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Aula 4 – 25/01/1995 – Movimento Aberrante

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 4 (Diferença, Alteridade, Mutiplicidade); 5 (A Fuga do Aristotelismo); 13 (Arte e Forças) e 20 (Linha Reta do Tempo) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Aqui é um momento importantíssimo para o entendimento, porque nele já se nota uma diferença entre o movimento supralunar - que é uniforme e regular; e o movimento sublunar - que já é um movimento inteiramente aberrante, pois os procedimentos dele são disformes em relação ao movimento supralunar. E nesse movimento aberrante, o tempo, que era como uma porta giratória e circulava naquele movimento uniforme e regular, no mundo sublunar - usando uma expressão do Hamlet - "o tempo sai fora dos seus gonzos ".

O gonzo é a dobradiça que existe nas portas; [uma espécie de eixo cilíndrico que permite que a porta abra e feche]. Então, o tempo sai dos seus gonzos, quer dizer, o tempo escapa da circularidade e fica como que enlouquecido! O movimento é aberrante e o tempo perde a sua circularidade. Aí, Deleuze, em sua obra, faz uma afirmação surpreendente. Que é exatamente por causa desse movimento aberrante, motivado por ele, e a saída do tempo dos seus gonzos, que os processos vão se inverter. Quer dizer: o tempo - que era subordinado ao movimento - vai se inverter; e o movimento vai-se tornar subordinado ao tempo.

Então - vamos colocar assim, para compreender com clareza - eu diria que, no princípio, o pensamento antigo ou o pensamento aristotélico colocava o tempo subordinado ao movimento; e o pensamento moderno subordina o movimento ao tempo. Então, é nitidamente uma inversão da proposição. Digamos a "proposição antiga": o tempo é subordinado ao movimento ou, claramente: o movimento subordina o tempo. E a "proposição moderna": o tempo subordina o movimento.

Classicamente, quando nós temos duas proposições que se opõem, como essas duas, uma é tida como verdadeira e a outra é tida como falsa. Então, ou os antigos estavam falando o verdadeiro e nós o falso; ou vice versa. Mas a questão não é essa. A questão tem uma originalidade muito maior. E essa originalidade eu ainda não posso colocar para vocês; vou dizer, apenas, que o movimento gera o que eu venho chamando de ação, pulsão e afecção. Ou seja: a ação, a pulsão e a afecção são três elementos que têm origem no movimento. Então, eu diria: o movimento da ação, o movimento da pulsão e o movimento da afecção - a pulsão, a afecção e a ação pertencem ao movimento.

A ação, ou seja, o movimento chamado ação, produz o que se chama comportamento. O movimento chamado pulsional vai gerar o que se chamam pulsões elementares. E o movimento expressivo é o que vai gerar o que se chama afecção.

Então, nós temos três práticas que qualquer homem é capaz de fazer - uma prática que se chama comportamento, uma prática que se chama pulsão e uma prática que se chama afecção. Essas três práticas se originam no movimento. O comportamento, na ação; as pulsões, nos movimentos das pulsões elementares; e a afecção, no movimento expressivo. Para clarear mais aqui essa posição, esses três movimentos - a ação, a pulsão e a afecção - só aparecem no momento em que o ser vivo aparece no Universo ou neste planeta. Ou seja, o movimento existe - mas a ação, a pulsão e a afecção só podem se dar quando emerge o vivo! Haveria o movimento no Universo: haveria o movimento das estrelas, haveria os movimentos dos astros, o que eu chamei de movimento sublunar - que é o movimento aberrante; que é alteração de velocidade, mudança de trajetória... Agora, esses movimentos tornam-se ação, pulsão e afecção a partir da aparição do ser vivo. Então, a ação, a pulsão e a afecção são três rótulos que se aplicam ao vivo. Mas, para nós simplificarmos - porque nós não temos tempo - eu vou dizer que a ação, a pulsão e a afecção aplicam-se ao homem.

Então, o homem age; e, ao agir, ele está produzindo um comportamento num determinado meio - num meio geográfico ou histórico. O homem faz uma prática pulsional; e essa prática pulsional se dá no que se chama meio derivado. Ou o homem tem uma prática afetiva, e essa prática afetiva se dá no que se chama espaço qualquer. Meio geográfico, meio derivado e espaço qualquer - seriam os três territórios que abrigariam: 1. O comportamento; 2. A pulsão e 3. A afecção. (Certo?)

Esses três movimentos pressupõem o que se chama esquema sensório-motor - que aparece a partir do nascimento do vivo. Todo ser vivo se constitui no esquema sensório-motor. Mas eu vou abandonar o vivo - porque não dá tempo para isso - e vou trabalhar apenas no homem. E vou dizer: o homem é constituído por um esquema sensório-motor. Esquema sensório-motor esse, que permite ao homem fazer uma apreensão do movimento que vem de fora, porque ele é dotado de uma estrutura sensória. Essa estrutura sensória apreende o movimento que vem de fora e - imediatamente - prolonga esse movimento no motor; e o motor, ou a motricidade, devolve movimento para o mundo.

Então, o homem teria uma parte sensória e uma parte motora. Essas duas partes deveriam ser unidas - e o sensório prolongar-se no motor. Exemplo: eu vejo um predador, quer dizer: o meu sensório apreende um predador. Essa percepção do predador é a apreensão de um movimento, que eu prolongo para a minha motricidade, e a minha motricidade responde imediatamente - provavelmente fugindo. (Certo?) Mas acontece que - no homem - esse sensório e esse motor não se prolongam um no outro; entre os dois há ­ - o que eu já chamei de pequeno intervalo.

Esse pequeno intervalo é onde estaria a afecção. Mas, para ficar mais claro ainda para vocês - é onde se instalaria o sistema nervoso central, onde estaria o cérebro.

Por exemplo, o cinema do Stanley Kubrick.

Resultado de imagem para jack nicholson shining door- Quem conhece o Stanley Kubrick? 2001, O Iluminado - e vai embora por aí... O cinema do Stanley Kubrick é um cinema sobre o cérebro. Ou seja: o cinema do Stanley Kubrick é um cinema sobre esse pequeno intervalo - ele só trata desse pequeno intervalo! Nesse pequeno intervalo é onde estariam os afetos, as afecções. (E aqui é um momento em que eu não teria muitos elementos para explicar com mais clareza!) Então, o esquema sensório-motor é constituído desses três elementos: a percepção - que nada mais é do que a recepção de um movimento que vem de fora. Esse movimento, que vem de fora, se prolonga; chega nesse pequeno intervalo - que é a afecção; ali - nesse pequeno intervalo - que vão aparecer as categorias de possível e virtual. Não apenas essas duas categorias; aqui..., nesse centro, vai aparecer também a categoria de horizonte. E esse centro tem a função de devolução de movimento. Por isso, tendo várias possibilidades de devolução de movimento, esse centro é hesitante. Ele "hesita". Ou seja: a hesitação - emerge neste Universo - a partir do ser vivo. (Como eu estou dizendo, a partir do homem!) E essa hesitação ou retardamento no movimento, o movimento recebe um retardamento. Retardamento que não existia enquanto o vivo não tinha aparecido neste Universo. Então, o homem é necessariamente, é essencialmente hesitante. (Não confundir hesitação com dúvida! A dúvida paralisa o pensamento. A hesitação, não: a hesitação é excitante.) Mas o homem nunca decide de imediato. Ele hesita - porque ele tem várias possibilidades de decisão.

O cérebro é um sistema acentrado, um sistema que não tem centro, sempre que ele recebe aquele movimento, inicia-se nele alguma coisa e ele - o cérebro - abre possibilidades quase que infinitas de escolha para a resposta que ele vai dar. Por isso, o que eu chamei de hesitação. Ali estariam, em última análise, os três movimentos clássicos - percepção, afecção e ação. Entre a afecção e a ação vai aparecer o que Deleuze chama de pulsão. Então, a pulsão não é uma ação e não é uma afecção - ela recebe o nome de ação embrionária e de afecção degenerada: é uma ação - que não se realiza; e é um afeto - que se degenerou.

O mensageiroEntão, a pulsão - vamos citar só um cineasta, para não abrir um leque muito grande - é, vamos dizer, uma grande marca do cinema do [Joseph] Losey. Há um elemento marcante nesse cinema do Losey; e isso daí permitiria uma compreensão quase que imediata para vocês... Eu citaria dois filmes: O Mensageiro e Casa de Bonecas - porque nesses dois filmes há um ator chamado Edward Fox, que tem, em seu corpo e em seu rosto, [sinais evidentes de] violência contida. É uma violência assustadora, sobretudo, em Casa de Bonecas! Nesse filme é muito claro. O filme é com as atrizes Jane Fonda e Delphine Seyrig (que também atuou em O Ano Passado em Mariembad) . Em Casa de Bonecas vocês observam, com muita perfeição, o que eu estou chamando de violência contida ou violência estática.

- Por que isso se dá no mundo pulsional?

Porque a violência se efetua no mundo da ação, mas no mundo pulsional a violência é muito grande, muito poderosa e - se ela vier a se efetuar - ela se voltará sobre aquele que a cometeu. Então, ela fica como que contida no corpo - no corpo da personagem. E, no cinema do Losey, em função do que eu chamei de violência estática, verifica-se claramente a presença do que eu estou chamando de imagem-pulsão.

A pulsão estaria entre a ação e a afecção. Então, apareceriam quatro elementos do movimento: a ação, a afecção, a pulsão e a percepção.

Aluna: Elementos do movimento?

Claudio: Porque a percepção é apenas o nome do movimento. A percepção é o recolhimento que a estrutura do sensório motor faz do movimento que vem de fora. O Bergson faz uma colocação da percepção de uma originalidade extraordinária: o esquema sensório-motor apreende o movimento que vem de fora, e imediatamente ele remete esse movimento para a estrutura motora, para que ela responda a esse movimento. Então, a estrutura motora é acionada pelo movimento que vem de fora - senão ela não funcionaria. Ela captura o movimento que vem de fora. A percepção é uma espécie de captura de movimento! Movimento esse, que se torna combustível da estrutura motora. Então, é como se um círculo excepcional se fizesse - porque o ser vivo, com seu esquema sensório-motor, vai capturando os movimentos que vêm de fora. Mas o ser vivo captura esses movimentos que vêm de fora para, com eles, acionar os seus próprios movimentos.

Aluna: Eu entendi você falar que o sensório e o motor, no homem, não estariam completamente conectados...

Claudio: Não estariam!

Aluna:... que haveria uma brecha e essa brecha seria a percepção, é isso?

Claudio: Não, a brecha é a afecção! A brecha é o pequeno intervalo! Esse "pequeno intervalo" é exatamente a marca que o Bergson faz no vivo. O vivo, classicamente falando, distingue-se do inorgânico, porque o inorgânico, ao receber um movimento de fora - um átomo, por exemplo - ele comunica esse movimento ao átomo, o átomo responde a esse movimento por todas as suas partes, imediatamente. O vivo, não! O vivo tem uma parte que recebe o movimento; e outra parte que devolve o movimento. Então, o vivo é esquartejado.

Aluno: Minha pergunta é a seguinte: eu queria saber se a consciência entra...

Claudio: A consciência entra nesse intervalo. Ela vai aparecer aqui, neste pequeno intervalo. Ou seja: todo sistema de observação, interpretação, experimentação, vamos dizer, de cartografia, todos os movimentos do que se chama espírito aparecem nesse pequeno intervalo. O importante é conhecer aqui que o homem [ou o vivo] é esquartejado. Ele é esquartejado porque uma parte recebe movimento e a outra parte devolve movimento. (Certo?) Então, ele se difere... O homem não pode ser individuado à semelhança de um sistema físico. O homem tem um sistema de individuação - porque isso é o sistema de individuação dele - que implica a presença de um pequeno intervalo, que corta o prolongamento do movimento da percepção para o movimento motor. Ele corta, ele detém aquele movimento. Na detenção daquele movimento, nasce essa figura chamada hesitação. Então, a hesitação não é uma falha - uma falha humana! A hesitação é a essência da própria vida! A vida é essencialmente hesitante. E se ela é essencialmente hesitante, a vida é essencialmente problemática. A vida é problemática.

Então, o problema não é uma deficiência do vivo. O vivo se relaciona com o mundo - problematizando. A partir disso, nós podemos dizer, à maneira do Foucault, ontologia do problema - o vivo torna ontológico o problema. Vejam bem o que eu estou dizendo: o vivo tem - como essência - a problematização: a questão dele não é caminhar numa resposta; a questão dele é problematizar - permanentemente!

Neste ponto, podem aparecer as grandes questões da subjetividade, que estariam exatamente aqui, no que se chama subjetividade material e subjetividade espiritual - cuja diferença estaria em que a subjetividade espiritual sempre se expressaria pela problematização. Ou seja: subjetividade espiritual é o que Espinosa chamaria de terceiro gênero do conhecimento, que teria como questão permanente problematizar, entender - enquanto que a questão da subjetividade material seria submeter-se ou obedecer. E toda essa questão, que eu estou levantando, se daria exatamente nesse intervalo.

Então, essa categoria de problema começa a fazer uma deriva na tradição epistemológica do ocidente. O problema não surge por deficiência do sujeito do conhecimento; o problema é a essência do próprio pensamento. Ou seja, o pensamento não tem como objetivo conhecer; tem como objetivo problematizar. Então, essa categoria de problema já gera para nós a viabilidade de vários mundos possíveis. (Certo? Muito bem!)

O Bergson, já agora com uma linha muito poderosa do Deleuze, vai falar de uma passagem do mundo do movimento para o mundo do tempo. Ora, o que eu mostrei para vocês foi que o esquema sensório-motor é governado pelos quatro elementos que o movimento tem. Quais os elementos? a ação, a percepção, a pulsão e a afecção - são os quatro elementos do movimento. Mas eu coloquei que o tempo, quando sai do mundo supralunar, quando - segundo Hamlet - ele sai dos seus gonzos, o movimento se torna aberrante, o tempo se separa do movimento e aqui vai acontecer alguma coisa semelhante. Por exemplo, quando a percepção recebe os movimentos que vêm de fora; e prolonga esses movimentos para o sistema motor, passando antes pelo pequeno intervalo, esse "pequeno intervalo", ao invés de jogar esse movimento para o sistema motor, devolve o movimento para o sistema perceptivo. O sistema perceptivo manda o movimento, e ao invés de prolongar, ele devolve o movimento.

Por exemplo: o cinema sueco, numa tentativa de construir um cinema fora do esquema sensório-motor, fora do movimento, começou a trabalhar com o moribundo. Por quê? Porque o moribundo seria exatamente aquele que, quando recebesse o movimento de fora, não teria forças para prolongar esse movimento no esquema sensório-motor. Então, quando o movimento chegasse ao pequeno intervalo, ele faria a devolução do movimento.

Essa devolução do movimento - esse bloqueio do movimento do sensório para o motor - vai ser o início da imagem-tempo. Então, o tempo vai começar a surgir - nós estamos começando a ter noção disso - pelo que se chama "a quebra" do sistema sensório-motor. Essa quebra do sistema sensório-motor é inicialmente muito simples. Essa quebra se dá quando o movimento recebido não se prolonga em movimento devolvido. Isso seria a quebra desse esquema-sensório motor - que o Bergson disse ter que se dar por dentro. (Eu vou encerrar essa parte!)

Quer dizer, o esquema sensório-motor tem que se quebrar por dentro para que a subjetividade se libere do domínio do movimento e se constitua pelo tempo. E a constituição da subjetividade pelo tempo seria a conquista da liberdade humana.

Então, essa foi a apresentação desta aula, eu acho que foi suficiente. Eu, agora, começo a trabalhar nessa exposição que eu fiz.

Muito bem!

Aluno: [inaudível] A quebra do esquema...

Claudio: O Bergson fala (eu vou falar muito sobre isso!) numa quebra do esquema sensório-motor por dentro, ou seja: tem-se que quebrar o esquema sensório-motor para se sair da dominação da imagem-movimento. Em termos de cinema: sair do cinema realista - do cinema pulsional ou do sistema afetivo, ou sair do cinema perceptivo - para entrar no cinema contemplativo. Quebrar por dentro... mas, de uma forma difusa, usando o mesmo modelo do esquema sensório-motor.

O Proust está muito envolvido com essa questão que eu coloquei. Toda a questão dele é a conquista do tempo. Talvez Proust esteja à frente do próprio Bergson. E ele levanta uma questão que, para nós, habituados com a formação do pensamento platônico, nos assusta um pouco. O Proust vai fazer uma distinção inteiramente original. Ele vai distinguir sujeito e essência.

Vejam bem! Nós estamos envolvidos nessas pesquisas teóricas, e nós costumamos distinguir sujeito e objeto. Proust, não! Proust distingue entre sujeito e essência. E diz - originalmente - que a subjetividade, ou o espírito ou o nosso interior é constituído por dois componentes: de um lado, alguma coisa que ele chama de sujeito; de outro, alguma coisa que ele chama de essência.

O sujeito - ou o sujeito humano - é constituído de pensamento. Ou seja: o sujeito humano é constituído de pensamento; e o "pensamento" se distribui numa série de faculdades - faculdade da imaginação, faculdade da memória, faculdade da percepção, faculdade do intelecto, faculdade da razão, faculdade da linguagem... Ou melhor: as faculdades não pré-existem. Mas as que existem não esgotam as faculdades. O homem pode inventar um indefinido número de faculdades. Proust, então, descreve apenas as faculdades que ele encontra no sujeito humano - a percepção...

[virada de fita]


... imaginação, memória, inteligência, etc. E ele chama - a cada faculdade dessas - de pensamento. Ou seja: a inteligência é um pensamento, a memória é um pensamento - e assim ele se aproxima muito do Descartes.

Mas, de outro lado, ele diz que na subjetividade, no espírito existe alguma coisa que ele chama de [inaudível] as principais práticas do sujeito - a amizade, o amor e o conhecimento. Ou seja: o sujeito humano enquanto tal exerceria - como componentes principais de sua vida - a prática da amizade, a prática do amor e a prática do conhecimento. E, surpreendentemente, diz Proust: "toda a minha questão é a produção de um sujeito artista". Ou seja, ele quer, por diversas experimentações que ele faz - inclusive a de trancar-se em casa - produzir dentro dele o que ele chama de sujeito artista. Mas o sujeito artista, em Proust, não é o sujeito que tem a função de produzir uma obra de arte - de maneira nenhuma! O sujeito artista tem a função de quebrar - dentro dele - o sujeito da amizade, o sujeito do amor e o sujeito do conhecimento. O sujeito artista é aquele que vai quebrar em si próprio as forças da personalidade, as forças da pessoa, as forças da história pessoal. Vai romper com a história pessoal.

Proust, aqui, está muito próximo do Brecht, de Benjamin - quando eles falam de Gestus. Muito próximo! Ainda que se trate de uma questão mais elevada - porque o que o Proust quer, é que se quebre a personalidade.

- Para quê?

Para que ele, o sujeito artista, deixe de ter contato com essas faculdades que constituem o sujeito pessoal - e passe a ter contato com a essência. E nesse contato com a "essência" vai aparecer o que Proust chama de pensamento puro. O pensamento puro já não é mais alguma coisa que pertence ao sujeito pessoal. O pensamento puro, diz ele, é a faculdade das essências. Então, o "pensamento puro" é uma faculdade que só pode emergir uma vez que o sujeito artista tenha quebrado o domínio que o sujeito pessoal exercia sobre ele. E a função da faculdade chamada pensamento puro é diferente da função das faculdades do sujeito, porque o que essas faculdades fazem é representar o mundo que está à sua frente. Ou seja: as faculdades do sujeito - inteligência, imaginação, memória - são faculdades representativas. Enquanto que essa faculdade - chamada pensamento puro - tem a função de expressar a essência ou o que Proust chama de mundo possível ou mundos possíveis. Quando o sujeito artista quebra o domínio do sujeito pessoal e libera o que se chama a faculdade do pensamento puro, essa faculdade começa a expressar os mundos possíveis.

- O que são esses mundos possíveis?

Esses mundos possíveis... (Vejam o que eu estou fazendo aqui nesta aula: eu estou tentando coligar as questões que eu levantei para vocês...) Esses mundos possíveis são os afetos. Esses afetos não pertencem ao sujeito pessoal - pertencem à essência, aos mundos possíveis.

Vou usar outra linguagem:

O sujeito pessoal é constituído pela consciência. Essa essência com que a faculdade do pensamento puro lida, é o que nós chamamos de inconsciente - mas não é o inconsciente do sujeito pessoal; é o inconsciente desumano; inumanizado. Esse inconsciente é constituído de afetos. E o pensamento puro tem a função de expressar esses afetos, expressar esses mundos possíveis. E quando o pensamento faz isso, ele, o pensamento puro, produz novos mundos.

Se nós ficássemos apenas prisioneiros do sujeito pessoal, todos nós só teríamos um mundo; e nesse mundo único, que nós teríamos, nós não poderíamos nos comunicar, porque o sujeito pessoal está preso a um solipsismo absoluto - não consegue sair de dentro de si; ele só manifesta a si próprio; só recebe o que importa a si. Ou seja: o "sujeito pessoal" é do mais absoluto solipsismo. A única maneira de sair do solipsismo é quebrar esse sujeito pessoal e expressar esses mundos possíveis - onde nasceria, então, a comunicação entre os homens. A comunicação entre os homens só seria possível na arte.

É um momento muito difícil de compreensão, porque os três mais valorados ou os mais grandiosos valores do homem - que são o amor, a amizade e o conhecimento - são profundamente abalados pelo Proust. Proust os rejeita como sendo exatamente aquilo que impede a conquista da liberdade. Porque se nós, como ele fez, através do sujeito artista - que não tem a função de produzir nenhuma obra, qualquer obra, apenas a função de entrar em confronto com o sujeito pessoal - quebrarmos as forças desse sujeito pessoal iremos liberar o que eu chamei de faculdade do pensamento - que seria a faculdade das essências, uma faculdade que teria a função exclusiva de expressar esses mundos possíveis. Então, para Proust, a salvação seria a arte.

Proust chama esses mundos possíveis, essas essências, esses afetos de almas. Ou seja: cada um de nós tem uma multidão indefinida de almas. E se o nosso pensamento puder expressá-las - se ele se libertar do domínio do sujeito pessoal - o nosso pensamento vai constituir novos mundos. O que implica em dizer, que a ideia de que nós vivemos num mundo em que é constantemente necessário reformar, reconstruir - é uma ideia platônica. O que o Proust está dizendo é que nós não temos que reformar nenhum mundo - nós temos que inventar outros. Mas essa invenção só pode se dar se o sujeito artista quebrar a dominação que o sujeito pessoal - essa sordidez, não tenho outro nome para dizer!? - exerce sobre a nossa vida.

Então, quebrar a história pessoal; quebrar o passado, com seus fantasmas, que exercem um domínio sobre nós; e os objetivos do sujeito pessoal, que são sempre os mesmos - a constituição de um conhecimento, do único mundo que ele pensa que existe. Conhecimento que vai-lhe dar uma certa garantia, uma certa tranquilidade, uma certa segurança. E nesse mundo ele constitui uma moral. Então, Proust rompe com esse conhecimento, rompe com essa moral - que é exatamente o fio da Ariana, no Nietzsche, que é a combinação Ariana e Teseu: rompe com esse conhecimento e com essa moral; rompe com as formas do amor; e rompe com as formas da amizade - e produz o mundo da arte. É evidente que nesse mundo da arte podem nascer novos tipos de amor e novos tipos de amizade.

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Então, eu coloquei aqui essa posição do Proust, porque ela remete muito claramente para a mesma posição do Bergson. Só que o Proust está muito na frente. Então, faz-se confusão, quando se pensa que a obra do Proust está em busca do passado. Isso é inteiramente falso, inteiramente falso! A questão do Proust é uma só: a liberação do que se chama pensamento. Mas, não confundir... a partir desta aula nós vamos começar a fazer a distinção entre pensamento e intelecto. E eu vou colocar o intelecto como uma faculdade do sujeito, regulada pelo sistema lógico do bom senso.

- O que se chama sistema lógico do bom senso? É um sistema que funciona sempre da mesma maneira - indo do presente para o futuro. Ou seja: o bom senso é um sistema subjetivo, um sistema intelectual e o seu funcionamento é partir do presente para o futuro. E ele encontra o seu espelho, em termos objetivos, na flecha do tempo - que é aquilo que vai do presente para o futuro. Ou seja: flecha do tempo e bom senso - o primeiro, objetivo; o segundo, subjetivo - trabalhando sempre da mesma maneira, partindo de uma maior diferença para uma menor diferença.

Então, quando eu coloco a faculdade do pensamento puro e quando eu coloco o intelecto - esses dois não têm o mesmo tipo de funcionamento. Por quê? (Na segunda parte da aula eu vou melhorar isso, viu?) Porque esse intelecto é uma estrutura lógica; e uma estrutura lógica do bom senso.

Vamos aplicar um silogismo: "Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal". Ele funciona dessa maneira! Agora, o pensamento enquanto tal - o pensamento que lida com o que eu chamei de mundos possíveis... Bem, aqui a coisa vai começar a se complicar - porque esses mundos possíveis são alógios ou supralógicos, ou seja: esses mundos possíveis não são regulados pelos sistemas lógicos do bom senso. Então, o que eu estou dizendo para vocês, é que essa prática - chamada Arte - pressupõe a quebra do bom senso. Aí, compreende-se perfeitamente um Gérard de Nerval, dentre outros, ou a experiência da arte ou a experiência do pensamento que - simultaneamente - se aproxima da loucura. Aproxima-se da loucura, no sentido em que rompe com as estruturas lógicas do bom senso, para fazer um mergulho no que eu chamei de alógico ou de supralógico, ou de diferencial - que, agora, necessariamente, nós vamos ter que começar a entender.

Ou seja: vou repetir!

O que eu estou fazendo, eu estou criando, eu não estou criando, estou reproduzindo em Proust, o que ele chama de faculdade do pensamento puro. Essa "faculdade do pensamento puro", não é uma faculdade que pertença ao sujeito - ao sujeito pessoal, ao sujeito humano enquanto tal; ou - numa linguagem mais espinosista - não pertence à consciência. A faculdade do pensamento puro é uma faculdade inconsciente. E a matéria, com que essa faculdade do pensamento puro lida, são os afetos - que são alógicos e supralógicos.

Resultado de imagem para alice no pais das maravilhas livroEntão, nós temos de um lado o bom senso - aqui eu posso até forçar para vocês entenderem com mais facilidade... Existe um lógico - clássico - que por sinal eu estudei muita lógica com ele, chama-se [Charles Lutwidge] Dodgson e que tem um apelido, quando ele faz uma espécie de literatura lógica - ele se chama Lewis Carroll, que enquanto lógico é um homem do bom senso. Ou seja: toda a lógica dele parte do presente para o futuro. É uma lógica inteiramente administrada pelo modelo da flecha do tempo. Mas quando ele escreve Alice, ele abandona o bom senso e passa para o contrassenso.

- O que é o contrassenso?

O contrassenso é a inversão que ele faz; é uma espécie de matemática recreativa. Ele diz assim: no bom senso, nós sabemos, eu sinto dor, e dou um grito. Lá na Alice, a gente, primeiro, dá um grito, e depois sente dor. Ou seja, ele inverte: em vez de ir do presente para o futuro, ele vai do presente para o passado. Há uma inversão do procedimento.

Então: o procedimento lógico chama-se bom senso; a prática do Lewis Carroll chama-se contrassenso; e quando nós caímos na faculdade do pensamento puro, nós entramos no que se chama não-senso. Ou seja: ao entrar no não-senso, nós abandonamos o tempo chamado cronológico e vamos entrar no tempo chamado aiônico. E a entrada nesse tempo aiônico, eu acredito que a gente faça nesta aula de hoje.

