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Aula 3 – 23/01/1995 – O Empírico e o Transcendental

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados na Introdução e nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos); 11 (Conceitos); 12 (De Sade a Nietzsche) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 


O que eu vou falar - não importa o quê, eu ainda não sei nem mesmo o que vai ser... - tem como objetivo mostrar para vocês, nesta aula, por exemplo, o que é o transcendental.

Bom. Duas questões - ambas medievais. A primeira é a ideia de um Deus; o medieval pensava assim, São Tomás pensava assim - um Deus dotado de duas faculdades. (Atentem para isso: a palavra faculdade) Essas duas faculdades seriam o intelecto e a vontade. (É estranho que eu coloque a vontade como faculdade!) E o intelecto de Deus seria povoado pelo que se chama essência. Então, o que estaria no intelecto de Deus seriam as essências.

Mas - o que quer dizer exatamente essência ?

Essência é tudo aquilo que é possível de tornar-se real. Ou seja, a essência é tudo aquilo que não possui uma contradição interna que a impeça de se tornar real. Por exemplo: o que define o objeto lógico, o que define uma essência, é que ela tenha, seja regida, por dois princípios: o de identidade e o de não-contradição.

Então, tudo aquilo que puder/for regido pelo princípio de não-contradição chama-se possibilidade lógica. Ou seja: tudo o que não tiver contradição interna, tem a possibilidade de se tornar real. Por exemplo: no medieval, Deus tem seu intelecto povoado de possibilidades. Ou seja: é povoado de essências. E esses possíveis tornam-se reais; quer dizer, tornam-se existentes - desde que Deus tenha vontade de torná-los existentes. Então, a vontade de Deus, no medieval, se submete ao intelecto. No sentido de que o intelecto [divino] possuiria todos os possíveis. (Certo?)

Então, pelo que eu disse aqui, a realidade pressupõe - antes de ela se dar - o possível. Pressupõe o mundo das essências, que estaria no intelecto de Deus. Voltando: no intelecto de Deus nós encontraríamos os possíveis.

- O que é possível? Por exemplo: a mesa, a cadeira, a árvore - por que esses três elementos são possíveis?

Porque eles não trazem nenhuma contradição interna. Mas eles só se tornam reais se a vontade de Deus quiser transformá-los em reais. Então, digamos, a vontade de Deus tornou, esses possíveis, reais. Quando eles se tornam reais, eles se chamam individuais. Ou seja: tudo aquilo que é real, é individual. E tudo aquilo que está no intelecto de Deus chama-se universal.

Então, a diferença de universal para individual, é que o universal é do campo da possibilidade e o individual é do campo da existência. Por exemplo: eu - Claudio - sou um indivíduo existente. Mas o homem é uma possibilidade no intelecto de Deus. Logo, aquilo que eu estou chamando de universal não teria a mesma realidade que o individual - porque o individual teria uma realidade existencial. Ou de uma maneira mais clara: tudo aquilo que existe é - necessariamente - individual. Tudo o que existe é necessariamente um sistema individuado. Enquanto que o universal passa para o campo dos possíveis - no caso dessa explicação que eu dei para vocês. Ainda que a gente encontre determinadas teses que afirmem a realidade existencial tanto do universal quanto do individual. O grande mestre que tirou os universais do campo existencial foi Guilherme de Ockham. Ele tira os universais do campo existencial, [mantendo ali] apenas o individual. Mudando a linguagem: o indivíduo é o único ser ontológico- porque é o ser que existe - independente de qualquer coisa. Enquanto que o universal torna-se semiológico. Havendo aqui uma distinção entre a semiologia dos universais e a ontologia dos individuais. A filosofia, até o princípio do século XX, manteve essa distinção, embora muitos pensadores ainda admitissem que o universal pudesse ter realidade. Mas essa distinção foi praticamente mantida e o universal tornou-se signo - a cadeira, a mesa, o lápis, o cavalo, pouco importa o que, todos esses universais se tornaram signos. E os indivíduos - que nós costumamos nomear pelo dedo apontado, pelo nome próprio, pelo adjetivo demonstrativo - ganharam existência real. (Certo?)

Então, a realidade passou a ser constituída e habitada por indivíduos (tá?). Os indivíduos são aqueles que povoam o que se chama realidade.

Vamos dizer, da década de 40 para cá, determinadas linhas de pensamento - prestem atenção, hein? Agora as coisas vão ficar um pouco difíceis! Eu vou voltar antes de entrar! - Os universais não ganharam realidade ontológica. Mas têm uma espécie de realidade - uma realidade mental ou uma realidade de linguagem, uma realidade linguística: o universal existe na linguagem; existe na subjetividade. Mas não existe independente ou da linguagem ou da subjetividade. Enquanto que o individual, o indivíduo tem uma realidade autônoma - por isso, ontológica. Agora, a partir mais ou menos de 1940 aparece um termo - singularidade ou singular - que inicialmente é tomado como sinônimo de individual. Ou melhor, já no século XIV a palavra indivíduo e a palavra singular, a palavra individualidade e a palavra singularidade eram tomadas como sinônimos. Mais ou menos a partir de 1940 a singularidade se separa da individualidade. O singular aparece como outra realidade. Vamos dizer: o universal, que é Mental ou Linguístico; o individual, que é ontológico, que é real. E, agora, uma terceira realidade - chamada singularidade.

Antes de penetrar, eu vou colocar os territórios de cada uma:

Os universais são objetos mentais. Ou seja, se não houvesse isso que se chama mente, não existiriam os objetos chamados universais. Os individuais ou os indivíduos são aqueles que povoam a realidade empírica.

- O que é a realidade empírica? Tudo o que existe neste ou noutro planeta qualquer. Empírico é o vivo, o objeto técnico, o objeto físico, o objeto químico, a combinatória de duas moléculas, um átomo - tudo isso é um indivíduo porque tem uma realidade empírica. (Certo?) E o universal é uma realidade mental. O Singular, a singularidade - que seria o outro elemento, o terceiro elemento, sempre foi confundido com o individual. E neste momento de aula, nós não temos poderes para distinguir o singular do individual. Mas - esse singular - também vai ter o seu território. E o território do singular - ainda que rompendo com todas as tradições das filosofias clássicas, sobretudo a filosofia kantiana - chama-se transcendental.

Como nós estamos num trabalho de compreensão - que às vezes torna-se longo e difícil - a minha questão, neste momento, é simples: é marcar a presença de três territórios:

•  O território do universal - que seria o território do mental;

• O individual - que seria um território empírico, ou seja: para existir, o individual não depende senão dele próprio (enquanto que o universal, para existir, depende da mente ou da subjetividade);

• A singularidade - que à semelhança do indivíduo não depende de nada para ter a sua realidade.

Conclusão : o universal não é real - porque é mental.

Mas o individual e o singular são ambos reais - apenas diferem, porque o individual é do campo empírico e o singular é do campo transcendental. (Eu sei da dificuldade extremada disso daqui!)

O que eu estou levantando para vocês - e que eu vou fazer diversos procedimentos para alcançar os meus objetivos - é que a ciência do real tem como objeto de trabalho, o individual. Ela trabalha com o individual.

- Por quê? Porque o individual é aquilo que existe - aquilo que tem realidade empírica.

Mas eu coloco essa noção de transcendental e povoo esse universo que eu estou chamando de transcendental - ainda sem explicar - com esses elementos que eu estou chamando de singularidades. O que vai acontecer de original é que a partir disso daí, as ciências - ao invés de trabalharem com o individual - passam a ter duas metades: de um lado o individual; de outro, a singularidade. (Ainda ficou muito difícil!)

O que eu estou dizendo para vocês? Nesse primeiro investimento, eu estou constituindo aqui - acredito que com uma total facilidade - três componentes: um componente mental, que eu povoo com os universais; um componente empírico - por exemplo, esta sala que está aqui, que é povoada de indivíduos; e um terceiro território, que eu chamo de transcendental, onde eu introduzo o que eu chamei de singularidade.

Vamos avançar!

Uma filosofia do século II a.C. - chamada filosofia estoica - que tem uma repercussão imensa na formação do pensamento ocidental, vai fazer uma prática inteiramente original. Uma prática que nenhuma filosofia até então havia feito: ela vai pegar as três dimensões do tempo - passado, presente e futuro - e separar em duas partes, colocando de um lado o presente e, de outro, o passado e o futuro. ´

- O que os estoicos fizeram? Eles fizeram uma divisão no tempo que, até então, nenhuma filosofia teria feito. Porque todas as filosofias, quando trabalham no tempo, trabalham nas três dimensões - passado, presente e futuro; os estoicos, não! Os estoicos pegaram as três dimensões e colocaram o presente de um lado, e de outro, o passado e o futuro - ligando o presente ao indivíduo; e o passado e futuro à singularidade. (Já começa a clarear! Já começa a aparecer!)

Então, como eu disse para vocês, é de uma dificuldade extremada envolver-se nesse processo - saber o que está acontecendo realmente! Provavelmente - pelo menos no platonismo e no aristotelismo - o pensamento esteve sem vias para fazer grandes envolvimentos com o tempo - porque no modelo Platão e Aristóteles o tempo nada mais é que uma imagem móvel da eternidade. Enquanto que, nos estoicos, o tempo se liberta; e nessa libertação do tempo, eles vão colocar o presente do lado do indivíduo e o passado e o futuro do lado das singularidades.

Presente - o indivíduo.

Passado e Futuro - as singularidades.

Empírico - presente e indivíduo.

Transcendental - passado e futuro; e singularidades.

O que nós temos que fazer é isto: vocês têm que seguir esse quadro que eu estou montando, que nós vamos entender!

Atenção, porque agora vai aparecer um momento dificílimo:

- O que nós já temos do lado do indivíduo? Presente e empírico, (não é?) Do lado do indivíduo estão todos e quaisquer corpos - o corpo está do lado do indivíduo.

Então, se nós chamarmos alguma coisa de corpo, essa coisa que se chama corpo pertence ao presente, ao indivíduo e ao empírico. Logo, no singular, no transcendental, no passado e futuro não existe corpo. Melhor dito, agora: a palavra existência é literalmente - no caso desta explicação que eu estou dando - sinônimo de corpo. Ou seja: só pode existir o corpo - nada mais pode existir!

Por exemplo:

- Deus existe? Se existir - é um corpo! (Certo?)

- O fantasma de Getúlio Vargas existe? Se existir, é um corpo.

A existência e o corpo se identificam.

Então, de um lado: existência, corpo, indivíduo, presente, empírico.

Ora, a partir daí, a singularidade, que já tem o seu próprio campo - que é o transcendental, seu próprio tempo - que é o passado e o futuro; a singularidade - lamentavelmente - não existe.

Está surgindo - na ordem do pensamento - uma realidade, porque a singularidade não é um objeto mental; pois, se ela fosse objeto mental, ela seria universal. Ela tem uma realidade autônoma -, mas ela não existe e não é um corpo.

Os estoicos, com a maior facilidade, chamaram essa realidade - que não existe, que não é um corpo - de incorporal. Então, o universo dos estoicos - eu acho que agora está ficando mais claro! - é, de um lado, o corpo: o corpo está no presente do tempo. De outro lado, o incorporal, que é dilacerado, esquartejado: ao mesmo tempo no passado, e ao mesmo tempo no futuro.

O corpo é empírico, observável, experimentável.

A singularidade é transcendental.

O corpo existe e o singular não - existe. (Foi bem?)

Aluna: Por que você disse assim: lamentavelmente a singularidade...

Claudio: Lamentavelmente para a compreensão. Lamentavelmente - no sentido pedagógico; não no sentido ontológico. (Certo?) Porque eu nunca iria considerar lamentável o fato de um singular não ter existência. Mas como nós estamos no campo da pedagogia e que isso começa a ser expresso, (não é?) oprime: é difícil para a gente entender!

