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Aula de 01/11/1994 – Nietzsche: forças ativas e forças reativas

"Além do indivíduo há outra coisa. Essa outra coisa chama-se singular.
 
Entenderam? Não?
 
O singular seria um elemento que junto, quando você juntasse um conjunto de singulares, o que apareceria? O indivíduo. O indivíduo é um conjunto de singulares.
 
Isso eu estou falando de uma maneira até bruta, como se fosse um diamante, para vocês poderem entender. São são dois elementos que reagem. São duas realidades: a realidade do individual e... qual é a outra realidade? Do singular.
 
(...)
 
O Nietzsche, quando ele vai falar em singular, ele não usa a palavra singular. Ele utiliza a palavra força.
 
Mas Nietzsche diz que uma força nunca vai aparecer isolada. Uma força sempre aparece em relação com outra força. E quando duas forças estão com relação você tem um corpo.
 
(...)
 
Então um corpo é a relação de duas forças. Isso é definitivo na obra de Nietzsche, é o ponto de partida. Você não tem um corpo se você não tiver as forças.
 
Essas forças são a singularidade. São elas que são as intensidades. Todas as forças são singulares e intensas.
 
Segundo Nietzsche essas forças seriam ativas ou reativas. Isso é definitivo na obra dele.
 
‑  Então um corpo é constituído por duas forças, quais?
 
‑  Ativas e reativas.
 
Isso é definitivo. É facílimo entender o que ele está dizendo. Em seguida ele diz uma coisa também de uma facilidade incrível: a força ativa, ela comanda. A força reativa obedece.
 
‑ Então o ser da força ativa é?
 
‑ Comandar.
 
‑ E o ser da força reativa é?
 
‑ Obedecer.
 
Mas isso não implica em que não possa haver um corpo no qual a força reativa domina.
 
faixa-doacaoNo momento em que você tem um corpo, você tem as duas forças; mas pode acontecer que neste corpo a força reativa (a força da obediência) esteja dominando. É o que se chama “rebelião dos escravos”. Vocês entenderam?
 
‑ O corpo pode ter a força reativa dominando dentro dele ou não?
 
‑ Pode.
 
Este corpo quando tiver a força reativa dominando dentro dele, isso não significa que a força ativa deixou de existir. Porque se a força ativa deixa de existir, desaparece o corpo. [Isso quer dizer que] pode haver uma situação em que a força reativa domine; mas nem por isso a força ativa deixa de existir. Entendido?
 
Então, no homem, isso que nós chamamos homem, há um domínio das forças reativas. Aquela força que nasceu pra obedecer, que nasceu pra ser escrava, ela passou a dominar a força que nasceu para dominar e ser ativa.
 
No homem o que domina é a força reativa. Entenderam?
 
Então quando você encontra um indivíduo onde a força reativa domina, você usa essa expressão: neste ser há uma vida reativa. Ou seja, o homem é um ser que tem uma vida reativa. Por que essa vida é reativa? Porque as forças reativas, que são as forças feitas para obedecer, elas passaram a comandar. Então o homem passou a ser um ser que tem a vida reativa."
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:

 
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A Filosofia é a mais inocente das ocupações – Manuscrito 18

"Este texto, este trabalho, pretende-se poético, como se fosse um poema. Em torno do que diz Hölderlin sobre o poema: o que é inteiramente inocente, a mais inocente de todas as ocupações: a poesia. É um sonho, e coloca em primeiro plano os sonhadores. Mas também um enfrentamento – o mais inocente, do espírito consigo próprio. O diálogo silencioso. Por exemplo, como em Duns Scot, que se coloca a questão da metafísica. Qual o objeto da metafísica, o ser ou Deus e as inteligências separadas? Avicena e Averroes. Avicena tem razão, diz ele. E, a partir daí, nasce uma filosofia, com seu cortejo de idéias e problemas.
 
A filosofia é a mais inocente das ocupações."

Aula de 06/10/1994 – Considera a Flebas, à Literatura, e à Vida

"Os seres vivos manisfestam a vida, mas não são eles a própria vida. Este é o ponto de partida, e é de uma grande dificuldade... Mas se fizermos um pequeno esforço, vamos verificar que atravessa dentro de nós uma força que de maneira alguma as estrtuturas físico-químicas dão conta. E é exatamente esta força dentro de nós que Deleuze, Espinoza, e outros, vão tornar tema da sua investigação filosófica. Ou seja, nós vamos agora ver uma filosofia que ao invés de querer falar sobre as coisas que estão aí no mundo, esta filosofia vai querer narrar para nós o que são estas forças imperceptíveis, invisíveis, chamadas Vida".

Sexta aula da série "Arte e Estética - pela via de Nietzsche"

Parte 1:
 
Parte 2:
 
Parte 3:
 
Parte 4:

 

 

Manuscrito 17 – Estou encantado com este indivíduo tão sujo, que é o homem

"Estou encantado com este indivíduo tão sujo, que é o homem — em dois sentidos: adquire manchas físicas e máculas éticas. Encantador, porque entre o fogo dilacerante e enlouquecido das estrelas, à espera da morte, esmagado pelos dias e pelas noites, envolvido pelos ventos, dores, tempestades, sorrisos, lamentos, o homem é capaz de catalogar o canto dos pássaros, ornar de ouro e porcelana seus palácios, dar um cunho austero à sua tumba, construir gestos e atitudes sem marcas de história pessoal ou sofrimento com fantasmas. Compor uma música qualquer; por exemplo, as de Mozart."