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Aula de 20/08/1989 – Nietzsche: A Individuação e a identidade ou A conquista da diferença

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 11 (Conceitos) e 14 (Literatura) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


LADO A

[...] Então, eu tenho que fazer uma montagem, e vocês precisam de um pouco de paciência para, aos poucos, irem compreendendo essas idéias e poderem utilizá-las. Se, por exemplo, eu começasse essa aula dizendo assim: “Nietzsche é o pensador do poder” ― vocês pensariam que tinham compreendido, mas não teriam, (viu?). Então, o que eu vou fazer nesta aula é exatamente dar os fundamentos para que vocês possam passar por esse filósofo bastante difícil de ser pensado. (Muito bem!).

Eu vou começar colocando uma ideia um pouco vaga, um pouco precisa ― é a ideia de força. Ela vai passar inicialmente com certa imprecisão, porque neste instante não há como dominá-la. (Viu?). Eu vou colocar essa ideia: a ideia de força... Aqueles que sabem alguma coisa de física, podem utilizar as quatro forças da física; mas, inicialmente, essa ideia de força irá passar um pouco vaga. E em seguida, na obra de Nietzsche, aparece a ideia de poder. Logo, a ideia de força e a ideia de poder não são sinônimas, não fazem uma sinonímia. Força é uma coisa, poder é outra. E o que Nietzsche chama de poder é exatamente isso: uma relação entre as forças. É como se fosse uma consequência à ideia de poder.

Para vocês entenderem melhor: nós costumamos pensar que a ideia de poder é alguma coisa que nós possuímos. (Eu estou explicando por Foucault!) Nós costumamos confundir a ideia de poder com a ideia de riqueza, porque riqueza é algo que se possui. E nós costumamos pensar que poder também seria algo que nós possuímos. E o Foucault está dizendo que poder não é isso; que poder é uma consequência das relações entre forças. O que torna a ideia de poder uma ideia relacional. De maneira nenhuma o poder é uma unidade: o poder é uma relação de forças. Se nós encontrarmos duas forças que se encontraram, essas forças produzem como consequência o poder. (Eu acho que ficou mais ou menos claro, não é?).

A ideia de poder: a grande dificuldade que nós temos para entender essa ideia é que o modelo de ideia de poder que nós temos é o modelo marxista. E esse modelo é a pressuposição de que poder é algo que se tem. E o que Nietzsche está dizendo não é isso; ele está dizendo que o poder é uma consequência das relações entre forças. (Entenderam, não é? Muito bem!)

Se o poder é consequência de relações entre forças, a ideia de poder só aparece a partir das relações de forças. Não se poderia pensar poder se não houvesse uma relação de forças. (O que você achou, Márcia? Vocês acharam que essa ideia ficou bem?).

Essa ideia é muito rigorosa. Ou seja, não vai variar daí. Sempre que eu utilizar a ideia de poder eu estarei chamando poder de relação de forças. Sempre; sempre!

Através disso, vocês passam a verificar que a clássica ideia que nós temos de que o poder é alguma coisa que o Estado possui, ou até melhor, alguma coisa que alguns possuem e muitos querem, está rompida. Poder não é isso. Poder é sempre a relação entre, pelo menos, duas forças. (Foi bem assim? Muito bem!).

A primeira hipótese que vocês têm que fazer, (novamente eu tenho que explicar para vocês), é que poder para Nietzsche não é uma substância, é uma relação. Então, onde houver relação e forças sempre emerge o poder. O poder não é uma unidade, não é uma coisa em si mesma. Não há o poder como unidade, só há poder como relação ― como essa relação de forças. (Eu fico em dúvida se correu bem, ouviu? Se vocês já conseguiram entender a ideia que estou colocando. Como é que você foi?).

Esse modelo que eu estou colocando ― de que o poder é uma relação entre forças ― é do Nietzsche. Nietzsche nunca vai pensar de outra maneira.  Ele só pensa dessa maneira. E é exatamente isso daí que serve de instrumento para a obra de Michel Foucault. Foucault também vai pensar assim: o poder como uma relação entre, pelo menos, duas forças. (Pronto!).

Agora, o Nietzsche considera que o poder é o fundamento da Natureza. A natureza ― qualquer coisa que exista ― se explica pelo poder. Se qualquer coisa se explica pelo poder, qualquer coisa pressupõe relações de forças. As relações de forças são os movimentos originários da natureza. Seriam esses movimentos das forças que a natureza tem que produziriam o campo de poder. Então, para Nietzsche, por exemplo, o meu corpo ― esse corpo que eu tenho ― é constituído por relações de forças. Logo, meu corpo é dotado de poder. (Entenderam?).

Todo e qualquer corpo para ele, não importa o tipo de corpo (eu já vou acrescentar a essa ideia de corpo), sempre que nós pensarmos um corpo, um corpo é produto de relações de força. Então, para a tese do Nietzsche, não há sequer um corpo que não tenha poder. E, em seguida, ele diz que tudo aquilo que existe na natureza é um corpo. Se tudo aquilo que existe na natureza é um corpo, tudo que existe na natureza tem poder. (Eu não sei se foi bem...).

Tudo que existe na natureza tem poder. Por exemplo, o Estado é um corpo. A Igreja é um corpo. Um átomo é um corpo. O discurso é um corpo. Então, tudo isso que está aí é constituído por relações de forças. E se é constituído por relações de forças, todos os corpos que nós encontrarmos são dotados desta característica: dotados de poder.

(Eu ainda tenho dúvida se eu fui bem, hein? Porque a entrada nessas conceituações novas ― e eu sempre tenho muito cuidado quando eu entro em conceituações novas, inclusive insistindo se vocês gostariam de falar, se as coisas se passaram bem, para eu poder prosseguir...).

Porque, a partir de agora, sempre que eu utilizar a ideia de poder vai ser essa: o poder é uma relação de forças. O que implica em dizer que não haveria sequer um corpo sem poder. Isso marca uma diferença muito grande no entendimento da prática do poder. Porque nós sempre pensamos exatamente o contrário, que há alguma coisa que tem poder e outra que não tem. Ele aqui está dizendo que não: que tudo que existe tem poder, porque tudo que existe é um corpo e todos os corpos são constituídos por relações de forças. (Quer falar alguma coisa?)

Aluno: Você falou que o poder não é alguma coisa que se possui, mas não é uma [inaudível] social também?