- Por que [é difícil para a gente entender]? Porque eu estou mostrando para vocês, de um lado, o que seria a ciência moderna - essa ciência implicando os dois componentes: o singular e o individual. De outro, a filosofia - que seria sempre do singular, ou seja: a matéria da filosofia seria o singular; e, mais surpreendente ainda, a matéria da arte - que também seria esse singular. (Vamos outra vez!)

Aluno: O corpo histérico seria um corpo, seria o singular?

Claudio: O "corpo histérico" seria incorporal, seria o singular - porque o único corpo que existe é o corpo orgânico. Seria o único que existe. Então, o corpo orgânico está do lado do individual; o histérico estaria do lado do incorporal. O corpo histérico - literalmente - não existe! Qualquer psiquiatra sabe disso, (não é?)

Aluna: Por isso, naquela hora, você ficou devendo a explicação daquela palavra?

Claudio: Exatamente! Não havia como - naquela hora - falar sobre isso.

Então, o que nós temos que fazer, é literal: é o melhor processo pedagógico - é fazer uma divisão... e ir colocando os termos. (Depois eu desfaço isso!) Porque eu identifiquei o individual ao corpo; E no caso - como o M. falou, eu concordei: é individual; o corpo funcional - é individual. Agora, esse corpo está no presente do tempo.

- O que se chama presente do tempo ?

Vamos colocar que o presente no tempo é constituído por um conjunto de instantes: presente, presente, presente, presente... (Certo?)

Por exemplo: os seres que estão do lado do indivíduo não necessitam de tempo para existir: basta, para eles, a dimensão presente. Enquanto que o singular - que é o grande enigmático desta aula - ele está num tempo estranhíssimo, porque ele é - simultaneamente - passado e futuro. Ou seja: tudo aquilo que é simultaneamente passado e futuro é esquartejado - nunca aparece no presente!

Então, essa singularidade, esse transcendental, esse "passado e futuro simultâneo" começam a perturbar o que nós chamamos - o nosso pensamento. O nosso pensamento começa a se ver quebrado: [a ver quebrados] todas as suas referências e todos os seus eixos. Porque, a chegada da singularidade, a chegada do transcendental - é a chegada do paradoxo.

O paradoxo começa a fazer parte de uma investigação científica; fazer parte de uma investigação filosófica; ou a fazer parte de uma prática artística - porque desde que nós aceitemos essas ideias, (vou repetir) transcendental, singularidade, passado e futuro simultâneos, incorporal - nós temos que incluir nelas a ideia de paradoxo.

E agora, eu vou voltar, para vocês entenderem!

(virada de fita)


[...] que até então não tinha aparecido.

É possível que os estoicos, que a filosofia estoica, seja a responsável pela descoberta desse território. E esse território - que é descoberto pelos estoicos - vai ser re-descoberto (sem que eles conhecessem os estoicos) por lógicos do século XIV; e vai ser re-descoberto (sem que ele conhecesse os lógicos do século XIV ou a filosofia estoica) por um pensador magnífico - chamado Whitehead - no século XX. (Certo?)

E, então - novamente - nós estamos diante de uma matéria muito difícil! Não difícil em si mesma; mas em função da constituição da nossa subjetividade - que é organizada sob o regime e a lei do princípio de identidade e do princípio de não-contradição.

Então, sempre que o nosso pensamento - ou aquilo que nós chamamos de pensamento - se defronta com o paradoxo, o que classicamente se faz, é jogar o paradoxo para o fundo dos oceanos... à semelhança do que Platão queria fazer com os sofistas - porque os paradoxos seriam [recusados como] aquilo que impediria o pensamento de pensar. E os que [trilham] o caminho de pensamento por essa [outra] linha afirmam que o paradoxo - ao invés de ser aquilo que impede o pensamento de pensar - ele, o paradoxo - é a paixão do pensamento.

(Então, é essa entrada, é essa a divisória que nós vamos ter que fazer, que nós vamos acompanhar, lutar para compreender. Nós vamos usar pares... porque... - eu não sei se a minha pedagogia é boa. É uma invenção minha (não é?) Ela pode falhar! E na hora que ela falhar, vocês consertam...)

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Eu vou fazer o seguinte: eu vou colocar, de um lado, o individual, de outro, o singular. De um lado o empírico, de outro o transcendental. De um lado o presente, do outro o passado e o futuro. De um lado o corpo, de outro o incorporal.

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Bom, o incorporal e corpo: Essa noção de incorporal foi magnificamente trabalhada (essa informação é apenas para garantir teoricamente o que eu estou falando...) por um lógico do século passado chamado Meinong. Ele fez um trabalho excepcional sobre isso, e na obra dele fica claríssimo, mas claríssimo, que o nosso pensamento não tem que se submeter aos existentes - o nosso pensamento pode penetrar naquilo que não existe. Eu vou falar muito sobre o Meinong.

Quando a gente toma o primeiro contato com esse incorporal - fica muito difícil para nós entendermos. Eu vou tentar, durante umas duas ou três aulas, usar estratégias [pedagógicas] e depois disso eu sigo uma carreira acadêmica - eu acredito que então vocês já terão meios para [enfrentar] isso.

Eu vou dizer que todo corpo orgânico, ou seja: todo ser vivo seria um corpo orgânico; logo, estaria do lado do individual, do presente e do empírico (está claro, não é?) Todo ser vivo tem um comportamento (vamos anotar isso!) e ele, esse comportamento, se manifesta no meio em que o vivo está integrado. Ou seja: esse meio pode variar, mas o vivo tem sempre um comportamento integrado ao meio, que eu vou chamar de - meio geográfico ou meio histórico.

O indivíduo vivo está - necessariamente - integrado ao meio geográfico ou ao meio histórico onde ele se efetua, pelo seu comportamento. É o seu comportamento que efetua a sua existência. E as emoções e os sentimentos desse indivíduo vivo regulam ou desregulam o comportamento. Não tem nenhuma dificuldade no que eu estou dizendo! O indivíduo vivo e o meio geográfico: eu, no Rio de Janeiro, e o meu comportamento... E esse comportamento sendo regulado e desregulado pelas emoções e pelos sentimentos.

Então, pelo que eu falei para vocês, necessariamente, comportamento é corpo, emoção é corpo, sentimento é corpo. Por quê? Porque eu coloquei comportamento, emoção e sentimento do lado [esquerdo do quadro]. Tudo o que eu colocar do lado [esquerdo do quadro] é corpo. (Até aqui, é da maior facilidade!)

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Existe - na literatura, no cinema, na filosofia, na ciência, pouco importa o quê; vamos usar na ciência, para ficar mais claro - algo que se chama imagem-ação ou realismo. Então, imagem-ação e realismo vão para o lado [esquerdo do quadro], (certo?) O que nós chamamos de realismo é o indivíduo vivo, com um comportamento, regulado ou desregulado pelos sentimentos ou pelas emoções, num meio geográfico e histórico. Isso se chama ação: é o mundo da ação. É o mundo em que todos os indivíduos vivem. Eles agem e reagem dentro desse mundo. Então vamos ver uma coisa aqui:

O cinema se aproveitou disso - logo, se aproveitou do corpo, se aproveitou do indivíduo, se aproveitou do movimento que o indivíduo faz, se aproveitou das ações e das paixões dos indivíduos, das emoções, dos sentimentos, do comportamento - e constituiu um cinema chamado cinema realista, que é o cinema propriamente de Hollywood. O western é um exemplo disso. Seria o cinema ação. (Tá?)

- Quais os elementos que nós temos aqui?

Presente, Corpo, (Agora, já é uma massa, não é?) Indivíduo, Comportamento, Meio-Geográfico, Meio-Histórico, Ação, Sentimento, Emoção - já é uma massa, já é uma massa! Todos esses elementos pertencem ao que se chama - em Cinema, vamos botar assim: imagem-ação. Ao que pertence - não importa o quê - ao realismo. Tudo isso que está aqui [do lado esquerdo] é real.

Agora eu vou usar um nome para - como se fosse um carimbo: eu vou carimbar - pah! - segundidade! É o termo de um filósofo chamado Peirce.

- O que o Peirce chama de segundidade? O Corpo, o Indivíduo, o Comportamento, o Meio-Geográfico, o Meio-Histórico, a Ação, a Reação, a Paixão, a Emoção (que beleza!) Tudo isso para ele receber esse nome - segundidade (tá?).

Agora, vamos passar para o [lado direito]: para o transcendental, para o incorporal... E aqui começa a ficar tudo difícil, porque - em primeiro lugar - o Incorporal não existe; logo, ele não é real! De maneira nenhuma ele pode ser chamado de real. E agora eu vou colocar uma palavra do lado do incorporal - e essa palavra vai dar problema, eu tenho certeza - eu vou colocá-la do lado do incorporal, ou seja, do lado daquilo que não existe - afeto.

Ou seja: o afeto ou os afetos não se confundem com sentimentos, emoções e comportamentos. Os afetos pertencem ao Incorporal. (Certo?) Nós vamos ter que descobrir nesta aula o que é afeto! Agora:

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Incorporal, Transcendental, Passado e Futuro - o Peirce vem com seu carimbo brilhante e pah! - Primeiridade!

Aí, nós temos a primeiridade e a segundidade. A segundidade, nela vamos agora fazer uma espécie de pasta de colégio, e botar de um lado a pasta da segundidade e do outro lado a pasta da primeiridade. Nessa pasta da primeiridade é onde está o afeto, onde está o incorporal, o transcendental, etc. Quando o cinema quis mostrar a primeiridade, o que ele fez? Ele fez três práticas: o primeiro plano - que é a mostra dos afetos ou das singularidades. (Tá? Ninguém precisa ficar preocupado, que daqui a pouco eu vou explicar melhor)

Então, o primeiro plano é o lugar em que a singularidade ou o afeto - a primeiridade aparece. Mas a singularidade ou o afeto aparecem também no que se chamam sombras expressionistas. Então, primeiro plano, sombras expressionistas - e deixem passar essa palavra que eu vou dizer agora - espaços desconectados. Não importa isso daqui, o que importa é o seguinte:

Vamos pegar o que eu acabei de falar - de que lado eu coloquei a singularidade e o afeto?

Alunos: Do lado da primeiridade!

Claudio: E o primeiro plano? Também! Agora vamos fazer um exame aqui. Vamos examinar o rosto. Pode ser o meu mesmo: o meu rosto.

O rosto - qualquer rosto - é necessariamente socializante. O rosto tem que trazer marcas de socialização. É uma coisa muito fácil de entender, quando nós nos defrontamos, por exemplo, com o problema do mongolóide, que ele tem o rosto absolutamente igual, e você não pode fazer as caracterizações de socialização. Todo rosto traz com ele marcas socializantes.

De outro lado, todo rosto traz, com ele, as características comunicantes - os rostos servem para comunicar. Nada melhor do que ver os retratos dos políticos na hora das eleições: eles fazem tudo para comunicar alguma coisa. Eles [ostentam] um riso que vai até o nariz ou então um sorriso que cai de baixo do... - fazem qualquer coisa!

Então, o rosto tem duas características muito claras - socialização e comunicação. Mas há uma terceira mais poderosa. A mais poderosa chama-se individuação. Todo rosto é individuante. Calculem se o meu rosto revelasse o Chico, ao invés de mim! Meu rosto me individua.

Comunicação, socialização e individuação são características do rosto; logo, são características do corpo - pertencem à segundidade.

Quando nós passamos para o primeiro plano, ali nós não temos mais as características corporais. O rosto, no primeiro plano, perde essas três características - a socialização, a comunicação e a individuação - e se torna um pacote de afetos: um feixe afetivo; um pacote de sensações. (Certo?) Ou seja: nós começamos agora, - através da noção de rosto, da pura noção de rosto, da simples noção de rosto -, nós já podemos entender Cézanne, Paul Klee, Van Gogh...