[intervalo para o café]


Nesta distinção - sujeito e essência - o que eu fiz foi:

Quando eu coloquei sujeito e essência, eu coloquei as faculdades do sujeito e coloquei uma faculdade da essência - que seria o pensamento puro. Então, eu espiritualizei ou subjetivei tanto o sujeito quanto a essência - ambos são subjetivos, ambos são espirituais. (Certo?) Tanto o sujeito, quanto a essência. A grande dificuldade que nós temos de entender isso, é em função do modelo platônico. Eu preciso dar uma "passada rápida" nele. Porque o Platão, quando pensa, é a coisa mais simples do mundo! (Está faltando aquela menininha! Eu cuido muito dos meus alunos; cuido mesmo!... Ainda mais uma menina assim, muito jovem. Ela saiu? Bom, eu vou falando devagar...)

Vejam essa questão simples e clássica:

De um lado, nós entendemos a existência de um sujeito - o sujeito humano. Esse sujeito humano é dotado de um poder de conhecimento. (Não vamos nem discutir como é que esse poder de conhecimento aparece, não importa!) Sujeito humano com um poder de conhecimento e um poder de organização de seu campo existencial - que é a produção de um campo social, a produção, digamos, de uma moral; ou seja, o sujeito humano, com a potência de produzir duas regras: uma regra de habilidade - onde ele produz conhecimento; e uma regra de prudência - onde ele produz uma moral.

A regra de habilidade [pela qual] o sujeito conhece os objetos que o circundam. Esses objetos são físicos, químicos, sociais, ou psíquicos, ou espirituais - quando ele se torna muito místico, etc. (Não é?) São as práticas do conhecimento! E, de outro lado, o sujeito moral, que organiza a inter-relação entre as subjetividades humanas. Então, o homem é um sujeito que tem diante de si um mundo que ele chama de objeto. Então, há um sujeito e há objetos; e sujeitos que formam uma relação chamada intersubjetiva.

Prestem atenção: a intersubjetividade é a relação entre sujeitos. E na relação sujeito e objeto, esse sujeito e esse objeto são tidos - corretamente - pelo pensamento, como aqueles que estão envolvidos pelo tempo; eles estão envolvidos pela temporalidade: tanto o sujeito quanto o objeto.

No platonismo, isso se chama fluxo heraclítico; ou seja: o sujeito e o objeto estão envolvidos pelo fluxo heraclítico. O fluxo heraclítico gera - necessariamente - a mudança constante. Há uma mudança constante: mudança constante nos objetos: nas sensações; e no mundo do sujeito: nas opiniões. Então, como o sujeito e o objeto estão envolvidos pelo fluxo heraclítico, eles estão em permanente mutação de opinião e mutação de sensações. Nessa mutação de opinião e mutação de sensações - o conhecimento não pode se dar. É exatamente por causa disso, que o Platão constrói um segundo mundo - conforme a linguagem do Hegel. Esse segundo mundo é o mundo das essências ou das ideias - vou usar essência! Essas essências estariam acima do fluxo heraclítico, imóveis e eternas.

- Qual seria, então, o programa da filosofia? Sair do fluxo heraclítico: sair da opinião e da sensação - e atingir as essências.

Em linguagem grega, sair da doxa e atingir a episteme. E aí, é fácil de entender! O programa da filosofia é um só: superar, suprimir a doxa, a opinião - que é o envolvimento com o fluxo heraclítico; e atingir a episteme - a ciência. E, no início, quando lemos Platão, ele supostamente nos passa a impressão de ter realizado esse programa da filosofia: de ter saído da doxa e atingido a episteme. Mas se nós observarmos claramente, isso não aconteceu; a filosofia, na verdade, não teria efetuado o seu programa. A filosofia continua envolvida pelas formas da doxa e pelas duas características da doxa - o senso comum e o bom senso. (Certo?)

Então, a questão que eu levantei nesta aula é exatamente a efetuação do programa da filosofia por um artista, um literato - que é o Proust.

- Por quê? Porque o Proust quebraria as forças do sujeito pessoal, isto é: a força da opinião, a força das sensações, a força da inteligência, a força do bom senso - para mergulhar no pensamento puro. Ou seja: sair da doxa e entrar (forçando um pouquinho) na episteme. Seria exatamente o que eu coloquei para vocês. Mas acontece que a essência do Proust não está fora do sujeito - conforme em Platão.

Porque Platão coloca a essência fora do sujeito. É o princípio filosófico chamado contemplação, que, no século XVIII, na Alemanha, vai-se transformar: é quando essa essência passa para dentro do sujeito e o pensamento deixa de ser contemplação e se transforma em reflexão. É a passagem da contemplação para a reflexão; e esses dois procedimentos - e é exatamente o que Proust verifica - ainda são procedimentos da opinião. É incrível ter sido Proust a verificar isso! Deleuze retoma a questão proustiana, mostrando que nós temos que sair dessa contemplação platônica e dessa reflexão alemã, para liberar as essências - que estão dentro de nós.

- De que maneira as essências estariam dentro de nós?

Isso daí é um processo que, simplificando, é de uma clareza muito grande na obra do Leibniz. Porque, quando o Leibniz começa a pensar, ele se defronta com o pensamento de Descartes - que é um pensamento que materializa inteiramente o mundo. Descartes faz um pensamento materialista, mas não coloca força no mundo. Ele não coloca forças. Ele faz do mundo uma estrutura geométrica - que ele chama de extensão, mas esse mundo não teria força. Então, o movimento, nesse mundo, necessitaria da presença de Deus - para introduzir a força.

- O que faz o Leibniz?

Leibniz introduz força dentro da natureza. Mas de uma maneira muito original: força, para ele, é sinônimo de espiritualização do real. Ele começa a espiritualizar o real - e essa espiritualização é exatamente o que ele chama de força. E quando ele começa a dizer que essas forças são espirituais, em seguida, ele vai fragmentar essas forças; ou melhor, vai fragmentar a espiritualização. O real é constituído de forças espirituais, mas essas "forças espirituais" são fragmentárias: são átomos, moléculas, ou, mais precisamente - mônadas.

Leibniz começa a criar a doutrina das mônadas. As mônadas são as forças espirituais, que constituem toda a questão deste universo. Então, o espírito do homem é um conjunto múltiplo de mônadas. E essas mônadas, ao invés de, como em Platão, serem aquilo que deve ser visto, essas mônadas são pontos de vista. Cada mônada dessas é uma perspectiva - mas não é uma perspectiva sobre o mundo. Cada mônada dessas é um mundo. Cada mônada dessas gera um mundo. Então, nós seríamos constituídos por essa multiplicidade de mônadas; e a liberação do sujeito pessoal - que é o governo de uma mônada sobre nós - nos conduz para o encontro com essa multiplicidade de mônadas.

O que eu dei para vocês, no princípio da aula e que eu chamei - em termos proustianos - de mundos possíveis ou de essência; usando mundos possíveis - é uma linguagem do Proust, e também do Wittgenstein. Usei a noção de essência - que é uma linguagem platônica, mas também espinosista. Usei a palavra mônada - que é uma linguagem do Leibniz, mas é exatamente isso que está acontecendo com o Proust. O Proust está dizendo que se nós quebrarmos o sujeito pessoal - que há dentro de nós - e liberarmos o nosso pensamento, nós vamos encontrar - em nós - o que ele chama de micropercepções inconscientes. Essas micropercepções inconscientes são as almas proustianas. E a função do pensamento é expressar essas micropercepções inconscientes e, em termos proustianos, nesse ato - gerar novos mundos.

Isso aqui traz uma difícil complexidade, porque nós temos a impressão de que o modelo do bom senso - que é exatamente o modelo aristotélico e o modelo do movimento como determinante do tempo - é único e absoluto. E quando isso começa a chegar para nós, um novo mundo - que quebra as efetuações intelectuais da lógica - começa a entrar: um mundo supralógico e alógico.

Eu estou preparando vocês para, na próxima aula, nós podermos investir nisso que eu chamei de supralógico e alógico. O que eu vou fazer agora - para que vocês tomem pé exatamente do que eu estou dizendo - é precisar o que é a personalidade, o que é o sujeito pessoal, o que é o sujeito humano. A fim dar essa explicação, sem me prender a uma linguagem psicológica ou a um psicologismo mortal, de que, inclusive, quase todos os filósofos tentaram se libertar e não conseguiram - eu vou usar um filósofo do século XVIII/XIX, ainda pouco conhecido, chamado Maine de Biran. A partir de agora ele vai se tornar muito conhecido.

Maine de Biran vai formar aquela tradição que eu falei para vocês que vem de Plotino. Ele está dentro daquele stream, daquela corrente de amor, de gestus - que vem de Plotino e vai dar em Deleuze. Então , esse pensador vai falar numa figura chamada...

[virada de fita]


[...] Ele sempre implica dois - esforço e resistência. Você não pode pensar o Eu como uma unidade isolada. Ele é sempre algo causal - que produz um efeito; ele é sempre algo que, para agir, faz um esforço e encontra uma resistência. A resistência é a matéria - pode ser a matéria sonora, pode ser a matéria escrita; mas o Eu se daria por esse procedimento, que eu vou passar a chamar de binômio, isto é: funcionando sempre através de uma relação. Uma relação entre o Eu - que é uma causa; e a matéria - que é uma resistência. Exemplo, a volição; o ato de levantar o braço - quem faz o meu braço levantar é uma determinação causal do meu Eu. Mas, quando o meu braço vai levantar, há uma resistência muscular. Por isso, o Eu não se explica por uma unidade, ele se explica por um binômio - ele é sempre dual.

Terminando essa explicação para vocês... o Eu se exemplificaria por um filme do John Ford - um western - em que o mocinho vai pro meio da rua e começa a procurar o bandido para fazer um duelo. O Eu - que é a exemplificação do comportamento - é sempre duelo, dueto, binômio, contraponto. (Não sei se vocês entenderam!..) Isso se chama comportamento, a imagem-ação; de outra maneira, o cinema chamado imagem-ação, o cinema ação.

Eu tenho uma maneira mais fácil de explicar essa questão para vocês, através do Lee Strasberg - do Actor's Studio, que produz o ator para esse tipo de cinema. Ele produz o ator para esse tipo de vida - a imagem-ação, tipo de procedimento binomial entre a causa e o efeito. Isso se chama comportamento, ou seja: todo comportamento se dá num meio. Esse meio pode ser hostil ou gentil. No western, o meio é sempre hostil. E o Eu é uma causa que se defronta com aquele meio.

Agora, então, vamos colocar em termos do Peirce - chama-se segundidade.

- O que quer dizer segundidade? Quer dizer exatamente ou a imagem-ação ou o mundo orgânico - que é um binômio, que é oposição, que é dialético... Estas categorias - oposição, dialética, contradição, negação - só existem nesse mundo. Se você produzir outro mundo, nesse outro mundo essas categorias não entram - eu vou mostrar para vocês:

Então, a categoria de oposição. Existe oposição? Sim, existe oposição! Onde existe oposição? Existe oposição no realismo, existe oposição na imagem-ação.

Agora: eu já vou mostrar para vocês outro tipo de mundo, e aí, nesse outro tipo de mundo, não vai haver isso. Eu sei que, nesta aula, eu não vou dar conta disso tudo. Aí, na próxima aula, vocês fecham esse conhecimento!

Agora, eu quero que vocês façam apenas uma coisa. Isso daí é o mundo da imagem-ação, é o mundo do orgânico - do tempo orgânico. E, simultaneamente, tudo aí tem que ser comportamento e meio. Ou seja: quando nós executamos uma prática chamada comportamento, esse comportamento implica um Eu, que age - e um mundo, que é agido. Existem, então, sempre dois. A segundidade se constitui por dois!

O mesmo autor, Maine de Biran, vai falar sobre determinadas ocorrências na vida da subjetividade, como a hipnagogia, por exemplo. A hipnagogia são imagens flutuantes - quando nós não estamos nem na vigília nem no sono. Elas estão entre os dois - entre a vigília e o sono; e começam a aparecer imagens flutuantes, sobre as quais não conseguimos ter domínio. Elas têm um procedimento autônomo - independem de nós. Essas imagens da hipnagogia não pressupõem o ego. Não há ego, não há Eu: elas são inteiramente independentes de um eu. Como, por exemplo, ele ainda vai falar nas visões da loucura, quando esse Eu também não aparece. Ou no sono, no delírio, no desfalecimento, nas grandes dores. Então ele começa a citar determinadas ocorrências que se dão em nós, onde o ego não está presente:

Como exemplo, eu vou usar a hipnagogia. Eu mantenho a hipnagogia durante umas duas aulas, para que depois vocês possam ter maior compreensão, porque é nítido que na hipnagogia esse ego - que é tão presente na imagem-ação - [desaparece, ou seja:] se encontra ausente. O que eu estou chamando de hipnagogia são aquelas imagens que aparecem para nós entre o sonho e a vigília. Ou - eu ainda vou citar uma coisa ainda mais poderosa - o sono. No sono, o ego se dissolve completamente. No sono, há uma dissolução absoluta do ego. É nessa dissolução do ego que aparece o que se chama primeiridade.

A primeiridade, essa hipnagogia ou o sono chamam-se qualidades e potências puras. Essas qualidades e potências puras já não pertencem à imagem-ação - pertencem à imagem-afecção.

Então, nessas imagens-afecções, onde aparecem as qualidades e potências puras, onde desaparece o binômio - já não há mais binômio, já não há mais dualidade, já não há mais dueto; há elementos puros, qualidades puras, potências puras - eu vou re-explicar essa questão na próxima aula: qualidades puras e potências puras... As categorias clássicas, que nós aplicamos na imagem-ação - dialética, oposição, contradição - aqui não existem. Não existem aqui!

Então, nesse mundo da imagem-afecção, você não pode mais aplicar esses mecanismos lógicos que funcionam no mundo da ação - mecanismos que se chamam bom senso. Ou seja: aqui, no mundo da imagem-afecção, para você compreender, você tem que constituir novas coordenadas teóricas. O que eu estou dizendo é que o nosso intelecto é constituído para dar conta do mundo da imagem-ação - e ele faz isso com uma eficiência notável! Ele funciona nesse mundo. E é nesse mundo que se constroem as grandes questões do sujeito pessoal - como, por exemplo, a amizade.

A amizade é exatamente um processo intelectual - os animais não têm amizade uns com os outros! A amizade pressupõe o intelecto. E os amigos são aqueles que se constituem pela combinação do intelecto, pelo ajuste do intelecto - eles vão se concebendo uns aos outros.

E essa prática intelectual não se dá na imagem-afecção, porque a imagem-afecção não se submete ao bom senso do binômio. Aqui, na imagem-afecção - que o Peirce chama de primeiridade e que o Maine de Biran chama de afecção simples - são as qualidades e potências, elementos inteiramente puros, que vão gerar a compreensão da noção disso que eu chamo de afeto. (Nós vamos ter que começar a trabalhar aqui!)

Ou, de outra maneira: na imagem-ação - que é o organismo, o comportamento, o que na aula passada eu chamei de corpo; e na imagem-afecção, que na aula passada eu chamei de incorporal - é a primeiridade, são as qualidades e as potências. Então, nós estaríamos em domínios completamente diferentes. De um lado, a primeiridade, de outro, a segundidade.

Por exemplo, um esteta francês ou um teórico de estética francês chamado Mikel Dufrenne - acho que é o primeiro livro que eu cito aqui para vocês - tentou, na obra dele, com imensa dificuldade, fazer uma estética da imagem-afecção. Em vez de fazer a estética clássica - que é feita da imagem-ação (nós temos uma estética clássica da imagem-ação), ele mergulha nessa estética da imagem-afecção. Será que ao fazer isso ele estaria mergulhando na estética daquele pássaro que contempla o crepúsculo e a aurora? - Ou seja: começa a aparecer um mundo inteiramente diferente!

No cinema, esse mundo da imagem-afecção se expressou por três processos - que eu já falei na aula passada - que são o primeiro-plano, as sombras expressionistas e o espaço desconectado. Ou seja: eu lancei aqui, para vocês, a existência de dois tipos de mundo - o mundo da afecção e o mundo da ação; um mundo orgânico e a emergência de um mundo cristalino. Quer dizer, um mundo completamente diferente, que é esse mundo que o Proust chama de essências alógicas ou essências supralógicas.

- Como nós vamos tentar governar esses dois mundos que estão aqui?

Com o que eu falei na aula passada. Nós vamos registrar: o primeiro é a primeiridade e o segundo é a segundidade. Nós vamos examinar a primeiridade e a segundidade - como é que isso se processa.

Por exemplo: na década de 30 apareceu uma ciência chamada etologia. E essa ciência é literalmente uma ciência da segundidade. E ela é uma ciência da segundidade inicialmente - porque depois ela vai ser da primeiridade. Porque ela é uma ciência que, quando vai pensar o corpo do ser vivo, vai compreendê-lo como [constituída por] dois procedimentos permanentes: ação e paixão. Ou seja: o ser vivo - permanentemente - age e padece. Então, ele estaria envolvido nessa ação e nessa paixão, ou seja: envolvido nesse binômio: ele sempre agiria e sempre padeceria. Eu vou dizer - o indivíduo vivo se define pela ação e pela paixão. Quando você encontrar o indivíduo vivo - ou pode dizer "o homem" - é fácil compreender que o que ele tem são oscilações de ação e oscilações de paixões - é a grande definição de indivíduo vivo. Mas essas ações e essas paixões se constituem pelos afetos. Elas se constituem pela primeiridade. Então, a etologia, na verdade, não é uma ciência da ação e da paixão. A etologia é a primeira ciência nascida no ocidente como espinosista: é uma ciência dos afetos. E é de uma beleza extraordinária o que nós vamos ver. Por quê? Porque as ações e as paixões são do mundo orgânico. Logo, as ações e as paixões pressupõem o organismo. E os afetos são pré-orgânicos. Então, o que eu estou dizendo para vocês - quase que reproduzindo Artaud - é que a vida não se explica pelo organismo; a vida se explica pelos afetos.

Nós agora vamos ter que investir nesses afetos, para entender exatamente o que é isso. E eu já tenho um meio muito poderoso para dizer alguma coisa para vocês:

Esses afetos - que não são a ação e a paixão; que não são o organismo - são eles que fazem, por exemplo, o teatro do Beckett. Toda a obra do Beckett é falar sobre esses afetos.

Eu não sei se vocês notaram que os personagens do Beckett geralmente não estão em pé. Raramente eles têm um estado vertical - ou eles estão dentro de uma cesta, ou de uma lata de lixo, estão deitados... eles se parecem muito com a dança moderna! A dança moderna é - geralmente - a quebra da verticalidade. É a entrada na horizontalidade. É a quebra do organismo. Então, o que nós vamos verificar de originalíssimo na arte moderna, não importa qual - cinema, literatura, música - onde for, é a penetração nessa imagem afecção, onde - somente nela - existe o que se chama ritmo. Só há ritmo na imagem-afecção. Porque quando nós passamos para a imagem-ação, o ritmo não existe; existe a cadência.

Então, nós começamos a entrar nessa imagem-afecção, na primeiridade, e eu vou confrontar com a segundidade, porque senão a gente se perde; a gente cai num vazio terrível - e então eu faço essa confrontação em sentido pedagógico, não em sentido do pensamento.

- O que eu fiz agora? Coloquei uma categoria originalíssima - a categoria de ritmo - na imagem-afecção; e eu vou dar uma definição de ritmo:

O ritmo é aquilo que não se repete. Ou seja: o ritmo se distingue do código. O que define o código é a periodicidade. Todo código se define por periodicidade - ou seja: por repetições periódicas. O que define o ritmo é a ausência de repetições periódicas. O que conclui a definição do ritmo é a desigualdade permanente. Ou seja: o ritmo é inteiramente oposto ao que nós entendíamos por ritmo na banda militar. A banda militar é cadência (certo?).

O ritmo seria exatamente a fonte, a força que a vida tem para se envolver com o caos. Ou seja: a vida projeta ritmo no caos, para emergir o que se chama caosmos - e aí a vida poder se dar. Então, é esse ritmo, é essa primeiridade, é esse lugar das afecções, é essa fragmentação espiritual, que não tem nada a ver com as imagens-ações; logo, nós vamos sair daquela literatura pesada, daquela maquinaria insuportável da dialética, das oposições, das contradições, da negação - nós vamos abandonar tudo isso - e vamos entrar no universo do diferencial, do alógico, do supralógico e do ritmo. E quem vai dirigir o nosso trabalho vai ser um músico - Olivier Messiaen.

Eu acho que está bom por hoje - tá?

Um beijo para vocês!

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Aula 3 – 23/01/1995 – O Empírico e o Transcendental

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados na Introdução e nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos); 11 (Conceitos); 12 (De Sade a Nietzsche) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 


O que eu vou falar - não importa o quê, eu ainda não sei nem mesmo o que vai ser... - tem como objetivo mostrar para vocês, nesta aula, por exemplo, o que é o transcendental.

Bom. Duas questões - ambas medievais. A primeira é a ideia de um Deus; o medieval pensava assim, São Tomás pensava assim - um Deus dotado de duas faculdades. (Atentem para isso: a palavra faculdade) Essas duas faculdades seriam o intelecto e a vontade. (É estranho que eu coloque a vontade como faculdade!) E o intelecto de Deus seria povoado pelo que se chama essência. Então, o que estaria no intelecto de Deus seriam as essências.

Mas - o que quer dizer exatamente essência ?

Essência é tudo aquilo que é possível de tornar-se real. Ou seja, a essência é tudo aquilo que não possui uma contradição interna que a impeça de se tornar real. Por exemplo: o que define o objeto lógico, o que define uma essência, é que ela tenha, seja regida, por dois princípios: o de identidade e o de não-contradição.

Então, tudo aquilo que puder/for regido pelo princípio de não-contradição chama-se possibilidade lógica. Ou seja: tudo o que não tiver contradição interna, tem a possibilidade de se tornar real. Por exemplo: no medieval, Deus tem seu intelecto povoado de possibilidades. Ou seja: é povoado de essências. E esses possíveis tornam-se reais; quer dizer, tornam-se existentes - desde que Deus tenha vontade de torná-los existentes. Então, a vontade de Deus, no medieval, se submete ao intelecto. No sentido de que o intelecto [divino] possuiria todos os possíveis. (Certo?)

Então, pelo que eu disse aqui, a realidade pressupõe - antes de ela se dar - o possível. Pressupõe o mundo das essências, que estaria no intelecto de Deus. Voltando: no intelecto de Deus nós encontraríamos os possíveis.

- O que é possível? Por exemplo: a mesa, a cadeira, a árvore - por que esses três elementos são possíveis?

Porque eles não trazem nenhuma contradição interna. Mas eles só se tornam reais se a vontade de Deus quiser transformá-los em reais. Então, digamos, a vontade de Deus tornou, esses possíveis, reais. Quando eles se tornam reais, eles se chamam individuais. Ou seja: tudo aquilo que é real, é individual. E tudo aquilo que está no intelecto de Deus chama-se universal.

Então, a diferença de universal para individual, é que o universal é do campo da possibilidade e o individual é do campo da existência. Por exemplo: eu - Claudio - sou um indivíduo existente. Mas o homem é uma possibilidade no intelecto de Deus. Logo, aquilo que eu estou chamando de universal não teria a mesma realidade que o individual - porque o individual teria uma realidade existencial. Ou de uma maneira mais clara: tudo aquilo que existe é - necessariamente - individual. Tudo o que existe é necessariamente um sistema individuado. Enquanto que o universal passa para o campo dos possíveis - no caso dessa explicação que eu dei para vocês. Ainda que a gente encontre determinadas teses que afirmem a realidade existencial tanto do universal quanto do individual. O grande mestre que tirou os universais do campo existencial foi Guilherme de Ockham. Ele tira os universais do campo existencial, [mantendo ali] apenas o individual. Mudando a linguagem: o indivíduo é o único ser ontológico- porque é o ser que existe - independente de qualquer coisa. Enquanto que o universal torna-se semiológico. Havendo aqui uma distinção entre a semiologia dos universais e a ontologia dos individuais. A filosofia, até o princípio do século XX, manteve essa distinção, embora muitos pensadores ainda admitissem que o universal pudesse ter realidade. Mas essa distinção foi praticamente mantida e o universal tornou-se signo - a cadeira, a mesa, o lápis, o cavalo, pouco importa o que, todos esses universais se tornaram signos. E os indivíduos - que nós costumamos nomear pelo dedo apontado, pelo nome próprio, pelo adjetivo demonstrativo - ganharam existência real. (Certo?)

Então, a realidade passou a ser constituída e habitada por indivíduos (tá?). Os indivíduos são aqueles que povoam o que se chama realidade.

Vamos dizer, da década de 40 para cá, determinadas linhas de pensamento - prestem atenção, hein? Agora as coisas vão ficar um pouco difíceis! Eu vou voltar antes de entrar! - Os universais não ganharam realidade ontológica. Mas têm uma espécie de realidade - uma realidade mental ou uma realidade de linguagem, uma realidade linguística: o universal existe na linguagem; existe na subjetividade. Mas não existe independente ou da linguagem ou da subjetividade. Enquanto que o individual, o indivíduo tem uma realidade autônoma - por isso, ontológica. Agora, a partir mais ou menos de 1940 aparece um termo - singularidade ou singular - que inicialmente é tomado como sinônimo de individual. Ou melhor, já no século XIV a palavra indivíduo e a palavra singular, a palavra individualidade e a palavra singularidade eram tomadas como sinônimos. Mais ou menos a partir de 1940 a singularidade se separa da individualidade. O singular aparece como outra realidade. Vamos dizer: o universal, que é Mental ou Linguístico; o individual, que é ontológico, que é real. E, agora, uma terceira realidade - chamada singularidade.

Antes de penetrar, eu vou colocar os territórios de cada uma:

Os universais são objetos mentais. Ou seja, se não houvesse isso que se chama mente, não existiriam os objetos chamados universais. Os individuais ou os indivíduos são aqueles que povoam a realidade empírica.

- O que é a realidade empírica? Tudo o que existe neste ou noutro planeta qualquer. Empírico é o vivo, o objeto técnico, o objeto físico, o objeto químico, a combinatória de duas moléculas, um átomo - tudo isso é um indivíduo porque tem uma realidade empírica. (Certo?) E o universal é uma realidade mental. O Singular, a singularidade - que seria o outro elemento, o terceiro elemento, sempre foi confundido com o individual. E neste momento de aula, nós não temos poderes para distinguir o singular do individual. Mas - esse singular - também vai ter o seu território. E o território do singular - ainda que rompendo com todas as tradições das filosofias clássicas, sobretudo a filosofia kantiana - chama-se transcendental.

Como nós estamos num trabalho de compreensão - que às vezes torna-se longo e difícil - a minha questão, neste momento, é simples: é marcar a presença de três territórios:

•  O território do universal - que seria o território do mental;

• O individual - que seria um território empírico, ou seja: para existir, o individual não depende senão dele próprio (enquanto que o universal, para existir, depende da mente ou da subjetividade);

• A singularidade - que à semelhança do indivíduo não depende de nada para ter a sua realidade.

Conclusão : o universal não é real - porque é mental.

Mas o individual e o singular são ambos reais - apenas diferem, porque o individual é do campo empírico e o singular é do campo transcendental. (Eu sei da dificuldade extremada disso daqui!)

O que eu estou levantando para vocês - e que eu vou fazer diversos procedimentos para alcançar os meus objetivos - é que a ciência do real tem como objeto de trabalho, o individual. Ela trabalha com o individual.

- Por quê? Porque o individual é aquilo que existe - aquilo que tem realidade empírica.

Mas eu coloco essa noção de transcendental e povoo esse universo que eu estou chamando de transcendental - ainda sem explicar - com esses elementos que eu estou chamando de singularidades. O que vai acontecer de original é que a partir disso daí, as ciências - ao invés de trabalharem com o individual - passam a ter duas metades: de um lado o individual; de outro, a singularidade. (Ainda ficou muito difícil!)

O que eu estou dizendo para vocês? Nesse primeiro investimento, eu estou constituindo aqui - acredito que com uma total facilidade - três componentes: um componente mental, que eu povoo com os universais; um componente empírico - por exemplo, esta sala que está aqui, que é povoada de indivíduos; e um terceiro território, que eu chamo de transcendental, onde eu introduzo o que eu chamei de singularidade.

Vamos avançar!