Cláudio: Ele é uma relação. Uma relação. Eu então vou explicar essa diferença para vocês, ouviu? Há uma diferença entre um objeto relacional e um objeto substancial. Um objeto substancial é aquilo que é em si mesmo e o objeto relacional depende de dois relatas, de duas coisas que se relacionam. O poder para ele [Nietzsche] não é uma substância, é uma relação. Se houver relação há o poder, se não houver não há o poder. Mas ele acrescenta essa ideia difícil que estou colocando para vocês, que todo corpo é produto de uma relação de forças. Logo, todo corpo possui o poder. A dificuldade de se entender isso é que o modelo de ciência política que nós temos é um modelo que não pensa o poder assim. No modelo de política que nós temos, o poder é pensado como uma substância, é alguma coisa. Em Nietzsche o poder não é alguma coisa, é sempre uma relação, uma relação de forças. (Certo? Eu vou dar por entendido... Viu?).

Aluna: E aí como é que fica a questão do domínio?

Claudio: Depois eu explico a questão do domínio, (certo?).

O que vocês verificaram agora é que eu coloquei que todos os corpos que existem precisam e dependem das relações de forças. Não existe sequer um corpo que não seja produto de uma relação de forças. (Entenderam?). Todo e qualquer corpo é uma relação de forças. Então nós teríamos aqui uma questão já muito clara: o mundo é constituído de corpos e esses corpos são produzidos pelas relações de forças. (Eu ainda estou com critérios de dificuldades aqui para haver entendimento...). Por exemplo, aqui está esse corpo. Quem produziu esse corpo? Relações de forças. Todo e qualquer corpo que emergir emerge das relações de forças, o que coloca no corpo o poder. O corpo tem poder. Todo e qualquer corpo tem poder. Mas o originário não são os corpos, o originário são as relações de forças. São essas relações de forças que vão fundar os corpos que existem. (Como é que você achou? Não está bem, não é?).

Aluno: Não. É difícil o corpo, porque você também colocou o discurso... [inaudível]

Claudio: Porque eu coloquei para vocês que tudo aquilo que existe, sem exceção, é um corpo. Então, o discurso é o quê? Corpo? O Estado é o quê? Corpo?  Qualquer coisa que existir, um átomo, é um corpo? Qualquer coisa que existir é um corpo. Mas o corpo não é originário, é secundário. Ele depende das relações de forças. Essas forças que, provavelmente, são ainda enigmáticas para nós, elementos de compreensão ainda difícil, seriam o fundamento da aparição dos corpos na natureza. (Vamos fazer uma coisa, vamos fazer um esforço por aqui. Talvez esse esforço melhore a gente).

Vamos pensar um pensamento religioso. Um pensamento religioso pressupõe que a existência de corpos é a criação de Deus. Deus criaria os corpos. O Nietzsche abandona Deus e diz que os corpos emergem por relações de forças. Então, ele está dizendo que a natureza tem como fundamento dela as forças. Existiriam forças. Essas forças não têm nome. São apenas forças que existem na natureza e através dessas forças os corpos vão aparecendo. (Eu vou dar uma seguida para melhorar, vou dar uma seguida). Vão aparecendo os corpos. Eu vou dar um sinônimo relativo: corpo é sinônimo de forma. Corpo é uma forma. Por exemplo, isto é um corpo, logo isto é uma forma. Os corpos ou as formas são a estrutura do mundo ― o mundo é constituído de corpos. O mundo é constituído de formas. Mas essas formas são produzidas por relações de forças. O que implica em dizer ― e aí já começa a ficar claro ― que essas formas só se mantêm se a mesma relação de forças se mantiver. Mudou a relação de forças, as formas desaparecem. As formas precisam, para existir, dessas relações de forças, mostrando que todas as formas que emergem na natureza são precárias. Elas emergem e desaparecem através da mudança das relações de forças. Ou seja, não haveria forma como origem, a forma é uma consequência. Toda e qualquer forma que aparecer no mundo, meu corpo, esta mesa, do Estado, do campo social, do campo político, do discurso... tudo que emerge no mundo é originário dessa relação de forças. Pelo que o Nietzsche está dizendo, o que nós vamos deduzir daí é que na natureza não existe nenhuma unidade eterna, porque essas formas são sempre precárias; elas dependem das relações de forças. (Acho que ficou difícil).

Aluna: Por que não o contrário? Por que as relações de forças, para serem expressadas, dependem exatamente disso? Por que as relações de forças precisariam de um corpo para se expressar?

Claudio: Não!... Não. O que ele está fazendo... inicialmente, com base no que nós temos, é que ele está constituindo um mundo fragmentário, ele está construindo um mundo de elementos micros. Ele está dizendo que tudo que existe no mundo são os corpos ― e esses corpos não são originários, eles são produtos de forças que se encontram. Os corpos emergem a partir da relação de forças. Isso daqui é um rompimento com a metafísica clássica, porque a metafísica clássica pressupõe que o primário são as formas. Ele está invertendo...ele está dizendo que qualquer forma que exista na realidade, qualquer forma pressupõe essa relação de forças. Ele jogou o campo das formas para a precariedade. Ou seja, (ainda está difícil, não é?) ele negou a ideia de que há uma natureza, não existe natureza, o que nós chamamos de natureza são essas formas precárias. Porque o que tem no fundo da natureza são as forças, sem nenhuma forma. Mas são essas forças que vão produzir as formas do mundo: uma árvore, uma montanha, o Estado, a sociedade, o discurso... Todas essas formas, que vão emergindo no mundo, são originárias nessas forças. E essas forças, elas mesmas, não têm formas. Elas não são formais. As formas emergem...

O que ocorreu aqui é a quebra da ideia de que possa haver alguma forma eterna. Não há nenhuma forma eterna. Toda e qualquer forma que aparecer no mundo... E o que é uma forma? O corpo. Toda e qualquer forma que aparecer no mundo é precária. O que quer dizer precária? Ela dura, qualquer forma dura enquanto se mantiver a mesma relação de forças. Modificada essa relação de forças, aquela forma desaparece. Por exemplo, o que é a morte? Quem morre? Quem morre é uma forma. A morte é a morte das formas, não é a morte das forças. Agora, a morte é quando um tipo de relação de forças se desfaz e aquela forma desaparece. (Ainda está difícil, não é? Hein, Márcia? Estão entendendo?)

Vejam o que eu disse: toda forma se tornou precária.

― O que quer dizer uma forma precária? Nenhuma forma é primária nem nenhuma forma tem eternidade existencial: toda e qualquer forma existe em função das relações de forças que a produziram.

