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Inspiração

Já acompanhei de muito perto a doença e a morte de um homem. Na época éramos jovens, eu e ele, e vivíamos juntos primeiro em Paris, depois em Grenoble, na região da Savóia. Ele tinha trinta anos e eu vinte e cinco. Ele era engenheiro e trabalhava com robótica. Este ainda era um assunto apenas de especialistas, muito pouco conhecido do grande público. Uma vez, logo que nos conhecemos, ele me levou até a empresa onde trabalhava, nos subúrbios de Paris. Colocou um objeto em frente a um computador e o computador descreveu o objeto. “É com isto que trabalho”, ele explicou, “com o reconhecimento das imagens”. Embora só muito tempo depois eu tenha entendido a extensão do seu trabalho, mesmo assim achei o máximo, até porque estava apaixonada por ele. Mas também porque intuí que aquelas pesquisas eram como um pedaço do futuro flanando pelo presente. Certa vez alguém me contou que ele tinha sido convidado pelos americanos para trabalhar no projeto Guerra nas Estrelas, mas não aceitara. Era óbvio que não aceitaria. Ele tinha sido maoísta em 68; tinha o coração idealista e sonhava com um mundo livre do capitalismo.

Ele tinha uma moto e passeávamos à noite por Paris, voando por aquelas avenidas que margeiam o Sena. Ele primeiro me emprestou um capacete do sobrinho. Eu me achava ridícula com aquele capacete de criança, e sempre que podia o “esquecia” em casa. Até que um dia um policial me mandou descer da moto e tivemos que continuar nosso passeio caminhando ao lado dela. Ele então me deu de presente um capacete novo, vermelho brilhante. Até a minha mãe, que não gostava que eu andasse de moto, quando foi me visitar e me viu na garupa com o capacete, abraçada àquele rapaz tão bonito, ficou emocionada. Mais tarde, quando ele ficou doente, ela sentiu muito e me disse que esta imagem sempre vinha à cabeça dela: nós dois, jovens e felizes, passeando de moto pelas avenidas de Paris.

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Eu não gostei muito quando fomos pra Grenoble. Eu queria ficar em Paris, mas não consegui me separar dele. E ele queria muito ir pra Grenoble. Era lá que morara quando era estudante. Lá estavam também seus amigos mais próximos, seus pais, seu irmão e sua irmã Danielle. Além disso, ele me disse que sentia muita falta das montanhas. Grenoble fica no pé dos Alpes e para qualquer lado que se olhe dá para ver as montanhas com os picos cobertos de neve. Todo mundo vai passear naquelas montanhas nos fins de semana. No verão se faz caminhadas, no inverno se esquia. Eu estava inscrita em Saint-Denis para uma maîtrise em filosofia. Meu orientador era o professor Gilles Deleuze. As aulas ainda não tinham começado e na verdade eu nem tinha obrigação de frequentá-las, bastava escrever uma monografia, mas eu precisava assistir pelo menos às aulas do meu orientador. Fui à casa dele, então, na rua Bizet, conversar sobre a monografia e ao mesmo tempo dizer que estava indo morar em Grenoble. Era a segunda vez que eu ia à sua casa; a primeira fora para dizer que eu queria mudar o tema do trabalho, e a segunda era aquela. Ele ficou meio desconfiado. Acho que pensou que eu não levaria aquela tarefa a sério. Mas eu insisti sobre o meu desejo de escrever a monografia, disse que viria à Paris uma vez por semana para assistir às aulas dele, e ao final creio que se convenceu pois abriu um sorriso. “Ok, mademoiselle”, falou, “então a espero na rentrée”. Ele me disse o que eu deveria ler, para começar, e nos despedimos satisfeitos. Só então fiz as contas e vi que o dinheiro que meus pais me mandavam do Brasil não daria para eu pegar o TGV Grenoble-Paris toda semana. Daria, porém, para eu pegar o trem comum.

A razão principal de estarmos nos mudando para Grenoble era que antigos colegas de A. estavam criando uma pequena empresa de computação para desenvolver todos aqueles projetos de ponta, e o convidaram para se associar a eles.  Muitas empresas ligadas à Inteligência Artificial estavam surgindo lá e dizia-se, na época, que os arredores de Grenoble estavam se transformando numa espécie de Vale do Silício, como na Califórnia. “Vai ser muito bom fazer um trabalho legal rodeado de amigos”, ele me disse. No entanto, ele ficou muito pouco tempo trabalhando naquele lugar. Logo depois que nos mudamos ele começou a ter dores de cabeça fortes. Um dia desmaiou. Quando fez uma tomografia descobriram que ele tinha um tumor no cérebro.

