nada aqui imita a realidade. Então eu não posso partir das coisas que estão aqui para atingir essa realidade. É então que vai aparecer, na iconoclastia, a ideia de visão. Visão beatífica, visão profética. Eu atinjo diretamente a realidade por uma visão especial. Mas não é a partir das imagens que estão aqui. Eu vou ter um contato direto com Deus. Um contato direto com os Arquétipos, sem passar pelas imagens que estão aqui.

(fim de fita)

PARTE II

[No simulacro] não há um modelo original: ele não remete a um arquétipo. Em momento nenhum! Ele não remete. Então, vejam que o simulacro... é nítido que ele é de uma irrealidade absoluta. Porque ele não remete, de modo nenhum, a um paradigma, a um modelo superior.

O simulacro... (vejam que enunciado terrível que eu vou fazer!)...é a imagem de alguma coisa que não existe. Ele é a imagem de alguma coisa que não existe, porque ele não remete, em momento nenhum, a nenhuma realidade. Nenhuma realidade. Vocês vejam que a simples ideia de simulacro é uma ideia muito perturbadora. Porque não há instante na existência do simulacro (caso se possa falar isso...) em que ele seja submetido a qualquer modelo superior.

(Bom, eu ia dar um exemplo para vocês.)

Ele seria uma instância profundamente estranha, profundamente incompreensível, dificilmente a gente pode aceitar a existência de uma coisa dessas. Mas o que está sendo dito aqui tem uma gravidade. Uma grande gravidade. Porque a iconofilia, o simulacro e a iconoclastia podem ser aplicados a nós homens. Nós, os homens, enquanto iconofílicos, somos imagens de um modelo superior - à maneira da ontologia arcaica - que nós imitaríamos. Na iconoclastia, nós estaríamos separados desse modelo superior. Teríamos caído no mais total pecado. Enquanto que, no simulacro, não haveria modelo superior. Nenhum modelo superior!

Vocês vejam que a ideia de simulacro... eu pergunto a vocês: o que somos nós?

Nós somos... nós pertencemos ao mundo iconofílico? ao iconoclástico? ou nós somos simulacros? Nós temos um modelo para o qual devemos nos dirigir e cumprir esse modelo ao longo das nossas vidas? Nós estamos separados dos modelos... e perdidos nesse Universo... ansiando, de alguma maneira, atingir esse modelo, sem conseguir atingi-lo..., esperando em algum tempo da história que esse modelo acabe por aparecer nesse mundo? ou nós somos simulacros... e a ideia de modelo está inteiramente varrida?

São essas três hipóteses... são esses os três mundos possíveis!

Notem que o homem, que o simulacro enquanto tal, é de um ateísmo elevado à mais alta potência. Onde não haveria nenhum modelo, nenhum destino, nenhum fim, nenhum objetivo.

Dizem que Platão é um filósofo otimista. Otimista porque os homens são imagens-ícones... eles se aproximam desse modelo e buscam se realizar nele - ainda que não consigam integralmente.

A iconoclastia produz um mundo do mais total pessimismo..., em que nós estamos separados da realidade, separados das origens, separados dos modelos... nós devemos lutar para conquistar alguma coisa difícil (??)...., modelo marxista!

Enquanto que a posição do simulacro é uma posição sem entrada e sem saída. Eu diria que o simulacro é o trágico; o iconofílico é o otimista; e o iconoclasta, o pessimista.

(Intervalo para o café)

(Eu vou devagar. Eu vou falar... de uma questão excessivamente séria. Eu não vou fundo nela porque ainda não há meios de vocês a acompanharem profundamente. Mas já é a primeira maneira de vocês se apropriarem da questão. Vamos lá.) Eu vou utilizar a palavra analogia, trazendo... (aqui é uma coisa um pouquinho complicada para vocês: é melhor explicar. Eu não ia dar essas explicações hoje não... mas vou dar!)

A analogia... ela tem como tradução semelhança e diferença. O análogo é o semelhante e diferente. No universo platônico, o mundo das ideias é o inverificável. Então, pode-se dizer que ele é conhecido por analogia. (Vocês entenderam bem isso? ou não? não?) A analogia... eu vou dizer assim: as características da analogia são a semelhança e a diferença. Então, aquilo que for análogo é semelhante... mas é diferente. Semelhante e diferente seriam características da analogia. E, por outro lado, se eu colocar a analogia como um instrumento do conhecimento - por analogia, você vai conhecer... a partir do verificável... o inverificável. (Conseguiram entender?)