Uma filosofia do século II a.C. - chamada filosofia estoica - que tem uma repercussão imensa na formação do pensamento ocidental, vai fazer uma prática inteiramente original. Uma prática que nenhuma filosofia até então havia feito: ela vai pegar as três dimensões do tempo - passado, presente e futuro - e separar em duas partes, colocando de um lado o presente e, de outro, o passado e o futuro. ´

- O que os estoicos fizeram? Eles fizeram uma divisão no tempo que, até então, nenhuma filosofia teria feito. Porque todas as filosofias, quando trabalham no tempo, trabalham nas três dimensões - passado, presente e futuro; os estoicos, não! Os estoicos pegaram as três dimensões e colocaram o presente de um lado, e de outro, o passado e o futuro - ligando o presente ao indivíduo; e o passado e futuro à singularidade. (Já começa a clarear! Já começa a aparecer!)

Então, como eu disse para vocês, é de uma dificuldade extremada envolver-se nesse processo - saber o que está acontecendo realmente! Provavelmente - pelo menos no platonismo e no aristotelismo - o pensamento esteve sem vias para fazer grandes envolvimentos com o tempo - porque no modelo Platão e Aristóteles o tempo nada mais é que uma imagem móvel da eternidade. Enquanto que, nos estoicos, o tempo se liberta; e nessa libertação do tempo, eles vão colocar o presente do lado do indivíduo e o passado e o futuro do lado das singularidades.

Presente - o indivíduo.

Passado e Futuro - as singularidades.

Empírico - presente e indivíduo.

Transcendental - passado e futuro; e singularidades.

O que nós temos que fazer é isto: vocês têm que seguir esse quadro que eu estou montando, que nós vamos entender!

Atenção, porque agora vai aparecer um momento dificílimo:

- O que nós já temos do lado do indivíduo? Presente e empírico, (não é?) Do lado do indivíduo estão todos e quaisquer corpos - o corpo está do lado do indivíduo.

Então, se nós chamarmos alguma coisa de corpo, essa coisa que se chama corpo pertence ao presente, ao indivíduo e ao empírico. Logo, no singular, no transcendental, no passado e futuro não existe corpo. Melhor dito, agora: a palavra existência é literalmente - no caso desta explicação que eu estou dando - sinônimo de corpo. Ou seja: só pode existir o corpo - nada mais pode existir!

Por exemplo:

- Deus existe? Se existir - é um corpo! (Certo?)

- O fantasma de Getúlio Vargas existe? Se existir, é um corpo.

A existência e o corpo se identificam.

Então, de um lado: existência, corpo, indivíduo, presente, empírico.

Ora, a partir daí, a singularidade, que já tem o seu próprio campo - que é o transcendental, seu próprio tempo - que é o passado e o futuro; a singularidade - lamentavelmente - não existe.

Está surgindo - na ordem do pensamento - uma realidade, porque a singularidade não é um objeto mental; pois, se ela fosse objeto mental, ela seria universal. Ela tem uma realidade autônoma -, mas ela não existe e não é um corpo.

Os estoicos, com a maior facilidade, chamaram essa realidade - que não existe, que não é um corpo - de incorporal. Então, o universo dos estoicos - eu acho que agora está ficando mais claro! - é, de um lado, o corpo: o corpo está no presente do tempo. De outro lado, o incorporal, que é dilacerado, esquartejado: ao mesmo tempo no passado, e ao mesmo tempo no futuro.

O corpo é empírico, observável, experimentável.

A singularidade é transcendental.

O corpo existe e o singular não - existe. (Foi bem?)

Aluna: Por que você disse assim: lamentavelmente a singularidade...

Claudio: Lamentavelmente para a compreensão. Lamentavelmente - no sentido pedagógico; não no sentido ontológico. (Certo?) Porque eu nunca iria considerar lamentável o fato de um singular não ter existência. Mas como nós estamos no campo da pedagogia e que isso começa a ser expresso, (não é?) oprime: é difícil para a gente entender!

- Por que [é difícil para a gente entender]? Porque eu estou mostrando para vocês, de um lado, o que seria a ciência moderna - essa ciência implicando os dois componentes: o singular e o individual. De outro, a filosofia - que seria sempre do singular, ou seja: a matéria da filosofia seria o singular; e, mais surpreendente ainda, a matéria da arte - que também seria esse singular. (Vamos outra vez!)

Aluno: O corpo histérico seria um corpo, seria o singular?

Claudio: O "corpo histérico" seria incorporal, seria o singular - porque o único corpo que existe é o corpo orgânico. Seria o único que existe. Então, o corpo orgânico está do lado do individual; o histérico estaria do lado do incorporal. O corpo histérico - literalmente - não existe! Qualquer psiquiatra sabe disso, (não é?)

Aluna: Por isso, naquela hora, você ficou devendo a explicação daquela palavra?

Claudio: Exatamente! Não havia como - naquela hora - falar sobre isso.

Então, o que nós temos que fazer, é literal: é o melhor processo pedagógico - é fazer uma divisão... e ir colocando os termos. (Depois eu desfaço isso!) Porque eu identifiquei o individual ao corpo; E no caso - como o M. falou, eu concordei: é individual; o corpo funcional - é individual. Agora, esse corpo está no presente do tempo.

- O que se chama presente do tempo ?

Vamos colocar que o presente no tempo é constituído por um conjunto de instantes: presente, presente, presente, presente... (Certo?)

Por exemplo: os seres que estão do lado do indivíduo não necessitam de tempo para existir: basta, para eles, a dimensão presente. Enquanto que o singular - que é o grande enigmático desta aula - ele está num tempo estranhíssimo, porque ele é - simultaneamente - passado e futuro. Ou seja: tudo aquilo que é simultaneamente passado e futuro é esquartejado - nunca aparece no presente!

Então, essa singularidade, esse transcendental, esse "passado e futuro simultâneo" começam a perturbar o que nós chamamos - o nosso pensamento. O nosso pensamento começa a se ver quebrado: [a ver quebrados] todas as suas referências e todos os seus eixos. Porque, a chegada da singularidade, a chegada do transcendental - é a chegada do paradoxo.

O paradoxo começa a fazer parte de uma investigação científica; fazer parte de uma investigação filosófica; ou a fazer parte de uma prática artística - porque desde que nós aceitemos essas ideias, (vou repetir) transcendental, singularidade, passado e futuro simultâneos, incorporal - nós temos que incluir nelas a ideia de paradoxo.

E agora, eu vou voltar, para vocês entenderem!

(virada de fita)


[...] que até então não tinha aparecido.

É possível que os estoicos, que a filosofia estoica, seja a responsável pela descoberta desse território. E esse território - que é descoberto pelos estoicos - vai ser re-descoberto (sem que eles conhecessem os estoicos) por lógicos do século XIV; e vai ser re-descoberto (sem que ele conhecesse os lógicos do século XIV ou a filosofia estoica) por um pensador magnífico - chamado Whitehead - no século XX. (Certo?)

E, então - novamente - nós estamos diante de uma matéria muito difícil! Não difícil em si mesma; mas em função da constituição da nossa subjetividade - que é organizada sob o regime e a lei do princípio de identidade e do princípio de não-contradição.

Então, sempre que o nosso pensamento - ou aquilo que nós chamamos de pensamento - se defronta com o paradoxo, o que classicamente se faz, é jogar o paradoxo para o fundo dos oceanos... à semelhança do que Platão queria fazer com os sofistas - porque os paradoxos seriam [recusados como] aquilo que impediria o pensamento de pensar. E os que [trilham] o caminho de pensamento por essa [outra] linha afirmam que o paradoxo - ao invés de ser aquilo que impede o pensamento de pensar - ele, o paradoxo - é a paixão do pensamento.

(Então, é essa entrada, é essa a divisória que nós vamos ter que fazer, que nós vamos acompanhar, lutar para compreender. Nós vamos usar pares... porque... - eu não sei se a minha pedagogia é boa. É uma invenção minha (não é?) Ela pode falhar! E na hora que ela falhar, vocês consertam...)

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Eu vou fazer o seguinte: eu vou colocar, de um lado, o individual, de outro, o singular. De um lado o empírico, de outro o transcendental. De um lado o presente, do outro o passado e o futuro. De um lado o corpo, de outro o incorporal.

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Bom, o incorporal e corpo: Essa noção de incorporal foi magnificamente trabalhada (essa informação é apenas para garantir teoricamente o que eu estou falando...) por um lógico do século passado chamado Meinong. Ele fez um trabalho excepcional sobre isso, e na obra dele fica claríssimo, mas claríssimo, que o nosso pensamento não tem que se submeter aos existentes - o nosso pensamento pode penetrar naquilo que não existe. Eu vou falar muito sobre o Meinong.

Quando a gente toma o primeiro contato com esse incorporal - fica muito difícil para nós entendermos. Eu vou tentar, durante umas duas ou três aulas, usar estratégias [pedagógicas] e depois disso eu sigo uma carreira acadêmica - eu acredito que então vocês já terão meios para [enfrentar] isso.

Eu vou dizer que todo corpo orgânico, ou seja: todo ser vivo seria um corpo orgânico; logo, estaria do lado do individual, do presente e do empírico (está claro, não é?) Todo ser vivo tem um comportamento (vamos anotar isso!) e ele, esse comportamento, se manifesta no meio em que o vivo está integrado. Ou seja: esse meio pode variar, mas o vivo tem sempre um comportamento integrado ao meio, que eu vou chamar de - meio geográfico ou meio histórico.

O indivíduo vivo está - necessariamente - integrado ao meio geográfico ou ao meio histórico onde ele se efetua, pelo seu comportamento. É o seu comportamento que efetua a sua existência. E as emoções e os sentimentos desse indivíduo vivo regulam ou desregulam o comportamento. Não tem nenhuma dificuldade no que eu estou dizendo! O indivíduo vivo e o meio geográfico: eu, no Rio de Janeiro, e o meu comportamento... E esse comportamento sendo regulado e desregulado pelas emoções e pelos sentimentos.

Então, pelo que eu falei para vocês, necessariamente, comportamento é corpo, emoção é corpo, sentimento é corpo. Por quê? Porque eu coloquei comportamento, emoção e sentimento do lado [esquerdo do quadro]. Tudo o que eu colocar do lado [esquerdo do quadro] é corpo. (Até aqui, é da maior facilidade!)

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Existe - na literatura, no cinema, na filosofia, na ciência, pouco importa o quê; vamos usar na ciência, para ficar mais claro - algo que se chama imagem-ação ou realismo. Então, imagem-ação e realismo vão para o lado [esquerdo do quadro], (certo?) O que nós chamamos de realismo é o indivíduo vivo, com um comportamento, regulado ou desregulado pelos sentimentos ou pelas emoções, num meio geográfico e histórico. Isso se chama ação: é o mundo da ação. É o mundo em que todos os indivíduos vivem. Eles agem e reagem dentro desse mundo. Então vamos ver uma coisa aqui:

O cinema se aproveitou disso - logo, se aproveitou do corpo, se aproveitou do indivíduo, se aproveitou do movimento que o indivíduo faz, se aproveitou das ações e das paixões dos indivíduos, das emoções, dos sentimentos, do comportamento - e constituiu um cinema chamado cinema realista, que é o cinema propriamente de Hollywood. O western é um exemplo disso. Seria o cinema ação. (Tá?)

- Quais os elementos que nós temos aqui?

Presente, Corpo, (Agora, já é uma massa, não é?) Indivíduo, Comportamento, Meio-Geográfico, Meio-Histórico, Ação, Sentimento, Emoção - já é uma massa, já é uma massa! Todos esses elementos pertencem ao que se chama - em Cinema, vamos botar assim: imagem-ação. Ao que pertence - não importa o quê - ao realismo. Tudo isso que está aqui [do lado esquerdo] é real.

Agora eu vou usar um nome para - como se fosse um carimbo: eu vou carimbar - pah! - segundidade! É o termo de um filósofo chamado Peirce.

- O que o Peirce chama de segundidade? O Corpo, o Indivíduo, o Comportamento, o Meio-Geográfico, o Meio-Histórico, a Ação, a Reação, a Paixão, a Emoção (que beleza!) Tudo isso para ele receber esse nome - segundidade (tá?).

Agora, vamos passar para o [lado direito]: para o transcendental, para o incorporal... E aqui começa a ficar tudo difícil, porque - em primeiro lugar - o Incorporal não existe; logo, ele não é real! De maneira nenhuma ele pode ser chamado de real. E agora eu vou colocar uma palavra do lado do incorporal - e essa palavra vai dar problema, eu tenho certeza - eu vou colocá-la do lado do incorporal, ou seja, do lado daquilo que não existe - afeto.

Ou seja: o afeto ou os afetos não se confundem com sentimentos, emoções e comportamentos. Os afetos pertencem ao Incorporal. (Certo?) Nós vamos ter que descobrir nesta aula o que é afeto! Agora:

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Incorporal, Transcendental, Passado e Futuro - o Peirce vem com seu carimbo brilhante e pah! - Primeiridade!

Aí, nós temos a primeiridade e a segundidade. A segundidade, nela vamos agora fazer uma espécie de pasta de colégio, e botar de um lado a pasta da segundidade e do outro lado a pasta da primeiridade. Nessa pasta da primeiridade é onde está o afeto, onde está o incorporal, o transcendental, etc. Quando o cinema quis mostrar a primeiridade, o que ele fez? Ele fez três práticas: o primeiro plano - que é a mostra dos afetos ou das singularidades. (Tá? Ninguém precisa ficar preocupado, que daqui a pouco eu vou explicar melhor)

Então, o primeiro plano é o lugar em que a singularidade ou o afeto - a primeiridade aparece. Mas a singularidade ou o afeto aparecem também no que se chamam sombras expressionistas. Então, primeiro plano, sombras expressionistas - e deixem passar essa palavra que eu vou dizer agora - espaços desconectados. Não importa isso daqui, o que importa é o seguinte:

Vamos pegar o que eu acabei de falar - de que lado eu coloquei a singularidade e o afeto?

Alunos: Do lado da primeiridade!

Claudio: E o primeiro plano? Também! Agora vamos fazer um exame aqui. Vamos examinar o rosto. Pode ser o meu mesmo: o meu rosto.

O rosto - qualquer rosto - é necessariamente socializante. O rosto tem que trazer marcas de socialização. É uma coisa muito fácil de entender, quando nós nos defrontamos, por exemplo, com o problema do mongolóide, que ele tem o rosto absolutamente igual, e você não pode fazer as caracterizações de socialização. Todo rosto traz com ele marcas socializantes.

De outro lado, todo rosto traz, com ele, as características comunicantes - os rostos servem para comunicar. Nada melhor do que ver os retratos dos políticos na hora das eleições: eles fazem tudo para comunicar alguma coisa. Eles [ostentam] um riso que vai até o nariz ou então um sorriso que cai de baixo do... - fazem qualquer coisa!

Então, o rosto tem duas características muito claras - socialização e comunicação. Mas há uma terceira mais poderosa. A mais poderosa chama-se individuação. Todo rosto é individuante. Calculem se o meu rosto revelasse o Chico, ao invés de mim! Meu rosto me individua.

Comunicação, socialização e individuação são características do rosto; logo, são características do corpo - pertencem à segundidade.

Quando nós passamos para o primeiro plano, ali nós não temos mais as características corporais. O rosto, no primeiro plano, perde essas três características - a socialização, a comunicação e a individuação - e se torna um pacote de afetos: um feixe afetivo; um pacote de sensações. (Certo?) Ou seja: nós começamos agora, - através da noção de rosto, da pura noção de rosto, da simples noção de rosto -, nós já podemos entender Cézanne, Paul Klee, Van Gogh...

Vamos dizer que um girassol tivesse três características: comunicar, socializar e individuar - menos o girassol de Van Gogh. Que são exatamente essas características que ele retira do seu objeto, para deixar com que aquilo que ele está pintando só expresse afetos. (Certo?)

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Então, o primeiro plano, no cinema, teria a capacidade estranhíssima - de des-individualizar, des-comunicalizar e des-socializar o rosto (e nós vamos ter que ver isso, nem que seja por projeção).

Dizem que, um dia, a Liv Ulman e a Ingrid Tulin estavam conversando e olhando um primeiro plano que supostamente uma delas teria feito, e a Liv Ulman disse:

- Olha você ali! E a Ingrid Tulin retrucou:

- Não, não sou eu não, é você!

Ela já não se reconhecia - não havia mais o processo de reconhecimento. Porque o rosto, o primeiro plano, teria passado para esse campo dos afetos. Mas, não seria somente com o primeiro plano que esses afetos e esses incorporais apareceriam. Haveria mais dois processos - que seriam as sombras expressionistas (depois eu vou mostrar!) e o que eu chamei de espaço desconectado.

Agora eu vou crescer, vou crescer:

Do lado do indivíduo, eu coloquei a existência do indivíduo orgânico, (não foi isso?) E esse indivíduo orgânico, com todas as suas características; e - seguindo Nietzsche - o organismo, ou melhor, o indivíduo tem como seu último órgão, como o mais aperfeiçoado dos seus órgãos, a consciência.

- De que lado está a consciência?

Do lado do corpo. A consciência é um órgão da segundidade.

Logo, eu vou colocar o inconsciente do lado do incorporal. E essa prática de colocar o inconsciente do lado do incorporal chama-se - tirar o inconsciente do modelo orgânico ou desumanizar o inconsciente. O inconsciente sai desse modelo orgânico, e passa para o outro lado. O inconsciente, então, passa a ser uma complexidade afetiva, uma complexidade temporal, (tempo, não é? passado e futuro) de singularidade, de esquartejamento, mas, ao mesmo tempo, esse inconsciente seria o responsável pela produção dos indivíduos corporais. Logo, o lado do incorporal passa a ser genético - passa a ser a gênese. Por isso, que eu comecei a aula dizendo que nesse modo de pensar você não pode se limitar a pensar apenas um dos domínios. O pensamento passa agora a ter duas partes - a parte incorporal e a parte corporal. Ou melhor: o pensamento passa a ter duas metades. (Foi bem, não é? Foi bem!)

Aluno: Você falou também que a ciência teria atualmente duas metades.

Claudio: Sim.

Aluno: Eu gostaria de alcançar um pouco mais.

Claudio: É, nós vamos alcançar isso. Nós vamos alcançar! Porque isso tudo que eu estou fazendo para vocês agora, depois eu entro numa série mais... com uma linha até mais nômade, mais abstrata... para mostrar isso para vocês. Deixem-me continuar... (certo?)

Vejam bem: o presente é a dimensão do tempo do lado da segundidade, não é? O presente é aquilo que tem limites. Por isso, todo indivíduo tem... limites. O presente traz o limite para os corpos, enquanto que o passado e o futuro é o ilimitado. Logo, pode-se dizer - numa outra linguagem - que quem está do lado da primeiridade está do lado do infinito; enquanto que, quem está do lado da segundidade está do lado do finito. (Ficou muito ruim aqui?)

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O infinito, do lado direito, na primeiridade - que é o ilimitado do passado e do futuro.

E o finito, do lado esquerdo, do presente - que é dos corpos.

Então, eu aqui já defino de forma definitiva: a ciência é sempre ciência dos corpos. Não quer dizer que ela não pense no infinito - depois eu mostro para vocês. Então, toda ciência é - necessariamente - finita. Enquanto que a arte e a filosofia são infinitas.

Então, a arte e a filosofia seriam infinitas - mantendo esses dois lados que eu coloquei.

Bom. No cinema, o lado do corpo, chama-se imagem-ação. E o lado do incorporal chama-se imagem-afecção.

PosterEu citaria [inclusive] um filme, cheio de Imagens Afecções, que passou há pouco tempo - Europa, de um diretor chamado Lars Von Trier, não sei se vocês viram. Ele é muito marcado por imagens afecções e inclusive as imagens do trem, no túnel. O que mostra - que os afetos - não são orgânicos. Eles - os afetos - independem de qualquer organismo. Os afetos são anteriores, ou melhor, todo o incorporal é anterior ao corpo.

Agora, vou lançar mais dois elementos do lado do corpo - uso e função. Então, por exemplo, eu filmo a Ponte Rio - Niterói, num plano fixo, não sei de onde, das barcas, por exemplo (não é?) E aí essa ponte aparece enquanto funcional, orgânica e com suas propriedades de uso. Ou seja: a maneira como eu a filmo, qualquer observador sabe que um carro pode transitar por ali. No entanto, se por acaso eu filmar um pedaço de ponte, depois outro pedaço de ponte, e amontoar esses pedaços, o que eu tiro desses pedaços de ponte é a função e o uso - é isso que se chama espaço desconectado.

Espaço desconectado é quando você retira do espaço esses dois [inaudível] função e uso.

(intervalo para café)

(Eu consegui dar essa aula sem AR NENHUM!)


[---] corpo, individual, etc., é onde estão a história e a narrativa. (Olha, cada elemento desses, que eu for dando para vocês, depois eu vou retornar, viu?)

A história e a narrativa pertencem à segundidade. Logo, tudo o que ocorre na segundidade tem uma história!? Ou melhor, os membros da segundidade têm uma história pessoal.

Quando eu falo do Cassavetes e do Godard e aponto os dois como sendo o cinema do corpo, o que eu estou chamando de corpo aí é o incorporal (viu?) - no Cassavetes e no Godard, utilizando uma categoria do Brecht, que se chama Gestus. Aqui vocês veriam dois encadeamentos: o encadeamento do mundo dos corpos, do mundo do indivíduo é sempre um encadeamento histórico. São procedimentos históricos que vão se encadeando. Enquanto que do lado do incorporal, do lado do Gestus, os encadeamentos são completamente diferentes, porque as personagens perdem a história pessoal. Elas vão romper com a história pessoal. Nós vamos ver isso para poder compreender.

(Bom. Eu estou inteiramente satisfeito com essa apresentação que eu fiz, eu acho que foi um sucesso... eu vou seguir com ela)

A gente pega um objeto, por exemplo: esse copo que está aqui, e nitidamente - é fácil de entender - que este objeto, o copo - que é um objeto técnico - tem um valor de uso. O valor de uso dele - pelo menos classicamente - é beber água, (não é?) Poderia ser "jogar na cabeça dos outros...", não quer dizer nada - mas ele tem um valor de uso. E além do valor de uso, ele tem um valor de troca, porque você pode levar este copo para o mercado e trocá-lo por uma banana. Então, este objeto que está aqui, tem um valor de uso e um valor de troca nítidos, (não é?) Inteiramente nítidos. E, em terceiro lugar, ele é um signo, no sentido de que este objeto aqui foi dado por um amigo. Um amigo me deu este copo! Então, um dia qualquer, quando eu for beber água, eu pego o copo e em vez de me preocupar com o valor de uso ou com o valor de troca do copo, eu evoco o meu amigo. Essa evocação transforma o copo num signo. Então, o que a gente apreende aqui com a maior facilidade é que qualquer corpo pode ser valor de uso, valor de troca e pode ser signo. Indiferentemente, todos os corpos...

(virada de fita)


II -

[---] envolver todo o campo teórico e todo o campo das nossas vidas. Ou seja: não é que entender o nascimento do tempo signifique que a nossa vida irá mudar - não é exatamente isso! Mas, a partir do instante em que nós começarmos a nos interessar por [esse tema], e a verificar que os "modelos de subjetividade" que estão por aí não são absolutamente necessários... e que nós poderemos produzir outros tipos de subjetividade... Numa divisão como a que eu estou fazendo aqui nesta aula, de modo a seguir essa trilha que eu estou fazendo, eu colocaria do lado da segundidade uma subjetividade material; e do lado da primeiridade, uma subjetividade espiritual.

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É um momento difícil, é uma exposição cruel, (não é?) porque ela quebra tudo aquilo que vocês fizeram hoje, (não é?) tudo aquilo que vocês vão fazer depois desta aula... É como se nós entrássemos num reino de ficção científica; habitássemos aquele reino de ficção científica; e depois fechássemos a porta dele e voltássemos para a nossa vidinha miserável!

Então, essa primeira entrada no que eu vou passar a chamar de sínteses do tempo, eu vou utilizar - fortuitamente - um filósofo de língua inglesa do século XVIII chamado - Hume. Vamos tentar compreender a primeira entrada nisso daqui, que ao fazer essa explicação, eu vou fazer a mesma oposição - colocar um do lado da primeiridade; e o outro do lado da segundidade.

Uma ideia, que já é grega: a ideia de instante.

Instante é a ideia de menor quantidade de tempo. Da mesma forma que segundo é a menor quantidade de tempo do relógio; o instante é a menor quantidade de tempo em termos metafísicos. Então, o tempo teria a sua unidade mínima, que seria o instante. Mas acontece que um instante traria com ele uma lei - a Lei da Descontinuidade.

- O que é a lei da descontinuidade? É que um instante está sempre separado de outro instante. Eles são descontínuos; eles não aparecem juntos - aparecem separados. Por isso, o instante é regido por essa lei da descontinuidade.

Toda a questão do nascimento do tempo se dará (e eu já fiz isso na primeira aula com vocês) pela tentativa de tornar os instantes contínuos - o que se chama síntese passiva.

Se eu digo para vocês que os instantes são descontínuos... e se essa descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo... isso aqui fica complicado; complicado eu dizer que a descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo! Eu, então, vou introduzir a ideia de tempo - que é uma ideia arbitrária; mas [que] eu vou introduzir como sendo a uma pequena ou grande duração. Ou seja: o que se chama tempo é um conjunto de instantes. Mas esses instantes - no tempo - não seriam descontínuos; estariam juntos!

Então, o tempo suporia um processo que transformaria a descontinuidade dos instantes em continuidade. A descontinuidade dos instantes em duração ou em pequena extensão. Para isso, para que haja esse processo da passagem da descontinuidade dos instantes para uma continuidade - que seria a duração - o intermédio, o ser para executar isso se chama - alma. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação contraente.

Então, instantes separados, descontínuos; depois, instantes juntos, contínuos. Entre os dois, o que eu chamei de - contemplação contraente. (Vamos tentar então isso!)

- O que é contemplação contraente.?

Um filósofo chamado Hume - como eu falei para vocês - constituiu uma tese excepcional, em que ele fala de uma - imaginação contraente...

(Vamos tentar compreender aqui, sem o menor problema, porque nas próximas aulas isso tudo vai se resolver, viu?)

Existe uma noção do ser vivo que se chama faculdade - por exemplo: a inteligência, a memória, a linguagem, a percepção, são chamadas faculdades.

As faculdades são forças ativas dos seres vivos. A imaginação, por exemplo, é considerada uma faculdade do sujeito humano. Logo, a imaginação seria uma atividade exercida pelo sujeito vivo. Porque toda faculdade é o exercício que o sujeito vivo faz dela, exercendo, com ela, determinadas práticas.

Hume vai afirmar que a imaginação não é uma faculdade! Então, sempre que pensamos nessa ideia de imaginação - para nós, a imaginação é uma faculdade: [em virtude d]a capacidade que ela, a imaginação, tem de ligar imagens. Hume diz: não! A imaginação é apenas o nome de um lugar qualquer em que as imagens se juntam e se separam.

Ou seja: o que Hume está dizendo é que - na natureza - existe um processo que não é produzido pela imaginação - que é o processo das imagens se juntarem e se separarem, independentemente de qualquer força que as junte ou as separe.

O que ele está dizendo - é muito fácil para se compreender - é que as imagens têm um poder plástico assustador: qualquer imagem pode se misturar com qualquer imagem! Nada impede que uma imagem se misture com outra. Logo - no universo das imagens - existe o que se chama trânsito livre: não há lei regulando a trajetória das imagens.

Por exemplo: se, neste instante, eu quiser fazer esta garrafa com a cara do Sarney, é imediato, imediato - puh - aparece! Por quê? Porque as imagens têm esse processo de se associarem com as outras imagens. É um procedimento das próprias imagens associarem-se umas com as outras. Por isso, o Hume vai dizer que a imaginação não é uma faculdade ativa. A imaginação é o lugar onde se dá a associação das imagens. Nada mais do que isso. Ela é apenas o lugar em que essa associação vai se dar.