Vamos dizer que um girassol tivesse três características: comunicar, socializar e individuar - menos o girassol de Van Gogh. Que são exatamente essas características que ele retira do seu objeto, para deixar com que aquilo que ele está pintando só expresse afetos. (Certo?)

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Então, o primeiro plano, no cinema, teria a capacidade estranhíssima - de des-individualizar, des-comunicalizar e des-socializar o rosto (e nós vamos ter que ver isso, nem que seja por projeção).

Dizem que, um dia, a Liv Ulman e a Ingrid Tulin estavam conversando e olhando um primeiro plano que supostamente uma delas teria feito, e a Liv Ulman disse:

- Olha você ali! E a Ingrid Tulin retrucou:

- Não, não sou eu não, é você!

Ela já não se reconhecia - não havia mais o processo de reconhecimento. Porque o rosto, o primeiro plano, teria passado para esse campo dos afetos. Mas, não seria somente com o primeiro plano que esses afetos e esses incorporais apareceriam. Haveria mais dois processos - que seriam as sombras expressionistas (depois eu vou mostrar!) e o que eu chamei de espaço desconectado.

Agora eu vou crescer, vou crescer:

Do lado do indivíduo, eu coloquei a existência do indivíduo orgânico, (não foi isso?) E esse indivíduo orgânico, com todas as suas características; e - seguindo Nietzsche - o organismo, ou melhor, o indivíduo tem como seu último órgão, como o mais aperfeiçoado dos seus órgãos, a consciência.

- De que lado está a consciência?

Do lado do corpo. A consciência é um órgão da segundidade.

Logo, eu vou colocar o inconsciente do lado do incorporal. E essa prática de colocar o inconsciente do lado do incorporal chama-se - tirar o inconsciente do modelo orgânico ou desumanizar o inconsciente. O inconsciente sai desse modelo orgânico, e passa para o outro lado. O inconsciente, então, passa a ser uma complexidade afetiva, uma complexidade temporal, (tempo, não é? passado e futuro) de singularidade, de esquartejamento, mas, ao mesmo tempo, esse inconsciente seria o responsável pela produção dos indivíduos corporais. Logo, o lado do incorporal passa a ser genético - passa a ser a gênese. Por isso, que eu comecei a aula dizendo que nesse modo de pensar você não pode se limitar a pensar apenas um dos domínios. O pensamento passa agora a ter duas partes - a parte incorporal e a parte corporal. Ou melhor: o pensamento passa a ter duas metades. (Foi bem, não é? Foi bem!)

Aluno: Você falou também que a ciência teria atualmente duas metades.

Claudio: Sim.

Aluno: Eu gostaria de alcançar um pouco mais.

Claudio: É, nós vamos alcançar isso. Nós vamos alcançar! Porque isso tudo que eu estou fazendo para vocês agora, depois eu entro numa série mais... com uma linha até mais nômade, mais abstrata... para mostrar isso para vocês. Deixem-me continuar... (certo?)

Vejam bem: o presente é a dimensão do tempo do lado da segundidade, não é? O presente é aquilo que tem limites. Por isso, todo indivíduo tem... limites. O presente traz o limite para os corpos, enquanto que o passado e o futuro é o ilimitado. Logo, pode-se dizer - numa outra linguagem - que quem está do lado da primeiridade está do lado do infinito; enquanto que, quem está do lado da segundidade está do lado do finito. (Ficou muito ruim aqui?)

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O infinito, do lado direito, na primeiridade - que é o ilimitado do passado e do futuro.

E o finito, do lado esquerdo, do presente - que é dos corpos.

Então, eu aqui já defino de forma definitiva: a ciência é sempre ciência dos corpos. Não quer dizer que ela não pense no infinito - depois eu mostro para vocês. Então, toda ciência é - necessariamente - finita. Enquanto que a arte e a filosofia são infinitas.

Então, a arte e a filosofia seriam infinitas - mantendo esses dois lados que eu coloquei.

Bom. No cinema, o lado do corpo, chama-se imagem-ação. E o lado do incorporal chama-se imagem-afecção.

PosterEu citaria [inclusive] um filme, cheio de Imagens Afecções, que passou há pouco tempo - Europa, de um diretor chamado Lars Von Trier, não sei se vocês viram. Ele é muito marcado por imagens afecções e inclusive as imagens do trem, no túnel. O que mostra - que os afetos - não são orgânicos. Eles - os afetos - independem de qualquer organismo. Os afetos são anteriores, ou melhor, todo o incorporal é anterior ao corpo.

Agora, vou lançar mais dois elementos do lado do corpo - uso e função. Então, por exemplo, eu filmo a Ponte Rio - Niterói, num plano fixo, não sei de onde, das barcas, por exemplo (não é?) E aí essa ponte aparece enquanto funcional, orgânica e com suas propriedades de uso. Ou seja: a maneira como eu a filmo, qualquer observador sabe que um carro pode transitar por ali. No entanto, se por acaso eu filmar um pedaço de ponte, depois outro pedaço de ponte, e amontoar esses pedaços, o que eu tiro desses pedaços de ponte é a função e o uso - é isso que se chama espaço desconectado.

Espaço desconectado é quando você retira do espaço esses dois [inaudível] função e uso.

(intervalo para café)

(Eu consegui dar essa aula sem AR NENHUM!)


[---] corpo, individual, etc., é onde estão a história e a narrativa. (Olha, cada elemento desses, que eu for dando para vocês, depois eu vou retornar, viu?)

A história e a narrativa pertencem à segundidade. Logo, tudo o que ocorre na segundidade tem uma história!? Ou melhor, os membros da segundidade têm uma história pessoal.

Quando eu falo do Cassavetes e do Godard e aponto os dois como sendo o cinema do corpo, o que eu estou chamando de corpo aí é o incorporal (viu?) - no Cassavetes e no Godard, utilizando uma categoria do Brecht, que se chama Gestus. Aqui vocês veriam dois encadeamentos: o encadeamento do mundo dos corpos, do mundo do indivíduo é sempre um encadeamento histórico. São procedimentos históricos que vão se encadeando. Enquanto que do lado do incorporal, do lado do Gestus, os encadeamentos são completamente diferentes, porque as personagens perdem a história pessoal. Elas vão romper com a história pessoal. Nós vamos ver isso para poder compreender.

(Bom. Eu estou inteiramente satisfeito com essa apresentação que eu fiz, eu acho que foi um sucesso... eu vou seguir com ela)

A gente pega um objeto, por exemplo: esse copo que está aqui, e nitidamente - é fácil de entender - que este objeto, o copo - que é um objeto técnico - tem um valor de uso. O valor de uso dele - pelo menos classicamente - é beber água, (não é?) Poderia ser "jogar na cabeça dos outros...", não quer dizer nada - mas ele tem um valor de uso. E além do valor de uso, ele tem um valor de troca, porque você pode levar este copo para o mercado e trocá-lo por uma banana. Então, este objeto que está aqui, tem um valor de uso e um valor de troca nítidos, (não é?) Inteiramente nítidos. E, em terceiro lugar, ele é um signo, no sentido de que este objeto aqui foi dado por um amigo. Um amigo me deu este copo! Então, um dia qualquer, quando eu for beber água, eu pego o copo e em vez de me preocupar com o valor de uso ou com o valor de troca do copo, eu evoco o meu amigo. Essa evocação transforma o copo num signo. Então, o que a gente apreende aqui com a maior facilidade é que qualquer corpo pode ser valor de uso, valor de troca e pode ser signo. Indiferentemente, todos os corpos...

(virada de fita)


II -

[---] envolver todo o campo teórico e todo o campo das nossas vidas. Ou seja: não é que entender o nascimento do tempo signifique que a nossa vida irá mudar - não é exatamente isso! Mas, a partir do instante em que nós começarmos a nos interessar por [esse tema], e a verificar que os "modelos de subjetividade" que estão por aí não são absolutamente necessários... e que nós poderemos produzir outros tipos de subjetividade... Numa divisão como a que eu estou fazendo aqui nesta aula, de modo a seguir essa trilha que eu estou fazendo, eu colocaria do lado da segundidade uma subjetividade material; e do lado da primeiridade, uma subjetividade espiritual.

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É um momento difícil, é uma exposição cruel, (não é?) porque ela quebra tudo aquilo que vocês fizeram hoje, (não é?) tudo aquilo que vocês vão fazer depois desta aula... É como se nós entrássemos num reino de ficção científica; habitássemos aquele reino de ficção científica; e depois fechássemos a porta dele e voltássemos para a nossa vidinha miserável!

Então, essa primeira entrada no que eu vou passar a chamar de sínteses do tempo, eu vou utilizar - fortuitamente - um filósofo de língua inglesa do século XVIII chamado - Hume. Vamos tentar compreender a primeira entrada nisso daqui, que ao fazer essa explicação, eu vou fazer a mesma oposição - colocar um do lado da primeiridade; e o outro do lado da segundidade.

Uma ideia, que já é grega: a ideia de instante.

Instante é a ideia de menor quantidade de tempo. Da mesma forma que segundo é a menor quantidade de tempo do relógio; o instante é a menor quantidade de tempo em termos metafísicos. Então, o tempo teria a sua unidade mínima, que seria o instante. Mas acontece que um instante traria com ele uma lei - a Lei da Descontinuidade.

- O que é a lei da descontinuidade? É que um instante está sempre separado de outro instante. Eles são descontínuos; eles não aparecem juntos - aparecem separados. Por isso, o instante é regido por essa lei da descontinuidade.

Toda a questão do nascimento do tempo se dará (e eu já fiz isso na primeira aula com vocês) pela tentativa de tornar os instantes contínuos - o que se chama síntese passiva.

Se eu digo para vocês que os instantes são descontínuos... e se essa descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo... isso aqui fica complicado; complicado eu dizer que a descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo! Eu, então, vou introduzir a ideia de tempo - que é uma ideia arbitrária; mas [que] eu vou introduzir como sendo a uma pequena ou grande duração. Ou seja: o que se chama tempo é um conjunto de instantes. Mas esses instantes - no tempo - não seriam descontínuos; estariam juntos!

Então, o tempo suporia um processo que transformaria a descontinuidade dos instantes em continuidade. A descontinuidade dos instantes em duração ou em pequena extensão. Para isso, para que haja esse processo da passagem da descontinuidade dos instantes para uma continuidade - que seria a duração - o intermédio, o ser para executar isso se chama - alma. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação contraente.

Então, instantes separados, descontínuos; depois, instantes juntos, contínuos. Entre os dois, o que eu chamei de - contemplação contraente. (Vamos tentar então isso!)

- O que é contemplação contraente.?

Um filósofo chamado Hume - como eu falei para vocês - constituiu uma tese excepcional, em que ele fala de uma - imaginação contraente...

(Vamos tentar compreender aqui, sem o menor problema, porque nas próximas aulas isso tudo vai se resolver, viu?)

Existe uma noção do ser vivo que se chama faculdade - por exemplo: a inteligência, a memória, a linguagem, a percepção, são chamadas faculdades.

As faculdades são forças ativas dos seres vivos. A imaginação, por exemplo, é considerada uma faculdade do sujeito humano. Logo, a imaginação seria uma atividade exercida pelo sujeito vivo. Porque toda faculdade é o exercício que o sujeito vivo faz dela, exercendo, com ela, determinadas práticas.

Hume vai afirmar que a imaginação não é uma faculdade! Então, sempre que pensamos nessa ideia de imaginação - para nós, a imaginação é uma faculdade: [em virtude d]a capacidade que ela, a imaginação, tem de ligar imagens. Hume diz: não! A imaginação é apenas o nome de um lugar qualquer em que as imagens se juntam e se separam.