(Vou dar um exemplo idiota: todas essas questões que eu coloco estão em relação com a continuidade das nossas aulas. Quando eu der um exemplo muito abstrato e vocês se perderem... e eu tiver que dar um exemplo muito concreto, significa que nós não estamos preparados para certos trabalhos...)

Por exemplo... você se servir do conhecimento de alguma coisa que está no seu campo experimental, e admitir que existe uma outra coisa semelhante àquela: você aplica as práticas do seu campo experimental naquela outra. Aí seria uma prática analógica! Por semelhança e por diferença.??..possibilidade de verificação. Agora, se as características da analogia são a semelhança e a diferença, um atributo da analogia... - agora não é mais característica, mas um atributo dela! - é a proporção: analogia de proporção - ela mantém as características e acrescenta a ideia de proporção.

Por exemplo: no platonismo, este copo é análogo a "O Copo". Tem as características da semelhança, da diferença e o atributo proporção: eles são proporcionalmente semelhantes... e diferentes. É uma relação modelo-cópia que constitui o campo do conhecimento. Conhecendo "As ideias", conhece-se o mundo daqui de baixo. Chama-se, a esse conhecimento, de analogia de proporção. (É o máximo: não preciso ir mais longe!) Está na linha da iconofilia.

Na linha da iconoclastia você também vai aplicar a prática da analogia. Mas, nessa linha, tem-se um processo muito diferente... é um processo em que só se conhece os modelos por visões. Só assim se conhecem os modelos. No mundo da iconoclastia, portanto, a analogia é de proporcionalidade - por comparação. Você conhece as coisas por comparação, sem ter o modelo para sustentar as comparações.

Porque... só quem conhece o modelo no mundo iconoclasta são os homens excepcionais, que têm contato com Deus. Os outros homens só conhecem o nosso mundo. Então, só trabalham no nosso mundo por comparação. Enquanto que, na iconofilia, pode-se conhecer o outro mundo através dos exemplos que existem aqui. Os iconofílicos trabalham com a analogia de proporção. [falta uma frase]

Então vamos dizer assim: a ciência trabalharia na iconofilia, com a analogia de proporção; e na iconoclastia, com a analogia de proporcionalidade, porque não teria meios de atingir o modelo. Trabalharia o tempo todo assim...

Agora aparece o pensamento do simulacro:

O pensamento do simulacro traz uma originalidade. A originalidade dele é que o simulacro é impossível de ser relacionado a um modelo. Se é impossível de relacioná-lo a um modelo, ele tem que sair da analogia de proporção. Não se pode trabalhar com analogia de proporção com ele. Por quê? Porque a analogia de proporção pressupõe a relação com o modelo.

Mas o simulacro traz também com ele a singularidade. E a singularidade impede as práticas comparativas. Ele também sai da analogia de proporcionalidade. É então que vai-se dizer que quem trabalha com o simulacro trabalha com a ideia de univocidade.

(Pesou para todo mundo! Vamos voltar outra vez...)

Características da analogia: semelhança e diferença. Essas são as características do que for análogo.

Uma prática justa no nosso mundo é a mesma coisa que "A Justiça" em ideia, no platonismo. Qual é a relação de uma prática justa com "A Justiça"? É uma relação analógica.... porque elas têm semelhança e diferença. Em Platão, é muito nítida essa ideia de analogia... por causa das características da analogia. Acrescentando-se - isto é um aprofundamento até herético que eu estou fazendo! - a ideia de proporção, porque as coisas que estão aqui em baixo são proporcionais às que estão lá em cima.

Quando se passa para o mundo iconoclasta, não se pode afirmar essa proporção do que está aqui em baixo com o que está lá em cima, mas você pode fazer um pensamento comparativo. Comparar as coisas que estão aqui em baixo.

E quando você vai para o mundo do simulacro... o simulacro é singular. .. e sem modelo. Se ele é singular, ele não pode trazer semelhança e diferença. Ele não é semelhante a nada, nem diferente de nada. Ele é absolutamente idêntico a si mesmo. Característica da univocidade: semelhança perfeita. O simulacro é a semelhança perfeita. Ele sai do campo analógico. E de outro lado, ele sai da proporcionalidade. Ele não tem esse atributo da proporcionalidade, porque ele não se assemelha... a nada! Não se assemelha a nada: ele tem autonomia nele mesmo.

Vamos fazer uma narrativa meio maluca aqui... Uma narrativa modelo Sade-Klossowski. Revolução Francesa... Assassinato do rei.... elevação da plebe ao poder. Verificando a morte do rei, o aristocrata tentou capturar a plebe. O sucesso da captura: trazer para a plebe o modelo existencial do aristocrata, fazer com que a plebe imitasse o aristocrata.