Então, nós podemos dizer que esse universo possui um lugar onde as imagens se combinam livremente - qualquer imagem se combina com qualquer imagem - livremente! Vocês podem fazer essa experimentação no que se chama hipnagogia - que é um estado - quando nós estamos entre a vigília e o sono - em que as imagens começam a passar por nós, e nós não temos poder sobre elas. E elas vão se misturando umas com as outras inteiramente livres.

Então: se as imagens podem se misturar umas com as outras livremente, significa que este universo é percorrido por um enorme delírio. Ou seja: há um enorme delírio percorrendo este universo!

- Qual delírio?

O delírio da combinação livre das imagens. Então, é daí que nascem os centauros, os cavalos alados, os dragões de fogo, as sereias... exatamente dessa combinação livre de imagens. (Vocês entenderam aqui?)

Agora, diz o Hume: aqui vem um momento muito difícil, muito difícil: um momento essencial de compreensão. Essas imagens se originam em impressões. Ou seja: a natureza - a única coisa que a natureza envia são impressões. Mas essas impressões que são - por exemplo - a impressão do azul daquele vestido. Eu fecho os olhos e faço uma imagem daquele azul. A imagem se difere da impressão em força. As impressões são fortes, as imagens são fracas.

Então, o Hume diz que a natureza é constituída de impressões; e essas imagens são o espírito. Logo, o espírito ou como diz o Hume: o fundo do espírito é delírio. Ou seja: o fundo do espírito de cada um de nós é esse delírio das imagens. Delírio insuperável - ou seja: necessariamente esse delírio está presente no momento em que o espírito se constitui. Porque o espírito se constitui por um conjunto de imagens. Conjunto de imagens esse que não é regido por nenhuma lei. Ou seja: as imagens se combinam livre e francamente.

Ora: esse é o fundo do espírito! Todo e qualquer espírito, diz o Hume, é absolutamente idêntico ao conjunto de imagens que o constitui. Ou seja: não diferença entre o espírito e o conjunto de imagens em termos delirantes - isso é o espírito para ele. Mas acontece que essas imagens se originam das impressões. Ou seja: a impressão do azul provoca a imagem do azul. Todas as imagens que aparecem, se originam nas impressões - o que mostra que o espírito é um produto da Natureza. O espírito não é filho de Deus: ele é filho da Natureza. Porque o espírito são as impressões enfraquecidas. Isso que é o espírito. Então, o espírito - não ele, mas as imagens que o percorrem; logo, ele - porque ele não é nada mais do que as imagens que o percorrem - tem a capacidade, as imagens têm a capacidade, de se fundirem uma na outra. Isso é uma coisa notável! Porque - na natureza - as impressões não se fundem uma na outra: elas estão separadas!

Eu vou passar para o Bergson e eu vou pedir que vocês utilizem aqui essa expressão que eu vou usar... é... No espírito existe uma interpenetração de fusão! Ou seja: há uma fusão entre as imagens: elas se inter penetram; enquanto que - na natureza - elas estão separadas.

Vamos de outra forma:

Na natureza - elas são descontínuas;

No espírito - elas são contínuas.

Há uma fusão no espírito e uma descontinuidade na natureza.

(Está difícil demais ?)

Coloquem assim:

Duas multiplicidades: a multiplicidade da natureza é descontínua; e a multiplicidade contínua ou de interpenetração do espírito. O espírito é onde tudo se interpenetra.

Aluna: Esse é o território do espírito?

Claudio: Esse é o espírito! O espírito é o território da interpenetração; é o território da fusão; é o território em que - quando dois elementos se fundem - outra natureza aparece. Então, o espírito é aquilo que não para de mudar de natureza.

Bom. Com essa interpenetração, o espírito tem uma diferença com relação à natureza: a diferença entre eles é que os elementos - que são as impressões - estão separados na natureza e no espírito estão juntos. Ou seja: o que estão separados na natureza - são os instantes; o que estão juntos no espírito - são os instantes. Então, esses instantes - quando se juntam - chamam-se síntese.

Síntese quer dizer - juntar aquilo que estava separado. É o oposto de análise. Quer dizer: a síntese dá-se no espírito.

- Mas dá-se no espírito, porque o espírito produz isso - ou são os elementos do espírito que são assim? São os elementos que são assim. Por isso, chama-se síntese passiva.

Essa síntese passiva é a invenção do tempo.

O que eu coloquei para vocês, é um momento muito difícil; mas, nós já temos um caminho. O nosso caminho é a imaginação contraente do Hume.

- Por que contraente?

Porque ela contrai uma imagem na outra! É o poder de contração que ela tem.

Então, o que marca o espírito é contemplar e contrair - é contemplação e contração. É a marca do espírito.

O "elemento básico" dessa exposição que eu fiz para vocês é lembrar-se que as imagens não se interpretam uma na outra porque uma imaginação lhes determina - elas se interpenetram porque é do ser delas se interpenetrarem. É do ser delas! Então, essa interpenetração provoca um diferencial em relação à natureza: enquanto na natureza existem as impressões separadas - no espírito existem as impressões transformadas em imagens inter-penetradas. Então, nasceu aqui o que eu vou passar a chamar de multiplicidade de interpenetração.

- O que é uma multiplicidade de interpenetração?

É exatamente a multiplicidade subjetiva, [ou] espiritual - enquanto que a multiplicidade física é uma multiplicidade que não se interpenetra.

Então, eu vou dizer para vocês - em outra linguagem - que na multiplicidade física, você pode aplicar números inteiros - 1,2,3,4,5,6; enquanto que isso não é possível, ou melhor, você não pode aplicar esses números inteiros na multiplicidade de interpenetração.

- Por quê? Porque, nessa multiplicidade, no momento em que dois elementos se interpenetram, aparece um terceiro elemento.

O nascimento do tempo - a tradição filosófica para a compreensão do nascimento do tempo fora da linha platônico-aristotélica - pressupõe (o Hume usou a palavra imaginação, eu vou usar a palavra espírito) um espírito que contempla e que contrai. (Eu vou dar isso para vocês na próxima aula!)

- Contempla, o quê? O que esse espírito contempla? Ele contempla os elementos com os quais ele é constituído.

- De que é constituído o espírito?

O espírito é constituído dessas imagens! E são essas imagens que ele contempla - e, ao contemplar, ele contrai. (Não sei se vocês entenderam bem...)

Aluna: Como se esse espírito contemplasse a natureza?

Claudio: Ele contempla as próprias imagens, é isso que ele contempla. Ele se contempla: ele se auto-contempla. Mas ao se contemplar - ele contrai: ele produz a contração. Eu vou passar a chamar [esse processo] daqui de narcisismo formal. ( Tudo isso eu vou tentar explicar na próxima aula!)

O que apareceu aqui foi uma noção de contemplação, que não é uma contemplação à distância - é uma contemplação próxima. Ou seja: você contempla os elementos com os quais você se constitui. E ao contemplar esses elementos que te constituem - você os contrai. E, ao contraí-los, você introduz o tempo. Ou seja - muito difícil o que eu vou dizer! - no momento em que esse procedimento se dá, vai nascer o corpo orgânico.

O corpo orgânico é um resultado da contemplação contraente. O corpo orgânico vem como resultado...

Não faz mal que tenha sido muito difícil isso hoje. Não faz mal! Eu acredito que mantendo a linha que eu coloquei na primeira parte da aula - e agora eu vou dizer que a contemplação contraente é um processo que se dá do lado direito da linha... Que essa contemplação contraente é o procedimento do nascimento do tempo... Ou seja, a pergunta é essa:

- Como a vida apareceu no planeta? O que é - exatamente - a vida? A qual linha a vida que nós conhecemos pertence - ao incorporal ou ao corporal? Ao corporal! A vida que nós conhecemos é orgânica. Mas eu estou mostrando para vocês que existe uma potência não-orgânica - que é a geradora da vida. Essa potência não-orgânica chama-se espírito contemplante e contraente. Ela é não-orgânica e gera a vida. (Vamos voltar!)

(Poderia arranjar um café para mim?)

Aluno: Claudio, o que o espírito contempla são as impressões da natureza?

Claudio: As impressões da natureza! Mas o ato de ele contemplar torna essas impressões imagens. E as imagens se interpenetram. Por isso, o espírito contemplando, contrai. O processo é esse!

(Bem, na próxima aula a gente organiza mais isso daqui. Foi bom para alguns, eu sei que foi bom para alguns! Essas noções finais, que eu estou passando, já é um preparativo para a próxima aula)

Eu estou tentando colocar para vocês duas noções dificílimas: contemplação e contração. Eu já falei sobre contemplação: falei sobre contemplação científica, templária e filosófica, lembram-se? Essas três contemplações são humanas! Essa contemplação contraente não é humana. Ela não é humana!

Aluno: É anterior?!

Claudio: Ela é anterior! Ela é a gênese do orgânico. Nós estamos na trilha: necessariamente nós vamos alcançar! [Essa contemplação] é a gênese do orgânico.

- Quer ver uma coisa interessante? Essa contemplação contraente chama-se síntese passiva. Ela gera o organismo, ela produz o organismo. Ela é uma coisa; o organismo é outra - são duas coisas diferentes! Ela é a gênese e a força da vida. E o organismo - é a vida aparecendo no mundo! Quando vocês pegam um pensador de teatro - Samuel Beckett, por exemplo. Samuel Beckett é um pensador do corpo? Mas só que do corpo incorporal. Só que do corpo da síntese passiva. Do corpo da contemplação contraente. O que nos confunde, o que nos leva quase à loucura, quando nós nos encontramos com a arte moderna - não importa se na literatura, na pintura ou no cinema - é que esses grandes artistas estão lidando com o incorporal, com a síntese passiva, com a contemplação contraente... Então, nós - que carregamos os nossos hábitos e o nosso senso comum, que só pressupõem a presença do corpo orgânico - quando lidamos com [o incorporal], não entendemos. (Certo?) É a dificuldade de entendimento [originária n]aquilo que eu chamei do domínio - emnós - da subjetividade material.

Então, eu vou pedir a vocês que, a partir de hoje, a gente faça mais uma separação: subjetividade material e subjetividade espiritual.

(eu estou com muito pouca respiração!)

A subjetividade material - não tem como caminhar agora... - essa subjetividade material é a subjetividade do realismo.

Eu vou parar aqui um instante, (viu?) E vou dar uma marca final nesta aula.

- Todo mundo conhece ou já ouviu falar no Naturalismo? Por exemplo, no Brasil, quem é o naturalista? Aluísio de Azevedo - O Cortiço? E na França? Èmile Zola, (não é?) O Naturalismo não será algo oposto ao Realismo. O Realismo é tudo o que eu falei... corpo, organismo... tudo o que eu falei.

O Naturalismo vai realçar o organismo, ele vai realçar o organismo ou o Naturalismo - que eu estou citando, porque ele é o instrumento que eu vou ter para nós obtermos compreensão. O Naturalismo estaria entre esse incorporal e o corpo orgânico. Então, para nós começarmos a fazer um trabalho para entender o que eu estou falando, eu pediria que vocês assistissem filmes do [Joseph] Losey e do Buñuel para entenderem a imagem Naturalista; para entrarem em contato com a imagem Naturalista.

Aluna: Mas o Buñuel é surrealista, não é bem naturalista!?

Claudio: Não toda a história do cinema dele, viu? Mas grande parte do cinema dele está dentro dessa linha que eu estou colocando aqui.

O que eu estou fazendo com vocês é o seguinte: eu dividi, na primeira parte da aula, Corpo e Incorporal, Individual e Singular, Orgânico e...etc. A linha que divide, eu passo a chamá-la de imagem-pulsão.

Então, Imagem-Ação, Imagem-Pulsão e Imagem-Afecção. Três imagens!

- Por que eu estou chamando a atenção dessa Imagem-Pulsão?

Porque ela vai ser um instrumento muito poderoso para nós compreendermos as outras duas. Por exemplo: há um filme do Dirk Bogarde, chama-se - O Criado. Se vocês virem, vocês vão ver: é uma coisa inacreditável! Num determinado momento do filme o Dirk Bogard se transforma num predador. Ele já não é mais um homem! Ele abandona o sentimento, o comportamento, o meio geográfico - ele abandona tudo! - e se torna um predador. Então, é importante que a gente entre nesse tipo de compreensão - o que é o cinema pulsão! - para distinguir com mais clareza o Incorporal e o Corporal.

Eu estou um pouco sem ar.

Alunos: Já tem duas horas!

Claudio: Tá? Já tem duas horas, eu estou um pouco sem ar, eu gostaria de continuar um pouco mais nas sínteses, mas não dá mais. Então, eu peço desculpas a vocês...

Alunos: Não, foi bom demais!

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Aula de 02/06/1993 – O "tarde-demais" como dimensão do tempo

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados na Introdução e nos capítulos 1 (Implicar - Explicar), 13 (Arte e Forças), 18 (Proust, o Ponto de Vista ou a Essência) e 20 (A Linha Reta do Tempo) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

PARTE I

Começo com a imagem-tempo, o que eu vou fazer via Visconti... ou Proust. Via Proust é uma associação com Bergson, sempre muito difícil. Bergson não tanto, mas o tema é difícil!

O ponto de partida da aula vocês já conhecem, mas esquecem. [É que] na hora em que o pensamento se associa com o tempo, o que vai desaparecer é o bom senso: entra-se no paradoxo, aproxima-se do não-senso. O que vou fazer exatamente é a busca do tempo feita pelo Visconti. Então, pode colocar o filme e logo, logo, vai aparecer o que me importa. Quando isso ocorrer, corto o filme e começo a falar. [Tem início a projeção do filme - Morte em Veneza].

Deixa o som, não precisa abaixar... porque vai ser praticamente a música... [Ao fundo, ouve-se a 5ª Sinfonia de Mahler].

(Eu vou falar):Morte Em Veneza (1971)

A gente tem uma visão fácil de se entender para quem acompanha o cinema ou lê livros, que é, ou pode ser, uma ilusão de uma associação entre o pessimismo e a aristocracia - ou seja, o aristocrata pessimista; o otimismo seria uma herança burguesa.

O Visconti usa muito o pessimismo, que [aplica] em Burt Lancaster, o aristocrata dele. A gente pode embarcar nesse pessimismo e não compreender o que está se passando - uma espécie de jogo que o Visconti faz. Pensar que tudo se origina no pessimismo do aristocrata. Então, o que não se pode esquecer, é que há um pessimismo na Weltanschauung, ou seja, na interpretação de mundo que o aristocrata faz. Às vezes, confundimos o que vai se passar no filme com esse pessimismo do aristocrata, mas eu vou mostrar para vocês que isso não tem nada a ver. Embora muitos dos que assistem a esses filmes do Visconti pensem que a [questão dele] está fundada no pessimismo do aristocrata, não está. Então... a questão do filme é, literalmente, a busca da imagem-tempo.

Quando digo busca da imagem-tempo o processo se torna um pouco difícil, porque implica numa certa cultura, numa certa leitura - não de cinema, mas de filosofia. Mas acho que eu resolvo essa situação com facilidade!

Nós não sabemos o que vem a ser a imagem-tempo, não podemos nem mesmo saber antes do que vai ser visto e dito; mas sabemos que há uma busca dessa imagem, com a aparência de uma prática pessimista. O que ocorre é que o cinema, e o Visconti está na ponta da partida desse processo,  decidiu conquistar o tempo... repetindo a história do pensamento - a conquista do tempo!

Cada autor que vai fazer essa prática - Orson Welles; de uma certa maneira, Mankiewisz; a nouvelle vague francesa - cada um deles vai utilizar uma estratégia, uma maneira de fazer essa conquista do tempo

O Ano Passado em Marienbad (1961)Por exemplo: quem viu O Ano passado em Marienbad [A. Resnais e A. Robbe-Grillet] assiste à conquista do tempo via Santo Agostinho - porque o que o Robbe-Grillet faz é introduzir [as] três idéias de presente do tempo [do Santo. Agostinho]: o presente do passado, o presente do futuro e o presente do presente. Isso não nos interessa no momento, mas ele vai fazer [a conquista do tempo pela] via do Santo Agostinho.

Já o Visconti, não! Ele [também] vai tentar conquistar o tempo, a imagem-tempo, e aquele de quem ele mais se aproxima é o Proust, literalmente Proust! Deleuze não diz bem isso aqui mas, se você assistir ao filme do Visconti, você vai ver que a aproximação da conquista do tempo é realmente Proust. E é isso que nós vamos ver daqui a pouco: como esse processo vai se dar, de uma maneira drástica, sofrida, torturante... O que mostra que a arte não tem nenhum compromisso com o otimismo nem com as tendências do homem burguês. Nada disso. Talvez aqui no começo tudo pareça terrivelmente pessimista e entristecedor para muitos, porque o que há de mais elevado no espírito humano, que é a arte, vai nos oferecer uma [visão] muito trágica - [tendo origem] aí a confusão com o pessimismo. Confusão que nós ainda vamos fazer por muito tempo, pensando que é isso o que está ocorrendo.

Quando eu falo em tempo, ainda muito mal colocado, uma coisa que tem que ser definitiva é que o tempo possui dimensões. Não podemos esquecer esse dado. As dimensões do tempo são muito fáceis de entender. Ao menos no nível cotidiano, passado, presente e futuro são as dimensões do tempo. Mas, se por acaso, encontrarmos um artista buscando conquistar o tempo, o que temos que descobrir é que, em consequência dessa busca, ele vai produzir [outras] dimensões no tempo: a arte invade o tempo e produz suas próprias dimensões.

O tempo, então, seria alguma coisa que aceitaria sobre si o ato de produção. É como se o tempo fosse o próprio caos, ou até melhor dizendo, não é o tempo que a arte conquista: o que a arte conquista é a eternidade. E ao conquistar a eternidade... gera o tempo!

Então, como princípio de aula, eu vou dizer que o Visconti vai introduzir uma [nova] dimensão no tempo! Daqui a pouco vou mostrar como ele faz essa introdução, para vocês começarem a entender.

A filosofia distingue essência e acidente. A essência é algo que pertence à estrutura de um ser. O acidente, aquilo que ocorre mas poderia não ocorrer. Então, todos nós, na nossa vida comum, o que temos como ocorrência das nossas vidas são fatos acidentais, sem a menor importância! O maior sofrimento que um homem tiver não tem a menor importância, porque todos podem ter. Ele pode ter aquele sofrimento ou pode não ter. Nenhum homem deveria ter eticamente o direito de dizer eu sofro; ele deveria ter o direito de dizer eu penso!

Então, a arte não trabalha com acidente mas com essência. E é exatamente essa a linha de busca da imagem-tempo: buscar uma dimensão essencial ao tempo - e é o que o Visconti vai tentar realizar em toda a obra dele.

Visconti teve muita dificuldade para encontrar a pureza da sua própria obra... mas nunca abandonou os componentes fundamentais dessa busca - que é a busca da imagem-tempo.

A maior dificuldade, nesta aula, é falar na imagem-tempo... que é realmente muito difícil  para quem não estuda filosofia. No momento, no entanto, vamos ficar com duas imagens: a imagem-tempo e a imagem-movimento. A imagem-movimento é a imagem clássica do cinema e o Visconti vai visar encontrar a imagem-tempo. É isso que ele diz.

[Referência ao filme em projeção]: Ainda está cedo, daqui a pouco vai aparecer o que eu quero.

Agora, entendam o que eu quero dizer: há um livro famoso no século XX, que é a Recherche do Proust. Recherche: investigação, busca. Busca do tempo perdido. Vejam esse nome: Recherche do tempo perdido... Buscar o tempo. É isso que o Proust chama de Recherche. É buscar a essência do tempo. Não é buscar, recherche não se traduz por "buscar", porque com o que o artista lida não é o tempo; ele lida com a eternidade. Mas é nesse encontro com a eternidade que emerge o tempo. É uma emergência do tempo, a partir do encontro com a eternidade.

A noção de eternidade [aqui aplicada] é a noção de complicatio. Não vou discorrer agora sobre essa noção; apenas dizer o que alguns de vocês já conhecem.

A eternidade é uma matéria caótica, e o encontro do artista com essa eternidade gera o tempo. Para quê [o artista faz esse encontro]?

Para nada: [esse encontro] não vai trazer para o artista nenhuma vantagem no jogo do bicho, não vai garantir-lhe um melhor emprego, não vai deixá-lo mais gordo, nem fazê-lo comer melhor. Ou seja, [esse encontro] não gera nenhum valor utilitário; não acrescenta mais tempo à vida; não nos produz otimismo; não nos liga a entidades de felicidade. Nada disso! A arte não tem nada a ver com isso. Nada!

O tempo, para Visconti, é uma dimensão que ele vai criar; isto é, ele vai produzir uma dimensão, que vocês ainda não conhecem, e é surpreendente: é o tarde-demais. Essa a dimensão: é incrível!

O que é o tarde-demais? É... quando um homem diz para uma mulher: puxa, é tarde demais! Quando um revolucionário diz para os seus soldados: é tarde demais! Quando Deus provavelmente disse para a serpente: é tarde demais! Tarde demais é [quando] não há retorno, não há volta. Tarde-demais é isso: não há volta. Gravem, porque daqui a pouco ele [Aschenbach/Dick Bogard] vai falar uma frase... e nós vamos começar a entender.

Tarde demais: não há retorno no tempo! É exatamente esse, segundo Deleuze, o elemento importante da relação de Visconti com a imagem-tempo. Uma coisa que surpreende... e que a gente pensa: isso não é nada, qual a importância que isso tem? Mas vai ter: ele vai conquistar o tempo por essa figura do tarde demais.

Não sei se vocês conhecem o poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, e a famosa frase dele - Nunca mais (Nevermore). Deleuze diz aqui, fantasticamente: o tarde-demais do Visconti e o nunca mais do Poe têm o mesmo acento dramático, a mesma dramaticidade.

Não é a sensação de perda, não, não é nada disso! É alguma coisa que, daqui a pouco, a partir da fala do Aschenbach que supostamente é o Mahler, ou coisa que o valha, eu vou começar a falar.

(Prestem atenção!) Já fiz todos esses enunciados e agora já posso dizer alguma coisa para vocês. Essa palavra, revelação - olhem que coisa interessante o Deleuze está falando. Ele diz assim: Como revelação sensível, como revelação sensual, como revelação do professor - e ele vai usando essa palavra revelação - como revelação da moça, como revelação do velho... Ou seja, existe uma prática do homem que é rara, extraordinária, mas que em determinados momentos de sua vida revela alguma coisa - revela um amor, revela uma tristeza - e marca isso por um olhar, marca por um gesto, marca por uma palavra.

Então, a revelação está na base do nascimento do tarde-demais. Revelação e tarde-demais. Ou seja: alguma coisa é revelada, mas... tarde demais! Vejam bem, que coisa estranha - alguma coisa é revelada tarde demais - e isso seria a emergência do tempo; mas não há ali nenhum pessimismo. Então, ainda é difícil entender, porque parece uma ação de altíssimo pessimismo... Mas não, não! Não tem nada a ver com pessimismo... porque a arte não é nem pessimista nem otimista - a arte é trágica!

Aluno: É o amor, Claudio, que é revelado... mas é tarde demais?

O Leopardo (1963)Claudio: O amor, dentre outras coisas... Digamos que, por exemplo, em O Leopardo (ll Gattopardo), o que é revelado é o amor, mas tarde demais!

E aqui é muito fácil. Não sei se vocês viram O Leopardo. É muito fácil, porque é a dança da Cláudia Cardinale com o Burt Lancaster - ele é o príncipe e ela a filha de um burguês rico! Eles dançam... Ela vai se casar com o Alain Delon, que é o garoto bonito, sobrinho do Burt Lancaster. O Burt Lancaster dança com ela... e, na dança, ela se entrega apaixonada por ele, mas... é tarde demais! Deleuze diz: Enquanto o próprio sobrinho é rejeitado ao fundo, fascinado e anulado pela grandeza do casal, é tarde demais, tanto para o velho como para a moça.

O tarde-demais é nitidamente uma dimensão do tempo que aparece na arte do Visconti. É então que ele se torna um artista do tempo: porque ele produziu a dimensão tarde-demais.

O filme Morte em Veneza vai ser necessariamente marcado pela presença dos flashes-back. São flashes-back brilhantes, porque nada do tempo presente se modifica. Ele [o filme] se remete para o tempo passado... mas com o mesmo tipo de imagem [que é empregada no tempo presente]; você até se confunde - por isso [essa indistinção] recebe o nome de ponto de indiscernibilidade - às vezes nem se sabe se aquilo dali é um flash-back. Você tem que prestar uma certa atenção ao filme, porque senão você perde. Salvo equívoco, é no primeiro flash-back, não tenho certeza, nós vamos ter... [Diante de uma cena, indica um ator que aparece na tela.] Esse aí é o famoso Romolo Valli - o gerente do Hotel! Ele é um excelente ator, um ator clássico do Visconti, mas também trabalha com o Sérgio Leone. Um figuraço!

Agora... é preciso lembrar que Proust vai chegar... O Visconti é todo ligado com a obra do Proust!

Bom. Eu falei para vocês sobre a questão do tarde demais, mas há uma revelação nesse filme. Vocês vão ver, que existe [um personagem] no filme, um garoto muito bonito - belíssimo - o Tatzio.

O Aschenbach (Dick Bogard) vai ter uma surpresa incrível com a beleza do Tatzio. Vamos ver essa cena, para eu poder falar. Daqui a pouco... acho que o tarde demais vai aparecer. Daqui a pouco vai aparecer o tarde demais aí. Depois a revelação! Tarde demais primeiro, a revelação depois. Aí eu falo para vocês o que está havendo. (Pode aumentar o volume agora!) Então, quer dizer, Aschenbach não dá importância ao mundo sensível, não dá importância ao mundo da carne. Toda a arte dele é intelectual, é cerebral. Essa é a questão dele. Toda a arte que ele faz é cerebral! Não adianta entrar, porque já é tarde demais...

Nós vamos ver esse tarde-demais já, já. O Aschenbach/Dick Bogard vai descer [do quarto] do hotel agora... A questão dele é que ele é um artista, e a arte tem sempre uma questão, sempre um confronto. A arte é produto do intelecto - se for produto do intelecto é produto do trabalho humano... Ou a arte é produto da sensibilidade - se for da sensibilidade, se encontra na natureza: a natureza nos dá a arte ou o intelecto produz a arte.

Aschenbach é um artista intelectual, para ele a arte é intelectual, é platônica... e ele vai ter uma revelação: a sensualidade imbatível, a beleza de Tatzio. Aí, inicialmente, nós vamos pensar que ele está tendo processos homossexuais, o que é equivocado. Ele não está tendo nenhum processo homossexual, ele está tendo uma revelação, que é a beleza de Tatzio... a sensualidade de Tadzio. Ele vai ficar inebriado!...

Agora, eu não posso montar muito bem, vocês têm que verificar.... O filme não é um filme-ação, é um filme-contemplação - o que já é tempo. Já é tempo! Nós estamos vendo o filme pelos olhos dele [Aschenbach]: é ele vendo... e a gente vendo pelos olhos dele. Quem trabalhou muito com essa ideia foi Pasolini. Chama-se subjetiva indireta livre, vem da teoria literária, da teoria do discurso. Então, o olhar dele nos revela o filme.

Um dos momentos mais brilhantes desse filme é essa passagem do hotel... Nela, [dois elementos] vão se encontrar - o ótico e o sonoro, a transbordância da imagem visual... e uma valsa, fazendo ela eleger-se em --?? --.

É a revelação que transtorna o músico em Morte em Veneza, ao receber do garoto a visão daquilo que faltou à sua obra: a beleza sensual.  Ele nunca tinha incluído a beleza sensual em sua obra... Não tinha... e o garoto a revela. É esse o momento do tarde-demais! É essa a dimensão do tempo [criada]: a dimensão do tempo é o tarde-demais.

Prestem atenção: a revelação puxa para ele criar a imagem-tempo. A imagem tempo é uma dimensão essencial do tempo: o tempo passa a ter essa dimensão essencial. Não é um fato psicológico! Eu tenho uma aluna que diz: "sofrido, é muito sofrido...". Não é nada disso! Tarde demais é uma dimensão do tempo, como se diz passado, presente e futuro. Pertence ao tempo! Se você quiser [operar] com o tempo saiba que isso vai acontecer: os paradoxos do tempo, as dialéticas do tempo.