Ou seja: o que Hume está dizendo é que - na natureza - existe um processo que não é produzido pela imaginação - que é o processo das imagens se juntarem e se separarem, independentemente de qualquer força que as junte ou as separe.

O que ele está dizendo - é muito fácil para se compreender - é que as imagens têm um poder plástico assustador: qualquer imagem pode se misturar com qualquer imagem! Nada impede que uma imagem se misture com outra. Logo - no universo das imagens - existe o que se chama trânsito livre: não há lei regulando a trajetória das imagens.

Por exemplo: se, neste instante, eu quiser fazer esta garrafa com a cara do Sarney, é imediato, imediato - puh - aparece! Por quê? Porque as imagens têm esse processo de se associarem com as outras imagens. É um procedimento das próprias imagens associarem-se umas com as outras. Por isso, o Hume vai dizer que a imaginação não é uma faculdade ativa. A imaginação é o lugar onde se dá a associação das imagens. Nada mais do que isso. Ela é apenas o lugar em que essa associação vai se dar.

Então, nós podemos dizer que esse universo possui um lugar onde as imagens se combinam livremente - qualquer imagem se combina com qualquer imagem - livremente! Vocês podem fazer essa experimentação no que se chama hipnagogia - que é um estado - quando nós estamos entre a vigília e o sono - em que as imagens começam a passar por nós, e nós não temos poder sobre elas. E elas vão se misturando umas com as outras inteiramente livres.

Então: se as imagens podem se misturar umas com as outras livremente, significa que este universo é percorrido por um enorme delírio. Ou seja: há um enorme delírio percorrendo este universo!

- Qual delírio?

O delírio da combinação livre das imagens. Então, é daí que nascem os centauros, os cavalos alados, os dragões de fogo, as sereias... exatamente dessa combinação livre de imagens. (Vocês entenderam aqui?)

Agora, diz o Hume: aqui vem um momento muito difícil, muito difícil: um momento essencial de compreensão. Essas imagens se originam em impressões. Ou seja: a natureza - a única coisa que a natureza envia são impressões. Mas essas impressões que são - por exemplo - a impressão do azul daquele vestido. Eu fecho os olhos e faço uma imagem daquele azul. A imagem se difere da impressão em força. As impressões são fortes, as imagens são fracas.

Então, o Hume diz que a natureza é constituída de impressões; e essas imagens são o espírito. Logo, o espírito ou como diz o Hume: o fundo do espírito é delírio. Ou seja: o fundo do espírito de cada um de nós é esse delírio das imagens. Delírio insuperável - ou seja: necessariamente esse delírio está presente no momento em que o espírito se constitui. Porque o espírito se constitui por um conjunto de imagens. Conjunto de imagens esse que não é regido por nenhuma lei. Ou seja: as imagens se combinam livre e francamente.

Ora: esse é o fundo do espírito! Todo e qualquer espírito, diz o Hume, é absolutamente idêntico ao conjunto de imagens que o constitui. Ou seja: não diferença entre o espírito e o conjunto de imagens em termos delirantes - isso é o espírito para ele. Mas acontece que essas imagens se originam das impressões. Ou seja: a impressão do azul provoca a imagem do azul. Todas as imagens que aparecem, se originam nas impressões - o que mostra que o espírito é um produto da Natureza. O espírito não é filho de Deus: ele é filho da Natureza. Porque o espírito são as impressões enfraquecidas. Isso que é o espírito. Então, o espírito - não ele, mas as imagens que o percorrem; logo, ele - porque ele não é nada mais do que as imagens que o percorrem - tem a capacidade, as imagens têm a capacidade, de se fundirem uma na outra. Isso é uma coisa notável! Porque - na natureza - as impressões não se fundem uma na outra: elas estão separadas!

Eu vou passar para o Bergson e eu vou pedir que vocês utilizem aqui essa expressão que eu vou usar... é... No espírito existe uma interpenetração de fusão! Ou seja: há uma fusão entre as imagens: elas se inter penetram; enquanto que - na natureza - elas estão separadas.

Vamos de outra forma:

Na natureza - elas são descontínuas;

No espírito - elas são contínuas.

Há uma fusão no espírito e uma descontinuidade na natureza.

(Está difícil demais ?)

Coloquem assim:

Duas multiplicidades: a multiplicidade da natureza é descontínua; e a multiplicidade contínua ou de interpenetração do espírito. O espírito é onde tudo se interpenetra.

Aluna: Esse é o território do espírito?

Claudio: Esse é o espírito! O espírito é o território da interpenetração; é o território da fusão; é o território em que - quando dois elementos se fundem - outra natureza aparece. Então, o espírito é aquilo que não para de mudar de natureza.

Bom. Com essa interpenetração, o espírito tem uma diferença com relação à natureza: a diferença entre eles é que os elementos - que são as impressões - estão separados na natureza e no espírito estão juntos. Ou seja: o que estão separados na natureza - são os instantes; o que estão juntos no espírito - são os instantes. Então, esses instantes - quando se juntam - chamam-se síntese.

Síntese quer dizer - juntar aquilo que estava separado. É o oposto de análise. Quer dizer: a síntese dá-se no espírito.

- Mas dá-se no espírito, porque o espírito produz isso - ou são os elementos do espírito que são assim? São os elementos que são assim. Por isso, chama-se síntese passiva.

Essa síntese passiva é a invenção do tempo.

O que eu coloquei para vocês, é um momento muito difícil; mas, nós já temos um caminho. O nosso caminho é a imaginação contraente do Hume.

- Por que contraente?

Porque ela contrai uma imagem na outra! É o poder de contração que ela tem.

Então, o que marca o espírito é contemplar e contrair - é contemplação e contração. É a marca do espírito.

O "elemento básico" dessa exposição que eu fiz para vocês é lembrar-se que as imagens não se interpretam uma na outra porque uma imaginação lhes determina - elas se interpenetram porque é do ser delas se interpenetrarem. É do ser delas! Então, essa interpenetração provoca um diferencial em relação à natureza: enquanto na natureza existem as impressões separadas - no espírito existem as impressões transformadas em imagens inter-penetradas. Então, nasceu aqui o que eu vou passar a chamar de multiplicidade de interpenetração.

- O que é uma multiplicidade de interpenetração?

É exatamente a multiplicidade subjetiva, [ou] espiritual - enquanto que a multiplicidade física é uma multiplicidade que não se interpenetra.

Então, eu vou dizer para vocês - em outra linguagem - que na multiplicidade física, você pode aplicar números inteiros - 1,2,3,4,5,6; enquanto que isso não é possível, ou melhor, você não pode aplicar esses números inteiros na multiplicidade de interpenetração.

- Por quê? Porque, nessa multiplicidade, no momento em que dois elementos se interpenetram, aparece um terceiro elemento.

O nascimento do tempo - a tradição filosófica para a compreensão do nascimento do tempo fora da linha platônico-aristotélica - pressupõe (o Hume usou a palavra imaginação, eu vou usar a palavra espírito) um espírito que contempla e que contrai. (Eu vou dar isso para vocês na próxima aula!)

- Contempla, o quê? O que esse espírito contempla? Ele contempla os elementos com os quais ele é constituído.

- De que é constituído o espírito?

O espírito é constituído dessas imagens! E são essas imagens que ele contempla - e, ao contemplar, ele contrai. (Não sei se vocês entenderam bem...)

Aluna: Como se esse espírito contemplasse a natureza?

Claudio: Ele contempla as próprias imagens, é isso que ele contempla. Ele se contempla: ele se auto-contempla. Mas ao se contemplar - ele contrai: ele produz a contração. Eu vou passar a chamar [esse processo] daqui de narcisismo formal. ( Tudo isso eu vou tentar explicar na próxima aula!)

O que apareceu aqui foi uma noção de contemplação, que não é uma contemplação à distância - é uma contemplação próxima. Ou seja: você contempla os elementos com os quais você se constitui. E ao contemplar esses elementos que te constituem - você os contrai. E, ao contraí-los, você introduz o tempo. Ou seja - muito difícil o que eu vou dizer! - no momento em que esse procedimento se dá, vai nascer o corpo orgânico.

O corpo orgânico é um resultado da contemplação contraente. O corpo orgânico vem como resultado...

Não faz mal que tenha sido muito difícil isso hoje. Não faz mal! Eu acredito que mantendo a linha que eu coloquei na primeira parte da aula - e agora eu vou dizer que a contemplação contraente é um processo que se dá do lado direito da linha... Que essa contemplação contraente é o procedimento do nascimento do tempo... Ou seja, a pergunta é essa:

- Como a vida apareceu no planeta? O que é - exatamente - a vida? A qual linha a vida que nós conhecemos pertence - ao incorporal ou ao corporal? Ao corporal! A vida que nós conhecemos é orgânica. Mas eu estou mostrando para vocês que existe uma potência não-orgânica - que é a geradora da vida. Essa potência não-orgânica chama-se espírito contemplante e contraente. Ela é não-orgânica e gera a vida. (Vamos voltar!)

(Poderia arranjar um café para mim?)

Aluno: Claudio, o que o espírito contempla são as impressões da natureza?

Claudio: As impressões da natureza! Mas o ato de ele contemplar torna essas impressões imagens. E as imagens se interpenetram. Por isso, o espírito contemplando, contrai. O processo é esse!

(Bem, na próxima aula a gente organiza mais isso daqui. Foi bom para alguns, eu sei que foi bom para alguns! Essas noções finais, que eu estou passando, já é um preparativo para a próxima aula)

Eu estou tentando colocar para vocês duas noções dificílimas: contemplação e contração. Eu já falei sobre contemplação: falei sobre contemplação científica, templária e filosófica, lembram-se? Essas três contemplações são humanas! Essa contemplação contraente não é humana. Ela não é humana!

Aluno: É anterior?!

Claudio: Ela é anterior! Ela é a gênese do orgânico. Nós estamos na trilha: necessariamente nós vamos alcançar! [Essa contemplação] é a gênese do orgânico.

- Quer ver uma coisa interessante? Essa contemplação contraente chama-se síntese passiva. Ela gera o organismo, ela produz o organismo. Ela é uma coisa; o organismo é outra - são duas coisas diferentes! Ela é a gênese e a força da vida. E o organismo - é a vida aparecendo no mundo! Quando vocês pegam um pensador de teatro - Samuel Beckett, por exemplo. Samuel Beckett é um pensador do corpo? Mas só que do corpo incorporal. Só que do corpo da síntese passiva. Do corpo da contemplação contraente. O que nos confunde, o que nos leva quase à loucura, quando nós nos encontramos com a arte moderna - não importa se na literatura, na pintura ou no cinema - é que esses grandes artistas estão lidando com o incorporal, com a síntese passiva, com a contemplação contraente... Então, nós - que carregamos os nossos hábitos e o nosso senso comum, que só pressupõem a presença do corpo orgânico - quando lidamos com [o incorporal], não entendemos. (Certo?) É a dificuldade de entendimento [originária n]aquilo que eu chamei do domínio - emnós - da subjetividade material.

Então, eu vou pedir a vocês que, a partir de hoje, a gente faça mais uma separação: subjetividade material e subjetividade espiritual.

(eu estou com muito pouca respiração!)

A subjetividade material - não tem como caminhar agora... - essa subjetividade material é a subjetividade do realismo.

Eu vou parar aqui um instante, (viu?) E vou dar uma marca final nesta aula.

- Todo mundo conhece ou já ouviu falar no Naturalismo? Por exemplo, no Brasil, quem é o naturalista? Aluísio de Azevedo - O Cortiço? E na França? Èmile Zola, (não é?) O Naturalismo não será algo oposto ao Realismo. O Realismo é tudo o que eu falei... corpo, organismo... tudo o que eu falei.