Então, aqui, pode-se pensar na mudança de um campo social para outro simplesmente como uma mudança das relações de forças, aparecendo outros tipos de formas. O que o mundo superficial, o mundo em que nós vivemos... é um mundo em que contatamos com formas; e temos a ilusão de que essas formas são unidades. Nenhuma forma é unidade: toda e qualquer forma é produto dessas relações de forças ― a forma do Estado, a forma da sociedade, a forma do discurso, qualquer coisa; tudo que aparece no mundo é uma forma que não tem nenhuma originalidade: é sempre uma emergência, produto de forças que se relacionaram. (Como é que foi, Chico? Eu não tenho nenhuma pressa, hein?... Nenhuma pressa!)

Aluna: Não tem categoria de origem nessa... [inaudível]

Claudio: Forma não tem origem, forma tem emergência. (Vocês entenderam a distinção de emergência de origem?).

Porque nós pensamos, por exemplo, que há seres que têm uma origem, um princípio e vão se desenvolvendo ao longo da história, ao longo do tempo. Aqui não tem nada disso. Tudo que aparece, aparece emergindo por uma relação de forças. Aquela relação de forças desaparece, aquela forma desaparece. Imediatamente.

Aluno: As forças são eternas?...

Claudio: Essas forças, que são a nossa grande complicação, são eternas.

Aluno: Quer dizer, os corpos... [inaudível]. Se necessariamente os corpos desaparecem o que está provocando essa mudança nas forças, na relação de forças?

Claudio: Que é o nosso grande problema! É entender a mutação nas relações de forças, porque essas forças vão ficar mudando, o que são exatamente essas forças... É exatamente o nosso problema (Certo?). Antes de entrar nesse problema ― o de maior dificuldade que nós temos, que são as mutações que essas forças fazem ― nós entendemos já definitivamente que o mundo das formas, que é o mundo dos corpos, não tem identidade ontológica: são apenas acontecimentos de superfície. Porque a metafísica do Nietzsche é a metafísica das forças, e não uma metafísica das formas. Não haveria formas originais que se processariam na história. Nenhuma forma original. Todas as formas que emergem são produtos das relações de forças. (Eu vou seguir um pouquinho...).

Através disso, se pensarmos politicamente, se pensarmos no campo político e verificarmos, com uma clareza muito grande, que aparecem objetivos de manutenção de determinadas formas, objetiva-se manter determinadas formas... Como a do Estado, por exemplo, que é uma forma e tem o objetivo de permanecer. Para ele, permanecer requer a manutenção de um tipo de relação de forças. O que se passa, então, é que você passa a compreender a natureza, não como se ela tivesse uma verdade, mas a natureza como jogos estratégicos. São jogos de estratégia. Por exemplo, um pensador como Maquiavel diz claramente na obra dele que quando você quer manter uma determinada forma, o que você tem que fazer são estratégias de forças, para que aquela forma perdure. Nada no universo perdura se as forças não mantiverem aquilo. Então, no mundo não haveria verdade formal. O que haveria no mundo seriam os jogos de forças. Seria tudo um jogo de forças, mas as forças fazendo as formas aparecerem. Mas essas formas, todas elas ― eu, este copo, seja o que for ― são formas precárias. A precariedade da forma é que uma forma só dura no tempo se a mesma relação de forças durar. Modificada aquela relação de forças, aquela forma vai desaparecer. Qual é a primeira implicação política disso? A primeira implicação política é que essa forma que eu tenho (ou essa forma que ela tem, ou essa forma que nós temos) só se sustenta porque forças estão agindo por baixo. Ou seja, para que eu tenha essa forma que eu tenho é necessário que haja, permanentemente, um tipo de relação de forças. Você não pode ter nenhum ser, nenhuma forma que se mantenha no universo, sem que a ação das forças se dê. Se vocês pensarem isso, passam a pensar o campo social como uma permanente prática de relações de forças. Relações de forças para produzir aqueles tipos de formas. Se aquelas relações de forças pararem ou se modificarem outras formas vão aparecer. (Não sei se vocês conseguiram entender isso).

Por essa tese do Nietzsche, não se pode mais entender nada como sendo forma substancial ― não há forma substancial! Para se manter aqui, tudo pressupõe as forças que conservam aquilo, determinados tipos de força conservando a existência daquela forma. E isso vocês podem aplicar no campo político ou no campo da vida: se, por acaso, as forças do meu corpo se defrontarem com determinados tipos de forças que não são as atuais, essa forma vai desaparecer ― é a morte. A morte é a morte das formas e o deslocamento das forças. Essas forças são eternas e as formas são passageiras. (Acho que ficou difícil, hein, Márcia?).

Aluna: [inaudível] eu estou pensando no conceito de dínamis, no Aristóteles, [inaudível] em Nietzsche e no clinamenen de Lucrécio. Têm alguma coisa a ver, não é?

Claudio: Pode... você pode aproximar! Eu acho que a dinamis aristotélica não dá conta. Não dá conta. Não dá conta, pode dar a ilusão de dar conta, mas não dá... O clinamen, eu acredito que você pode aplicar; pode aplicar sem dúvida nenhuma, porque essas forças não param de fazer deslocamentos...

Aluna: O clinamen... [inaudível]

Claudio: O clinamen eu já dei para vocês aqui: eu falei muito no clinamen nas aulas do Lucrécio. Você pode aplicar o clinamen; mas a dinamis, eu acho que não. A ideia de potência do Aristóteles não entra aí, ela não passa. Porque o que Nietzsche está colocando e, sobretudo, de uma maneira muito assustadora, é que, em nenhum momento, nós poderemos prever qual é a forma que vai se conservar,  nem qual é a forma que vai aparecer. Nós não podemos prever, porque não é no campo das formas que se dá o entendimento da natureza. O entendimento da natureza se dá no campo das forças. E essas forças não são regidas por nenhuma lei, não são regidas por leis ― são estratégicas: elas visam afirmar-se. Então, você não pode, de maneira nenhuma, antever que tipo de formas vai aparecer, porque, subitamente, pode aparecer uma forma nova. (Não sei se vocês me entenderam...). Não há como, pensando o mundo das forças, introduzir uma lei: não há lei nesse campo das forças. O que as forças fazem está inteiramente no regime do acaso. No regime do acaso.

Aluno: As formas, então, não são eternas; elas são...

Claudio: Precárias: inteiramente precárias!

Aluno: Há a evolução de uma forma, não é isso? O desaparecimento de uma, para o surgimento de outra forma

Claudio: Olha, você já viu que a teoria do tempo, a teoria da história, a teoria da evolução... entraram em crise? Três temas já em crise!

Aluno: Agora, partindo disso daí, olha só, se não existe evolução, ... [inaudível]   Enquanto uma forma se mantém, as forças que atuam... [inaudível]  da linguagem?