É isso que o Visconti vai trazer, muito semelhante ao Proust. No meio da aula eu vou tentar passar uma associação com Proust, com o que Proust chama de tempo reencontrado. O reencontro com o tempo.

Agora o garoto vai fazer uma coisa incrível. [referência ao filme] O garoto é a exuberância da natureza... o que Aschenbach nunca tinha percebido! A natureza é exuberante, a natureza não precisa de nada, ela dá tudo. É que ele não via, porque ele considerava, ele combatia o mal da natureza. [Claudio chama a atenção para o que está se passando na tela:] Olha só... olha a revelação! Vai enlouquecê-lo, não é? Ele vai entrar num [processo de] enlouquecimento!

Ele sempre traz alguma coisa que machuca o burguês: o aristocrata chega de viagem, almoça ricamente e pede para trazer o piquenique. O burguês não entende! Isso não deixa de passar como um componente para a constituição da imagem-tempo. Figuras aristocratas. [referência ao momento da revelação, no filme] Vocês sabem que nós estamos entrando aí no invisível - só quem está vendo o Tatzio é ele: aquela força da natureza está se revelando para ele [Aschenbach], para mais ninguém! Estão todos [se relacionando] normalmente com o Tatzio. Muitos pensam que é uma prática homossexual, todo mundo confunde muito isso. Mas, no final, ele enlouqueceu totalmente, ele piorou, o encontro o degradou. Mas aí, não: aí é uma obra de arte que está... a essência da obra de arte.

Aluno: Claudio, pode fazer.... numa aula você falou de singularidade e indivíduo, não é?

Claudio: Pode fazer! Pode: ele tem um encontro com uma singularidade!

Aluno: Enquanto para os outros... eles estão em contato com um indivíduo.

Claudio: Os outros estão em contato com um indivíduo belíssimo, é. Ele, o Tadzio, é um indivíduo.

[referência ao filme] Olha o que o Tatzio vai fazer... Olha lá! Olha lá! Quer ver? Terrível, terrível! Perturbou o professor!

Deleuze: "A obra de arte é feita de uma queixa, como com as dores e os sofrimentos de que tiramos uma estátua. O tarde demais condiciona a obra de arte e condiciona seu êxito, já que a unidade sensível e sensual da natureza com o homem é por excelência a essência da obra de arte...". Então, a essência da obra de arte, é o que está acontecendo aí. É o encontro que o homem faz com a singularidade natural. É a revelação, a essência, a dimensão da obra de arte. Toda a questão do Visconti...

Agora eu vou contar uma história para vocês entenderem a questão da obra de arte... qual é exatamente a questão da obra de arte:

Um poeta francês, chamado Gérard de Nerval, tinha como prática de vida, definitivamente, a compreensão do que vem a ser uma obra de arte. Em seus momentos de loucura - porque ele transitava numa loucura muito grande, loucura em tudo: loucura sexual, loucura... ele tinha todas as loucuras possíveis! - ele fazia encontros com determinadas imagens saturadas de gases, imagens densas, que não queriam dizer nada; como mais vulgarmente a gente faz com imagens do sonho, imagens hipnagógicas, imagens delirantes... E ele fazia encontros com uma imagem; colava-se a ela... e a vida dele se tornava um agenciamento com essa imagem - não dormia, não comia, não fazia mais nada! - ficava o tempo todo grudado na imagem, para extrair a beleza dela.

Então, o artista é isso: o artista é aquele que se associa ao mais surpreendente. A obra de arte é alguma coisa com a qual a gente se surpreende - inclusive de ela servir ao burguês, mas ela serve; e você fica sabendo como: ela serve como um mundo que cerca o burguês e tal. Não é a questão do artista. A questão do artista é pura e simplesmente criar essa inutilidade absoluta, que é a obra de arte.

[referência à discussão sobre a arte, que passa em flash-back no filme] A discussão é linda!

Ele está entrando no tempo através de uma imagem hipnagógica, enlouquecida... É porque o homem tem diante de si um quadro - um quadro muito nítido - que são as significações: as significações sociais, as matérias perceptivas de um tempo histórico. Porque você é educado para entrar nas significações dessa matéria perceptiva. Você entra nelas. E é onde está a marca do artista: ele não entra. Ele se arrisca em matérias vazias e, para correr esse risco em matérias vazias, ele tem que utilizar seu pensamento. E ele vai ao extremo nessa experiência. É uma experiência de vida terrível - porque é uma experiência de loucura, uma experiência de morte - é uma experiência toda original que o artista vai fazendo [ao longo de sua obra]. Ele entra nessas dimensões do tempo, rompendo com as significações clássicas, com as percepções ordinárias, com o modelo de campo social de um determinado tempo histórico.

PARTE II

"O tarde-demais condiciona a obra de arte, e condiciona seu êxito, já que a unidade sensível e sensual da natureza com o homem é por excelência a essência da arte, na medida em que é sua propriedade ocorrer tarde demais no que diz respeito a tudo, exceto a uma coisa: o tempo reencontrado."

Quando Deleuze introduz aqui o tempo reencontrado, ele está introduzindo uma ideia proustiana. Visconti aqui começou a fazer uma associação com Proust. E é muito interessante, que Deleuze diz aqui uma coisa que eu nem sabia: pois parece que Visconti teria traduzido Proust, teria feito um trabalho sobre Proust.

Deleuze vai dizer assim: "Podemos listar os temas que ligam Visconti a Proust" - uma coisa muito clara, todo mundo sabe, não precisa nem ter lido Proust para saber - o mundo dos aristocratas. Proust só trabalha com aristocratas. Mas só que Deleuze fala - o mundo cristalino dos aristocratas. Quando Deleuze fala "mundo cristalino dos aristocratas", é que ele está opondo cristalino a órgão; ao organismo do burguês. Ele vai fazer essa oposição.

Aluno: --? --- Proust sempre opõe o aristocrata ao burguês --? --

Claudio: O confronto? O Barão de Charlus é um exemplo, (não é?) Sendo que o Proust leva isso ao paroxismo, porque, no mundo de Proust, vai aparecer um aristocrata, como Charlus, que inclui a loucura. Porque... uma coisa fantástica, que o Proust marca, é que todo mundo pensa que Charlus é um homem mau e tem horror dele; mas quando descobrem que ele não é mau, que é louco, é aí que as pessoas correm: ele apavora, ele enlouquece!

Bem, primeiro elemento da entrada no tempo: o mundo cristalino dos aristocratas. Segundo elemento, terrível: decomposição interna. Para gerar a imagem tempo, ele tem que puxar o mundo aristocrata e introduzir a decomposição.

Olhem, aqui vocês podem pensar assim: não há diferença para um cozinheiro que está fazendo um bife - um bife... tem-se que colocar manteiga e sal; para gerar a imagem-tempo, ele tem que entrar com o mundo aristocrata e produzir decomposição: ele tem que decompor.

(Assustou um pouco, não é? Isso ficou um pouco perdido!..)

Prestam bem atenção: ele está construindo alguma coisa - a imagem-tempo; então... é assim que ele está construindo a imagem-tempo!

Foi o que eu disse no começo da aula: há momentos em que o Visconti "fracassa" nos filmes dele, ele mesmo se esquece. Porque, se vocês lerem a Crítica da Razão Pura, Kant vai dizer com todas as letras: quando um pensador produz alguma coisa - por exemplo, quando Platão produz a teoria das Idéias - o pensamento dele está tão tomado por aquela produção que ele não tem muito domínio: o próprio Visconti não tinha muito domínio sobre o que ele fazia. Aquilo escapa: escapa ao artista. Por isso, o comentador tem muito mais potência do que o próprio gerador. Kant, quando fala nos ideais platônicos, fala com muito mais facilidade que o próprio Platão.

Deleuze vai dizer que os elementos que vão produzir a imagem-tempo são: o mundo cristalino dos aristocratas; a decomposição interna e a história; e finalmente o "tarde demais" do tempo perdido, mas que também cria a unidade da arte e o reencontro do tempo. Então, a unidade da arte vai implicar na presença do "tarde demais", (tá?)

Creio que agora posso parar um pouco com o Visconti e dar um pouquinho de Proust, a fim de que vocês possam associar e compreender definitivamente o que é a produção da obra de arte. Por exemplo...

Greenaway pode ser considerado um artista? Se ele for um artista, ele está convivendo com o tempo - parece que é o que o Ca. quer dizer -, ele tem que ter produzido uma dimensão essencial, deve ter produzido, ali dentro, alguma coisa da essência do tempo, senão [surge] o caos. O artista vai produzir o caos? Não! Caos é o que ele recebe. Ele entra ali e produz alguma coisa. Alguma coisa emerge. O cientista produz atratores estranhos, produz balanças, produz equações. O artista também produz alguma coisa: por afeto.

"Os signos da arte e a essência" [em Proust e os signos do Deleuze] - esse capítulo parece que... (Entender uma leitura, entender, eu não gosto de criticar ninguém, perder tempo com críticas, mas... as leituras são muito mal feitas; porque, para poder entender, você tem que sobrepor uma leitura a outra. Se você quer entender um texto desses... [referência ao capítulo "Os cristais do tempo", em Imagem-Tempo do Deleuze] sem uma leitura de "Os signos da arte e a essência"... você não entende!)

Bom, o Proust vai dizer aqui... - acho que esta frase também é muito definitiva, está entre aspas - Proust está falando:

"Só pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que vê outrem, de seu universo que não é o nosso (é exatamente pela arte que nós estamos vendo o Visconti nos mostrar a "revelação" da beleza sensual), cujas paisagens nos seriam tão estranhas como as que porventura existem na lua. Graças à arte, em vez de se contemplar um só mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e dispomos de tantos mundos quantos artistas originais existem, mais diversos entre si do que os que rolam no infinito. Se não houvesse a arte, nós estaríamos prisioneiros de um mundo só."

Nas práticas sociais, é a coisa mais fácil de vocês entenderem: o homem comum está preso a um mundo só, ele não consegue quebrar aquilo de jeito nenhum, ele vive ali em torno, supondo que aquilo é a essência da natureza. Sem saber que a natureza não tem essência: ela... cria a essência dela: a arte cria!

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Então, a arte produz sistemas individuados. Ela produz, gera, e aí nos dá a possibilidade de viver em múltiplos mundos. Isso é muito fácil de entender, se vocês forem ver qualquer coisa da passagem do século XIX para o século XX.

Se vocês forem estudar o Modigliani, vocês se lembram dos olhos azuis que ele pintava, aqueles olhos que ele fazia - azuis - "aquela coisa"? A psicologia nos revelou isso. [Aqueles olhos azuis] produziram um diferencial na sensibilidade. A sensibilidade se alterou - como esses jogos que o meu neto joga alteram a sensibilidade; como a psicodelia altera a sensibilidade. Alteração de percepção! A arte está muito associada com a alteração de percepção.

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Woman With Blue Eyes, 1918. Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris, Paris, France

Em outro nível, o Paul Veyne e o Foucault sempre disseram isso: o que você vê no século XVI você não vê no século XX. O seu olho não vê qualquer coisa em qualquer tempo. E quem produz essas modificações são essas singularidades que produzem novos sistemas individuados.

Então, é bobagem pensar-se que a arte é apenas para tomar o chá das cinco... Não é nada disso! A arte produz mundos. A arte é uma coisa seríssima - produz mundos!

Não sei se vocês entenderam isso. Não é só para quem vai ao Museu de Belas Artes, não - é para todos! Nela, [encontram-se] novos mundos. Sem ela... é difícil viver. Acho que é impossível. Impossível! Porque você ficaria preso a um sistema de mundo só e isso geraria uma sufocação... e você se submeteria à tirania de um ideário, geralmente totalitário, - daí a associação da arte com a política -, e se tornaria impossível a vida. A vida tem que ter essa relação com a prática artística. Aconselho a leitura deste texto: "Os signos da arte e a essência" [Capítulo IV do livro Proust e os Signos, de Gilles Deleuze]. É muito fácil esse texto. Com isso daí vocês vão começar a compreender o que é a arte.

Eu sempre disse e repito para todo mundo: a arte não vai trazer nada: nada, nada, nada. A arte é... uma experimentação. Não sei quem disse isso, talvez o Rilke, é o estilo dele, não tenho certeza: a arte é uma revelação de experiência. Mas não é experiência de você, porque... a magia é que faz mais experiência, viaja mais, vai mais a Paris, vai mais a Nova York, não! É uma experiência nessas essências!

Então quando vocês virem um poema, não pensem que um poema é apenas uma exibição de palavras: é uma experimentação de sentidos que nunca emergiram. Então, é uma coisa louca! São sentidos que nunca viriam a um sistema individuado se não houvesse o artista para extraí-lo. Em Bergson vocês encontram isso. Bergson diz que o passado é em si, que o sentido é em si, que a idéia é em si. O pensamento vai lá e gera alguma coisa. Vai produzir ali algo de fundamental para a vida.

A vida engasga. A arte é superior à vida - essa é a tese do Proust. A vida engasga. Chega a um ponto em que ela se torna suicidária. Não há mais como passá-la.

A melhor idade para se começar a lidar com arte é [aos] onze anos. Como nós estamos muito infestados pelos valores burgueses, nós nos decepcionamos com esse enunciado sobre a arte, e achamos que é muito pouco. Mas não é muito pouco. Fernando Pessoa, de quem meu aluno C. gosta muito, escrevia que ele se considerava um homem em estado de sacrifício para salvar a humanidade... fazendo poemas. Quando o Fernando Pessoa diz isso, o homem comum morre de rir, "que sujeito idiota!", "que imbecilidade!" Realmente é uma prática que ele está fazendo, de querer dar um desvio e um caminho para a vida. E ele se dizia um sacrificado. "Eu não quero nada da vida, vou sacrificar inteiramente a minha vida a favor da humanidade" - e faz aqueles poemas dele: "O Guardador de Rebanhos"

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de, vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

Fernando Pessoa, in: O Guardador de Rebanhos

Eu acho que nós já entramos, não é? Podemos voltar para o filme...

Para quem faz pesquisa no Deleuze, a melhor indicação sobre o naturalismo é essa da pág. 120 - Losey e Harold Pinter [referência ao pé de pág nº 35 do capítulo 4 de A Imagem-Tempo].

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Deleuze vai fazer uma comparação do Visconti com o cinema americano. Vamos chamar o cinema americano de cinema realista. E o cinema do Visconti de neo-realismo. O realista é o cinema da ação e da paixão. O cinema do movimento.

Deleuze cita Obsessão mostrando que no cinema neo-realista "é preciso, portanto, que não somente o espectador, mas também os protagonistas invistam os meios e os objetos pelo olhar, que vejam e ouçam as coisas e as pessoas, para que a ação e a paixão nasçam, irrompendo numa vida cotidiana preexistente". (Deleuze, A imagem-tempo, pág. 13) É o problema do investimento do olhar nesse filme. Vocês notem que o tempo todo o filme está centrado no olhar. Não são ações, não são duelos, não são disputas, não é nada disso, é o olhar que está passando ali. Ele vai dizer que isso é uma constante na obra do Visconti.

(Se vocês conseguirem dominar esse enunciado que eu vou fazer... Perguntar fica mais fácil! Eu trabalho... se vocês fizerem perguntas laterais do próprio trabalho.)

O cinema americano - que é chamado o cinema da segundidade, o cinema da ação - é a situação se prolongando em ação. Agora, no neo-realismo é exatamente o contrário, "a situação não se prolonga diretamente em ação: não é mais sensório-motora, como no realismo, mas, antes, ótica e sonora, investida pelos sentidos antes de a ação se formar, utilizar e afrontar seus elementos." (A imagem-tempo, pág. 13)

Então nós passamos do filme chamado ação e paixão para o filme chamado ótico e sonoro. É greco-judaico: o grego vê, o judeu ouve. Então, os dois estão se juntando - ótico e sonoro. Claro que o sonoro foi uma conquista recente do cinema, a partir da década de [trinta]. O cinema era mudo. Então, não é só ver, é também ouvir. Isso é o neo-realismo.

Mas agora vocês prestem atenção: é possível fazer o neo-realismo com... um rato? Ou seja, nós levarmos um rato a ver, ao invés de reagir a um movimento do mundo? Você pega um rato na mão e aí coloca um movimento em cima dele. O que é que ele faz? Devolve movimento imediatamente! Por que ele faz isso? Porque ele está dominado pelo esquema sensório-motor. A vida é governada pelo esquema sensório-motor. O nascimento dessa arte é... quebrar o esquema sensório-motor. Quebra-se esse esquema! Então, pode-se até dizer, é a "desanimização" - quebra o sistema sensório-motor. Está claríssimo aqui:

"Tanto assim que a situação não se prolonga diretamente em ação: não é mais sensório-motora, como no realismo, mas, antes, ótica e sonora, investida pelos sentidos, antes de a ação se formar, utilizar e afrontar seus elementos. Tudo permanece real nesse neo-realismo, porém, entre a realidade do meio e a da ação, não é mais um prolongamento motor que se estabelece, é antes uma relação onírica, por intermédio dos órgãos dos sentidos...". (IT, p. 13).

É facílimo entender isso! Se você está num lugar e recebe um movimento que vem de fora, e ao invés de você prolongar aquele movimento dando uma resposta àquele movimento, você faz como o Gérard de Nerval - você sonha aquilo que está vindo, introduz uma imagem onírica e quebra o esquema sensório-motor. A introdução de imagens-oníricas, imagens-lembranças, imagens-devaneios, quebra o esquema sensório-motor. Se um rato delirar, devanear e sonhar, acaba a espécie. Vai acabar a espécie! O homem pode fazer isso, não é?

Aluno: É essa quebra que gera a alteração de percepção, não é?

Claudio: Que gera a alteração de percepção, pois a percepção não se prolonga mais em ação. Porque, se vocês lerem a história da psicologia, a história da epistemologia, elas dizem a mesma coisa, todas elas: a percepção é considerada uma prática do conhecimento. O homem percebe para conhecer. Essa tese aqui não é fundamentada nisso. O que se diz aqui é que percebe-se para reagir, não é para conhecer. A percepção não é uma atividade do epistemológico, é uma resposta que você dá ao mundo - é a tese do Bergson. Você percebe para prolongar sua percepção em ação ou reação. Se não quebrar de dentro isso daqui, você nunca sairá do realismo. Permanecerá eternamente preso a essa situação que está aí.

[referência ao filme] O travelling, essas idas e vindas, não é, R. , travelling? Ele usa muito ali no Hotel - que ele vai muito até o garoto e volta - o tempo todo: é o olhar dele fazendo uma aproximação e um recuo, (não é?)

Aluno: Com um movimento subjetivo!

Claudio: Com um movimento subjetivo.

Então, o Deleuze vai citar aqui... exatamente a questão do travelling, para citar outro autor fantástico que introduziu a imagem-tempo - que é o Orson Welles, na profundidade de campo. Eu já estou passando isso para vocês, para vocês saberem que o uso da tecnologia está imbricado à arte. A arte se serve realmente da técnica, dos efeitos especiais, dos instrumentos - que são objetos de fundamento para ela. Isso não é dito por nenhum teórico de arte - leiam Leroi-Gourhan que vocês vão entender. O ser vivo tem a capacidade de produzir uma tecnologia. É fantástico! O caranguejo, por exemplo, produziu uma tecnologia: a presa dele é uma tecnologia do corpo. O corpo é tecnológico! A arte usa muito a tecnologia e o que nós temos que fazer, então, é a distinção entre o técnico e o artístico. Mas estão muito associados! Deleuze também vai fazer uma associação com o dinheiro.

Bom, tudo o que foi dito até agora nos deu pelo menos uma noção da "revelação" e do "tarde-demais".

Agora, o que resta é falar da revelação e do tarde-demais, que é o que importa, - nada mais importa! -, para saber exatamente o que é a arte do Visconti: não a arte do Visconti..., mas a arte do tempo - o que é o tempo; o que é a conquista do tempo! Dificilmente vocês conseguirão reproduzir um discurso desses e ele ser aceito numa universidade, numa faculdade de arte - ali geralmente essas coisas não passam! Porque se a gente não fizer uma associação com a história do pensamento, a gente não compreende o que está se passando. Então é um esforço muito grande para o professor - mas que o artista não precisa fazer, o artista não precisa esperar que alguém venha lhe ensinar... para fazer alguma coisa! Mas aquele que vive em função do... - que é o meu caso, (não é?) - meu gozo maior é conhecer amplamente todos os movimentos do pensamento; e é isso que eu exponho para vocês: o que o pensamento tem que fazer para conquistar essas coisas.

A tese - assustadora! - é basicamente que a conquista do tempo produz uma nova subjetividade. Alguns dizem isso... Eu acho pouco! A conquista do tempo produz uma subjetividade - não existia! É isso que eu estou dizendo - é gravíssimo o que eu estou dizendo! Esse gesto que está aí, que há séculos vem se processando - conquistar o tempo, liberar o tempo do movimento - está associado à produção da subjetividade - que é a mesma coisa que produção da liberdade, produção da vida! Diz-se muita tolice por aí.

Ou seja: se a vida pudesse passar o tempo todo em torno dessa imagem-tempo, nós teríamos a presença de uma subjetividade - base do livro V da Ética do Espinosa - que é ser livre, conquistar a beatitude, conquistar a vida. Nada tem importância, se isso não acontecer! Quer dizer: sem a conquista do tempo não se tem uma subjetividade: nós nos tornamos um bando de bobões, bebendo cerveja! Um bando de bobões bebendo cerveja e... "esperando Godot"... como diz o Samuel Beckett!

E é isso mesmo! No livro 5 da Ética, descobre-se isso de imediato. Porque, quando sentimos que a nossa liberdade é tocada, nós saltamos! É isso o cinema do Fassbinder. Mas aqui é em nível excepcional! É você compreender, à maneira do Castañeda, que, na experiência mais trágica da vida, você pode ter uma subjetividade livre. Aí você começa a entender inteiramente o Deleuze: "tome conta do inconsciente", "produza o inconsciente", "produza uma vida" - é o exercício da arte! Então, a produção do tempo não vai produzir uma tela para o Museu de Arte Moderna, nem uma musiquinha para o Municipal, nem um filmezinho para nós assistirmos aqui, não! Produz a vida, produz a liberdade!...

Vocês podem ler o Foucault, que chegou ao extremo, quando se juntou com Baudelaire. Ele falava em arte como estética da existência. Eu acho que todo o mundo conhece isso, (não é?)... produzir sua própria vida como obra de arte!

E é exatamente isso, (não é?). Ou nós caminhamos para isso, citando um artista de teatro que foi entrevistado outro dia, o Jorge Dória... ele é muito interessante! Interessantíssimo esse Dória, eu nunca tinha ouvido ele falar. Ele é interessantíssimo! Ele é capaz de falar da morte com uma facilidade incrível. E ele diz que a vida é uma pequena brincadeira; o teatro é uma brincadeira mais séria! Interessantíssimo o que ele falou.

Mas... É mais ou menos isso: a existência é trágica! Uma matéria inerte, regida pelo princípio de inércia... as forças da vida penetrando nela... finuras espirituais, nervos, essas coisas aparecendo numa matéria...pesada, idiota, imbecilizada e... emergindo o espírito! O espírito não é nada do que tinha sido escrito pelos Salmões, pelo livro sagrado. O espírito é a finura dos nervos. E aparece essa finura, e nós conduzimos - cada um de nós conduz isso - e isso é dor profunda! Essa dor profunda (-? -) tudo o que se passa no cinema hoje. Naquele filme "Esposamante", o Marcelo Mastroianni tem uma fala espetacular: quando sabe que a mulher dele está envolvida com Igreja, ele diz: "deixa ela ficar, porque senão ela não aguenta a tragédia da vida!".

Nietzsche tinha a pretensão de ser um mártir - não deixar que a humanidade soubesse que tanto terror se esconde por trás de tudo - e dizia que a arte era uma pequena linha que se estendia sobre o abismo do tempo. E é realmente isso; é realmente isso, sem saída... - a vida está sobre o abismo do tempo!

A religião e a moral se tentaram terapêuticas para curar isso. Só pioraram! A arte é a nossa saída. É muito pouco, eu sei que é muito pouco... isso não desfaz o abismo do terror sobre o qual nós estamos, mas a arte é o caminho que nós temos.

Três fenômenos fundamentais na vida do homem reaparecem o tempo inteiro nesses discursos: a arte, o amor e a amizade. Sempre estão reaparecendo! Por onde a gente vai escapar, por onde? São essas as três linhas de fuga possíveis. Parece aqui que Proust vai parar no amor, mas acaba não ficando. Ele vai [ter que ir] para o espiritual, não adianta! Ele vai [ter que ir] para a arte, não tem jeito! Ou seja: segundo a massa dos artistas que estão passando por aí, nem o amor e a amizade vão trazer a liberação. E isso é terrível, não é? Não quer dizer que a gente não tenha que amar, nem ter amizades, nada disso; mas que não é o caminho para produzir novos mundos. Isso torna o nosso compromisso com a vida, como dizia Nietzsche: nos força a ser vikings - rigorosos! duros! impenetráveis! insuportáveis!... para não deixar que a tolice venha a aviltar isso aqui. Porque ela vai tentar aviltar. A tolice vai tentar aviltar isso aqui. Vai tentar considerar isso aqui [a vida] de pouca importância.

Nietzsche, em Para além do bem e do mal, diz: "seja um viking, endureça o seu coração, e não ceda..." para que... a vida se torne mais bonita! É um canto à beleza, como se a essência da vida fosse a arte. A beleza como essência da arte, como se a essência da vida fosse a própria beleza. A produção da beleza seria um caminho para a vida. Muito pouco! O homem pode alcançar isso. A gente prefere se submeter..., (não é?)... os homens preferem ficar... - Eu acho que isso é uma escolha - ser medíocres, ser medíocres!..."Deixa passar... daqui a pouco eu esqueço"... Mas não tem jeito, essa minha voz vai bater em vocês até o fim da vida. Aqui assim... [Claudio dá pequenas batidas na cabeça, apontando!] Não tem jeito!

Quanto mais se aproxima (não é?) mais bate! Quanto mais vocês tomam conta de que a finitude faz parte da gente... não tem esse negócio de esconder... - isso é tolice!... - (esconder dos meus netos!?), não tem porquê esconder: a finitude está aí, vai bater mesmo, nós temos que efetuar uma prática qualquer de potencialização! Pode ser pela ciência, pela arte, pela filosofia... - o que esses [pensadores] estão dizendo é que pelo amor e pela amizade não dá: não chega a nada.

Bom, eu achava que a exposição desse texto... [referência ao capítulo "Os cristais do tempo" do livro A imagem-tempo de Gilles Deleuze] - Chega a um ponto em que cada um tem que puxar para o que interessa, para o "tarde demais" começar a aparecer... porque a arte funda uma verdadeira intersubjetividade. (A gente pode começar a falar sobre isso. Não é só ver a imagem: é a imagem e mais alguma coisa!)

"Esse mundo não é o do artista-criador, embora Morte em Veneza ponha em cena um músico, mas cuja obra, justamente, fora intelectual e cerebral demais". (A imagem-tempo, pág. 116)

É exatamente isso que o destrói [o Aschenbach], "a obra ser intelectual e cerebral demais": a revelação é que vai transtornar tudo. Deleuze vai dar a isso o nome de cristal do tempo. A obra de Visconti atingiu a perfeição com esses "quatro elementos fundamentais que o obcecavam" - o mundo aristocrático, a decomposição interna, a História e, no final, o tarde demais. São os elementos dele.