O que faz a plebe? Imita o burguês... E no momento em que ela imita o burguês, o aristocrata perde a posição ativa no mundo - torna-se uma singularidade, que só pode fazer práticas de pensamento.

Esse aristocrata é uma singularidade... Ele imita a si próprio. A plebe não é uma singularidade... imita o burguês. Porque o que o Klossowski está narrando é que a Revolução Francesa foi a morte de Deus. A morte do rei. Por enforcamento, por guilhotina, etc. E quando a plebe faz essa prática, não se sabe ainda os caminhos que ela vai tomar. E o aristocrata tenta capturá-la, mas ela se encaminha para o modelo do burguês. Ela se encaminha para o modelo do homem miserável, do homem médio, do homem vulgar! Ela não sabe seguir os caminhos do aristocrata. E o aristocrata fica deslocado no mundo. Por isso o aristocrata, cabe o exemplo, produz uma vida singular! Essa singularidade do aristocrata é o simulacro. É o simulacro! Ele não pode ser trabalhado comparativamente. Ele tem uma identidade plena consigo mesmo. Então, o simulacro, ele está no campo da univocidade: ele não é analógico. Ele é plena identidade a ele mesmo!

Deleuze... Foucault... fazem uma história inteiramente original da ciência. Sobretudo Deleuze. E a história das ciências, pensada por Deleuze, divide-se em analogia de proporção e analogia de proporcionalidade, dizendo que a ciência trabalhou com esse instrumento de analogia de proporção... e em seguida passa a trabalhar com a analogia de proporcionalidade. Abandonou a analogia de proporção, para trabalhar com a analogia de proporcionalidade.

Deleuze chama, corretamente, a prática da analogia de proporção de pensamento da série. E a prática da analogia de proporcionalidade de pensamento estruturalista, da estrututra. Série e estrutura. E introduz um tipo de pensamento da univocidade... que seria uma terceira maneira de pensar. E vai dar exemplos, na história das ciências, daqueles que trabalham com a univocidade; daqueles que trabalham com a analogia de proporção; e daqueles que trabalham com a analogia de proporcionalidade. Os primeiros, colocando a univocidade como uma forma de pensar diferente da analogia de proporção... e da analogia de proporcionalidade.

(Fiquem com isso para a próxima aula!)

Deleuze colocou, por exemplo (ele cita, não vou contar o caso ainda para vocês), que já nas práticas do pensamento da vida - na zoologia, na botânica - começaram a surgir determinados pensadores que não utilizavam a instrumentação analógica - nem da proporção nem da proporcionalidade; utilizavam a univocidade. (Ponto!)

O que é que eu fiz? Eu liguei a proporcionalidade à iconoclastia, a proporção à iconofilia... (isso tudo são técnicas minhas!) e a univocidade ao simulacro. E o meu último exemplo:

O simulacro é irreal. .. inteiramente irreal. Enquanto que todas as práticas dadas para vocês (eu mostrei claramente!) estão se fundamentando numa realidade (se vocês não aplicarem uma semântica do cotidiano, mas essa semântica que eu estou usando, da ontologia arcaica e da ontologia platônica, para sustentar a ideia de realidade.)

Deleuze também vai constituir um tipo de pensamento para tentar entender essa noção de simulacro nas artes. E faz, por exemplo, - e insiste muito nisso na obra dele! - uma distinção entre o Renascimento e o Barroco. Insiste demais! Ele faz determinados cortes, que eu não posso precisar ainda, que são surpreendentes para o historiador da filosofia. Por exemplo, ele separa Descartes de Leibniz, dizendo que Descartes é a razão renascentista e Leibniz, a razão barroca. Ele faz essa distinção, surpreendente, da história da filosofia.

(Mas vamos ver no que vai dar...)

Há um historiador das artes, chamado Wölfflin... - eu vou pedir para vocês comprarem o livro: Renascença e Barroco. (Marquem esse nome!)