Claudio: Elas estão se reproduzindo ali, estão se reproduzindo e aí você pode pensar uma evolução.

Aluna: É uma ruptura, não uma evolução!...

Claudio: Não, quando uma determinada força se mantém produzindo uma forma, você pode pensar no crescimento daquela forma; pode pensar num termo evolutivo ali dentro.

Aluna: É o caso do Bergson, não é?

Claudio: Sim, mas não precisa aplicar o Bergson. A pergunta dele... Uma determinada forma emerge, dada aquela forma que está ali, você pode perfeitamente pensar numa evolução daquela forma, mas o que você não pode é pensar evolutivamente de uma forma para outra. Isso não! De uma forma para outra, há um corte de descontinuidade. Há continuidade numa forma. Pega-se um nietzscheano: o Foucault, por exemplo. Quando o Foucault pensa o nascimento do discurso psiquiátrico (talvez não esteja muito claro), ele admite que ele tem uma relação com o discurso da medicina. Então, é uma mesma forma se modificando, até mesmo evoluindo. Mas, para nascer, o discurso psiquiátrico pressupõe novas relações de forças. Você aqui teria duas linhas. Você teria as formas emergindo por causa de certas relações de força, mas podendo admitir certa continuidade de uma forma. Uma forma tendo uma certa continuidade. Mas o que fundamenta mesmo esse pensamento é a teoria da descontinuidade. Não haveria, por exemplo, entre o discurso psiquiátrico e o velho discurso da medicina nenhuma relação, a não ser nominal: os mesmos nomes. Mas seriam outras relações de forças.

Aluna: Não é um desenvolvimento.

Claudio: Não é um desenvolvimento! Ele emerge; aquilo emerge ali, vai emergindo ali. Na há dúvida de que a gente pode encontrar uma pequena continuidade. Mas não é por essa pequena continuidade que aquilo vai-se explicar, porque aquilo vai se fundamentar pelas novas relações de forças que apareceram. Então, aparece aquele tipo de forma. Por exemplo: do século XVII para cá, deu-se no ocidente uma prática de proletarização. Começou-se a produzir proletários, subjetividades proletárias. São determinados tipos de forças que produziram esse tipo de subjetividade. Não se pode, o que seria até risível, pensar na evolução do proletário. Seria até cômico (não é?): Ah! Os proletários vão evoluir!  Não, isso daí é um determinado tipo de força que produz. Então, o que eu estou dizendo ― eu vou até aplicar uma coisa um pouco confusa ― que é nós pensarmos o tempo ou a história como descontínua. Um determinado campo social emerge por causa de determinadas relações de forças. Outro campo social vai emergir por causa de outras relações  de forças, cada um produzindo as suas formas. Talvez não aja nenhum parentesco entre mim e o medieval. Porque nós somos duas formas completamente diferentes.

Aluna: O Claudio,... [inaudível] Bergson....

Claudio: Mas aqui eu estou falando do Nietzsche, não é? Você tem que saber que todos os filósofos têm a sua originalidade. Se o Nietzsche não tivesse originalidade ele recobriria integralmente o Bergson, não precisaria falar do Nietzsche.

Aluna: Não... Você pode responder isso para mim?

Claudio: O que você quer saber?

Aluna: [inaudível] como o Bergson libera o tempo, [...] porque... se liberar o tempo pressupõe uma certa descontinuidade?

Claudio: Não... não sei porque você está dizendo isso (ouviu, Ana?), esse deslocamento  integral que você está fazendo do Nietzsche, deslocamento integral do Nietzsche. Eu já expliquei inclusive a forma como contínua. Você pode admitir a continuidade de uma forma, que é exatamente o modelo do Maquiavel. O Maquiavel quando pensa a questão política, ele coloca com uma clareza absoluta: se você quer que alguma coisa perdure, você tem que aplicar forças ali para aquilo perdurar. Porque nada no mundo traz uma lei de duração. Nada tem lei de duração. Não há uma lei, não há um Deus, não há um princípio, não tem nada garantindo aquilo. Aquilo só vai permanecer ali se as forças fizerem aquilo permanecer. O que implica em dizer que o campo das formas, o campo da precariedade das formas, nos leva para um mundo muito difícil de ser vivido, muito difícil de ser entendido. Inclusive, essas práticas exacerbadas de segurança que nós executamos são muito tolas, porque o real, a natureza enquanto tal se constitui por essas relações de forças. O que nós temos que fazer é aprender a administrar essas forças para as formas que nós queremos e mantê-las.  Não há aqui moral, não há aqui religiosidade, é todo um conjunto de um mundo constituído nesse campo de forças. (Ana, depois de hoje, fora da aula. Tá?).

Aluno: Claudio, então a gente vai pressupor que os corpos guardam energia....e as forças... [inaudível]

Claudio: Não, não. São as próprias forças que vão agir nas forças. Porque toda a ideia que estou passando para vocês é uma ideia de singularidade, não é o corpo, são as forças ― e depois eu vou passar a explicar o que vêm a ser essas forças. Porque veja aqui o resultado que vai dar: você pega uma criança, por exemplo; o que seria uma criança exatamente? Seria um campo de forças. Se você quer criar aquela criança, quer dar àquela criança uma subjetividade, o que você faz? Você estimula para que saiam determinadas forças para constituir uma forma. A minha constituição, a dele e de qualquer um de nós não é por um processo de repressão de formas; mas é por um processo de estimulação de forças. Estimulam-se as forças que interessam e dali vai saindo uma determinada forma. As formas vão sendo produzidas. Então, a alma que eu tenho, o corpo que eu tenho ― tanto a alma como o corpo ― são consequência dessas relações de forças. Não haveria uma alma em primeiro lugar, um corpo em primeiro lugar que seriam reprimidos por um campo político. Nada disso! Tudo se constitui por esse encontro de forças, aí as formas são produzidas. (Está difícil? Com é que vocês foram?).

Você pega, por exemplo, o Michel Foucault ― que é um nietzscheano; e o Foucault diz (e isso, de saída, vai matar a gente!) que um campo social não se constitui por repressão. Um campo social, diz ele, se constitui por relações de forças: não há repressão. Olha o que eu estou dizendo: não há repressão. Não há repressão, para quê? Não há repressão para a produção das formas; é por relação de forças que as formas aparecem. Mas na hora em que aparece uma forma, aí pode haver repressão naquela forma. Quando o polícia bate com o cassetete na minha cabeça ele está batendo com o cassetete numa forma, mas aquela forma já é produto de uma relação de forças. Então, o campo social não é originariamente formal. Originariamente, ele é uma relação de forças. Aí vão aparecendo as formas e as repressões se dão nas formas. (Não sei se foi bem... Acho que isso foi claro...).