"O padre de O Leopardo explicará: não compreendemos esses ricos, porque criaram um mundo só deles, do qual não podemos entender as leis, e onde o que nos parece secundário ou mesmo inoportuno assume uma urgência, uma importância extraordinárias, por isso seus motivos sempre nos escapam como se fossem ritos de uma religião por nós desconhecida (é o caso do velho príncipe que retorna a sua casa de campo e encomenda um piquenique)". (A imagem-tempo, 116)

Quer dizer: são coisas que é impossível de o homem comum entender: daí a importância de aparecer o aristocrata na obra do Visconti e de Proust. Não é uma presença acidental, é uma presença essencial. (Há alguma coisa essencial para o Ivan ver aquelas figuras em O Conquistador? É mais ou menos a mesma questão!) [referência a uma peça infantil - cujo diretor e elenco se encontravam presentes - em cartaz naquela ocasião]. Aqui vai se repetir tudo isso em Ludwig, em Os deuses malditos, nas Vagas estrelas da Ursa Maior. (--? --)

Tarde demais! (Vocês agora têm que começar a conversar comigo sobre esse tarde demais.) Eu acho que não fica claro, porque trazemos para a socialização... e para o abalo dos interesses perceptivos. Revelação-tarde demais - é o esquema dele: o esquema do tempo. Ontologia - é o tempo que se revela! Ele disse: quando eu quero pensar aquilo - o que acontece? - não posso mais, porque já acabou. Ele disse isso ali! [referência à cena da ampulheta, em Morte em Veneza]

Olha, então, está aparecendo a essência do pensamento. O que ele está dizendo sobre o pensamento... O que é o pensamento? É o fim! O pensamento é o fim; a revelação é o fim - se revela como um vazio. O pensamento é o próprio vazio. É isso o que o tempo inteiro eu explico para vocês - é a terceira síntese do tempo: é o vazio do pensamento. É a experiência mais terrível que se faz. Se você quer pensar...

Blanchot extremiza e diz: "o supremo sofrimento é o supremo pensamento". É começar a compreender que realmente há o trágico na vida. A vida é o trágico. A vida não é um exercício a ser decantado por um otimismo!

Há um texto do Lawrence, traduzido em francês como Eros et le chien - no capítulo [intitulado] "Estes pintores" (uma coisa assim) - onde ele vai fazer uma experiência extraordinária na sexualidade, talvez do mais alto nível que eu já tenha lido em toda a minha vida! Ele diz que os ingleses não conseguem pintar, porque eles têm a sexualidade abalada... pela sífilis. Estranho (não é?), esse enunciado... parece banal... mas não é, não! Porque a sífilis é um fenômeno real, concreto, ela penetra no corpo, e abala a imaginação.

Lawrence teria mostrado Hamlet como o exemplo da sexualidade inglesa - fuga de todo o contato com qualquer corpo. É isto que eu estou mostrando para vocês. Mostrando que... talvez o que leve à dificuldade de entender a revelação e o tarde demais - que parece tão claro - seja porque nós banalizamos tudo. Nós banalizamos tudo!... Quando encontramos um Lawrence falando sobre a sexualidade dessa maneira, extraordinária, mostrando a doença que é o Hamlet e que são agenciamentos do mundo que geraram aquela doença... é o que se processa em nós: uma tendência a banalizar!

Aluno: Eu... (--? --)

Claudio: Ela não é de fato, é de direito, talvez seja isso...

Aluno: Eu estou entendendo, mas, como você sempre coloca, eu não gosto de ficar na sinonímia. (--? --) Por exemplo (--? --) O que eu não compreendo com clareza é que você falou que quando ele se revela, é tarde demais. E justamente porque isso tem uma dimensão trágica, que é confundida com o pessimismo. É essa relação tragédia/pessimismo, que pode acontecer. Mas é engraçado, quando o Proust usa a palavra tempo perdido.

Claudio: Exatamente. Nós vamos passar para o tempo reencontrado para compreender o que é "tarde demais". Vamos começar com o tempo perdido e passar para o tempo reencontrado, para encontrar o tarde demais.

Aluno: E é engraçado que não tem que haver uma relação direta, o porquê dele ter usado essa expressão tarde demais. Eu sei, essa expressão tarde demais dá o sentido trágico do acontecimento...

Claudio: Não, A., veja bem! Nesse campo ontológico, a expressão e o acontecimento são a mesma coisa! Tarde demais é o próprio ser do acontecimento. O acontecimento é este - revelação e tarde demais. Ou seja, por exemplo, quando você quer recuperar uma pessoa que você ama, mas essa pessoa que você ama está perdida no tempo, o que você pode fazer é sentir saudade. É essencial você sentir saudade, senão você não consegue recuperar aquela pessoa. É a mesma coisa que está acontecendo, ele está dizendo que a revelação e o tarde demais são essenciais ao tempo. Eles são essenciais, não tem jeito - você vai entrar no tempo, vai encontrar isso!

Então, o ponto de partida é essencial: não pertence a uma estrutura psicológica - você quer entrar no tempo, vai encontrar isso. Você quer sair do movimento, quer passar para um novo capítulo da sua existência, entra no tempo e encontra isso: não tem jeito! Então é exatamente o que nós vamos fazer: vamos pegar o tempo perdido, vamos pegar o tempo reencontrado e tentar compreender por aí. O problema é esse - pegar o tempo perdido e o tempo reencontrado e vamos tentar compreender por [essa via].

Aluna¹: (---)Você sustentou super bem a primeira síntese, depois você sustentou super bem a segunda síntese e a reminiscência, e quando chegar na terceira síntese... você sempre dá uma beiradinha assim...

Claudio: Vocês recusam! Há uma recusa nítida da terceira síntese do tempo, na não aceitação de que, na terceira síntese, é o pensamento e o vazio. É uma fenda no pensamento, as pessoas não aceitam.

Aluna²: Eu não sei se é isso, ou se a mim me provoca... porque eu entendi perfeitamente o que você falou a respeito desses fatos. Eu sinto exatamente a mesma coisa. Não é a primeira vez que eu sinto isso. O que me ocorre é que quando chega nesse momento, você diz que você sente uma recusa. Eu me sinto completamente perplexa, eu não sei o que fazer, não sei o que dizer, não sei o que perguntar...

Claudio: Mas é exatamente isso: é uma recusa. É evidente! Se você se sente perplexa... - o que é sentir-se perplexa? Sentir-se perplexa é você não entrar. Eu não estou fazendo nenhuma teoria psicológica, não. Estou fazendo uma teoria ontológica! Se você está no mar, dentro d'água, você se molha; se você está na perplexidade você não se move. É isso que eu estou dizendo!

Aluna¹: É que a terceira síntese vai ter que ser revelada!

Aluna²: Ah, talvez seja isso!

Claudio: É muito simples! Se você diz: eu estou na perplexidade, você está na perplexidade! Você não penetra mais.

Aluna²: É verdade! Fico parada, é verdade!

Claudio: É isso que eu chamo de recusa. Não é uma recusa psicológica, não é nada disso, não! A recusa é de ordem ontológica, você se defronta com a perplexidade; é pensar ontologicamente. A perplexidade não é da ordem psicológica, é um transcendental afetivo. Você entra naquilo. E você não passa, você não atravessa mais, você paralisa ali. Ou então nós temos que fazer o que fazemos sempre: chamar as pessoas de burras???... não!!!! Isso é uma idiotice! Não tem nada disso. Você não consegue mais passar!

Quando se diz que Artaud, na década de quarenta, mandou uns poemas para Jacques Rivière (?), que retornou com os poemas.... e o Artaud disse: "não quero que você fale sobre esses poemas como você está falando, porque esse poemas estão revelando que eu não consigo pensar". E Jacques Rivière diz: "Não, você vai acabar pensando...". Artaud: "Não é isso o que estou dizendo!".

O pensamento não consegue lidar senão com o vazio, é o que ele está dizendo. O pensamento é sofrimento absoluto, então é isso o que está acontecendo aqui [no filme do Visconti] - a entrada no tempo, a conquista do tempo!!! Para conquistar uma cidade, morre-se, para conquistar um bife com batata frita, morre-se - então, para conquistar o tempo... é o sofrimento absoluto! Sofrimento absoluto!!!

A vida tenta invadir o tempo! Não é tenta invadir, no sentido de que o tempo está separado dela, não. É que ela [a vida] está dentro dele [o tempo]! O que você faria, por exemplo, na casa em que você mora? Conquistar! Nós estamos dentro do tempo, nós estamos no interior do tempo. É isso que a vida descobriu, é isso que o pensamento descobriu: nós estamos no interior do tempo! O que se faz? Produz-se alguma coisa ali dentro! É o que Visconti está tentando produzir. ..

Mas agora..., estando no interior do tempo - a primeira frase que eu disse na aula... - entra-se no não-senso, entra-se no paradoxo, abandona-se o modelo do bom senso. Não tem mais jeito: não há mais volta para ele! Essas figuras que aparecem agora, não são figuras religiosas: são figuras dramáticas; dramáticas!!!

Deleuze associou aqui o tarde demais... (não está muito claro, não; não é?) - "o tarde demais do tempo perdido, mas que também cria a unidade da arte e o reencontro do tempo". É difícil, mas é clariável...

O tempo perdido é que produz o tarde demais. O tempo perdido com a arte cerebral que, na revelação, já era tarde demais. "...ao mesmo tempo que isso ocorre, a unidade da arte aparece e o tempo é reencontrado". (Vocês vão ter que fazer um esforço para entender isso!) Surge aquela revelação, decepcionante, mas ao mesmo tempo, a unidade da arte e o reencontro do tempo. Ou seja, o Visconti está nos dizendo que, na revelação, o tempo é reencontrado. É isso que ele está mostrando ali.

Aluno: O que ele quer dizer com unidade da arte, eu não entendo bem o que é isso.

Claudio: A unidade da arte ali, na revelação, é o que o professor viu - é a unidade da natureza e do homem. Por que o que o Aschenbach está dizendo o tempo todo, é que o artista tem que trabalhar e se liberar da natureza, se liberar dos sentidos; e o que Tatzio revela, é que não é nada disso: que há uma unidade! A surpresa dele foi essa - há uma unidade - e ele não precisava ficar lá em cima, trabalhando no vazio. Há uma unidade! Não interessa se é verdadeira ou não! O fato é esse, a revelação foi essa. A natureza faz uma unidade com o homem. Essa unidade da natureza com o homem é o lugar da arte e... o reencontro no tempo. O tempo estava perdido. Tentem compreender isso: o tempo estava perdido!

Aristóteles viveu o tempo perdido - todos eles [os filósofos clássicos] viveram o tempo perdido: eles não transaram o tempo, transaram o movimento. Então, [no filme] Aschembach reencontra o que tinha sido perdido. Eu citei, dizendo que, pela saudade, pode-se recuperar, no tempo, uma pessoa querida - isso não é arte, isso é amizade, é amor!

O artista não quer recuperar pessoas perdidas no tempo, ele quer recuperar o tempo - o próprio tempo. É a ontologia, é isso o que ele recupera. Então, tarde demais e revelação... é o reencontro do tempo. Visconti é atavicamente o cineasta do tempo. E ele vai e descaracteriza Losey, porque Losey era naturalista. É isso. Vou passar para Proust, mas se vocês não chegaram até aí...não sei o que eu faço!

Perdeu o tempo, reencontrou o tempo, pela unidade da natureza e do homem. (É isso! Nada mais do que isso! Se vocês não entenderam, é impossível passar. Eu não paro de dizer que há duas maneiras de se compreender esses temas: de brincadeira ou seriamente. Seriamente não tem jeito: tem que entrar.)

Vamos dizer que o artista tivesse uma obsessão - a verdade: o que é a verdade; a verdade do tempo. No caso, o que vem a ser a verdade do tempo? Como ele vai encontrar a verdade do tempo... se o tempo está perdido?

Conquistar! Conquistar o tempo, reencontrar o tempo. A primeira prática dele tem que ser essa. Ele reencontra pela revelação. Ao encontrar, "tarde-demais!" Tarde demais passa a ser o quê? Passa a ser a verdade do tempo. Já não é mais decepcionante, torna-se a verdade do tempo! A categoria... a categoria do tempo: é "tarde demais".

Vocês não sabem o que é viver seis horas da tarde? Vão viver o "tarde demais"! Vão ver no que vai dar. A essência da arte é essa - não é a decepção psicológica, é essência, é a natureza mesmo. Encontra o tempo, e reencontra a revelação de tudo, ali vai transbordar para você. O quê? O tarde demais! Difícil uma expressão dessas: "C'est trop-tard!"

Eu acho que o melhor caminho aqui é Proust - no capítulo "Signo e Verdade", o capítulo dois [do livro Proust e os signos do Deleuze]. (Não sei como é que está indo, não é?)

"Mas perder tempo não é o suficiente. Como vamos extrair as verdades do tempo que se perde, e mesmo as verdades do tempo perdido?" [Prout e os signos, pág. 23] O que está sendo dito é que quem quer conviver com o tempo vai encontrar nele a verdade. É nele que está a verdade. Tem-se que saber como isso vai ser feito. Recusar-se a perder tempo. Quem procuraria a verdade se não tivesse primeiro... (virada de fita)

PARTE III

(Então é melhor deixar passar o filme, não é? Aí, vocês vão ser inundados de signos. Na hora em que despertar alguma coisa..., pára!)

Aluno: Engraçado que, ao que parece, ele apresenta dois tipos de revelação: uma revelação com a madeleine - ele tem uma revelação, mas está preso num objeto sensível; e uma segunda revelação, que já é o tempo puro direto...

Claudio: Olha, o Deleuze não diz bem assim. É possível ser dito como você está dizendo... o Deleuze vai mais fundo nisso. Está bem dito, mas o Deleuze aprofunda mais o que você acabou de falar quando ele diz aqui assim...

"Fórmula proustiana: um pouco de tempo em estado puro." O que Proust quer ao dizer isso? Como é que vocês diriam? A fórmula proustiana: "um pouco de tempo em estado puro." O que quer dizer isso? (Quem não decifrar vai morrer enforcado. Quem não se arriscar... morre enforcado!..)

"Um pouco de tempo em estado puro" - ele está dizendo que há tempo que não está em estado puro. Proust está dizendo o quê? Proust está dizendo que existe um tempo para o estado puro. Esse tempo, que está fora do estado puro, é exatamente isso que você acabou de falar: é um tempo que pode ser apreendido pela memória, pela imaginação - [enquanto que] o tempo em estado puro... só o pensamento pode apreender.

Então, ele diz aqui: "A fórmula proustiana, um pouco de tempo em estado puro, designa em primeiro lugar o ser em si do passado, isto é, a síntese erótica do tempo, mas, designa mais profundamente a forma pura e o vazio do tempo."

Por que ele diz isso? Porque ele quer o tempo puro, o tempo puro é vazio, e todas as teses sobre o tempo, inclusive as do Bergson, misturam o tempo com Eros, misturam o tempo com Narciso, o tempo do Narciso, o tempo do erótico, e Proust quer tempo puro, tempo vazio - que é a mesma coisa de Visconti - é vazio! (Não sei se vocês entenderam!)

(Se vocês não souberem perguntar, é que a questão talvez não tenha passado bem.) [É preciso] entender isso: O rompimento, quando Deleuze aponta para Proust e critica Bergson, é [que] Bergson está prisioneiro do tempo misturado com Eros, misturado com Narciso - um tempo todo penetrado de coisas!... Para se tornar um pensador... é preciso querer o tempo puro.

Aluno: Eu acho que é aí que eu tenho dificuldade...

Claudio: É muito simples, há uma maneira de dar conta disso... - confronta pensamento e inteligência. Qual de nós aqui não é inteligente? Todos nós somos. Qual de nós não quer ser inteligente? Não ser enganado no troco, ganhar juros no "centrão", arranjar um bom emprego, obter sucesso na vida?! - isso chama-se ter inteligência. E com que nós confundimos isso?

Aluno: Com o pensamento!?

Claudio: Com o pensamento!..- não tem nada a ver! A inteligência vive no campo social, no campo comunicativo, no campo intersubjetivo - o pensamento é aquilo que lida com o tempo puro. É a coisa mais simples!

Aluno: A imagem da ampulheta é muito forte, Claudio! É quando acaba... e ele vê: quando ele vê o vazio da ampulheta - ele fala que o pensamento quer entrar, mas que, afinal, é tarde demais...

Claudio: Mas entra!

Aluno: Mas entra!?

Claudio: O tarde demais entra! O tarde demais não é um estado do homem. É uma dimensão [do tempo]. Isso é o trágico! Tarde demais é o trágico; o transcendental! Esse enunciado que eu fiz aqui sobre a diferença entre Proust e Bergson... é que o Bergson não foi atrás do tempo puro... - quem foi atrás dele foi Artaud, foi Proust - que é o tempo sem penetração de nenhum fantasma, de nenhum deus, de nada! Por isso, Proust... eu vou ler aqui, que você vai ter a compreensão do que você citou... "A experiência proustiana tem evidentemente uma estrutura totalmente distinta das epifanias de Joyce, mas trata-se também de duas séries (olha a marcação: duas séries!), a de um antigo presente (o antigo presente é aquilo que está no nosso passado), Combray tal como foi vivida, e a de um presente atual. (duas séries!) Sem dúvida, permanecendo numa primeira dimensão da experiência, há uma semelhança entre as duas séries: a madeleine, a refeição da manhã, e mesmo a identidade e o sabor com qualidade não somente semelhante, mas idêntica nos dois momentos. Todavia não está aí o segredo. O sabor só tem poder porque ele envolve alguma coisa igual a x."

Quer dizer: alguma coisa igual a x - para vocês que não estudam filosofia... [referência aos bailarinos e atores presentes], para eles que estudam filosofia, é matar vocês: matar! Por quê? É exatamente a experimentação que se faz nesse trabalho daqui - para se fazer um trabalho desses..., para encontrar Proust, você tem que sair do plano da identidade - que é o plano da inteligência. A inteligência só trabalha se ela tiver o princípio de identidade submetido por ela, senão ela não trabalha. A inteligência não suportaria dizer "S. está sentada e está em pé". Ela precisa da identidade para se sustentar! O que Deleuze está dizendo aqui é que, para entrar na arte, é preciso encontrar um tal de objeto - "alguma coisa igual a x" - que não mais se define pela identidade: define-se pela sua própria diferença essencial.

É como se você fosse posto para fora de casa: "Vai embora, não fica mais aqui, você agora tem que arranjar tua comida, tem que se cobrir de noite, vai se virar, cara! Sai dessa segurança idiota que você está tendo aqui e vai se virar". Ou seja, é rompido tudo aquilo - e se você quiser fazer a prática de arte, a prática do pensamento, tudo aquilo que você supunha que era o fundamento, não é! (Não sei se vocês estão entendendo bem...)

Aluno¹: Claudio, o Bergson chegou a definir só as duas primeiras sínteses, quem definiu a terceira, foi o Deleuze?

Claudio: Não. Não foi o Deleuze... O Deleuze é o pensador dos agenciamentos. Deleuze não para de enquadrar aqueles que se agenciaram com a terceira síntese, no caso é o Proust, no caso é o Artaud. Eu acho que se vocês lerem o Artaud, do Maurice Blanchot, vocês vão entender bem. Não é assim: entender... não é o entendimento da inteligência. A inteligência só entende se houver identidade e não-contradição. Se você disser para a inteligência que S. está sentada e está de pé, ela não vai entender... Não é justo, ela não vai entender isso! Então, não é a inteligência que entende. É o pensamento que vai... Eu posso dizer para você que o Artaud produziu os grandes enunciados sobre a terceira síntese.

Aluno¹: Mas quem deu o nome de terceira síntese. ..?

Claudio: Ahhh, sim, o Deleuze!!

Aluno²: Deleuze que organizou?

Claudio: [Deleuze] é o administrador - o pensador da administração! Deleuze é um filósofo: um filósofo do tempo!

Aluno³: Ele está tornando visível...

Claudio: Ele está trazendo essa matéria para a especulação, para o pensamento especulativo.

Aluno²: Você diz que o Deleuze administrou. Mas, talvez, mais do que o termo administrar... ele compôs alguma coisa com isso?!

Claudio: Não, Deleuze não interfere, como o historiador clássico da filosofia interfere nas obras dos filósofos, dizendo que é verdadeiro ou falso. Deleuze não faz esse tipo de coisa! Deleuze se importa se ela for sedutora e criadora. Ele não dá importância para a tolice!... Ele não faz essa clássica interferência, que o historiador da filosofia faz numa obra filosófica, chamando-a de verdadeira ou de falsa. Ele não faz isso. Ele não acrescenta ao Artaud. A leitura que ele faz é muito original! Talvez por isso as pessoas tenham dificuldade para entendê-lo. Ele não lê como os historiadores clássicos de filosofia leem. Ele não faz comentários, não faz interpretações, o que ele faz são sobretudo avaliações. Pega o Nietzsche, por exemplo: lendo Nietzsche, dificilmente você vai dizer que reconhece [ali] o que o Deleuze diz. Não! É bem diferente! Mas o Deleuze não diz como... um historiador como Bertrand Russell, por exemplo, diz, que o Nietzsche é louco, porque falou no eterno retorno. Não é nada disso! Para que serve o eterno retorno? O que eu vou fazer com isso?

Aluno²: Como funciona aquilo...

Claudio: É. Como funicona? Para que serve, como funciona? É esse o trabalho do Deleuze. Ele não é um historiador da filosofia.

Isso daí, em qualquer universidade que você for, no mundo inteiro, todo mundo vai chamar o Deleuze de "historiador da filosofia"... por sordidez! Por sordidez! Não é por epistemologia: é por sordidez!

Aluno³: Eu acho que fica muito claro se você pegar uma aula de filosofia de um professor comum... e uma aula de filosofia do Claudio. Dá para se perceber a diferença. Ele está mostrando como se pensa... como isso funciona...

Claudio: É uma máquina! Você está diante de uma máquina: como ela funciona, para que serve... serve para quê? Para entrar no tempo! Nada mais do que isso!...

Atualmente, os... - isso é (-? -) dos deleuzeanos; são muito poucos! -...eles estão procurando mostrar como o Deleuze faz com o pensamento... como é que Deleuze lê. Como é a leitura dele.

Há um engano - todo mundo se engana!. .. - [acerca] do Deleuze ou [de mim mesmo], admitindo ou iludido de que isso implica em formação de seitas, de grupos. Não! Nada disso! Na verdade isso aqui é um caminho solitário - a solidão pode ser em grupo! Mas não busca seitas, não busca solidariedade, não busca reconhecimento, nada disso. Nada disso! Não está no universo deleuzeano, de forma nenhuma. É fácil distinguir... basta ler Hegel, lendo Hegel, entendendo Hegel, você vê que ele trabalha com o reconhecimento...

Hoje, quando a Fernanda Montenegro estava falando numa propaganda na televisão... eu até ri muito... porque [essa propaganda] era toda fundada no reconhecimento. "Tudo isso só pode ser feito, porque o passado garante o futuro!" - é Hegel! Então... essa prática daí, eu não tenho nada disso: é um exercício de vida! Um exercício!...

Bom, eu não sei o que eu faço. Se vocês conseguiram entrar nessa dimensão... É o tempo, o tempo chegou.. entrou o tempo. .. e... (-? -). As minhas leituras garantem o que estou falando, (não é?) Talvez esteja aí o rigorismo que eu atravesso, admitindo que todos têm que fazer uma espécie de leitura semelhante. Mas há um exagero meu, nisso. Talvez não seja preciso! Embora o Deleuze se sustente [dessa maneira]. Ele se sustenta assim. Nas... leituras muito fortes que você tem que fazer... para conduzir a sua existência.

Bom... eu vou fechar esta aula, tá? Aí a gente passa a ver o filme...

O que difere Bergson de Proust, Proust de Robbe-Grillet, de Resnais, desses todos que estão aí, de Godard, é que cada um tira uma porção dessa criatura chamada tempo. A do Visconti é o tarde demais!

Na página 99 desse livro aqui [A Imagem-Tempo] - o texto vocês devem ler, [é sobre] a fundação do tempo (--? --). Deleuze vai falar agora no cristal do tempo - a formação do cristal, o problema da música, o cristal sonoro, estribilho, memória, tempo e até.. Olha, quando eu faço uma associação com meus alunos... - geralmente faço isso na universidade, fora dela raramente eu faço isso. Eu faço uma associação de construir um mundo neutro entre mim... que eu e os alunos habitemos aquele mundo neutro; que todo mundo se admita dentro de uma posição. Que é... que... ter excesso de vaidade, excesso de orgulho..., isso prejudica o estudo! É... o encaminhamento que o Braudel fez para mim. Ele dizia que, numa sala de aula com 500 alunos, ele encontrava dois ou três que podiam atravessar!

Muitas coisas a gente não entende, mas isso não tem problema. É isso... Você vai ler um livro de arte, como o do Wölfflin, por exemplo, e ele vai falar de uma figura chamada... profundidade de campo; ele nem usa esse nome, é um nome moderno, (não é?). A profundidade de campo... não, ele usa outro nome, não me lembro, comparando a arte clássica com arte barroca. Não é nada, não dá nem importância para isso. Mas acontece que a profundidade de campo é do barroco conquistando o tempo. É o tempo sendo conquistado!

Aluno: É plano e profundidade.

Claudio: É plano e profundidade... mas ai, sabe o que é, L, é no capítulo dois, do Wöllflin, se não me engano, (não é?) você estudar a profundidade, porque há uma diferença nos mecanismos utilizados pela pintura clássica e pela pintura barroca. As diagonais, as luzes barrocas (não é isso?) e as dimensões clássicas. Que realmente, quem vai conquistar o tempo é o barroco! O clássico se limita ao espaço. Essa noção de tempo talvez seja um bloqueio para vocês. Talvez ela bloqueie...

Eu vou levantar uma questão: existe uma figura que a matemática, por exemplo, lida muito com ela - que é a figura do infinito... O que é o infinito? Os séculos trazem um debate sobre se o infinito é real ou não... - é uma discussão entre o infinito atual e o infinito potencial. Então, essas noções, que parecem de pouca importância, elas são elementos fundamentais para se entender essas criaturas que estão aparecendo aqui: tempo, cinema, arte, pintura, teatro, filosofia, invadir essas coisas. Por isso, eu digo, que criar um espaço neutro com o aluno dentro da universidade é muito fácil para mim. Sempre muito fácil para mim. Não tem vaidade em dizer eu sei, eu sei qual o problema, nada disso! Você não tem que viver isso! Você tem que fazer agenciamentos ali, para poder... desde que se queira usar isso na vida... (não é?) Servir-se disso.

Eu acho que não tendo mais nada a dizer... que vocês não perguntam... eu não tenho mais o que falar. Chegamos na revelação/ tarde demais... vocês se viram com isso, não é? Não vai levar muito longe, hein? Porque nós vamos chegar a dimensões extraordinárias, nisso aqui. Por exemplo: o cinema do Robbe-Grillet... é assustador. Eu não poderia explicar o Robbe-Grillet para vocês com facilidade... é impossível!...

Passa o filme... O filme vai explicar tudo isso!

....Aristocracia, decomposição, história e tarde demais. Pega a aristocracia [trecho inaudível, misturado com as vozes e a música do filme]

O tarde-demais demais é que penetra... tira você da... do ordinário. Tira você daí. (...)

Eu estou dizendo desde o começo: é a insuportabilidade deste encontro que gera a obra de arte.

Aluno: A expressão é isso?

Claudio: Isso é a expressão!!! Você não tem outra saída!!! Se você não expressa, está morto!!! É isso o que eu estou dizendo desde o começo...

Aluno: É uma dobra, então, seria isso?

Claudio: Aí vira um nome, vazio...

Ou você expressa aquilo, ou você morre!!! O artista é isso. Muitas vezes você não consegue expressar: você pira, você enlouquece. É o que Proust conta no "Contra Saint-Beuve", é isso! Basta isso: o artista não aguenta! Vocês acham que Fernando Pessoa morreu de quê? De "bife com batata frita" ou de arte? Morreu de arte!!! Mata!

(----------)

Vocês não entendem é o problema: como você entra nessa matéria... no pensamento. Para Platão - quando é que você pensa para Platão? Quando você se espanta! [Platão] Espantou, entrou! [Visconti-Proust] Revelou, entrou! Confrontem que vocês vão entender: Revelou, entrou. Espantou, entrou. É a diferença dos dois! Agora: Platão... espantou, entrou e pensou. Revelou, entrou... foi tarde-demais! Que coisa grave, hein? Porque, se é tarde demais... é o vazio!!!!!

A música é maravilhosa... Esse menino, o Mahler, foi perseguido pela mulher do Wagner. A Cosima destestava ele... Por causa disso aqui, dessa sinfonia aí...