Nesse livro, e em alguns outros dele... e coletando as questões que neles levanta... ele diz que o renascentista traz com ele uma obsessão de realidade: é permanente no renascentista a obsessão de realidade! E de que maneira isso se dá? O renascentista, na hora em que ele for pintar uma tela, ele pega, por exemplo... R. como modelo! Ele vai pintar o R. Ele vai pintando o R. na tela, precisando todos os contornos que o R. tem, para passar esses contornos dele para a tela. Mas, por exemplo... tem um botão na camisa dele... e o pintor está vendo o botão daqui "desta" distância... o que é que ele faz? O pintor sai daqui... se aproxima do R.... e olha para o botão dele exatamente como o botão é.... e coloca o botão, exatamente como é, no quadro! Ele vai usar, inclusive, até fotos para precisar os contornos do objeto. Por que o renascentista faz isso? Porque ele tem a obsessão de colocar no quadro as coisas como elas são. E as coisas como elas são estão implicando uma proximidade e uma posição táctil... para ---??--- conhecer as coisas como são!

Se, da mesma maneira, o pintor barroco fosse pintar o R.... no momento em que ele chegasse ao botão, ele não se levantaria... ele pintaria o botão [do modo] como o estivesse vendo - ou seja, o botão viraria um borrão no quadro! Então, o pintor barroco está ligado à aparência; e o renascentista, à realidade. Ao pintor barroco, não importa como a realidade é... porque o objeto que ele está constituindo na tela é um objeto que está ganhando autonomia e está... literalmente, mascarando o modelo. Está criando uma autonomia ali dentro.

Fechando a questão do barroco:

Diz o Wölfflin que o barroco inventou um termo para mostrar que tipo de coisas podem ser pintadas. Ele inventou o termo pitoresco. Pitoresco quer dizer: aquilo que é digno de ser pintado. E o que era pitoresco para ele? Pitoresco para ele era aquilo (muito estranho!) que trazia a ideia de movimento. Vejam bem! Não aquilo que estivesse em movimento... mas que trouxesse a ideia de movimento. Ruínas cercadas de sombras... que trouxesse a ideia de movimento!

Por que é que ele quer fazer isso?

Porque a questão do barroco é o simulacro. Não é colocar na tela a imagem do real. Mas colocar ali uma imagem inteiramente distorcida. No caso do movimento, eu creio que está muito claro. O pitoresco não se interessa pelo que está em movimento: mas por aquilo que parece ter movimento.

Eu acredito que com esse exemplo do barroco e do renascentista vocês já fazem uma pequena ideia do que seja o simulacro! É ideal, singular, não analógico, unívoco e semelhante a si próprio!

Deleuze agora vai fazer uma coisa incrível... incrível! Ele faz uma distinção entre razão renascentista e barroca: existiria uma razão barroca, que estaria preocupada... nesse momento. .. com irreais, imagens falsas... e ele liga isso a Leibniz, um filósofo que teria sua razão constituída no regime dos barrocos...; e uma razão renascentista. Uma razão governada pelo real; e uma razão governada pelas imagens sem correspondência com o real. (Entenderam?)

No momento em que nós tivermos pensamentos analógicos que nos remetam para os arquétipos, o que nós devemos nos lembrar sempre são das características da analogia. Por exemplo, as características da analogia são a semelhança e a diferença: então, este copo que está aqui imita o modelo superior. Mas os ---??-- da analogia de proporção pela imitação, imitação perfeita. O mundo da analogia toca a imperfeição aqui dentro. Constitui a imperfeição.

É incrivelmente estranho que o simulacro vai tocar a perfeição, quando a gente tem a impressão de que é ao contrário. Mas quando você pega o universo da analogia, todos os representantes dos modelos são imperfeitos. Quando você pega o mundo da ontologia arcaica, cada primitivo é a repetição de um herói anterior. De um herói originário. De um deus. Mas sempre uma repetição imperfeita. É a essa conclusão que nós chegamos. Os pensadores da analogia pensam a repetição, mas é a repetição imperfeita!

A repetição do simulacro é uma repetição perfeita!

(É.. ficou bem fácil o que eu falei!)

[Aluno faz pergunta inaudível]

Claudio: Porque... não vá pelo simulacro, vá pela ideia platônica... (Aprendam a pensar!!!) Você está lendo um livro - do Deleuze ou do Damascius, aqueles monstros assustadores... ---??--- você sabe... você tem certeza plena de que o que está se passando com você é uma fuga de pensamento. Você está todo desorientado. Não sabe o que fazer.... desorientado mesmo! Você está quase louco, afogado com aquilo. De repente, um pequeno graveto! Segura nele. Agüenta ele ali... que as coisas vão se modificar.