Reprimem-se formas, formas acabadas. O homem que eu sou, isso é reprimível ― mas o homem que eu sou foi produzido por essas relações de forças.

Aluna: O inconsciente também seriam essas forças, não é?

Claudio: O inconsciente são essas forças. Exatamente essas forças. Isso que seria o inconsciente. O inconsciente é aquilo que não para de produzir reais, formas. Ele não para de produzir formas porque nós não teríamos ― e isso que talvez esteja dificultando tudo ― não teríamos nenhuma forma originária. Não há forma originária. Toda e qualquer forma emerge por essas relações de forças!

― O que é uma criança? A criança é uma forma. Essa forma da criança, que nós temos hoje, basta estudar um historiador chamado Philippe Ariès, que vocês vão verificar que essa forma da criança hoje não é a mesma do século XVII. No século XVII era outra forma. Por quê? Porque as estimulações de forças geraram outro tipo de forma. Não existe o objeto formal como identidade metafísica. O objeto formal é exatamente a superfície do mundo. (O que você achou? Fala.)

Aluno: A ideia de força é causa? [inaudível] causalidade?

Claudio: As forças não são... a ideia de causa clássica não passa. Porque uma força não é causa de nada: o que vai constituir as formas são as relações de forças.

(Enquanto vocês não entenderem integralmente, eu não posso sair disso daqui, viu? Porque esse entendimento é que vai gerar teorias como a teoria do dentro, a teoria do fora, a teoria da dobra, utilizadas por nietzscheanos modernos ― coisas lindíssimas que vão nascer aqui e que nós só vamos poder entender se nós tivermos uma compreensão completa dessa ideia de força.

Aluna: [inaudível] a relação de forças seria uma trama....

Claudio: Você gosta desse nome, Ana? Tá bom, manda lá! Trama. Uma trama. É uma trama. Tá bom, trama... pronto! Ana, presta atenção, não importa o nome que você dê a alguma coisa. O nome que você dá só tem algum sentido dependendo da força que apreendeu aquele nome.

Aluno: [inaudível] forças... [...] formas diferenciadas... [...]

Claudio: Físicas, naturais. São a natureza. Porque vocês vão ver ― e aqui já começou a ficar claro ― que humano é forma, humano é forma; não é força: é uma forma. É exatamente o grande terror para nós, porque o Nietzsche não está dizendo que o humano é uma natureza; é apenas uma consequência de relações de forças ― não existe a natureza do homem, não existe a natureza de não sei o quê. Nada disso existe! Ele está rompendo ― e agora eu vou passar a trabalhar nessa questão; eu não ia trabalhar, mas vou melhorar para vocês entenderem ― ele está rompendo com a ideia de que qualquer coisa tenha uma essência. Nada tem essência. A essência de qualquer coisa é um fragmento ― um conjunto de fragmentos de forças que se relacionam.

Eu vou dar um exemplo estético, dado pelo Paul Veyne:

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O universo inteiro é como um caleidoscópio: pedaços de vidro colorido, que você roda e forma flores. As flores são as formas; os cacos de vidro são as forças. É um mundo elementarista; um mundo em que você rompe com a ideia de que há formas originais. Romper com a ideia de forma original significa que não há a essência do homem, não há a essência da mesa, não há essência de nada; nada tem essência. Tudo aparece no mundo, mas nada tem essência; quer dizer, tudo que existe é um simulacro. (Está muito difícil, não é?).

― Qual é a natureza humana? Nenhuma; não há natureza humana! A natureza humana é uma forma, gerada por determinadas relações de força. As relações de força geraram aquela forma. Basta haver a modificação dessas relações de forças, que aquela forma desaparece... imediatamente! Nada a sustenta: nada! Ela é precária por origem; porque qualquer forma é precária. Qualquer forma é precária! A ameaça das forças é permanente; e essas forças não podem ser entendidas como leis ou princípios: elas são o reino do acaso. (Eu vou dar por mais ou menos aqui... eu vou fazer uma modificação. Foi muito mal, não é?).

Se vocês aceitassem e trabalhassem comigo na ideia de forma... é o melhor caminho que nós temos. O melhor caminho que nós temos ― a ideia de forma.  Porque tira de nós uma...

[Final de Fita]


LADO B

Todo nosso entendimento do campo do poder passa por essa prática das relações de forças. (Eu vou dar por entendido, viu?). Foi mais ou menos entendido e assim vou dar alguns exemplos para fortalecer o entendimento:

Vamos pegar um nietzscheano do século XX, o Foucault. (Eu não ia nem fazer esse trabalho... mas resolvi fazer, porque a ideia de forma deu problema.)

O que se passa de original na obra do Foucault é que ele fala que, a partir de determinado momento da história até a atualidade, nasceram as sociedades disciplinares: apareceram certos tipos de sociedades constituídas pela disciplina. (É o que passa de original nele!) E quando ele fala nessa prática da disciplina ele vai colocar duas idéias ― que são as idéias de máquina abstrata e máquina concreta.

Foucault está dizendo que as nossas sociedades ― e isso vai ser surpreendente ― são constituídas pelo modelo das cidades pestíferas. (Aqui já é uma surpresa...). Que as cidades pestíferas seriam exatamente o modelo das nossas cidades. (Eu vou dar uma explicação sobre o que elas são exatamente.)

Uma cidade pestífera traz como problema o fato de haver pestilentos atuais. Pestilentos atuais são todos aqueles que, dentro da cidade, trazem a peste. E a cidade traz, então, o problema de ali haver também os pestilentos virtuais ― aqueles que podem ter a peste. Que é exatamente a grande divisão que se faz numa sociedade pestífera. Você pega uma cidade pestífera, segundo Foucault, e o que se passa nela é essa divisão: pestilentos atuais e pestilentos virtuais. Pega-se os pestilentos virtuais ― logo, pestilentos virtuais se aproximam um pouco da dinamis do Aristóteles ― são aqueles que podem ter a peste, mas não têm. O que vai-se fazer com os pestilentos virtuais é isolá-los; separá-los dos pestilentos atuais. Na hora em que essa separação se faz, o poder político começa a exercer uma prática de força constante em cima dos pestilentos virtuais, numa administração generalizada daquelas vidas ― administra-se o alimento, administra-se a moradia, administra-se o vestuário, administra-se o ar..., faz-se uma administração generalizada daquelas vidas!  Todos são administrados; e, para continuar vivendo, todos têm que receber um tipo de disciplina, (entenderam isso?) que são exatamente o campo de uma sociedade que tem os virtuais da peste. Esses virtuais são administrados, sobretudo por um poder médico, que administra aquelas vidas. O que Foucault vai dizer é que a nossa sociedade traz esse modelo. Ela traz esse modelo; então, para a nossa sociedade, todos nós somos pensados como seres virtuais e, não, como seres atuais. E como seres virtuais, as forças vão fazer uma prática de disciplinarização em cima de nós, para constituir o nosso corpo e a nossa alma. Isso é o que ele chama de máquinas concretas. Num campo social, as máquinas concretas são as instituições que têm a função de trabalhar nessas virtualidades: prisão, hospício, escola, exército...