O Naturalismo vai realçar o organismo, ele vai realçar o organismo ou o Naturalismo - que eu estou citando, porque ele é o instrumento que eu vou ter para nós obtermos compreensão. O Naturalismo estaria entre esse incorporal e o corpo orgânico. Então, para nós começarmos a fazer um trabalho para entender o que eu estou falando, eu pediria que vocês assistissem filmes do [Joseph] Losey e do Buñuel para entenderem a imagem Naturalista; para entrarem em contato com a imagem Naturalista.

Aluna: Mas o Buñuel é surrealista, não é bem naturalista!?

Claudio: Não toda a história do cinema dele, viu? Mas grande parte do cinema dele está dentro dessa linha que eu estou colocando aqui.

O que eu estou fazendo com vocês é o seguinte: eu dividi, na primeira parte da aula, Corpo e Incorporal, Individual e Singular, Orgânico e...etc. A linha que divide, eu passo a chamá-la de imagem-pulsão.

Então, Imagem-Ação, Imagem-Pulsão e Imagem-Afecção. Três imagens!

- Por que eu estou chamando a atenção dessa Imagem-Pulsão?

Porque ela vai ser um instrumento muito poderoso para nós compreendermos as outras duas. Por exemplo: há um filme do Dirk Bogarde, chama-se - O Criado. Se vocês virem, vocês vão ver: é uma coisa inacreditável! Num determinado momento do filme o Dirk Bogard se transforma num predador. Ele já não é mais um homem! Ele abandona o sentimento, o comportamento, o meio geográfico - ele abandona tudo! - e se torna um predador. Então, é importante que a gente entre nesse tipo de compreensão - o que é o cinema pulsão! - para distinguir com mais clareza o Incorporal e o Corporal.

Eu estou um pouco sem ar.

Alunos: Já tem duas horas!

Claudio: Tá? Já tem duas horas, eu estou um pouco sem ar, eu gostaria de continuar um pouco mais nas sínteses, mas não dá mais. Então, eu peço desculpas a vocês...

Alunos: Não, foi bom demais!

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Aula de 16/06/1994 – Pensamento: Lucrécio e Espinosa

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 8 (As Singularidades Nômades); 12 (De Sade a Nietzsche); 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) e 20 (Linha Reta do Tempo) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Parte 1

Há um texto de comentário em que aparece um fato estranho: o confronto que uma determinada filosofia faz entre dois deuses ― Eros, deus do amor; e Vênus Voluptas (voluptas traduzindo prazer), Vênus do prazer. Essa filosofia afirma que Eros não seria propriamente um deus; mas uma invenção humana ― enquanto que a Vênus Voluptas seria realmente uma deusa. O que essa filosofia quer dizer é que Eros, o deus do amor, não tem existência divina real e é uma invenção da arte humana; e que a arte humana só tem um poder: produzir felicidade.  Então, está sendo colocado que esse deus do amor, Eros, é um deus que nos traz a felicidade. Conforme essa filosofia está colocando, Eros não é realmente um deus, porque ele impede o supremo movimento de alegria da vida ― que seria o homem encontrar a plenitude da liberdade. Liberdade, essa, que o amor impede, porque nos faz depender de um outro, externo a nós.

Aluno: Inclusive, Platão, no Banquete, coloca que desconhece um deus que seja carente...

Claudio: Para o Platão, Eros era um deus; e aqui está sendo colocado que não, que Eros é uma invenção dos homens, é uma arte. Deus, realmente, seria a Vênus Voluptas, porque ela seria uma deusa apenas do prazer, que não conduziria os homens a essa posição do amor, porque o amor nos dá uma imediata dependência: para encontrar a nossa felicidade ou a nossa alegria nós passamos a depender de um outro, que não nós mesmos.

Essa filosofia está nitidamente condenando o amor como um empecilho e um impedimento para que o homem atinja a liberdade; e decantando a Vênus Voluptas, que seria o prazer. E esse prazer poderia ser alcançado através de comunidades humanas: os homens viveriam em comunidades ― como, de alguma maneira, houve com os hippies na década de sessenta; ou com os beatniks na década de cinqüenta, por exemplo.

Pela Vênus Voluptas, a alegria e a prática do prazer se dariam integralmente. Então, apareceu uma coisa muito estranha. É que nós estamos vendo uma filosofia se confrontar com algo considerado pelos homens, talvez, como o mais importante de suas vidas ― que é o amor. Então, essa filosofia está surpreendentemente afirmando que o amor ― de maneira alguma ―  nos traria a felicidade. E essa filosofia é toda ela dedicada às práticas; e ela diz que há duas práticas ― a prática do prazer e a prática da dor. E ela vai afirmar que o amor é aquilo que nos traz muita dor ― porque nós dependeríamos permanentemente de alguma coisa exterior a nós mesmos. Enquanto que Vênus Voluptas, que é a amizade, comunidades de amizade gerando prazeres, independentemente de relações de qualquer um com qualquer um, não nos conduziria a essa posição do amor. Faria aparecer o que é mais importante na vida ― que é a liberdade. A liberdade seria conseguida pela Vênus Voluptas, mas seria impedida pelo Eros.

Eu vou fazer uma colocação, que é, inclusive, para frente, que pode até mesmo se debater com o que eles estão dizendo e afirmar que Eros não seria propriamente um deus, Eros seria alguma coisa, algo da invenção da arte humana. A arte humana teria produzido Eros e a Vênus Voluptas seria realmente uma deusa. Isso, porque essa filosofia, que é a filosofia dos atomistas (nós temos um especialista lá no canto, que é o Estevão, que vai inclusive fazer uma conferencia sobre isso...), do Epicuro e do Lucrécio, está afirmando ― por isso que estou dizendo ― que a arte do homem é sempre a mesma: produzir infelicidade. Então, a única maneira de nós encontrarmos o que é importante e o que é importante é a prática...

Prática se opõe a especulativo, prática e especulativo se opõem. Especulativo é algo que pertence exclusivamente ao pensamento e a prática é aquilo que se faz.

Então, para essa filosofia, a única coisa que importa é a prática; e a prática nos mostra dois resultados permanentes: o prazer e a dor. Então, a experiência fundamental da vida é a busca do prazer. E a vida não para de nos ensinar como se conquista o prazer e se afasta da dor. Para essa filosofia, o homem faz da sua vida um mal permanente, porque ele se deixa perturbar. O quadro da humanidade, afirma essa filosofia, é um quadro de perturbação permanente ― mas não de perturbação do corpo, e sim de perturbação da alma. Nós, os homens, teríamos a alma excessivamente perturbada e toda a filosofia teria uma única  função: servir para produzir uma prática com prazer. Ou seja, o serviço da filosofia seria nos ensinar o que pertence à natureza. É a maneira como eu expliquei Eros e Vênus Voluptas, dizendo que Eros não seria algo que pertenceria à natureza, mas seria da invenção da arte dos homens. Então, é função da filosofia, nos ensinar a distinguir o que pertence à natureza e o que pertence ao mito; porque aquilo que pertence ao mito é que vai nos trazer a infelicidade. E se nós partirmos para entender a natureza, ou seja, fizermos da nossa vida uma prática constantemente de entendimento, se nós procurarmos entender, nós vamos entender a natureza e vamos suprimir de nós a infelicidade. Então, está se lançando para vocês uma filosofia e ela tem como objetivo fundamental o que estou chamando de prática e a prática se divide em prazer e dor. Nitidamente, o prazer e a dor são fatos que nós experimentamos e podemos distinguir. Ninguém precisa nos ensinar o que é o prazer, nem o que é a dor, nós aprendemos. O que nós temos que fazer é abandonar todo o regime do comando e da obediência para entrar no regime do entendimento. Porque é somente entendendo a natureza que nós superaremos as nossas infelicidades. (Ponto aqui, viu?)

Eu dei uma entrada na filosofia do Lucrécio, e essa explicação, que eu ia dar no meio da aula, não tinha como objetivo dar Lucrécio para vocês. Não, eu não vou fazer isso, porque eu se eu desse Lucrécio eu iria isolar muito esse curso. Neste curso daqui, junto com tudo que estou dando, eu preciso dar um excesso de cultura: dar, assim, muita informação junto com as aulas. Então, não vou poder dar Lucrécio pra vocês. O que eu vou dar vai ser Plotino, século III e IV d.C.; e Espinosa, século XVI e XVII d.C.. Nós vamos estudar basicamente esses dois. Agora, estudando Espinosa e Plotino vocês vão ver que Espinosa é um resultado da filosofia do Lucrécio, um prolongamento da filosofia de Lucrécio ― e eu acabei de colocar pra vocês que Eros seria a razão da nossa infelicidade. Então, Eros é uma paixão triste. (Vamos manter esse nome agora, esse sintagma: paixão triste).

De onde se originam as paixões tristes? Não se originam da natureza. Elas se originam sempre da arte do próprio homem, que é a arte de produzir constantemente a infelicidade. (É uma coisa assustadora, mas que é real). Então, eles estão dizendo, Lucrécio está pregando para nós que nós devemos aprender o que é a natureza. Eu vou um pouco por Lucrécio para depois passar para Plotino e Espinosa.

Para Lucrécio, a natureza é constituída de dois elementos ― e essa aula é definitiva, é para ficar, nós não podemos esquecer! Para Lucrécio, fundamentalmente, são dois os elementos que constituem a natureza: o vazio e os átomos. A questão dos átomos, eu vou explicar pra vocês o que é, mas ele vai afirmar que o vazio ― “O” vazio: é um vazio só! ― é infinito e a quantidade dos átomos também é infinita. Então, já no despertar da filosofia dos atomistas, eles estão nos explicando que existem três infinitos (vão existir mais!), mas existe o infinito do vazio, o infinito dos átomos e o infinito da combinatória dos átomos com “o vazio” (um vazio só). Agora, a palavra átomo é uma palavra que nós utilizamos no século XX, segundo as informações da física quântica. E a física quântica nos informa que o átomo é uma estrutura.

Estrutura é um elemento constituído por partes, ou seja, quando você tem alguma coisa que é uma estrutura, significa que aquilo tem partes e cada parte tem uma função. Então, o átomo, esse átomo com que nós trabalhamos aí e com que fizeram a bomba atômica é uma estrutura, que é constituída de prótons, elétrons, etc., os prótons também têm estrutura, etc.

Agora, o átomo do atomista não tem estrutura, ele é uma unidade; e essa unidade ― sem partes, sem estrutura ― é eterna; ou seja, os átomos nunca nasceram e nunca vão desaparecer: eles são eternos; como o vazio também é eterno. E um corpo é constituído de átomos. Um corpo pode ser esta xícara, um corpo pode ser o átomo da física quântica, um corpo pode ser uma galáxia. Então, todos os corpos são constituídos de átomos. Os elementos que constituem os nossos corpos são eternos; os nossos corpos nascem e morrem, porque todas as estruturas se fazem e se desfazem.

Então, eles estão afirmando que nós não precisamos de nenhum deus, de nenhuma entidade superior para compreender a natureza. A natureza é o vazio e esses átomos; os átomos compõem os nossos corpos, esses átomos são os compostos dos nossos corpos, nossos corpos não podem, então, ter uma existência infinita, uma existência eterna, porque são estruturas. Eles se desfazem ― se fazem e se desfazem ― e os elementos que compõem os nossos corpos enquanto tais são eternos, porque eles são os átomos.

Então, esse universo vai ter sempre presente dentro dele corpos e mundos, porque os átomos vão se chocar, vão se juntar entre eles e formar mundos e corpos enquanto tais.  Mas, agora, já fica lançado pra vocês que um corpo é um conjunto de átomos e que todos os corpos fazem emissões.

