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Gilles Deleuze: Como trabalhamos a dois

Por Gilles Deleuze | Trad.: Guilherme Ivo


Carta a Uno: Como trabalhamos a dois*

Caro Kuniichi Uno,

Você me pergunta como Félix Guattari e eu nos encontramos e como trabalhamos juntos. Posso te dar apenas o meu ponto de vista, o de Félix seria talvez diferente. O certo é que não existe receita ou fórmula geral para trabalhar junto.

Foi logo depois de 1968, na França. Não nos conhecíamos, mas um amigo em comum queria que nos conhecêssemos. Contudo, à primeira vista, não havia nada que nos pusesse de acordo. Félix sempre teve muitas dimensões, muitas atividades - psiquiátricas, políticas, trabalho de grupo. É uma "estrela" de grupo. Ou antes seria preciso compará-lo a um mar: sempre móvel em aparência, com brilhos de luz o tempo todo. Ele pode pular de uma atividade a outra, dorme pouco, viaja, não para. Ele nunca cessa. E tem velocidades extraordinárias. Quanto a mim, eu seria antes como uma colina: mexo-me muito pouco, sou incapaz de levar duas empreitadas, minhas ideias são ideias fixas e os raros movimentos que tenho são interiores. Gosto de escrever sozinho, mas não gosto muito de falar, exceto nas aulas, quando a palavra é submetida a outra coisa. Nós dois, Félix e eu, daríamos um bom lutador japonês.

Entretanto, olhando Félix mais de perto, percebe-se que ele é muito só. Entre duas atividades, ou no meio de muita gente, ele pode mergulhar numa grande solidão. Ele desaparece, para tocar piano, para ler, para escrever. Poucas vezes encontrei um homem que fosse tão criativo e produzisse tantas ideias. E ele não cessa de modificar suas ideias, de revirá-las, mudar seus feitios. Ele é também totalmente capaz de se desinteressar delas, e até mesmo esquecê-las, para melhor remanejá-las, redistribuí-las. Suas ideias são desenhos, ou até mesmo diagramas. O que me interessa são os conceitos. Parece-me que os conceitos têm uma existência própria, eles são animados, são criaturas invisíveis. Justamente, porém, eles têm necessidade de ser criados. Para mim, a filosofia é uma arte de criação, tanto quanto a pintura e a música: ela cria conceitos. Não são generalidades, nem mesmo verdades. São antes da ordem do Singular, do Importante, do Novo. Os conceitos são inseparáveis dos afetos, ou seja, dos potentes efeitos que eles têm sobre as nossas vidas, e dos perceptos, ou seja, de novas maneiras de ver ou de perceber que eles nos inspiram.

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Entre os diagramas de Félix e os meus conceitos, articulados, tivemos vontade de trabalhar juntos, mas não sabíamos bem como. Líamos muito - etnologia, economia, linguística. Eram materiais, eu ficava fascinado por aquilo que Félix tirava deles, e ele, interessado pelas injeções de filosofia que eu tentava aplicar neles. Para O anti-Édipo, rapidamente já sabíamos o que queríamos dizer: uma nova apresentação do inconsciente como máquina, como fábrica, uma nova concepção do delírio ajustado ao mundo histórico, político e social. Mas como fazer isso? Começamos por longas cartas em desordem, intermináveis. Depois, reuniões a dois, de vários dias ou de várias semanas. Compreenda você que era, de uma vez só, um trabalho muito cansativo e que ríamos o tempo todo. E cada um no seu canto desenvolvia este ou aquele ponto, em direções diferentes; misturávamos as escritas, criando palavras cada vez que sentíamos necessidade. Às vezes, o livro ganhava uma forte coerência que não mais se explicava nem por um nem pelo outro.

É que nossas diferenças trabalhavam contra nós, porém ainda mais a nosso favor. Jamais tivemos o mesmo ritmo. Félix me censurava de não reagir às cartas que ele me enviava: é que eu não estava à altura, naquele momento. Eu faria uso delas somente mais tarde, um ou dois meses depois, quando Félix já estava em outra. E, em nossas reuniões, jamais ficávamos falando junto: um falava e o outro escutava. Eu não largava do Félix, mesmo quando ele estava cheio; mas Félix me perseguia, mesmo quando eu não podia mais. Pouco a pouco, um conceito ganhava uma existência autônoma, que às vezes continuávamos a entender de maneira diferente (por exemplo, jamais entendemos da mesma maneira o "corpo sem órgãos"). O trabalho a dois nunca foi uma uniformização, mas antes uma proliferação, uma acumulação de bifurcações, um rizoma. Eu poderia dizer a quem remonta a origem desse ou daquele tema, dessa ou daquela noção: a meu ver, Félix tinha verdadeiros clarões e, quanto a mim, eu era um tipo de para-raios, enfiava aquilo na terra para que renascesse de outra maneira, mas Félix retomava etc., e assim avançávamos.

Com Mil platôs foi ainda diferente. A composição desse livro é muito mais complexa, os domínios tratados, muito mais variados, mas havíamos adquirido hábitos tais que um podia adivinhar para onde o outro ia. Nossas conversas comportavam elipses cada vez mais numerosas e podíamos estabelecer ressonâncias de toda sorte, não mais entre nós, mas entre domínios que atravessávamos. Os melhores momentos desse livro, quando o estávamos fazendo, foram: o ritornelo e a música; a máquina de guerra e os nômades; o devir-animal. Lá, sob o impulso de Félix, eu tinha a impressão de territórios desconhecidos onde viviam estranhos conceitos. É um livro que me deixou feliz e que nunca chego a esgotar. Não veja nisso nenhuma vaidade, eu falo por mim, e não pelo leitor. Em seguida, foi realmente necessário que cada um de nós, Félix e eu, voltasse a seu próprio trabalho, para recuperar fôlego. Mas de uma coisa estou convencido: trabalharemos juntos novamente.

Aí está, caro Uno. Espero ter respondido a uma parte de suas questões. Fique bem.

Gilles Deleuze


* Carta de 25/07/84 e publicada em japonês na Gendai Shiso (A Revista do Pensamento de Hoje), Tóquio, nº 9, 1984, pp.8-11. Tradução para o japonês de Kuniichi Uno.