Aluna: O uso de camisinha... [inaudível]

Claudio: O uso de camisinha já é a instituição trabalhando. As instituições são as máquinas concretas com a função de trabalhar nessas virtualidades. Mas para haver essas máquinas concretas há uma máquina abstrata. A máquina abstrata é a cidade pestífera ― que é o modelo que vai passar em todas as instituições para desenvolver as forças que lhe interessam. (Não sei se foi bem...). As forças que interessam geram o corpo e a alma que eu tenho! O corpo e a alma que eu tenho não são entidades metafísicas ― são produtos de forças.

Aluna: [inaudível] e nós seríamos os virtuais?

Claudio: Os virtuais...

Aluna: [inaudível] os atuais [...]

Claudio: Não, filha... Os atuais... Não, filha. Eu vou tentar novamente para vocês entenderem. Vamos tentar por outro lado. É de uma clareza absoluta, não entendo como você não entende, Ana. O [inaudível] do Maquiavel é claríssimo. Mas eu vou explicar de outra maneira; vou tentar outra maneira para explicar isso.

Na obra do Foucault... (Eu agora vou contar de modo bem detalhado, para vocês entenderem). O Foucault é um filósofo e enquanto filósofo ele é nietzscheano: ele se ligou ao Nietzsche. Poderia ter-se ligado ao pai dele, à mãe dele; mas se ligou ao Nietzsche. E ao se ligar ao Nietzsche, ele verifica que o Nietzsche colocou uma questão. (Vocês vão entender!). O Nietzsche colocou ― prestem atenção! ― que não existe sequer um objeto a-histórico.

― O que quer dizer um objeto a-histórico? Quer dizer, uma forma que não tenha emergência.

Todas as formas emergem; logo, todos os objetos que existem são históricos. (Entenderam?). Não existe nenhuma essência atravessando a história. Tudo emerge na história, tudo emerge. Não existe objeto a-histórico, todos os objetos são históricos, todos são produzidos dentro da história, pelo tempo. É isso que Foucault descobre no Nietzsche.

Quando o Foucault descobre isso no Nietzsche, o que ele vai fazer? Ele vai fazer um estudo para verificar quais as forças que produzem esses objetos, que tipo de forças produz esses objetos. O que essas forças fazem, o que elas querem, a que visam elas, que tipo de objetos produzem? Então, Foucault encontra na história (estou simplificando muito...) duas práticas, muito nítidas, a que ele vai se dedicar a trabalhar: uma ele chama de inquérito; a outra ele chama de exame. Seriam duas práticas que apareceram ao longo da história; não formas, mas máquinas para produzir formas, máquinas de produção de formas (Está bem assim o que eu disse?).

Aluno: [inaudível]

Claudio: Elas são formas, porque se efetuam em instituições; mas são as forças produzindo formas para produzir outras formas.

Então, ele encontrou o inquérito e o exame. Eu vou deixar um pouquinho de lado o inquérito... se vocês quiserem, é muito bonito, eu explico o inquérito para vocês.

― O que seria o exame? O que seria exatamente o exame? É muito bonito e um pouco difícil, difícil até para um historiador clássico aceitar.

O Foucault começa por dizer que a história, lendo-se determinados textos ou fazendo-se uma prática iconográfica ― isto é, vendo as telas ― a história nos revelou a existência de indivíduos destacados ― condes, reis, heróis ― que apareceram claramente cantados pelos poemas épicos, cantados pelas narrativas heróicas. Uma série de indivíduos. Que é muito fácil: vocês abrem os livros de História e vocês vão ver! Quais são os indivíduos que são falados no século XVI? O rei, o herói, o príncipe, o bispo, uma mulher, por causa de determinada prática; são os indivíduos que aparecem na história. Então, diz o Foucault, que pelo fato de esses indivíduos se destacarem na história, a luz do mundo ― a luz que o mundo possui ― jorra em cima deles. A luz do mundo jorra sobre esses indivíduos. A história vai ver esses indivíduos: vê-los nos quadros, nas descrições, nas narrativas... Mas a luz não jorra sobre a massa que existe na história; ou seja, a história nos revela a aparição de um plano de visibilidade.

Plano de visibilidade é aquilo que a história está destacando dentro do campo visual. (Entenderam?). Ela está liberando uma série de indivíduos para o campo visual. Pronto! Subitamente, o Foucault, muito louco, encontra uma medalha comemorativa, salvo equívoco, de um rei qualquer. E quando examina essa medalha ele tem a maior surpresa ― porque na medalha aparecem o rei e seu séquito: que são os indivíduos vistos dentro do campo da visibilidade. Mas na moeda vai aparecer também uma série de soldados.

― O que aconteceu? É que a visibilidade está se deslocando. Está havendo um deslocamento da visibilidade; que está tirando a massa do limiar da escuridão e lançando essa massa no campo da visibilidade. Na hora em que essa massa começa a entrar na visibilidade, ela começa a se individuar. Os indivíduos vão começar a aparecer na história; abandonando o campo da epopéia, eles vão passar para as histórias mais miseráveis, histórias de registros. (Conseguiram entender?). O que está sendo feito é um deslocamento da visibilidade. Nós abandonamos as epopéias para conhecer os indivíduos; basta ir num cartório. Por quê? Porque as forças de poder liberaram para esse campo da individualidade a massa anteriormente perdida numa escuridão; e individuou essa massa. Ou seja, o campo do poder – é isso que Foucault está chamando de exame – produz, digamos, a partir do século XIX, os indivíduos, produz a individuação. Ou seja, cada um de nós hoje se julga com todo o direito de dizer-se: eu sou um indivíduo. Mas esse indivíduo que nós somos não pertence à nossa natureza; foi o campo das forças que o produziu. (Foi claro o que eu disse? Ou não? Entenderam? É de uma beleza excepcional!).