(Começa a aparecer, agora, uma doutrina muito difícil; e eu acho que é até onde eu vou ― depois eu vou parar com o Lucrécio!)

Por exemplo, o fogo emite fumaça, a luz emite calor, as flores emitem aromas, os nossos corpos emitem imagens ― porque todos os corpos fazem emissões de átomos. Então, nesse instante, o nosso corpo aqui está emitindo conjuntos de átomos ou compostos de átomos: é por isso que eu estou vendo vocês e vocês estão me vendo. Agora, esses compostos de átomos, que os corpos emitem, vão se encaminhar para o infinito, vão embora. Os corpos estão emitindo átomos, eles são conjuntos, alguns nos pegam e outros seguem em direção ao infinito. Esses conjuntos de átomos que seguem em direção ao infinito vão ser chamados corpos distantes das fontes. Ou melhor, simulacros distantes das fontes, ou ainda melhor, fantasmas distantes das fontes.

O que eles estão dizendo com isso, é que todos os nossos terrores, todos os nossos medos se originam nesses simulacros distantes das fontes, que vão formar o que eles chamam ― isso é fundamental ― de simulacros teológicos, oníricos e eróticos. Ou seja, a ilusão percorre a natureza. Agora, o que tem que ser feito é entender essa natureza, porque o entendimento vai nos afastar dos temores que esses simulacros vão no causar. Então, essa filosofia afirma ― e aqui eu gostaria que vocês declarassem para vocês de forma definitiva, porque eu não vou abandonar essa forma de pensar ― que a única maneira de nós ultrapassarmos os mitos e os temores é pelo entendimento. Ou seja, a única maneira de nós conseguirmos a liberdade é pelo pensamento ― não há outra! Qualquer outra maneira que nós vivermos, conforme eu estou colocando pra vocês, nós seremos banhados e subjugados por esses simulacros. Então, para vencê-los, a única maneira que existe é ― o pensamento.

Então, aqui vocês recebem a informação principal do que é exatamente a minha maneira de trabalhar em filosofia: a filosofia, a arte e a ciência ou a vida só têm um instrumento de libertação ― o pensamento. Então, isso se torna simples? Não. Isso se torna muito complexo, porque a partir de então, nós temos que verificar o que é o pensamento.

Então, eu comecei essa aula com o Lucrécio, (Eu dou três cursos por semana: o Lucrécio é um curso que eu estou dando na terça-feira; não o de vocês), mas a função dessa introdução ao Lucrécio é que, a partir de agora, eu vou começar a falar sobre o que é o pensamento. Vocês já estão sabendo por que eu estou falando o que é o pensamento. Porque o pensamento...

E aí vocês não se iludam com nada mais, porque o pensamento é a única possibilidade que nós temos de encontrar a liberdade e de suprimir o domínio desses fantasmas teológicos, oníricos e eróticos, que vão nos banhar ao longo das nossas vidas. (Acho que foi bem. Certo?). O meu objetivo nesse começo de aula foi exclusivamente colocar a questão do pensamento para vocês.

Então, a partir de agora, eu começo a falar no que é o pensamento em termos de Espinosa. Então, eu abandono Lucrécio, Lucrécio está no século I a.C., e passo para Espinosa. Espinosa é século XVII.

É muito interessante que o Espinosa e o Lucrécio tenham morrido mais ou menos com a mesma idade, quarenta e poucos anos. Lucrécio morreu completamente louco, mas não é louco por terrores dos simulacros, mas alguma coisa como o cérebro mole, como se dizia no século passado. E o Espinosa morreu mais ou menos aos quarenta e poucos anos de idade também, perseguido por todos os simulacros existentes na época, ou seja, perseguido por todas as religiões, perseguido pelo fanatismo, perseguido pela ignorância.

Então, o que estou dizendo para vocês é que o pensamento ― aquilo que nós vamos tentar investigar pela primeira vez nesta aula ― não tem como objetivo o encontro da verdade; não é esse o objetivo do pensamento! O objetivo do pensamento é afastar a ignorância e o fanatismo.

Ou seja, o negativo (usem essa palavra), o negativo do pensamento para Aristóteles e para Platão, por exemplo, é o erro. Para Espinosa, o negativo do pensamento não é o erro, o negativo do pensamento é a ignorância e o fanatismo. Como por exemplo, para Nietzsche, o negativo do pensamento é a tolice.

Então, nós não sabemos, mas o pensamento tem adversários terríveis. Adversários terríveis do pensamento que não são, de maneira nenhuma, o erro, ― mas a tolice, o fanatismo, a ignorância, a alienação (como se dizia na década de sessenta), que seriam os grandes adversários do pensamento, tomando-se o pensamento como o único ------.

(Vou dar um exemplo, depois eu vou voltar, tá?).

São três as práticas para se encontrar a essência: Eros... Olha só, olha que coisa interessante: Eros vai encontrar a verdade. O que Lucrécio disse de Eros?  Que é o pai da infelicidade. No Platão, é para encontrar a verdade. Então, para Platão encontrar a verdade, são as três maneiras de se encontrar a essência: Eros, o amor; a dialética; e o demônio. (Eu não vou explicar!). O demônio (o daimon, não é?); o amor e a dialética.

― Uma vez encontrada a essência, o que nós encontraríamos? Encontraríamos a verdade! Então, para Platão, na hora em que o sujeito humano for governado pelo pensamento, ele vai tender para a verdade. Então, o corpo e as paixões estariam impedindo a verdade de ser encontrada. É preciso dobrar o corpo, dobrar as paixões, dar poder ao pensamento, para que este encontre a verdade ― e aí estaria organizado o destino do homem. Foi nítido o que Platão colocou: é que o drama da filosofia seria suprimir a doxa e encontrar a episteme. Na realidade, isso nunca aconteceu. Nós nunca saímos da doxa, nós nunca saímos da opinião.

Vinte e quatro séculos depois, Proust vai falar uma coisa muito semelhante: a questão do Proust, de toda a obra dele, ― e isso é surpreendente para os seus leitores ―, é abandonar o sujeito, encontrar o pensamento e ir procurar a essência. Logo, Proust é... platônico ― ele é  altamente platônico! ― só que a essência de Proust e a essência de Platão não têm nada a ver, não são sequer parentes. A essência de Platão (isso ainda é muito difícil para vocês) é regida pelo princípio de identidade, pelo princípio de não-contradição, pelo princípio que vai organizar todo campo da ciência do Ocidente. Enquanto que as essências proustianas são alógicas, supralógicas, elas não têm logicidade; por isso, elas são diferenças puras e são chamadas por Proust de mundos possíveis. Então, a questão do Proust é ultrapassar o sujeito psicológico que nós somos, (ou seja, Swann nunca entendeu o Proust), e atingir o pensamento; porque o pensamento é que vai fazer essa viagem nos mundos possíveis. E a função do pensamento é dar esses mundos possíveis em forma de arte para os outros homens. Só há comunicação entre os homens, quando esses mundos possíveis emergem em forma de arte. Fora isso, os homens ficarão sempre submetidos a um solipsismo insuportável, ou seja, cada um fechado no seu próprio gueto psicológico. A única maneira de suprimir esse gueto psicológico é através do pensamento, encontrando esses mundos possíveis. Então, para o Proust, à diferença do Lucrécio, nem a amizade salva. É preciso que se abandone o amor, que se abandone a amizade e se faça da obra de arte o objetivo da vida. Eu não estou sendo proustiano, não estou sendo lucreciano, nada disso; estou apenas dizendo como eles dizem, porque a única coisa que resiste no que estou dizendo pra vocês é que a única maneira que nós temos para alcançar a liberdade é pelo pensamento. Então, o pensamento, aqui, apareceu com muita facilidade ― o pensamento em Platão e o pensamento em Proust se assemelham muito: é livrar-se do sujeito psicológico que nós somos.

Aluno: Claudio, eu poderia dizer que as essências no Proust se aproximam mais das essências dos estoicos do que de Platão?

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Amadeo Modigliani

Claudio: Não. Elas não se aproximam das essências dos estoicos. (Vou te dar uma resposta rápida, porque senão fica só para nós dois, não é?). As essências dos estoicos são corpos; e as essências do Proust são puro espírito. Mas é o espírito conquanto não pertencente a um sujeito psicológico. É como se o que Proust chama de essências fossem outros mundos, outras luas, como ele diz, outros Saturnos ― que só o pensamento pode visitar. O pensamento visita esses mundos e é capaz de construir nesse mundo, fazer uma montagem estética e expressá-lo. Então, a arte é uma expressão. Expressão de quê? Expressão desses mundos possíveis, expressão dessas essências. Agora, essas essências não são regidas pelo princípio de identidade, conforme em Platão (não vou explicar já, que não vai dar). Agora, essas essências, na verdade, são o caos. O pensamento encontra essas essências e ergue nelas a obra de arte. Ou seja, quando Modigliani fez aqueles pescoços e aqueles olhos, ele mergulhou em mundos possíveis. Ou seja, para fazer uma obra de arte, você tem que abandonar o psicologismo, o sujeito psicológico que você é, fazer um mergulho no caos e arrancar do caos alguma coisa. A obra de arte é, necessariamente, esse mergulho que você faz no caos. Daí, a grande dificuldade que é você abandonar a facilidade do sujeito psicológico que você é... O sujeito psicológico é a coisa mais fácil do mundo ― a gente apenas não consegue viver (não é?). Abandonar o sujeito psicológico que a gente é, entrar nessas forças terríveis do pensamento e com ele fazer esse mergulho no caos e de lá arrancar alguma coisa. A obra de Proust começa a ficar mais clara no texto O Tempo Redescoberto. Vocês já podem até ir direto pra lá, inclusive se vocês quiserem focalizar o Proust com o Visconti. Aliás, a maneira que eu vou usar aqui vai ser é essa: sempre pegar a obra de arte, para facilitar para a gente poder entender. O Visconti é um proustiano. Então, toda aquela filmografia do Visconti vai nos  liberar tudo isso. Mas como eu estou dizendo: não é o sujeito psicológico que vai poder alcançar esses mundos possíveis; ele não alcança nunca! Você tem que quebrar o sujeito psicológico.

― O que Proust está chamando de sujeito psicológico? Sobretudo a associação de ideias. Porque o sujeito psicológico que nós somos é constituído por associações de ideias. Nós vamos passando de uma ideia para outra, de um fato para outro: diz outra coisa meu amigo! Aí nós vamos conversando de uma coisa para outra, de uma coisa para outra, aí não abandonamos nunca o sujeito psicológico que nós somos. Para entrar no pensamento é fazer esse percurso em direção aos mundos possíveis, é sobretudo quebrar essas associações de ideias. Porque essas associações de ideias são exatamente a doxa e aquilo que nos dá um conforto, uma segurança. Nós passamos a achar que está tudo bem, que está tudo tranquilo, que está tudo calmo: não está; não está! Nós estamos diante do caos. Nós estamos diante do caos, nós estamos diante do vazio e é o pensamento que tem que confrontar com ele e de lá trazer alguma coisa. (Eu acho que foi bem essa exposição).

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Vocês, então, têm aqui a tríade: sujeito psicológico, objeto e pensamento. Como minha primeira exposição de pensamento, o pensamento seria, no caso do Espinosa, o que ele vai chamar de ideia expressiva. A ideia expressiva é porque o pensamento é aquilo que expressa esses mundos possíveis, enquanto que o sujeito manifesta as suas psicologias. Nós vamos diferir um sujeito humano ― ele está sempre manifestando os seus fantasmas, as suas biografias... E quando você lê esses textos de best-seller, o sujeito é sempre fantástico (não é?). É sempre um sujeito fantástico, que é diferente do que o Proust está dizendo do pensamento ― que é a entrada nos mundos possíveis. Isso vai se chamar ideia  expressiva. (Eu acho que foi bem, não é?). Chama-se ideia expressiva, no sentido de que expressa os mundos possíveis. E o sujeito é aquele que manifesta a sua psicologia.