A última vez em que o vi absolutamente bem foi no corredor do hospital. Ele estava vestindo jeans e camiseta. Estava sentado numa maca com um pequeno gravador e um monte de fitas de música do lado. No dia seguinte fez uma biópsia que confirmou a malignidade do tumor e o deixou muito fraco e com dificuldades para andar. Dali em diante foi ficando cada vez mais doente. Com a radioterapia o tumor diminuiu um pouco, mas logo voltou a crescer. Por um período pequeno ele ainda frequentou a empresa dos amigos, pois todo mundo achou que ele ficaria contente trabalhando. Também durante um certo tempo continuamos a morar no apartamento que tínhamos alugado, mas depois tivemos que nos mudar para a casa dos pais dele em Chambéry.

Não sei quanto tempo se passou do início da doença até a morte dele: um ano, um ano e meio... Não me lembro mais. Foi difícil morar com seus pais. Tudo foi difícil e triste. Um dia eu telefonei para meu orientador em Paris e disse que não podia frequentar as aulas nem estava estudando. Contei por alto o que tinha acontecido. Ele pareceu desanimado e disse: “Bom, Mademoiselle, não sei mais como ajudá-la”. Ele tinha razão. Não havia saída para aquela situação. Quando já morávamos com os pais dele eu ia toda quarta-feira visitar uma amiga em Charavines, uma cidadezinha perto dali. Ela era professora e quarta-feira é o dia em que as escolas não funcionam na França. Eu passava o dia lá. Ouvíamos discos e conversávamos. Depois ela me contou que adorava aquelas quartas-feiras. Eu também. Mas na estrada eu às vezes imaginava, por um segundo, que jogaria o carro de encontro a alguma árvore, embora eu não quisesse morrer. Ao aumentar a velocidade do carro o que eu sentia, na verdade, era uma vontade louca de viver. Aquele era um dos poucos momentos em que eu sentia esta vontade. E era isso que me deixava um pouco bêbada e me fazia correr e me arriscar na estrada.

Aos poucos A. foi perdendo a consciência. Foi ficando confuso sobre pessoas, lugares e datas. Foi perdendo a capacidade de controlar as funções fisiológicas. Eu dormia abraçada com ele e muitas vezes acordava encharcada de urina. Ele me olhava bem nos olhos, desconcertado, como se me perguntasse o que estava acontecendo com ele. Eu percebia então como ele estava ainda bem vivo e como estava se aproximando rapidamente da morte. Eu o abraçava e ficava sofrendo até adormecermos de novo. No dia em que ele morreu, eu estava no Brasil. Só voltei à França muito tempo depois e não procurei sua família.

Muito se discute sobre o que é mais importante para um escritor: a inspiração ou o trabalho. Na minha opinião, nenhum escritor, nenhum artista em geral, produz o que quer que seja sem muito trabalho. E o trabalho do escritor é não só árduo, mas um pouco chato. Às vezes é muito chato. Você se senta em frente ao computador cheio de ideias, mas muito raramente consegue escrevê-las com facilidade. Você tem na cabeça o diagrama do livro, o plano do que vai escrever naquele dia, mas tem que ficar elaborando as frases, apagando, reescrevendo. Às vezes você escreve um trecho enorme e depois, ao relê-lo, percebe que não conseguiu produzir o efeito que desejava. Tem então que refazer o trabalho. É um saco! Creio que muitos escritores em potencial, alguns com um talento excepcional, não escrevem porque não conseguem suportar este dia-a-dia solitário e sem qualquer glamour. Porém o pior talvez ainda seja o fato deste trabalho braçal não acompanhar nem a intensidade nem a velocidade das suas emoções. É como se você imaginasse uma casa suspensa no alto de uma cachoeira, à maneira de Frank Lloyd Wright, e percebesse que para vê-la de pé,  o que tem a fazer é ir todo dia à cidade num fusquinha capenga, comprar alguns sacos de cimento. E comprar fiado.

O que eu quero dizer é que na maioria das vezes o trabalho da escrita pode não só atrapalhar como até solapar a emoção do escritor. Mas não há outra solução: este é o único jeito de  “materializar” um livro. Pois é óbvio que as emoções estão o tempo todo ali. É óbvio que sem as emoções a arte não existiria. Se uma obra não vê a luz do dia sem o trabalho do artista, sequer se esboçaria sem que as emoções dele a atravessassem de uma ponta à outra durante todo o processo de criação. Uma vez um amigo que gosta de escrever poesia me disse: “acho que não sou de fato um poeta, pois só escrevo quando sou tomado por alguma emoção forte, quando estou muito feliz ou muito triste, e creio que os verdadeiros poetas escrevem mesmo quando não estão exaltados”. A questão é que os verdadeiros poetas − foi o que lhe respondi − estão sempre num estado de exaltação, mesmo quando estão entediados, com preguiça ou lutando pelo seu sustento. É este estado de espírito − ininterrupto, embora na maior parte das vezes impercebível até pelos mais próximos − que eu chamo de inspiração. Por isso não acho importante discutirmos se um escritor precisa ou não de inspiração para escrever. A inspiração é o que faz um artista ser um artista. É a condição primeira, necessária e permanente, para um escritor ser um escritor. É o chamado da arte, ao qual o artista responde sem saber de onde vem e para onde o levará. Ela não o perpassa num ou noutro momento. Ela é simplesmente o seu modo de receber as sensações e os acontecimentos à sua volta. É o estilo da sua percepção.