Então, o exame é uma máquina de poder que tem a função de produzir a individuação. O que vai acontecer? O que vai acontecer é que quando esses indivíduos caírem no campo da visibilidade vão imediatamente passar para o campo do saber. Vão nascer (estou sendo muito rápido) as ciências de radical psi, que são as ciências do indivíduo. Então, se essas ciências do indivíduo nascessem no século XV, provavelmente os cientistas do indivíduo morreriam de fome; porque só havia quatro ou cinco indivíduos, agora é uma quantidade infinita. (Acho que está bem, não está? Então, vamos tomar um cafezinho para descansar um pouquinho...).

[intervalo para o café]

Um militar, no século XIX, se hospedou numa casa na cidade onde ficava o seu quartel: uma casa de família, que se tornou pensão para ele. E nessa casa havia o casal – pai e mãe; e uma filha. Quando esse jovem militar conheceu a filha, ficou muito surpreendido, sobretudo porque ela era muito bonita ― o que surpreende todo mundo ― e ela não dava a menor importância para ele. E, como era natural, ele procurou se exibir para ela, mostrar- se para ela, mas ela não dava a menor importância, ele não existia para ela! Mas um dia, eles estavam jantando juntos e, de repente, ele sentiu um pé embaixo da mesa, um pé no pé dele. Ele foi olhar, era o pé dela, descalço, alisando a perna dele. Ele ficou (não é?) naquele estado que qualquer um pode ficar! Então, a partir daquilo, em todo jantar ele se aproximava um pouco mais dela e ela ia lá embaixo, com as mãos, com os pés, fazendo a mesma coisa com ele. Por outro lado, sempre que ele tentava se aproximar para falar com ela, ela não dava o menor papo para ele. E ele começou a viver aquelas angústias do apaixonado. Ia para o quarto de noite, sofria, sofria muito, nada acontecia. Até que um dia, de repente, ela parou de fazer os ataques sob a mesa. E aí é que ele pirou mesmo!  Mas um dia, ele estava deitado no quarto, de repente entra, no quarto, a garota. Ela entra no quarto e senta em cima dele e começa aquela beleza que é a prática do amor. Aí, eles começaram a fazer um amor lindíssimo, aquela coisa lindíssima, uma coisa belíssima... Está acontecendo aquilo e, de repente, ela cai, cai para o lado. Ele vai, pensa que aquilo é um orgasmo, a examina, não era um orgasmo: ela tinha morrido; morreu! Agora, vocês imaginam a situação desse cara, ele não sabia mais o que ele ia fazer. Ficou desesperado: não tinha como fazer nada ali. Ele foi, teve uma ideia: eu vou procurar o coronel. Não é? Porque sempre se procura o coronel, o coronel do regimento. Então, ele saiu lá para procurar o coronel do regimento, aí o coronel do regimento viu a gravidade da situação e disse para ele: "Olha, você pega a carruagem e embarca para acidade tal, deixa comigo que eu vou resolver isso, ta certo? Faz isso". Aí ele embarcou para a cidade tal e o coronel foi lá resolver. Ele ficou nessa cidade um pouco distante, uns dois anos e não soube nada do que aconteceu. Mas um dia, de repente, a curiosidade despertou nele e ele foi procurar o coronel para o coronel contar o que tinha acontecido. Quando ele se aproximou, ele soube que o coronel tinha ido para a guerra e morrido. Morreu o coronel.  Então, esse rapaz ― aí que termina a história ― realmente nunca soube o que aconteceu. Então, é o tipo do conto em que aparece essa figura: o que aconteceu? Ele não sabia o que tinha acontecido. (Muito bem). O que aconteceu é exatamente o modelo de uma prática que o Foucault chama de inquérito. O inquérito é exatamente uma prática em que os homens vão se preocupar em conhecer o acontecimento do passado. E para fazer isso os homens vão criar uma tecnologia, uma tecnologia para administrar e conhecer o acontecimento que se deu no passado. E qual é a maneira melhor que nós temos para conhecer um acontecimento que se deu no passado? Não há dúvida nenhuma de que a melhor maneira que nós temos é uma narrativa, é o discurso. Porque o discurso é aquilo que tem a propriedade de reatualizar acontecimentos que se passaram. (Entenderam?)

A melhor maneira de nós conhecermos acontecimentos que ocorreram é através do discurso, porque o discurso reatualiza acontecimentos que passaram. No caso do conto que eu narrei, o melhor discurso seria pronunciado por quem? Pelo coronel (está certo?), que seria aquele que poderia reatualizar esse acontecimento.

E quando nasce a prática do inquérito é liberada a questão: De que maneira podemos conhecer bem um acontecimento do passado, sabendo-se que uma acontecimento do passado é reatualizado no discurso. E a tecnologia funda que a melhor maneira de conhecer um acontecimento do passado é quando nós temos diante de nós um discurso que seja neutro. Ou seja, o que está sendo dito é que os acontecimentos do passado, quando são reatualizados por discursos apaixonados, esses acontecimentos podem ser falseados pelo discurso. (Não conseguiu entender não? Por exemplo, vou reexplicar para vocês. Não entendeu, não?).

Esse conto que eu contei é do Barbey D’Aurevilly, é lindíssimo esse conto, se vocês quiserem eu tenho em português e trago aqui para vocês, (ouviu?)... Que é a pergunta: meu Deus, o que é que aconteceu? Só quem sabia era o coronel do regimento! (Agora, prestem atenção:).

Vamos dizer que eu e o Leão Handfas entramos numa disputa. O Leão diz assim: Claudio, você roubou minha caixa de fósforos. Eu digo, Leão, eu não roubei sua caixa de fósforos. Aí ele diz: Você roubou, sim, minha caixa de fósforos.

Vai chegar um momento da história em que, para resolver essa situação, nós teremos que procurar um representante do poder ― porque o poder vai produzir representantes para resolver os litígios. E quando nós procurarmos esse representante do poder, ele vai-nos ouvir falar...

― O que eu vou dizer? Eu não roubei a caixa de fósforos do Leão!

― E o Leão vai falar: Claudio, você roubou minha caixa de fósforos!

O poder fica num estado de ambiguidade: não sabe quem está falando a verdade.

― O que o poder faz? O poder procura testemunhas; ele sai à cata de testemunhas ― e as testemunhas são exatamente aquelas que poderão dizer se eu roubei ou não a caixa de fósforos do Leão. Por quê? Porque a testemunha presenciou o acontecimento. Então, a testemunha é o instrumento mais indicado para re-atualizar o acontecimento. (Entenderam?)