[fim de fita]


Parte 2

A representação representa os nossos estados psicológicos, a nossa biografia, os nossos fantasmas. Enquanto que a expressão, a ideia expressiva, à diferença da ideia representativa, (aí que vai começar a ficar difícil, eu vou fazer um esforço enorme para vocês entenderem...), a ideia expressiva não expressa o psicológico. Ela vai expressar o que em Proust chama-se mundos possíveis e em Espinosa chama-se terceiro gênero do conhecimento. Aí, veja bem, é possível que nós possamos dizer algo que não seja da nossa psicologia, dizer algo que está em nós, mas não é psicológico. É como se fosse uma unidade diferente, alguma coisa que nos pertencesse, mas não fosse nosso; alguma coisa do espírito, mas não da nossa biografia, não da nossa subjetividade. Ou seja, a função da arte não é contar os nossos sofrimentos pessoais, a função do pensamento não é dizer da nossa história, da nossa biografia, mas é expressar isto que eu estou chamando de mundos possíveis. (Dois pontos, que eu vou começar a explicar. Acho que foi bem outra vez, não é?).

O que eu quero que vocês marquem, que não se esqueçam, é a distinção entre ideia expressiva e ideia representativa ― e a propriedade que eu coloquei na ideia representativa, que é a distância. Isso daqui é fundamental no momento em que a gente for trabalhar em arte. Que a distância faz parte da representação. E um outro fato que eu distingui, fiz uma distinção entre manifestações psicológicas e expressões de alguma coisa que está dentro, mas que não é psicológico.

(Então, vamos fazer essa passagem, eu vou parar dois minutinhos para tomar um café. Podem perguntar também).

É o que vocês vão fazer para fazer o uso da vida de vocês. Ou seja, tornar esse planeta magnífico ou, mais do que nunca, torná-lo paranoico e insuportável, como ele é. Quase que já explodindo, de tão insuportável que ele é.

(Então, só um instante...)

Aluna: Claudio, uma vez, falando em Platão, você falou no simulacro no sentido quase positivo, de que o simulacro seria aquele que não se submeteria à lei.

Claudio: É parecido. Os simulacros perdem contornos porque se distanciam das fontes, ele é muito parecido com o simulacro platônico. Agora, nos simulacros platônicos são as conquistas sofistas para se libertarem dos modelos platônicos. Têm dois funcionamentos diferentes. São essas questões, que vocês precisam estar sempre acesos, que são as ambiguidades dos termos. (Não é?). Saber que nós vivemos enfiados na ambiguidade. A ambiguidade, a polissemia não seria um acontecimento equívoco que aparecesse. Não, isso se dá sempre! Nós estamos sempre envolvidos nisso que eu chamo de ambiguidade. Inclusive, já dei uma aula para vocês que é o problema da... alma isolada... como como se chama?  Do solipsismo. O problema do solipsismo. Eu dificilmente poderia afirmar que a gente se comunica, porque a gente está sempre dando uma produção de sentido e o outro está ouvindo de maneira diferente.

Agora, vamos tentar entender (Tá?). Eu vou chamar o homem, (não tem nenhuma discussão teórica nisso que eu vou dizer, é a coisa mais fácil do mundo, não vou nem fazer explicação), o homem, seja qual for, eu vou chamar de sujeito. Depois, mais na frente, eu faço uma teoria do sujeito; agora, não precisa disso. Então, o homem é o sujeito e o sujeito tem como correlato (a palavra correlato quer dizer que se A é correlato de B, sempre que A aparecer, B tem que aparecer.). Então, o sujeito tem como correlato o objeto. (Certo?).

Nós, os sujeitos humanos, temos como correlato o objeto, que é o mundo. O mundo é o correlato do sujeito, o mundo é o objeto com o qual o sujeito está sempre em contato. Nós, como sujeitos, vivemos incluídos num campo físico, num campo político, num campo social, num campo econômico ― que é onde a nossa vida se desenvolve: nós, enquanto sujeitos psicológicos, sujeitos sociológicos. Agora, além desses dois termos ― sujeito e objeto, que eu coloquei como correlatos ― Platão constituiu a ideia de essência.

A minha visada, ao falar isso para vocês, no meio do caminho vocês vão entender como o platonismo funciona ― mas o meu objetivo é Espinosa.

Então, sujeito é o homem. Objeto é tudo aquilo com o qual o homem entra em contato ― pode vir de qualquer tipo de mundo: físico, social, econômico, religioso, seja ele qual for chama-se objeto. Mas, além desse objeto, Platão coloca uma figura chamada essência.

A essência, para o Platão, seria algo que o nosso corpo enquanto tal, o nosso corpo chamado de sensível, não apreenderia. Quem apreenderia as essências seria apenas o pensamento.

O que o Platão está colocando, então, é que o homem seria dotado de pensamento, mas o pensamento dele seria para apreender as essências. Então, enquanto o sujeito humano discutisse sobre os objetos, ele viveria no campo da doxa, no campo das opiniões. E para atingir as essências, ele teria que abandonar a doxa e entrar na episteme. A episteme é o pensamento! Então, quando vocês ouvirem a palavra epistemologia ― que faz muito sucesso por aí ―  essa palavra quer dizer que o homem abandonou a opinião, abandou a doxa e passou para a episteme. Então, diz-se que o grande sonho da filosofia, ou seja, todo o programa da filosofia é a superação da doxa para o encontro da episteme. Ou seja, superação da opinião para o encontro do pensamento.  E o pensamento não lidaria com os objetos clássicos enquanto tais: objetos físicos, químicos, sociais, mas com a essência. A essência seria alguma coisa colocada fora do tempo; ela teria eternidade. Aqui começa a surgir algo terrível teoricamente, não dá para trabalhar já, seria insuportável para vocês: a essência seria o objeto do pensamento. Ou seja, quando o pensamento estivesse no campo da episteme o que seria o objeto dele? As essências. (Entendido?). A essência seria a unidade...

[O final desta aula está na aula em áudio com o mesmo nome: Pensamento: Lucrécio e Espinosa. O trecho faltante nesta aula transcrita começa no áudio aos 2:40 min. da Parte IV]


[Outro final: na ocasião em que esta aula foi transcrita, não tínhamos encontrado ainda a gravação completa dela. Acrescentamos então a transcrição a seguir, de um trecho de uma outra aula incompleta (s/ data - gravação do Tadeu), pois achamos que ele poderia complementar a aula acima]

(...)

Todos nós vivemos, não só psiquicamente ― o nosso psiquismo apreende no mundo a sucessão do tempo, mas, o nosso organismo é determinado pela sucessão do tempo. (Ou não é?) Então, o que nós passamos a saber? Que o psíquico e o orgânico são governados pela sucessão do tempo. (Vocês entenderam o que eu disse?).

Então, para você encontrar a simultaneidade do tempo, você tem que sair do psíquico e do orgânico. No começo da aula, eu disse que o Worringer fala numa arte orgânica e numa arte cristalina. Então, se eu seguir o Worringer é sair do orgânico para encontrar o cristalino. E esse cristalino? É imaginário ou é real como o princípio orgânico? (Vocês entenderam a questão agora ou não? Hein, Silvia?). O cristalino é real, como o orgânico?

Aluna: Não, como o orgânico não.

Claudio: Como o orgânico não, mas ele também é real, ele não é um produto do imaginário. Agora, nós temos que dividir o  real em virtual e  atual. Que é a forma  mais fácil que eu estou achando. O que eu estou chamando de virtual é exatamente a síntese passiva. (Ficou muito difícil, não é?).

Aluna: “Peraí”, “peraí”!

Aluna: É porque você não tinha falado ainda sobre síntese passiva! Você deu um recuo depois voltou.

Claudio: Eu voltei.

Aluna: É porque ele fala também [inaudível].

Aluna: Ah, bom. Desculpe.

Claudio: Eu não tenho pressa nenhuma nessa aula. Ela é riquíssima! Eu vou até onde vocês puderem ir. Quem vai falar?

Aluna: Eu pedi para esperar um pouco para eu me organizar. Mas estou acompanhando.

Claudio: Agora, novamente eu apontei para a tal da síntese passiva. Apontei para ela. Usei um instrumento até um pouco inválido, para ajudar a vocês... falei em virtual e atual. Nem devia ter falado. A única coisa que importa agora é que não sabendo o que é, uma coisa eu já sei:  a imagem direta do tempo e a síntese passiva são a mesma coisa. Então, agora nós vamos começar a entrar na síntese passiva. (Está bem, Cristina?).

Aluna: Está. Eu só consigo...  eu fiquei pensando se não é nem o psíquico nem o orgânico que são as vias que afetam a imagem pura do tempo...

Claudio: Explica, por exemplo, porque Proust rompeu com a associação de ideias na sua estética.

Aluna: Eu sei, mas eu estou pensando assim: se não é o psíquico e o orgânico, quer dizer, eu sei que não é. Porque esse é o real atual. Não, eu estou pensando na...

Claudio: Isso está ótimo!

Aluna: Eu estava pensando na impessoalidade. Quer dizer, é claro que é, mas... É uma espécie de----- ou é...?

Claudio: A síntese passiva?

Aluna: Não, é quando Deleuze fala muito da impessoalidade. É quando ele fala da contingência...

Claudio:----- quando você falar na impessoalidade... Não, não pode fazer isso

Aluna: Não?

Claudio: a gente tem que ter a mesma lucidez de... O pensamento tem que entender, não importa o quê, mas ele tem que entender, ele não pode ser dominado por nada. Nós temos que entender exatamente o que estou falando.

Aluno: Claudio, um dos motores da coexistência e da simultaneidade que apareceriam, não seria a associação de ideias?

Claudio: Se for associação de ideias é ----, mas se você estudar Proust, você vai ver que todo mundo confundiu muito Proust pensando que Proust achava que a obra de arte, à maneira de Swann, porque Swann pensava assim, era uma associação de ideias. De forma nenhuma! Para fazer arte você tem que sair --------  você tem que sair do psicologismo.

Aluna: É aquela coisa dessa emergência do passado entrando no presente..

Claudio: Não... Mas cuidado, porque essa emergência do passado entrando no presente, de que você está falando, ainda é psíquico.

Aluna: Ainda é psíquico?...

Claudio: Por exemplo, eu vou te dar uma explicação.

Quando eu mergulho no passado, quando qualquer um de nós mergulha no passado, para recuperar, para encontrar no passado alguma coisa que foi vivida, -----. Então você viveu alguma coisa no passado, então, você quer recuperar essa coisa que você viveu, o que você faz? Você faz um mergulho no passado para recuperar aquilo que você viveu. Por exemplo, lá em Macaé tinha o footing que as meninas faziam e os rapazes ficavam olhando. E para contar  isso para vocês eu tenho que mergulhar no passado. E quando eu mergulho no passado o que eu encontro? O antigo presente da minha vida. Então, quando o psíquico vai ao passado para buscar as suas  lembranças, o que o psíquico encontra são antigos presentes. De forma alguma vai ao passado puro, ele vai aos antigos presentes. (Vê se vocês entenderam isso). Distinguir antigos presentes  de passado puro.

Aluna: O passado puro é um passado que não foi presente?...

Claudio: Não vou nem falar sobre isso.

Então, quando a gente vai recuperar nossa vida passada nós estamos recuperando... os antigos presentes. Nós não estamos lidando com o passado puro.

Aluna: ------

Aluno: O passado puro seria correspondente ao presente puro também?