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Não acho, porém, que um encontro repentino com um acontecimento não possa inspirar um escritor num momento específico, fazendo-o largar tudo, se sentar e escrever um texto de uma tacada só, movido pela emoção. Mas tendo a acreditar que quanto mais fundo um acontecimento penetra no espírito de um escritor, tanto mais tempo demorará a lhe inspirar alguma obra literária. Primeiro será preciso que o escritor se esqueça deste acontecimento. Esquecendo-o, o acontecimento se dissolverá na sua vida interior, submergindo num fluxo de sensações e memórias que se estende para muito além de qualquer sentimento ou apreciação pessoal. Perdido então no oceano do tempo ele ressurgirá sob a forma de uma emoção livre de seu conteúdo original, embora ainda fiel ao mundo factual.  Não mais, porém, ao mundo factual do escritor, mas de todos os homens. A verdadeira inspiração, creio, não vem das nossas lembranças, mas do desaparecimento das nossas lembranças.

Foi quase um quarto de século depois da morte de A. que escrevi o meu primeiro romance. Ainda que eu já tivesse uma ideia bem precisa do plano geral do livro, realmente não conseguia começá-lo. Ficava horas na frente do computador; as frases saíam penosamente e o texto não evoluía. Como não conseguia de jeito nenhum escrever o primeiro capítulo, resolvi escrever algo que pudesse se encaixar posteriormente em algum lugar do livro. Finalmente, exasperada, decidi escrever o que me viesse à cabeça, sem pensar. A história do romance não tinha qualquer semelhança com o que eu vivera em Grenoble. Confesso também que há muitos anos não pensava mais em A. No entanto, foi o seguinte o que escrevi:

"Aguardo os primeiros dias do século vinte e um para escrever a história de V. Melhor dizendo, a história da sua morte.  É verão no Rio de Janeiro. Os bares e as ruas repletos de gente parecem comemorar o fim de uma longa Ocupação. Os dias adentram as noites como uma vitória. Há paixão e esplendor em toda parte. Dançamos. Extasiados. Em meio à poeira solar. O que terá o novo século a ver com V, que morreu há quase vinte e cinco anos atrás, em Chambéry, no sopé das montanhas da Savóia, na França?  Mas assim será o século vinte e um, você me responde: a complicação dos tempos e das causas, a presença virtual e eterna de todas as coisas. Não é apenas isto, eu replico. Outro dia, andando pelas ruas ensolaradas do meu  bairro, eu vi um homem sem cabeça. Ele caminhava à minha frente e eu o segui até descobrir que uma inclinação de quase noventa graus do seu pescoço era o que fazia a sua cabeça desaparecer, quando visto de costas. Na esquina ele dobrou à direita e eu continuei em frente. Este é apenas um fato entre outros, você diria, se não soubesse que é justamente nos umbrais deste acontecimento que o novo século nos acolhe: mergulhados na solidão e na morte; num corpo que não sustenta a solidez imensurável do espírito; num corpo que se curva, que se desorganiza, que desafia os recônditos longínquos da genética, onde pensávamos ter plantado a nossa bandeira. Mas ao mesmo tempo não é outra senão a presença dele, do corpo, do câncer, quem dissipa as brumas da alma, fazendo-a estalar como o ar que precede as tempestades. Pensei em escrever esta história de uma época em que nem tínhamos computadores em casa, mas onde o futuro já se tramava, como se trama neste momento, perfeitamente delineado no presente e no passado longínquos.  Não será uma história de amor, pois não o amo mais. Esqueci-me dele. Será verdade? - você pergunta, incrédulo. É mesmo verdade. Esqueci-me. Transformei-me. Minhas lembranças vagueiam por outros corpos e outras sensações. E no entanto a morte de V adentra de novo minha memória, quiçá meu corpo. Tenho a impressão de vislumbrar no seu câncer, no andar do homem sem cabeça, tanto quanto na matemática e na arte, os códigos secretos deste novo século".

E assim, esse mesmo texto que me ajudou, anos atrás, a começar a escrever, está não só me ajudando a dar início a essa coluna de literatura, como, de certa forma, foi quem me inspirou - junto com o velho e formidável Dante - a encontrar um título para ela. Primo amore: Literatura