Mas acontece que pode aparecer uma testemunha que seja namorada do Leão. Se a testemunha for uma namorada de Leão, é claro que ela vai dizer que fui eu que roubei a caixa de fósforos. Então, a tecnologia das testemunhas considera que a testemunha apaixonada não fala a verdade. Para falar a verdade, tem que ser uma testemunha neutra (entenderam?). É esse modelo que faz emergir no ocidente a ideia de que a verdade é algo que está no passado; é re-atualizada pelo discurso; que, para ser um bom discurso, tem que ser produzido pela razão ― porque a razão é neutra. (Não sei se vocês entenderam...).

Esse modelo é o modelo do inquérito; que o Foucault diz ser uma prática que emerge numa época da história e gera a verdade como reatualização do acontecimento, como desqualificação da paixão e emergência da razão. Ou seja, a razão não é o que nós pensávamos: a razão não é alguma coisa, em si mesma, preparada para a verdade ― a razão é produto de uma prática de poder. (Conseguiram entender? Muito bem!).

― O que vai acontecer [na história], segundo o Foucault?  Segundo o Foucault, o que vai acontecer é que nós vamos sair da pergunta: “o que aconteceu?” para a pergunta: “o que pode acontecer?” Na hora em que nós entramos nessa pergunta ― o que pode acontecer? ― tudo que existe se torna uma virtualidade. (Conseguiram entender? Ou não, Ana?).

Nós passamos agora para um mundo em que a pergunta não é mais: “o que aconteceu?” A pergunta agora é: “o que pode acontecer?” Se você está num mundo de “o que pode acontecer”, a partir daí as práticas de poder vão produzir aquilo que lhes interessa: porque o ser se torna virtual, é uma virtualidade. É exatamente o que o Foucault está explicando para o nascimento da cidade moderna. O nascimento da cidade moderna não é uma procura do que aconteceu, mas é uma questão com o que pode acontecer. É onde nasce, sobretudo, uma ideia, que é muito nossa, a ideia de periculosidade. Nós agora vamos pensar as virtualidades. Tudo vai ser pensado como virtualidade. Em função disso, é preciso produzir, em cima dessas virtualidades, aquilo que interessa ― é isso que é a prática do exame. (Não sei se foi bem... Vocês entenderam?).

Vocês vejam que, aqui, tudo aquilo que nós pensamos que teria uma natureza, ― o indivíduo seria uma natureza ―, nada disso é uma natureza: são as forças do exame que geram essas figuras no mundo. (Vejam se foi bem... Foi ou não, hein? Entenderam bem?...).

Quem trabalha com “O que aconteceu?”? O inquérito.

Quem trabalha com “O que pode acontecer?”? O exame.

O exame é exatamente uma prática que se dá no nosso mundo para produzir a individuação e a identidade. Então, nós vamos ser produzidos como indivíduos e regidos por uma identidade. E vamos lutar toda a nossa vida para garantir o indivíduo que nós somos e a individualidade que nós temos ― quando ser livre é uma conquista da diferença. (Foi muito difícil, hein Chico? Falem lá, para eu ver onde é que está a falha...)

O conto do Barbey D’Aurevilly é nítido para vocês entenderem o nascimento da prática da verdade. A prática da verdade se sustenta na razão, porque a razão é aquilo, em nós, que é neutro e é capaz de re-atualizar os acontecimentos com verdade; enquanto que as paixões retomam os acontecimentos falsamente. É por isso que, na história da verdade, a razão vai ser privilegiada. É aí a emergência do racionalismo.

O racionalismo não é um milagre humano, é uma prática de poder. Uma prática de poder em que a verdade é algo que tem que ser reatualizado. Por quê? Porque, para essa prática, a verdade está perdida no passado. Ela está perdida no passado. (Vocês me entenderam bem? Porque eu acho que essa foi a melhor maneira que eu já usei para explicar essa questão na minha vida... Vou ver outra vez para vocês).

Eu vou contar outra história. Olha essa história aqui:

Sir Lancelot era um homem belíssimo, não sei se vocês sabem, pelo menos nos filmes. Era lindíssimo. E ele era apaixonado pela rainha, mulher do rei Arthur. Todo mundo sabe disso! E eles costumavam ter encontros nos bosques. Mas quando eles começaram aqueles encontros, à boca pequena, os cavaleiros da Távola Redonda começaram a cochichar: olha, o Lancelot está namorando a rainha. Começaram a falar isso. E alguns cavaleiros da Távola Redonda, mais ousados, chegavam para o Lancelot e diziam: Lancelot, você está acabando com a Távola Redonda, porque você está difamando a rainha; tendo encontros amorosos com ela e traindo o rei Arthur. Quando o cavaleiro em questão dizia isso para ele, o Lancelot respondia: você está desafiado para um duelo! E eles iam duelar. E quem vencia? O Lancelot vencia. No momento em que ele vencia, a verdade era o que ele dizia, porque naquele momento da história a verdade era produto do triunfo (entenderam?). Não havia outra prática da verdade. Era verdadeiro tudo aquilo que viesse por triunfo. Mas o Lancelot continuou a ter encontros amorosos com a mulher do rei Arthur, até que, um dia, o filho do rei Arthur, não sei se vocês sabem quem é ele, é o filho da Morgana, que era irmã do rei Arthur... O filho do rei Arthur pegou o Lancelot em flagrante com a rainha. Aí, ele se vira para o Lancelot e diz: você está traindo o meu pai. O Lancelot vai e diz: você está convidado para um duelo. O filho do rei Arthur responde: duelo não, eu vou testemunhar contra você!

O que aconteceu? É que a verdade estava se deslocando. Estava nascendo o inquérito. O inquérito não é mais a verdade como produção; mas a verdade como representação. A verdade torna-se um discurso que re-atualiza um acontecimento. Enquanto que, na primeira fase, a verdade era uma prática produtiva.

Eu estou explicando isso, para mostrar para vocês que todas as formas que emergem no mundo, emergem por relação de forças. (Eu acho que agora vocês entenderam!)

É preciso perder a ilusão de que há uma forma em si mesma: não há! Mudadas as relações de forças... outras formas emergem. Então, a verdade é uma forma, é um valor, é um sentido. Numa determinada época da história, ela emerge como produto de um triunfo; e noutro momento da história ela, a verdade, é apenas uma representação do discurso adequado ao acontecimento.

Através disso, eu acredito que essa aula ganha uma linha boa. Vocês passaram pelo menos a entender mais ou menos que nenhuma forma emerge na história se não tiver atrás dela relações de forças. (É só por hoje. Eu não aguento mais. Foi bem, não é? Vocês veem que, inclusive, eu já posso tranquilamente trazer alguns textos do Michel Foucault e do próprio Nietzsche, que vocês vão entender. Viu? Fui feliz, não é? Então está bem).

Fim.

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