(-------------)

Se um homem sofre mais que do que outro, não tem a menor importância, porque poderia não ter sofrido. Nenhum sofrimento garante a você maior nota metafísica. É o erro de muitos pensadores! O Rubens Correia, quando foi fazer uma peça sobre Artaud, ele pensava que Artaud era importante porque sofreu muito. Eu conheço um sujeito em Macaé que sofreu muito mais do que o Artaud. Não há nada no mundo da contingência, ou seja: daquilo que acontece, mas poderia não ter acontecido, que nos dê uma posição superior ao outro. Não é por aí. Esse é o primeiro ponto da (-? -) O sofrimento é o da arte.

Aluna: Tem até uma máxima cristã, não é? Quem mais sofreu...

Claudio: (--? --) Esse é o sofrimento vulgar, mas não é isso! É uma experimentação radical... muitos não fazem... outros fazem... Há um autor, que se chama Clément Rosset, que pergunta qual a importância de se fazer ou não essa experimentação. O homem trágico tem mais valor existencial que o homem não trágico? Não! Não é por aí. É querer fazer da vida esse caminho... Acredito que quando você entra...não tem volta!... Não tem volta!... Não tem volta!... Como é que vai voltar???

Mas o enunciado básico é aquele da ampulheta...

Fim

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Aula de 22/08/1995 – Enkratéia – Estética da Existência

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 6 (Do Universal ao Singular); 9 (A Imagem Moral e a Liberdade); 12 (De Sade a Nietzsche) e 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzeanos) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 

 

"Talvez fosse mesmo preciso voltar aos gregos... Assim o problema mais passional encontraria condições que poderiam torná-lo mais frio ou acalmá-lo. Se a dobra, se a reduplicação obceca toda a obra de Foucault, mas só encontra seu lugar tardiamente, é porque ele exigia uma nova dimensão, que devia se distinguir ao mesmo tempo das relações de forças ou de poder, e das formas estratificadas do saber: ‘a absoluta memória’. A formação grega apresenta novas relações de poder, bem diferentes das velhas formalizações imperiais". (...) E, no entanto, isto não é um retorno aos gregos, pois nunca há retorno”

Gilles Deleuze

Como os dois filmes que passaram da última vez, "Era uma vez no Oeste", do Sérgio Leone e a "A condessa descalça", do Joseph Mankiewicz, não foram vistos pela maioria das pessoas (ou seja: alguns nem conhecem!) eu vou ter que suspender [a fala sobre] esses filmes, pra depois voltar sobre eles. Vocês não viram os filmes, eu não posso falar: é impossível!

Esses dois filmes (para quem viu, vai ficar fácil o que eu vou dizer...) trabalham com flashbacks. O do Sérgio Leone com o flashback de impregnação; o do Mankiewcz, com a memória-lembrança. Então eu vou abandonar os filmes. Na frente, eu vou ver o que eu posso fazer. (Está bem?)

Bom, eu vou começar essa aula utilizando um filósofo chamado Platão. E o tema de Platão que eu vou falar tem como nome... uma palavra em grego - eikasia. A palavra eikasia vem de eikon, que quer dizer ícone. Vocês sabem o que é ícone? Ícone é um objeto feito à semelhança de outro. (Está bem?). Antes de começar com o Platão..., eu vou contar uma historia pra vocês:

Existem duas religiões, a protestante e a católica, que têm uma diferença em suas igrejas. Nas igrejas protestantes não existem ícones, não há imagens. Na igreja católica, você entra, encontra Santa Terezinha, São João, santa não sei o quê... Agora, quando você entra na igreja protestante, não encontra ícones. Então, vamos dizer o seguinte: eu vou chamar o protestante e o judeu de iconoclastas. O que quer dizer iconoclasta? Aquele que não quer ícones. E vou chamar o católico de iconofílico: aquele que quer ícones. (Todo mundo entendeu o que é iconofilia e iconoclastia?). Então, quando se entra numa igreja judaica, numa sinagoga, não se encontra imagens porque os judeus são iconoclastas. (Estão entendendo?) E os católicos são iconofílicos.

Numa cidade chamada Bizâncio, mais ou menos no século VII, VI d.C, havia um acontecimento muito interessante: duas facções governavam Bizâncio, uma facção iconoclasta e uma iconofílica. Ora dominava a iconoclasta, ora a iconofílica. Então... derrubavam as imagens... colocavam as imagens; derrubavam as imagens... colocavam as imagens... Eram, então, essas duas linhas!

Vamos lá outra vez: o que é iconofílico? Fílico vem da palavra filia - do gr. Philia. Ícone vem da palavra imagem; quer dizer, amigo da imagem: iconofílico. Iconoclasta - inimigo da imagem. (Está bem assim?). Vejam, então: o iconoclasta é aquele que não quer imagem, não quer imagem; (está bem?) e o iconofílico, quer imagem. Então.... o iconoclasta gosta de cinema? Não, ele não deve gostar de cinema; o cinema para ele é um problema! Já, o iconofílico, ele gosta da imagem (Está bem?)

Agora, toda imagem que você encontra na igreja católica - Santa Terezinha, (o que mais?) São João, Cristo, uma porção, São José... (não é?) - cada imagem daquelas representa um santo. (Vejam se entenderam?) Cada imagem representa um santo! Quando uma imagem representa alguma coisa, essa imagem recebe o nome de cópia. Quando é que uma imagem é uma copia? Quando ela representa alguma coisa; como?

Aluno: Claudio, você está usando imagem e ícone como a mesma coisa?

Claudio: Estou usando como sinônimos!

Agora, quando você vai para a iconoclastia, os iconoclastas consideram uma heresia colocar-se uma imagem, de pedra ou de madeira, representando um santo. Por isso eles não querem imagem. (Vocês entenderam?) Então, quais são as duas correntes? A iconoclasta - que não quer imagem e a iconofílica que quer imagem. Mas como é que o iconofílico quer que a imagem seja? Ele quer que a imagem seja uma cópia, imagem-cópia! Imagem-cópia quer dizer ícone. (Entenderam bem aqui?). Então, qual é o preceito fundamental do catolicismo? Imagem; mas imagem-cópia ou ícone. Quer dizer, uma imagem-ícone é uma imagem que tem alguém que essa imagem representa. Na iconoclastia não há imagem; desaparecem as imagens. (Tá?)

Agora, entre essas duas correntes aparece uma terceira, chamada simulacro. O simulacro se distingue da iconoclastia, porque no simulacro há imagem; mas difere da iconofilia, porque a imagem do simulacro não copia nada. Quer dizer, o simulacro é diferente da iconoclastia? É... porque no simulacro há imagem. É diferente da iconofilia? É... porque o simulacro não copia; é uma imagem autônoma.(Entenderam?). A questão dessa imagem não é copiar!

O que é que estou dizendo para vocês? Estou dizendo que a iconofilia é regulada por um princípio. O princípio que regula a iconofilia é o princípio da semelhança. O que quer dizer isso? Uma imagem... um ícone é melhor quanto mais ele parecer com o que representa. (Entenderam?) Então, para a iconofilia, quando um artista é melhor? Quando copia com mais perfeição! Ele quer, como fundamento dele, a semelhança. Então, a imagem-ícone é regulada por um princípio. O que regula o princípio da imagem-ícone é a semelhança. Por exemplo, vocês atrizes:

C. recebe uma má notícia numa novela. Tem, então, que manifestar tristeza; assumir a cópia da tristeza; fazer a imagem da tristeza. É iconofílico: C. tem que fazer aquela imagem da tristeza!

Aluno: A atitude dela seria um ícone?

Claudio: É um ícone. Ela está representando a tristeza. Por isso que o diretor pode dizer: "C, você não fez bem!" Porque C está representando a tristeza: ela é uma cópia! É por ser cópia que ele mede a qualidade da interpretação. (Conseguiram entender o que eu disse?)

Aluno: E ela podia muito bem manifestar isso [essa tristeza] de uma forma diferente... e falar para ele: não, mas isso é um simulacro!

Claudio: Exatamente!... Para dar um exemplo, que já chegou até na minha frente...

Existia uma atriz na França, em Paris, de quem Proust gostava muito. Chamava-se Berna [Claudio refere-se a Sarah Bernhardt] . Ela jamais chorava ou manifestava qualquer coisa de sofrimento no rosto quando tinha que interpretar uma tristeza. Porque ela achava que a tristeza só poderia ser expressada espiritualmente. Por isso você não poderia, jamais, representar. Era??? Ou seja: quando o ator sai da iconofilia, mergulha no espírito. (Ficou muito difícil?) Ali, no espírito, você não representa; você expressa.

Então, vou contar outra história para vocês entenderem melhor: de um filósofo, contador de histórias, chamado Montaigne, que conta que um nobre foi aprisionado em seu castelo.... e aqueles que o prenderam mataram o irmão dele, o irmão do nobre. Na hora em que comunicaram para o nobre que tinham matado o irmão dele, o nobre começou a chorar, a gritar, a sofrer..., (certo?)

Aí, no dia seguinte, eles mataram o melhor amigo do nobre. E comunicaram a ele. Ele não moveu um músculo; ele não move um músculo! Aí perguntaram: "mas, puxa, ontem morreu um de quem você nem gostava tanto e você gritou feito um louco.... e agora morre o seu melhor amigo e você não manifesta... não move um músculo!" Ele diz: "essa dor que estou sentindo agora não é material, é espiritual: a matéria não expressa!" (Conseguiu entender, C.?) Era uma dor tão intensa que jamais poderia ser representada pelo organismo. E é exatamente essa a posição da personagem na segunda dor, em que ela já não está mais na iconofilia. Já não estaria mais.

Aluno: Você estar na iconofilia, por exemplo, interpretando, é ruim isso?

Claudio: Não, não é ruim! É o modelo... o modelo do realismo. Tudo isso eu vou te ensinar, C., não é ruim. Você jamais, por enquanto. .. pode questionar isso. É claro que na frente você vai começar a compreender um tipo de interpretação - vou usar a linguagem desta aula - que não seja iconofílica. Porque... Por exemplo, vamos lá: há pouco tempo passou uma seqüência de um capítulo, que foi a morte do seu pai, não foi? Então... Uma filha que perde o pai, o que ela tem que fazer? Chorar, sentir dor... É esse o ícone, é esse o ícone! Vocês entenderam? O ícone é esse: sentir dor, chorar, gritar... Se você não estiver fazendo isso, você não está representando bem uma filha. (Entendeu... ou ficou difícil isso? Está claro? Entendeu, C.?)

Aluno: Não... Eu entendi o que você falou, mas...

Claudio: É esse o modelo, o modelo é esse. O modelo é a iconofilia. Tem sempre alguma coisa que você copia. Na hora em que você está lá... (no seu caso fica muito fácil, porque é o seu próprio pai, não é?) Fica muito difícil, quando você está lá. Quando o artista está lá, o que ele faz?

Vamos dizer que a M., por exemplo, estivesse vivendo o seu papel. Então, morreu o pai de mentira, mas ela tem que ter o sentimento do pai verdadeiro. Então, o que faz ela? Ela copia o modelo. Qual modelo? Do que sente uma filha quando o pai morre. É esse o modelo que ela sente. É isso a iconofilia. É isso que o artista faz. Ele sempre vai buscar um modelo para imitar.

Por exemplo, você não tem um determinado sentimento... Vamos dizer que de repente, num quadro, você tem que fingir que está embriagado. Vamos dizer que você nunca tenha experimentado a embriaguez, o que faz você? Vai imaginar como é um embriagado... Isso se chama copiar, representar... isso que se chama representar. Por causa disso, todo esse processo que você está fazendo se chama representação. Porque você copia um determinado modelo, você executa a cópia de um modelo. E esse fato de copiar... Então eu coloco C. chorando, M. chorando, V. chorando, A. chorando e eu digo qual deles chorou melhor. Eu digo: Foi esse quem melhor interpretou! Como é que posso saber quem interpretou melhor? Porque há um... modelo. Se não tiver modelo, eu não posso saber.

Aluno: Mas, não existe um meio de você, por exemplo, reagir dentro da cena de modo que não seja necessariamente por cópia, mas que responda ao que seja normal? Por exemplo: se um pai morre, o que a gente espera de uma filha? Que ela chore. Mas eu não pretendo copiar nada. É um sentimento que eu acho que o personagem vai ter. Será que isso é necessariamente uma cópia?

Claudio: Necessariamente! Isso é uma cópia, não tem como sair. Não tem como sair. É uma cópia.

Aluno: Não tem como sair?

Claudio: Não: é uma cópia! Porque... se você pega, por exemplo... morreu o pai de não sei quem.... ai tem um filho dele no velório e esse filho não chora, não grita, não faz nada. O que que vai ser dito? Esse cara é um mau filho!... O que é ser um mau filho? É não copiar os modelos. Isso que é um mau filho: "Olha, você não chorou quando seu pai morreu: você é um mau filho!" Evidentemente que a interpretação realista produz modelos. (Está entendendo, M.?)

Aluno: Eu entendi, mas é que eu coloquei uma questão: se necessariamente tem que existir esse modelo...

Claudio: Tem que existir, porque é, inclusive, o meio que eu tenho para avaliar sua interpretação? C. não foi bem aí... ou... C. foi ótima aí!? porque tem esse modelo que garante a minha avaliação. Agora, isso seria no mundo iconofílico... (não é?)

... Quando você passa para o mundo iconoclasta, ele traz uma pequena complicação, porque não há mais o que copiar: você sai do mundo da cópia. Esse mundo (da iconoclastia), eu vou demorar um pouquinho para explicar para vocês, porque ele é um pouco difícil. Você sai da cópia e entra no que se chama símbolo. (Certo?)

Então, a iconofilia é a cópia, imitação por semelhança: você imita aquele modelo. Por exemplo, eu vou fazer o papel de São José; eu olho para aquele santo ali e vou imitar, fazer exatamente o papel que o santo executava na vida dele. É por isso que, quando o ator vai interpretar uma personagem, ele vai fazer um... papel. Papel quer dizer isso, papel é um modelo. Não sei se está claro aqui. Você está fazendo um papel. Você está representando um determinado modelo. E você está plenamente dentro do mundo iconofílico, está plenamente dentro desse mundo, está cumprindo os seus papéis dentro desse mundo. E esse processo não se dá apenas no teatro; esse processo também se dá na vida. Ou seja, quando determinados acontecimentos ocorrem com a gente e o campo social espera que tenhamos uma resposta X àquele acontecimento. (Ta?) Por exemplo, mataram 500 pessoas lá em Ipanema... aí você fica horrorizado. Quer dizer, o campo social sempre espera que você manifeste determinados sentimentos diante de determinadas situações. A constituição de modelos é isso!

(Está claro assim? Está, C.?)

Agora, do outro lado, encontra-se o campo iconoclasta e o iconoclasta já não está mais no campo da imitação, é o campo simbólico. (Eu volto ainda aqui.)

E, em terceiro lugar, o simulacro. O simulacro são imagens que não copiam, que deformam, modificam, variam. Por exemplo, vou dar um exemplo de simulacro para vocês. Você dá um grito - Ahahah! - lá numa montanha. O que acontece? Dá-se um eco. O eco não é uma copia; o eco é um simulacro... porque ele vai introduzir uma modificação. Ele vai variar. E, ao mesmo tempo, o eco tem uma existência independente do grito. Porque aquele eco gera... outros ecos. Ele sai gerando outros ecos. Até que o eco mais distante do grito é inteiramente enlouquecido. (Vocês estão conseguindo entender?)

Ou, de outro lado, o que chamam... reflexos. Você se coloca aqui e sucessivamente sua imagem começa a refletir-se em espelhos... Vai chegar um ponto em que a imagem já não se parece mais com a sua. Então, o mundo dos simulacros são as imagens se libertando da obrigação de copiar. Vocês conseguiram entender isso? As imagens começam a se libertar da obrigação de fazer cópias. Por exemplo, na música existe um determinado músico do século XX, eu vou citar alguns... - Edgard Varèse, Pierre Schaeffer, John Cage - que eles tentaram fazer música com o silencio e com o ruído, saindo de todo o modelo clássico da música, rompendo com o modelo clássico. A música feita com o ruído e com o silencio é simulacro. Já não é mais o modelo clássico da escala heptatônica: a escala heptatônica que nós vivemos, a escala de sete notas. Eles rompem com isso. Na hora em que eles rompem, acabam com todos os modelos. Então, na música, o nosso tempo é, literalmente, uma experiência muito marcada... pela produção de simulacros.

O nosso tempo não reproduz Bizâncio, não reproduz a cidade de Bizâncio? que é um confronto entre a iconofilia e a iconoclastia. O nosso tempo é, sobretudo, a geração do simulacro. A geração do simulacro, no caso do teatro, é produzir um outro tipo de interpretação. Vou dar um exemplo, que acredito que vá ficar claro: quando você vai ver uma peça do Beckett, a personagem, o ator, não pode usar o modelo realista, o modelo iconofílico. Porque ele não pode fazer isto? Porque na peça de Beckett não existem sentimentos. Ele exclui os sentimentos da peça dele. E você só pode imitar sentimentos. Então, ele quebra aquilo dali.

Claudio.: Ficou muito difícil, C.?

Aluno: Não,não...

Claudio.: Está tudo bem, para todo mundo? Então, a colocação é a existência de três mundos das imagens: uma imagem que copia? chama-se ícone; uma imagem que perde a sua característica de imagem? chama-se símbolo e uma imagem que não copia? chama-se simulacro. (Certo?) É esse simulacro a grande figura do cinema-tempo. O simulacro é a grande figura do cinema tempo, é a grande figura da música do nosso tempo, da música, por exemplo, eletrônica. Ou seja, é toda uma experimentação do homem moderno para quebrar o domínio icnofílico-iconoclasta. Por exemplo, existe um pensador do século XIX, que eu já dei uma aula dele aqui para vocês, chamado Nietzsche. E esse pensador chamado Nietzsche todo mundo diz que ele é iconoclasta. Jamais! Ele é o homem do simulacro. Jamais, iconoclasta! Então a linha de aula, sei que está um pouco difícil, é essas três linhas: o iconofílico, o iconoclasta e os simulacros. O que são os simulacros? Os simulacros são, sobretudo, (aqui eu começo a te responder!) a repetição e variação. Ou seja, o simulacro tem por característica repetir, mas repete fazendo variações.

Aluno: Com que fim?

Claudio: O fim dele é repetir o modelo, mas variar para fugir de seu domínio, do domínio do modelo. Ele é insubordinado. O simulacro é uma criança má, que não obedece aos pais. Ele é insubordinado. Ele copia, mas deforma. Então, o simulacro vai introduzir a figura repetição-variação. É muito fácil de se entender o que é uma repetição-variação: o eco, o reflexo, a miragem, a sombra. Vocês já viram que a sombra em determinada posição fica comprida? Ela ganha, assim, três metros, cinco metros? Aquilo é um simulacro. Porque ela está repetindo o corpo, mas repetindo numa variação. Ela está produzindo uma variação. Aquela variação começa a gerar a liberação do simulacro aos modelos.

Aluno: O simulacro é uma copia modificada, não é isso?

Claudio: É... vamos dizer assim. .. é uma copia modificada.

Aluno: Não é uma copia degradada?

Claudio: Ela... vai chegar, vai chegar... Ela é degradada. É degradada. Veja bem. O que vocês acham? Você vê um retrato: o retrato é um ícone! Agora você vê uma sombra esticada com três metros, aquela sombra é uma copia degradada.

Aluno: Mas é diferente do tipo de cópia degradada para Platão, não?

Claudio: Não. É a mesma coisa.

Aluno: É a mesma coisa?

Claudio: Nesse instante, um eco e uma sombra são a degradação da iconofilia. Não sei se ficou claro isso daqui. Vai degradando. Em vez de imitar com perfeição, começa a produzir a variação, começa a gerar a variação.

Aluno: Para fugir do modelo...

Claudio: Para fugir do modelo!...

Aluno: E a repetição também!?

Claudio: Exatamente! Aí que surge o Platão. O Platão é um sujeito tão inteligente, que ele verificou que essas cópias degradadas ainda estão presas ao modelo. Não estão? Estão degradadas, mas ainda estão presas ao modelo? Platão disse: o perigo não está aí! Enquanto elas estiverem degradadas, elas estão presas ao modelo. O perigo é o dia em que elas deixarem de se submeter ao modelo. Porque o dia em que os simulacros deixarem de se submeter ao modelo, quer dizer, as sombras fugirem das pessoas... (Entenderam aqui?) No dia em que isso acontecer, o próprio simulacro se tornará modelo! (Ficou muito difícil?...) E no momento em que o simulacro se tornar modelo, você deixa de viver o mundo da semelhança para viver o mundo da diferença!...

Claudio: Não foi bem não... Está muito difícil...não é...?

Aluno: Você deixa... de quê?

Claudio: Você sai do mundo da semelhança e entra no mundo da diferença! (Veja bem!)

Vamos lá outra vez, vamos ver:

Iconofília: você é uma imagem que copia o modelo. (Não é?) Então, qual é o procedimento de uma imagem que copia o modelo, qual o principio? O principio é muito fácil: semelhança! Você tem que ter semelhança... então, você tem que manter dentro de você, permanentemente, uma semelhança ao modelo. (Entenderam?) Então, vamos lá: Eu sou homem, eu sou um homem. Ora, sou filho de homem, sou um homem. Então eu tenho que me comportar como o quê? Como homem. Para manter o quê? A minha... semelhança.... ao meu modelo, que é O Homem. (Agora vou crescer mais nisso daqui, vou voltar para a década de 60) Na década de 60 existia, muito francamente, no campo político a luta de classes. Então, tinha o operário e o burguês. O operário tinha que ter um comportamento, de quê?

Alunos: De operário!

Claudio: E o burguês?

Alunos: De burguês!

Claudio: Mas apareceu uma figura chamada o intelectual pequeno-burguês, que tinha um comportamento do lado do operário. Ele era um simulacro... (Vejam se entenderam...)...porque ele não reproduzia o modelo do burguês: ele era um simulacro aparente; na verdade era uma cópia degradada! Ele era uma cópia degradada... porque o que eu estou colocando para vocês é que... o fato da degradação da copia é permanente! No mundo, nós vemos esses processos de imitação e vemos aparecer as degradações na sombra. .. a degradação no eco. .. Então, essas degradações têm a ver... ou, para ficar mais explicito, a degradação no comportamento. Porque o nosso comportamento tem que ser iconofílico! Nós temos que copiar exatamente o que a nossa sociedade entende por homem e entende por mulher. Você tem que copiar aquilo. É isso que você tem que ser. Porque é o modelo da cópia e o modelo da semelhança.

Então, o Platão é um filosofo iconofílico. Ele é o mestre da iconofilia. E é aqui que aparece a coisa mais engraçada de Platão. Ele é o mestre da iconofilia, não tem medo de iconoclasta e não tem medo de cópia degradada. Não tem medo...

Aluno: Ele era um iconofílico convicto.

Claudio: Convicto! Ele não tem medo de iconoclasta, nem tem medo de cópia degradada.... Mas ele é apavorado com o simulacro!

Ele tem pavor total do simulacro. Então, ele começa por dizer: "nós temos que tomar cuidado com as cópias que vão perdendo a semelhança". Porque as cópias vão perdendo a semelhança... vão perdendo a semelhança... vão perdendo a semelhança... chega a um ponto que elas não têm semelhança nenhuma. Quando não tiver semelhança nenhuma, vira?...

Alunos: Simulacro!

Claudio: Vira simulacro!!

Então, ele diz: aí está o perigo. Aí está o perigo! Na hora em que.. dentro de uma sociedade, dentro de um campo social, aparecerem as cópias degradadas, não tem muito problema porque vai haver dentro do campo social os responsáveis para curarem aquelas cópias degradadas. O problema está quando começam a aparecer os simulacros. Quer dizer, o simulacro é o quê? Aquele que perdeu toda a...

Alunos: Semelhança!

Claudio: Perdeu toda a semelhança! Ele é... pura diferença. Ele é pura diferença!

Aluno: O travesti seria um simulacro?

Claudio: Cópia degradada. Mas há uma ameaça muito grande aí, por exemplo, com o uso do silicone, de começar a aparecer no mundo pessoas com oito peitos, trinta e duas bundas... (Risos) Vocês sabiam disso? (Risos...) (vozes...) heim?

O que estou dizendo para vocês é que a experimentação do silicone já vai gerar um novo tipo de corpo. Nós vamos viver isso em muito pouco tempo. Os monstros, que só existiam nos livros, vão começar a aparecer na rua. Você vai começar a encontrar pessoas de tromba... Por que isso vai ocorrer? Porque... porque, essa experimentação, ela vai se dar! Ela vai se dar! Porque o homem... ele só mantém a unidade da semelhança dele se o sistema iconofílico o prender. Mas o homem não é preso pelo sistema iconofílico. Ele começa a escapar daquilo dali. Ele começa a fugir. E ele começa a fugir na música, no cinema, no teatro... Em todas as artes ele começa a fugir do sistema de semelhança. Ele vai fugir de tal forma do sistema de semelhança que um santo, chamado Santo Agostinho, escreveu um texto com o titulo "Da música". E nesse título chamado "Da música" o Santo Agostinho disse que nós, os homens, só devemos ouvir cantar aos outros homens... jamais ouvir cantar as bestas. Incrível! Olivier Messiaen fez toda uma obra do canto de bestas. (Vocês entenderam o que eu disse?) Canto de bestas é o seguinte: O Messian fez uma obra em que só os pássaros cantam! A obra de Messian é um simulacro. É um simulacro! Absurdo! Absurdo!! Porque jamais se poderia pensar em privilegiar o animal sobre o homem.

É... as três figuras - o símbolo, o simulacro e o ícone - no nosso caso, que é o cinema, o cinema-tempo.... ou seja: a entrada no cinema-tempo é a saída do símbolo e do ícone: a entrada do simulacro!.. Você sai de todos os modelos... sai de tudo quanto é modelo.

Quando você entra no tempo, quando você entra na verticalidade do tempo, você entra no ser do tempo, tudo aquilo que te garantia se quebra. Tudo se quebra! Você já não tem mais nenhuma linha conforme a linha em que você vive - que é a linha da história - onde os modelos estão constituídos.

Muito fácil! Eu coloco esta roupa... saio andando pela rua... - ninguém vai olhar! - na maior tranqüilidade, sem problema nenhum. Chego num restaurante e como, entro no cinema... Nada me abala! Porque há um processo de semelhança que garante a nossa existência dentro do mundo social. Mas, desde a década de sessenta, nós começamos a experimentar a primavera da diferença; o surgimento da diferença!

Por que eu estou falando da década de sessenta? A década de sessenta foi a liberação do vestuário, o surgimento do sexo grupal... Ou seja, uma série de ocorrências que vieram quebrar os grandes modelos do ocidente. E ao ponto extremo que, hoje, não há nenhum problema de um homem estar de terno e um outro estar vestindo uma roupa do século XVIII. Ou seja, o nosso mundo abriu, começou a abrir, para todas as possibilidades. E esse fenômeno vai desencadear na arte. Ele desencadeia na arte. Por exemplo, você já não vê mais uma tela onde tem um rosto pintado como uma fotografia. Qualquer tela que você encontrar, se aquela tela é a tela representando a figura de um homem, ela tem o rosto deformado... É todo o processo da iconofilia que começa a se desfazer em cópias degradadas e em simulacros: simulacros de músicas, simulacros de pinturas, simulacros de dança...

Olhem a dança!... Olhem o que aconteceu com a dança moderna: o pé ficou descalço, a roupa variou, o corpo se horizontalizou, o corpo horizontal!... a dança é dançada no chão, olhem que absurdo!...

O homem é um ser ereto. O homem conquistou, na escala dos animais, o poder de andar com as mãos livres, o poder de andar em pé, o poder dançar... E, de repente... ele dança...no chão! Se arrastando no chão! O que que significa isso? A emergência do simulacro! O simulacro começa a invadir todos os campos. (Está bem assim?) Todos os campos... ele começa a invadir!