Claudio: Olha, nunca ouvi ninguém  falar em presente puro, mas a gente pode falar isso.

Alunos: Pode?

Claudio: Pode. De uma certa forma, pode. Por que?...

Agora, eu vou começar a explicar para vocês toda a questão, através da compreensão do que vem a ser a síntese passiva.

(Conversa entre os alunos sobre um filme: Julia e Julia).

Vou começar a explicar o que é síntese passiva para vocês. Agora, o que vocês têm que fazer? Vocês têm que abandonar todo o antigo presente de vocês, mas o antigo presente no sentido do que foi presente quando eu expliquei para vocês.  Vocês esqueçam o que eu venho falando até agora. Não se lembrem do que eu estava falando, cuidem só do que eu vou dizer. Se vocês vierem... Por exemplo, se a Tatiana vier com formas da verdade (tá?), se a Cristina vier com a impessoalidade ou etc., vocês não vão entender o que eu estou falando. Nós vamos entrar na síntese passiva. Então, tudo o que eu falei até agora não importa, quando nós concluirmos a compreensão da síntese passiva eu volto às imagens puras do tempo e, aí, vocês vão entender com a maior clareza. (Está bom? Então, vamos lá.).

Vocês já notaram que ao raio sucede o trovão? Ou não? Geralmente a gente vê aquela claridade no céu, (não é?). Assim, ao raio sucede o trovão. Isso de ao raio se suceder o trovão chama-se uma conjunção constante.  Uma conjunção constante que está ocorrendo no mundo. O mundo está sempre nos apresentando essa conjunção constante. Mas agora se, por acaso, você for fazer um sério exame no raio você vai verificar que no raio não está contido o trovão. O trovão não está contido no raio. Ainda assim, eles estão na natureza em conjunção constante. Conjunção  constante quer dizer o quê? Quando aparece um, necessariamente o outro aparece. Ou seja, na conjunção constante você supõe que o primeiro é causa do segundo. (Vocês entenderam?). Então, qual é a causa do trovão?

Aluna: O raio.

Claudio: O raio. (Está certo?). É aquilo que você acha que é. Mas vejam que coisa interessante! O trovão só aparece quando o raio desaparece. Porque eles são sucessivos, são sucedâneos. Um aparece, o outro desaparece. Se eles estão numa relação de causa e efeito, foi isso que eu disse para vocês, é necessário que apareça primeiro o quê? A causa. E depois, o efeito. Então, a causa aparece, desaparece, aparece o efeito. Aparece o raio, depois ---- Não é claríssimo isso? Então agora nós vamos botar... vou botar quem? Vou botar a Silvia, que é uma mulher calma, tranquila,  sentada numa cadeira, observando durante quinhentos anos, uma tempestade interminável. Então, de segunda a segunda ela vê um raio, em seguida o barulho. Então, raio... trovão, raio... trovão. Então o que está acontecendo lá na natureza? Um fenômeno, que eu queria que vocês marcassem, chamado repetição dos mesmos elementos. É isso que está acontecendo? Ou não? Silvia está vendo o quê?

Aluna: Repetição dos mesmos elementos.

Claudio: Está vendo ou não está?

Vamos dizer que Silvia está fazendo uma prática chamada contemplação. Contemplação quer dizer: ela pode ver mas não pode intervir. Silvia pode fazer o quê?

Aluna: Contemplação.

Claudio: Contemplação, mas não pode intervir nada. Eu usei Silvia porque ela é super-agitada e na hora em que ela contemplar o raio, você acha que Silvia vai esperar chegar o trovão? Dentro dela faz: bum! (Vê se entenderam...). Silvia faz o quê? Ela antecipa dentro dela o trovão.

Silvia: Ainda bem. Porque eu estava pensando que eu era indecisa e ia ficar quinhentos anos para poder...

Claudio: Ela antecipa o trovão, mas quando ela antecipa o trovão, ela retém o raio. Na hora em que ela faz a retenção do raio e antecipa o trovão ela junta dentro do espírito dela o que estava separado. Raio e trovão no espírito de Silvia se interpenetram. (Entenderam?). Eles se interpenetram. Mas se interpenetraram onde?

Aluna: No espírito.

Claudio: E lá no mundo?

Aluna: Continuam separados.

Claudio: Então, a contemplação produz uma diferença no espírito sem alterar o objeto. (Entenderam?). O espírito se altera sem que o objeto se altere. Agora, o raio aparece, desaparece e aparece o trovão. Então, o raio aparece num instante  e no instante seguinte é o trovão. Então, lá no mundo o que nós temos é  sucessão de instantes. Sucessão de instantes ou não. O que é a sucessão de instantes? Aparece uma coisa, desaparece e a outra surge. Então, os instantes são separados ou descontínuos. (Vocês não entenderam?...). O que quer dizer descontínuo? Só aparece quando outro desaparece. Então, os instantes são descontínuos. Mas, no espírito da Silvia o instante do raio e o instante do trovão se interpenetraram, se fundiram. Enquanto que no mundo eles estavam em coesão, em justaposição, no espírito  de Silvia eles estão fundidos. (Você entendeu, Cristina?). Quem é que fez a fusão? Quem fez a fusão foi o espírito que contempla. Então, o espírito  que contempla contrai os instantes. Então, nós vamos chamar esse espírito que contempla de quê? De eu contraente. Eu contemplativo e contraente. Ele contempla e contrai. Na hora em que ele contrai ele funde os dois instantes. Ele funde os dois instantes. Ao fundir os dois instantes ele produz o que o instante em si mesmo não tinha: extensão. A fusão de dois instantes cria uma extensão. (Entendeu bem, extensão?). Uma extensão no espírito. Porque o instante antecipado é o trovão. O instante retido é o raio. Quando os dois se fundem o raio se torna passado do trovão e o trovão futuro do raio. Mas no mundo eles não eram passado e futuro, eram apenas dois instantes separados.

Aluno: Agora, porque você chama isso de extensão? Isso você deu  numa aula há dez anos atrás, agora, quando ---- falou nisso eu...

Claudio:  A extensão é porque dois instantes se juntaram. Então, quando se junta os dois instantes, o primeiro é passado do segundo e o segundo é futuro do primeiro!

Aluna: Então, eles se tornaram como se fosse uma unidade...

Claudio: Essa contração, essa prática que a Silvia acabou de fazer, chama-se a invenção do tempo. Lá nos instantes não havia tempo. O tempo aparece no espírito que contrai.

Aluna: É impressionante porque isso é exatamente igual ao que acontece no espaço. Por isso é que é o tempo...

Claudio: Eu ainda vou explicar toda a questão do espaço...

Aluna: O espaço é exatamente assim. Eu tenho vários pontos, eu só tenho uma continuidade quando os pontos se fundem. E, aí, eu tenho uma extensão. É exatamente assim... É o modelo ----

Claudio: Essa extensão chama-se duração. O que é duração?

Aluna: Agora eu entendi o que é extensão. Agora eu entendi! Extensão é a duração do tempo. Você está falando de extensão, é exatamente a duração.

Claudio: Extensão e duração é a mesma coisa. Então, a duração está onde?

Aluna: No espírito!...

Claudio: A duração está no espírito. (Certo?). Vocês já podem até escrever: a essência da duração é a contração. Então, no espírito já há passado e futuro. (Está indo bem?).

Fundiu o raio e o trovão (não é?). Lá no mundo raio e trovão estão separados? No espírito estão juntos? Lá no mundo eles se chamam conjunção constante? No espírito chama-se conexão necessária. (Bota aí).

Aluna: Mas a conjunção constante é não mais duração, é sempre os instantes separados. Enquanto que conexão necessária...

Claudio: Não. Agora você vai encerrar definitivamente. A duração está no espírito? Qual é a essência da duração? A contração. O que se opõe à duração? Instantes separados. Exatamente, o que se opõe à duração é a repetição.

Aluna: A repetição dos mesmos...

Claudio: ... instantes. A repetição dos mesmos elementos. Bota assim: o que se opõe à duração é a repetição. Numa outra linguagem essa duração é a diferença. Mas não vou entrar por aqui senão vai complicar muito. O que importa agora é que a fusão dos dois instantes, que se deu no espírito, é a invenção ou, vamos dizer melhor, a fundação do tempo. Quem é que funda o tempo? O espírito que contempla e contrai. Ele juntou então, o passado ao futuro. (Certo?). Juntou os dois instantes. (Entenderam aqui?). Então, esses dois instantes... o primeiro se torna passado e o segundo se torna futuro. E o presente é aquilo que passa do passado para o futuro. (Depois eu vou melhorar mais isso para vocês. Está certo?).

Aluna:  E vai falar  de pontas do presente...

Claudio: Ah! Não faz isso. Porque eu posso falar de pontas do  presente aqui, Silvia? Esgotou, não preciso dizer mais nada. Não posso falar de pontas do presente nenhum aqui, Silvia. Como é que posso falar de pontas do presente aqui, Silvia?

Aluna: Não, nesse instante você não pode, mas é por causa de que isso existe que pode falar desse presente...

Claudio: Então, está. Então, você vai falar. Vai concluir. Mas como você pode fazer uma conclusão dessas, Silvia?

Aluna: Não estou fazendo conclusão, Claudio, estou só estou falando...

Claudio: Isso aqui não é uma lógica racional, não estou dentro de uma lógica racional, pelo contrário, eu estou numa irracionalidade absoluta, eu estou entrando nos paradoxos.

Aluna: Não estou fazendo conclusão, quem vai concluir é você...

Claudio: Então, deixa. Vejam bem. Vamos agora fazer uma mentira, uma mentirinha. O raio é um instante separado do trovão? Não foi isso que eu disse? São dois instantes, o raio aqui e o trovão. Então vamos pegar três instantes lá no mundo da repetição. Posso fazer isso? Pegar três instantes no mundo da repetição? (Não entenderam....). Esse três instantes no mundo da repetição estão separados? Estão. Vocês podem chamar o mundo da repetição de mundo da matéria. Então, no mundo da  matéria os instantes estão separados? Estão. Tudo isso é um jogo que estou fazendo para vocês entenderem. Então, vamos chamar esse três instantes um de passado, um de presente e um de futuro. Então, se eu chamo um de passado, um de presente e um de futuro eu vou dizer que o passado está separado do presente?

Aluna: Sim...

Claudio: Sim. Eu vou dizer que o presente está separado do futuro? Eu vou dizer que o futuro está separado do presente? O futuro está separado do passado? Eles são descontínuos? Separados? (Certo?). Agora, quando eu entro cá na duração os instantes se fundiram? O passado está separado do futuro?

Aluna: Não.

Claudio: Não está na mesma fusão? Então, quando você  vai para a duração  o passado e o futuro não estão separados do presente, são dimensões do presente. Lá nos instantes estão separados, cá no espírito não estão  separados. (Não sei se vocês entenderam...). Então, eu vou chamar o passado e o futuro de dimensões do presente. Porque fazem parte do presente. E quando eu digo dimensões do presente eu estou dizendo que o passado já  não é mais passado, é  o presente do passado e o futuro é o presente do futuro, porque é no presente que eles estão se dando. (Vê se vocês entenderam...).


[Durante a transcrição desta aula, tentando encontrar o trecho que faltava, acabamos descobrindo uma outra gravação com o mesmo tema – Lucrécio – e uma data semelhante – 16 de junho. O ano marcado, porém, era 1992, ao invés de 1994. Achamos a princípio que era a mesma aula, com um erro de anotação. Mas logo constatamos que se tratava de uma aula diferente – Lucrécio e a Ontologia da Ilusão - dada dois anos antes, mas que esclarecia e completava a primeira, cujo final não conseguimos encontrar. As duas, portanto, embora ministradas em datas diferentes, são complementares, e podem ser lidas como uma única aula.]

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