Qual é o graveto de vocês? Platão!... O graveto de vocês é Platão. Remetam o tempo inteiro para ele, que é onde vocês vão se sustentar... é isso que eu estou fazendo com vocês: eu estou dando Platão, para vocês se sustentarem nele! As viagens que vocês fazem ao estrangeiro, ao fora, se vocês forem sem a cibernética platônica, sem o ---??-- platônico, vocês vão se afogar! Não vão agüentar fazer essa viagem de maneira nenhuma! Então, mantenham Platão! Eu vou mostrar para vocês... eroticamente, eroticamente. Eu vou usar, como é que eu vou... ---??--- da mesma maneira ---??--- Se eu não ---??--- assim, a minha prática não tem realidade, não tem significado... ela tem que ser uma prática repetitiva ---??. Então, todas as práticas que eu faço remetem para aqueles tempos originais. Mas são repetições ---??--- Leiam os primeiros capítulos do Mito do eterno retorno, da ontologia arcaica: eu vou passar a usar sempre esse nome, que vocês vão ter a maior segurança na compreensão: a maior segurança na compreensão!

Vejam só, retornando a uma das aulas: no mundo do Platão, tudo o que existe é cópia do modelo. No mundo do simulacro, nada é cópia, porque tudo o que existe ganha a sua singularidade.

Usando a linguagem que eu empreguei nas outras aulas, o universo do Platão é o universo da cópia; o do simulacro.... é do duplo.

(Estão lembrados do duplo? Porque acontece esse fato: sempre que eu dou só uma aula [sobre determinado tema], a turma perde.)

Duplo - eu apresentei todo o problema do duplo para vocês. A questão é: (levem esse problema para casa!) quando o demiurgo faz o nosso mundo, ele copia as formas inteligíveis. O nosso mundo é uma cópia do mundo inteligível ou um duplo?

Aluno: ----

Claudio: Duplo, não... Não, duplo! Prestem atenção! Eu vou explicar para vocês o que é duplo: eu estou pintando aqui o R. Acabei. Se a pintura for um duplo, ela tem singularidade, autonomia e existência. Passam a existir dois valores (??) Isso é o duplo! Os duplos ganham uma autonomia na existência. Platão passou quase a metade da vida dele preocupado com isso: saber se podem ou não existir duplos. A questão do simulacro é a produção do duplo. A produção do duplo é se autonomizar em relação ao modelo.

Aluno: É esse ---?? -- do Duns Scot?

Claudio: Se o Duns Scot trabalharia com essa univocidade? Sim. Segundo o Deleuze, segundo os autores modernos, sim.

Por exemplo: como é que se chama aquele texto do Jorge Luis Borges, "Pierre Ménard"? É isso... Ménard? O que é que o Pierre Ménard fez? Sabe o que ele fez? Copiou o Dom Quixote palavra por palavra, vírgula por vírgula... exatamente a mesma coisa. Mas o Pierre Ménard não queria que a cópia dele fosse cópia. Queria que fosse um duplo (Vejam se entenderam); que ganhasse autonomia; ganhasse singularidade. Isso se chama, numa outra linguagem, paródia, intertextualidade. Autonomizar-se. Singularizar-se... que seria... Você, sim, pode seguir um modelo, mas no momento em que você se constitui, você mascara o modelo e ganha autonomia.

Uma aluna minha, para trabalhar com o simulacro, utilizou a chanchada. [Uma chanchada que] começa imitando Shakespeare... - Oscarito é Romeu, Grande Otelo é Julieta -, mas aquilo vai ganhando proporções tais, que ganha uma autonomia. É exatamente a posição do simulacro - ele se autonomiza, ganha uma independência... mascara o modelo! (Ainda que na chanchada seja aquela avacalhação!) Seja pelo humor, o que quer dizer que, pelo humor, se atinge o simulacro. O simulacro é atingido pelo humor, porque você vai produzindo a falsidade absoluta. E se vocês virem o Grande Otelo, Romeu e ---??--, é uma verdadeira loucura!

Então, o que nós vamos fazer agora é uma prática platônica. Vamos fazer uma prática platônica um pouco diferente da dele. Porque a prática platônica é uma só: perseguir o sofista... Nós vamos inverter o processo: nós vamos perseguir o Platão! Vamos fazer uma perseguição em cima dele, para levantar simulacros, analogias, ideias problemáticas - vamos levantar essas questões para entendermos o que é o pensamento moderno. (Ponto!)

Essa aula foi sustentada num pequeno texto do Gilles Deleuze em Diferença e Repetição. Pequenino... Duas frases do Deleuze, em que ele diz: "A ideia não é o conceito". Eu sustentei esta aula nisso. Ou seja. Eu acredito que, se tudo correr bem, nós vamos poder começar a ler esses textos.

Está bom por hoje!

Final de aula!