Um último exemplo (e eu vou tomar um café para descansar): é o desfile das manequins: Que é o desfile? Um simulacro!!! Um simulacro... ah, porque... o século XX inventou um outro corpo de mulher. Não há ali sequer um corpo que não tenha sido produzido artificialmente, sobretudo pela anorexia. Não sei se vocês concordam comigo!?... Joga anorexia num manequim ou modelo, ou seja, produz um corpo diferente. (Agora vão tomar um café!)

(Eu vou começar!)

Aluno: Por que se chama degradação?

Claudio: Degradação é o seguinte: N., você chama um artesão e manda ele fazer uma cadeira. Aí você diz para ele como é que você quer a cadeira, não é isso? Agora, o principal elemento que você quer que a cadeira tenha, quando você manda fazer uma cadeira... Você manda fazer uma cadeira! L. vai mandar fazer duas asas para uma fotografia. Fotografia do grupo dele, que são os personagens rítmicos. Você, N., mandou fazer uma cadeira, tá? As asas que L. mandou fazer, ele não quer, de modo nenhum, que tenham a função "voar". Ele não quer isso! Se ele quisesse que elas tivessem a função voar, ele viraria uma personagem mítica chamada Ícaro, que iria morrer. (Certo?)

Ou seja, a asa que o Carlinhos quer já é uma asa de cópia degradada. Porque a asa dele não tem função. E a cadeira que a N vai mandar fazer, ela tem função. Ela vai mandar fazer uma cadeira que sirva para sentar. Quando você produz um objeto, que é o objeto que respeita o modelo, ele tem a função dele em pleno exercício. Mantém-se a função dele.

Por exemplo, eu mando fazer um sapato. O que que meu sapato tem? A função de ser usado. Você manda fazer uma cadeira... função de ser usada. Agora, L. vai mandar fazer duas asas. As asas de L. vão ter apenas uma função: fotografia, depois... não vale mais nada. Não valem mais Elas saíram do esquema clássico do artesanato, que é produzir objetos com função. Isso que o artesanato faz. Ai N. mandou fazer a cadeira. A cadeira que N. mandou fazer chama-se cópia. Cadeira-cópia. Cadeira-ícone. Por que é uma cadeira-ícone? Porque ela respeita todas as funções e as formas da cadeira.

Agora, amanhã chega na casa de N. um pintor. E esse pintor vai, pinta a cadeira que a N .mandou fazer... ele pinta na tela. A cadeira do pintor é uma copia degradada, porque ela perdeu a função. Ela não serve para sentar. A pintura é uma copia degradada. Vocês entenderam? Degradar a cópia é arrancar do objeto a sua função.

Aluno: E a foto da cadeira?

Claudio: A foto da cadeira? Já é uma degradação dela! Porque ela perdeu a função.

Aluno: A foto dela não seria um ícone?

Claudio: É um exemplo de ícone. Mas para o Platão, quando o Platão analisa... ainda não existia foto em Platão, mas tinha um pintor que pintava igualzinho... Para o Platão, a fotografia é uma copia degradada. Inteiramente degradada. Perdeu a função. Todos os objetos, para serem boas cópias, têm que manter a função. Por exemplo, eu mando fazer 30 sapatos, mas nenhum serve para usar. Eu fiquei maluco! Eu pirei! Os objetos que a gente produz têm que ter função. Tendo função, os objetos são cópias perfeitas!

Então, o pintor, quando ele pinta um objeto, ele já degrada esse objeto. Por isso, para Platão, todo artista degrada. O artesão, não! O artesão produz as boas copias; e os artistas, as cópias degradadas. (Entenderam?) Cópias degradadas!... (Não entendeu não, C.? M.?)

Aluno: Por isso ele não gostava dos artistas?

Claudio: Por isso ele não gostava dos artistas!

Mas vejam bem, a cópia degradada não é problema para Platão. Ele diz: "Não, a cópia está degradada, não é bom isso! Não é bom, porque as cópias devem ser perfeitas. Então, os artistas não devem viver na sociedade. Vão embora! Não quero artista na minha cidade.... porque eles degradam tudo! Só quero artesão". Agora, a copia degradada traz problemas? Não! Não é problema nenhum! O problema é que a cópia degradada vai se degradar..........

(fim do lado A)

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Lado B:

Você pega, por exemplo, o Brancusi. Você pega um pássaro que Brancusi fez... Brancusi fez o pássaro. Mandou lá da [Romênia] para os EUA de navio. Chegou na Alfândega, dos EUA, o pássaro não passou. O pessoal da Alfândega disse: isso aqui não é obra de arte! Não deixou passar. Não é obra de arte! Por que não é obra de arte? Porque na Alfândega obra de arte tem que ser...

Aluno: Cópia do modelo.

Claudio. Cópia do modelo! O Brancusi ficou uns dez anos brigando para provar que ele era uma obra de arte. Porque, ou seja, a obra de arte ela começa a perder as características de cópia. (Certo?) Quando ela perde as caraterísticas de cópia - como esse pássaro que o Brancusi fez - quando alguma coisa perde as características de cópia, ela já não imita mais nada! Por exemplo, isso aqui [mostra alguma figura] já não imita mais nada. (Dá para entender isso aqui?) Quando não imita mais nada, torna-se...

Aluno: Simulacro!

Claudio:... e o seu próprio modelo: é isso que o simulacro.??..

Aluno: E por que essa cópia degradada ameaça tanto o Platão?

Claudio: Ela ameaça porque de tanto se degradar vai virar simulacro. É isso!

Aluno: E o que que isso faz?

Claudio: O simulacro? O simulacro é a perda da semelhança! Você não obedece mais a modelo nenhum. O Platão, por exemplo, todo homem grego tem que ser um guardião da cidade grega. Todo homem grego tem que seguir um modelo. Você sendo simulacro, você não segue mais modelo nenhum!

Aluno: Só é música, a musica erudita, não é?

Claudio: Só é música a música erudita! Só é não sei o que isso.... acabou-se, você não tem mais suporte para..

Aluno: Isso ameaça politicamente...?

Claudio: A cidade? Acaba a cidade! A cidade se desfaz! O campo social acaba! É a emergência das singularidades. Você já não imita mais nada. Você não tem que ser bom, você não tem que ser mau, você não tem que ser obediente, você não tem mais nada para seguir. Você, quando faz um ato, o seu ato não pode ser bom nem mau. Porque um ato só é bom quando ele imita o modelo, o ato só é mau quando ele não imita o modelo. Não há modelo, o ato não é bom nem mau. Inclusive, todo sistema de linguagem se desfaz. Tudo se desfaz. Acaba com tudo! Então, Platão zelando, não pela Grécia, mas zelando pela humanidade, porque a humanidade não sabe viver sem obedecer e ser castigada. (Risos...) Literal! Literal!

Aluno: O conceito de androide...?

Claudio: O que é que tem? Se o androide vai romper com isso?

Aluno: Não, é, porque o conceito de androide seria o que... uma cópia...?

Claudio: Não... um simulacro? Por exemplo, passou um filme, L., não sei se você chegou a ver - "Blade Runner". Aqueles replicantes, eles são simulacros. Agora, eles chegaram a um ponto tal...(aqui você vai entender!)...os simulacros chegaram a um ponto tal que ninguém sabe mais quem é homem ou quem é simulacro. Ninguém mais sabe quem é replicante e quem não é. Porque, inclusive, na segunda produção do Blade Runner, o Harrison Ford é replicante. Você entendeu isso que eu falei? Aquele policial que cata replicante, na segunda versão ele é replicante. Porque o simulacro, ele se mistura tanto com o modelo, com a cópia, que ele acaba com o mundo das cópias e ninguém mais distingue o que é cópia e simulacro. É isso que Platão temia.

Aluno: Mas ai vem o caos?

Claudio: O caos completo!

Aluno: O Blade Runner é uma visão totalmente caótica!

Claudio: Totalmente caótica! Mas só que... aí começa a aparecer o que Platão mais temia: o caos pode ser administrado.

Aluno: Ele temia que o caos fosse administrado?

Claudio: Não. Platão temia o caos. Mas... a experiência do caos nos revela que o caos pode-se administrar.

Aluno: Isso o Platão não esperava?

Claudio: Não. Ele não esperava, não: ele não admitia! Ele não admitia!... Porque a questão é a seguinte: toda a questão de Platão - isso é que é muito difícil, o que eu vou falar agora, sei que vai ser difícil... - toda a questão do Platão é a manutenção da humanidade, sabendo-se que a humanidade se constitui pelo processo de imitação . Você pega uma criancinha e o que que você fala para a criancinha? Imite os mais velhos! Ou não? Não é isso? Por exemplo, você vai numa tribo de índios, os bororós, e depois vai na tribo de índios xavantes. O que que as crianças bororós fazem? Imitam os adultos bororós! E os xavantes, as crianças xavantes? Imitam os adultos xavantes! Então, dentro de uma sociedade, sempre o processo de imitação vai ser o modelo. É o modelo constituinte dela. Se você introduz o simulacro, você rompe com os modelos. A quem que eu vou imitar? Eu vou chegar lá na policia... Delegado, a quem que eu imito? Eu estou sem saber o que eu faço, não sei a quem eu vou imitar, o que é que eu vou fazer? (Vocês entenderam o que eu disse?) Você não sabe mais o que faz!

Mas, nesse momento, aparece uma das coisas mais bonitas da vida! No momento em que você não sabe o que faz é o momento em que você tem que se constituir. É a experimentação da sua liberdade. Ou seja, você já não tem mais nada para copiar: você próprio tem que se tornar o seu próprio modelo. É esse que é o modelo: você próprio tem que se constituir, produzir um novo ser.

Aluno: Isso que é a administração do caos?

Claudio: Isso que é a administração do caos!

Aluno: Claudio, eu posso dizer então que agora o modelo é Deus-Natureza?

Claudio: Não! Bem, você pode dizer isso, pode dizer isso! Modelo Deus-Natureza... ou seja, isso daqui.... Eu vou dizer de outra forma que vocês vão entender melhor... Vou usar uma aula que eu, por exemplo, não dou há séculos (viu?), mas vocês vão compreender com mais facilidade o que estou dizendo. Existe um filósofo historiador, chamado Michel Foucault, e o que esse filósofo estudava era o poder na cidade. Viu? O poder na cidade. Por exemplo, no Rio de Janeiro, vamos dizer uma coisa que tenha poder aqui no Rio de Janeiro... O César Maia! Ele não tem poder? Ele não pode tirar paralelepípedos? Eu posso tirar paralelepípedo? Não, não posso! O César Maia pode! O César Maia não pode fechar a TV Globo, dizendo, inventando que a TV Globo, por exemplo, está produzindo balburdia sonora? Pode! O Roberto Marinho bota outro prefeito no lugar dele.... mas ele pode! Ele não faz, mas ele pode fazer: ele tem o poder!

Aluno: O poder legal?

Claudio: Pode! Se ele provar que a TV Globo está produzindo perturbação sonora na cidade, ele fecha. Aí o sistema jurídico..?..ele fecha: ele tem o poder, tá?

Agora prestem a atenção!

Na cidade grega, quando Foucault foi estudar os gregos, ele descobriu que na Grécia, na cidade grega, havia dois poderes. (Agora vocês vão marcar, para vocês compreenderem!) Havia dois poderes na cidade grega. Um, chamava-se poder político e o outro, chamava-se poder econômico. Havia esses dois poderes: o poder político e o poder econômico. Antes de entrar, vamos fazer uma prática chamada filológica. (O que é filologia? É estudar os termos.) O que que quer dizer político? Político se origina na palavra polis, que em grego quer dizer cidade. Então, o que que é o poder político? É o poder sobre...

Alunos: a cidade.

Claudio: Político é aquele que tem poder sobre... A cidade! E esse poder político existia na Grécia? Sim. Então, todo grego queria o poder político. Mas além do poder político ele queria o poder econômico. Agora, econômico quer dizer o quê? Econômico vem da palavra oikos, que quer dizer casa. Oikonomia. Nomos, nomia quer dizer lei, a lei da casa. Então, todo grego queria ter poder econômico e poder político, poder sobre a cidade e poder sobre a sua casa. (Entenderam?) Porque o grego tinha duas casas: a casa da cidade e a casa do campo. A casa do campo é que trazia os alimentos para a casa da cidade. Então ele administrava a casa da cidade e a casa do campo. Por isso... aparece uma coisa que ninguém nunca compreendeu: os gregos adoravam as gregas. Eles adoravam as gregas, mas sempre quando um grego [atingia os] quarenta anos casava-se com uma grega de dezoito. Pra quê? Para ensinar a grega a administrar o oikos, administrar a...

Alunos: casa.

Claudio: Então, a mulher grega era uma mulher econômica, ela dava conta da economia. Ela administrava a casa, [sendo] administrada pelo homem. Mas o homem, além de administrar a casa, o que mais que ele administrava, M.?

Aluno: A cidade.

Claudio: A cidade. A mulher não, a mulher só podia ficar na casa. Era livre para aquilo, mas só podia ficar na casa. O homem ia para a cidade, para administrar a cidade. Então, dois poderes (não é?): o poder econômico e o poder político.

Quando Foucault foi estudar os gregos, ele descobriu esse dois poderes: o político, que vem da polis - a politea; e o oikonomos, que vem do oikos - a economia. Esses dois poderes! Ai o Foucault descobre um terceiro poder, que se chama enkratéia. O que é enkrateia? É uma das coisas mais bonitas que os gregos produziram. Os gregos, eles acham que nós, os homens, somos dotados de paixões muito fortes e essas paixões muito fortes podem comandar as nossas vidas. Por isso, o homem grego, ele deve administrar as suas paixões. Então, o homem grego tem que adquirir um terceiro poder: o poder sobre as suas paixões. Esse poder sobre as suas paixões chama-se enkrateia que é, para os gregos, a estética da existência. Todo aquele que tem o poder sobre as suas paixões torna a sua vida bela. (Vocês entenderam?) Esse fenômeno grego, jamais pode-se dar no Ocidente. Por quê? Porque no Ocidente podemos ter o poder político e o poder econômico. Mas jamais enkrateia. Porque quem organiza a nossa subjetividade é a igreja, a família, a escola, etc. (Entenderam?)

Então, é exatamente essa a questão platônica. A questão platônica é com a enkrateia. Ele não quer a enkrateia. Porque a enkrateia vai produzir subjetividades que são constituídas fora de qualquer modelo. O que você aprende não é seguir modelo. O que você aprende é a ser livre, dominando as suas paixões, governando as suas paixões. Então você, ao governar as suas paixões, você não se submete a nenhum poder externo se esse poder não for explicado pela sua inteligência. Nenhum homem livre se submete ao poder do estado!(Não sei se vocês entenderam...). (Conseguiu entender, C.?).

Essa pratica da enkrateia, que é o terceiro tipo de poder, - não é esse o terceiro tipo de poder? - nesse tipo de poder não há modelo. Porque na hora que você for administrar a cidade, que é o poder político, você segue um modelo, o modelo de administrar a cidade. Quando você for administrar a casa, você segue o modelo de administrar a casa. Mas, quando você for administrar a si próprio, você não tem modelo nenhum para seguir. Você tem que produzir a sua linha de vida. E qual é a sua linha de vida? A liberdade! Por quê? Porque você sendo livre deixará que todos os outros sejam livres. Produz uma sociedade de homens livres. Impensável no nosso mundo! Impensável no nosso mundo que é governado por outros modelos. Como por exemplo, o dinheiro. (Entenderam?)

O nosso mundo não pode oferecer isso. Por isso que, no nosso mundo, essas experimentações de enkrateia, elas só se dão com o artista. Só ele é que faz essa experiência. Porque ele, na experimentação da sua matéria - pode ser matéria escrita, matéria sonora, não importa qual: chama-se matéria de expressão -, quando o artista mergulha nisso, as soluções quem tem que dar é ele, sem nenhum modelo! (Não sei se entenderam?) Quando o artista vai fazer a sua tela, quando o artista vai fazer a sua música, ele não tem um modelo para seguir, as soluções quem tem que dar é ele. Ou seja, ele não está reproduzindo ali nenhum campo político, nenhum campo econômico. Por isso a arte é a experimentação da liberdade!

(Querem perguntar alguma coisa?)

Aluno: Mesmo no figurativo, ele não está copiando nada!?

Claudio: No figurativo está, no figurativo está. Por isso é que no século XX o figurativo vai sofrer, direto, desde 1910, a presença do abstracionismo e do figural.

Aluno: Mas um quadro impressionista, por exemplo, ele está copiando mas não está copiando!?

Claudio: Tá, ainda tá!

Aluno: E o Bacon?

Claudio: Ele vai tentar fugir disso, vai tentar fugir disso.

A gente não deve pensar assim não, A.. A gente não deve pensar escolas, porque as escolas são grades muito largas. Você deve pensar a singularidade do artista. Em vez de pensar a escola impressionista, porque isso não existiu, você tem que pensar Manet, Monet... E cada um artista, este sim, este você afirma...

Aluno: Monet, Monet, nunca se submeteram...

Claudio: Jamais, jamais! Mas outros sim, outros se submetem! Você nunca pode dar conta disso por essas figuras fictícias que são as escolas. A escola é uma seita, toda escola é uma seita, toda escola constitui um modelo a que você se submete. Por isso a escola produz fanatismo. (Vocês entenderam?) Qualquer escola produz fanatismo! Onde você constituir escola aparece o fanático. O fanático é a reprodução permanente daquele modelo. Isso que o fanático quer. O que é o fanático? O fanático segue o modelo e quer que aquele modelo jamais se desfaça. Isso é que é o fanático... O fanático religioso, por exemplo. Então, a única maneira que você tem de evitar a pior figura que pode existir na humanidade, que se chama fanático, é evitando a construção de modelos. Impedir o modelo: impedir o surgimento de modelos. Ou seja, gerar uma sociedade de homens livres.

Isso que estou falando para vocês... (estou agora me dirigindo sobretudo a A., C., M. e V.)...é o problema do ator. Vocês estão começando no mundo de interpretação do teatro agora, mas é exatamente isso que vocês vão conhecer, uma arte em que o modelo de representação não é esse. Isso tudo eu vou começar a explicar para vocês pelo cinema. Por exemplo, o cinema do Hitchcock já quebraria esse seu modelo, esse modelo realista. Ele quebraria... Num... num velório do Hitchcock, ninguém chora. Pode ter, no máximo, um lencinho assim, no nariz. O Hitchcock exige a neutralidade de sentimento dos atores. (Entendeu, hein, C.?) os atores dele têm que ter absoluta neutralidade de sentimentos. Quando ele faz isso, ele pede neutralidade de sentimento dos atores, ele está em confronto direto com a arte realista - que pede os sentimentos dos atores! Então você vê um filme do Hitchcock, você fica assustado, assustado! A Grace Kelly é acusada de ter matado um homem e ela... [nada manifesta]... O Ray Milland está matando todo mundo..., o amante da mulher da...? vai morrer,... e nada! É como se eles não tivessem sentimentos. Porque...

O Hitchcock quer a neutralidade, porque ele está constituindo uma arte simbólica. Já não é mais uma arte iconofílica. Vocês estão me entendendo? Então o melhor momento que vocês teriam é saber que a arte realista não é a única arte possível. Por exemplo, se vocês forem ver um filme do Robbe-Grillet, o Robbe-Grillet tem um artista principal que se chama Jean-Louis Trintignant, o ator do Robbe-Grillet, vou dar um exemplo para vocês entenderem. Eu sou ator de um filme e no filme eu faço uma personagem que perdeu o melhor amigo. Então essa personagem tem que manifestar sofrimento. Um verdadeiro sofrimento. Ela tem que manifestar isso. A interpretação, nos filmes de Robbe-Grillet, tem que ser falsa. É assustador! Falsa! Ao invés de produzir uma ideia de verdadeiro, produzir no espectador uma ideia de falsidade. Você faz um personagem e ao invés de você fazer aquele personagem parecer verdadeiro, você faz ele parecer... falso! Inclusive é tão difícil o ator realista entender isso que quando eu digo, inicialmente, ninguém entende. A questão do Robbe-Grillet não é a postura verídica do ator ou a postura verídica do personagem. Ao contrário, é a postura falsa. Existe um filme dele, "O homem que mente" - em que a personagem principal, em 1945, está com um terno preto, uma gravata branca e uma camisa vermelha. Em 1980 está com o mesmo terno. O que quer dizer isso? O Robbe-Grillet introduz detalhes que faz todas as ações no filme parecerem falsas. Realmente é muito difícil as pessoas entenderem isso. Por quê? Porque quando nós vamos ao cinema, nós queremos reconhecer no cinema a nossa própria vida.

Por que as novelas fazem sucesso? Porque reproduzem o reconhecimento das pessoas: todo mundo se reconhece nas novelas! Se você produzir uma novela em que os espectadores não se reconheçam, ela não passa. Você tem sempre que produzir aquilo que o espectador se auto-reconheça ali dentro. Ele próprio está ali dentro. É ele que está passando - são os sentimentos dele, são os desejos dele, são as coisas que ele gosta... Agora, quando você vai produzir um cinema que já não é mais realista, o homem comum não pode ver, porque o homem comum só entende aquilo em que ele se reconhece.

Aluno: E qual o intuito do Robbe-Grillet?

Claudio: O intuito do Robbe-Grillet é produzir o que se chama cinema-tempo.

Aluno: Não, eu estou perguntando o que é dele, esse não- reconhecimento?

Claudio: Ele não tem nenhum objetivo nisso. Os objetivos são sempre morais. Sempre que você falar objetivo é uma moral... O Robbe-Grillet não tem objetivo, porque não tem moralidade no cinema dele. O cinema-tempo não tem moralidade!

Aluno: Então tem que fazer o quê?

Claudio: Nada! Ele não está produzindo um personagem falso porque "Robbe-Grillet resolveu fazer um personagem falso". Não é nada disso. São as coordenados daquele cinema que, necessariamente, produzem uma personagem falsa. Não sei se você entendeu isso...Você pega uma coordenada do cinema e ali aparece a personagem falsa.

(Eu vou voltar para vocês entenderem!)

Existe um diretor de cinema chamado Quentin Tarantino. O Quentin Tarantino fez um filme chamado "Cães de Aluguel". Em "Cães de Aluguel" Tarantino fez um flashback. O que é um flashback? É uma narrativa de uma história do passado. Ele produz um flashback de uma pessoa... de um acontecimento que não aconteceu no passado da pessoa.

(Vejam se entenderam?) É uma pessoa...

Aluno: Não aconteceu?

Claudio: Não aconteceu! Tem um flashback, mas aquilo nunca aconteceu. É um flashback falso. Isso já tinha sido produzido pelo Hitchcock. Vocês entenderam o que é flashback?

Aluno: Eu entendi. Mas não entendi porque ele produziu isso.

Claudio: Introduzindo isso, ele quebra o modelo do flashback, rompe com aquele modelo verídico. Ele está rompendo com o chamado cinema verídico. Porque esse cinema verídico... o objetivo do cinema verídico é a produção do reconhecimento.

Aluno: Sai do tempo cronológico...

Claudio: Mas isso é muito grave, C., porque esse cinema verídico - vou dizer uma coisa gravíssima para vocês - foi a sustentação do nazismo e do fascismo. Sustentação do nazismo e do fascismo! No sentido que é o cinema do reconhecimento. Vai produzindo um tipo de homem...vai gerando um tipo de homem... um tipo de homem abominável! Um tipo de homem que leva a vida dele se submetendo a modelos!

Então, o cinema-tempo não é apenas uma obra de arte. É também uma obra política, no sentido de que desfaz a possibilidade de aparecer os sistemas totalitários ou essas figuras nazistas e fascistas que eles inventaram.

Por exemplo, você não tem o palco, você não vai para o palco, C.?! É uma invenção nazista! Foram os fascistas que inventaram o palco! Eles inventaram todo esse sistema para produzir um mecanismo de representação que domine todo mundo. Que domine todo mundo!

Você cria um tipo de voz... por exemplo, o Cid Moreira: por que será que o Cid Moreira tem aquela voz? Porque o Cid Moreira gosta? Jamais! Porque todo mundo se reconhece naquela voz: é um processo de reconhecimento!

Se você colocar ali no jornal das oito... vamos ver quem... jornal das oito... quem? O Romário! Você coloca o Romário ali... Ele sai avacalhando tudo! Quem é que vai acreditar? Nos EUA um furacão chamado?? Ninguém vai dar importância! É preciso constituir um modelo que você respeite. (Entenderam?) Que você respeite aquele modelo - é no sistema de respeitabilidade que se funda e [se] estabelece o homem-cópia.

Então... quando você vê o jornal das oito, você não está vendo uma exibição de notícias. Você está vendo uma produção de subjetividades!

Aluno: Quer dizer que o cinema levaria o homem a ser mais livre...

Claudio: O cinema-tempo não levaria a ser mais livre, levaria a ser livre. É impossível você encontrar a liberdade fora do tempo. Ou seja, a única coisa - depois eu vou mostrar isso a vocês - a única coisa que importa nas nossas vidas é a liberdade. Nada mais importa! É isso que importa! Por exemplo, a liberdade de L. poder fazer a música que ele quiser. É isso que importa para nós! Nós vivemos numa sociedade, L., você teve que experimentar isso. Nós vivemos numa sociedade de tal forma repressiva que os nossos passos hoje são contidos. Nós somos contidos de todos os lados!

Aluno: Mas, todas as sociedades não foram assim?

Claudio: Geralmente foram: são! Porque toda sociedade - e quando eu falava isso vocês pensavam que era brincadeira - toda sociedade funciona de duas maneiras: obediência e castigo. Obedeceu, (palmas). Não obedeceu..., castigo! A sociedade funciona assim. Nós chegamos a um momento crítico da história da humanidade, que é o momento das afirmações das singularidades: cada um quer afirmar sua própria vida. Nós, hoje, queremos ser responsáveis pela nossa vida e pela nossa morte. Responsáveis pelas nossas vidas e pelas nossas mortes! O homem desse fim de milênio começa a retomar o homem grego.

Aluno: Que é o oposto do homem medieval...

Claudio: São submetidos!???

Eu não estou dizendo que isto está se dando. Nós estamos aqui num sistema de avatares, mas não estamos vendo isso. Nós estamos vendo, como se diz, o ancestral do homem livre. O que quer dizer o ancestral do homem livre? Que o homem... a vida... a vida é um fenômeno - que eu vou dizer assim, não tem outra maneira de dizer - que se deu neste planeta, mas poderia não se dar. Deu-se! Aconteceu! É um acaso! O acaso chama-se acontecimento. O acontecimento se deu. E os únicos responsáveis pela vida somos nós. Nós somos os guardiões das estrelas, dos planetas, dos vulcões, e dos subterrâneos. Nós, os homens. (Certo?)

Então, se nós entregarmos a direção do planeta a esses que tudo que eles fazem é regido por modelos... (Reagan, etc...) teremos, no mínimo... uma guerra atômica. No mínimo, isso que nós vemos dentro das cidades. As cidades chegaram a um ponto insuportável de vida. Não há como viver dentro das cidades. Toda e qualquer cidade é a mesma coisa. Por quê? Porque apareceu - agora que é a grande questão - apareceu a degradação das cópias, porque a essência da cópia é degradar-se. (Não sei se vocês entenderam...) Toda cópia tem que se degradar! É diferente do que Platão disse. Você não tem como, numa sociedade constituída como a nossa, ter o poder de exercer a sua vida. Sua vida é toda presa, não é?, por modelos insuportáveis!

A gente pensa que é brincadeira isso...Esses modelos repercutem no nosso espírito e são os criadores das angústias, dos temores e da insuportabilidade.

Ah! Então está bom! Vocês viram que eu não dei uma aula de cinema, eu consegui fingir que estava dando aula de cinema... Eu não dei aula de cinema! Porque, ou nós vemos o filme, ou não tem aula de cinema!...

Então, para a gente penetrar na imagem-tempo... Eu posso, eu posso... partir da imagem-tempo. Por exemplo, eu estou dando um curso de cinema, já parti da imagem-tempo. Mas aqui não, aqui eu estou fazendo um trabalho lento, bonito... Vocês me travaram! Sem ver [o filme] é impossível falar.

Então, parabéns para vocês, tá?

(Aplausos!)

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