Claudio Ulpiano: a sedução pela Idéia

Claudio Ulpiano foi representante exemplar de uma geração de professores que fizeram da sala de aula palco apropriado para a construção de um discurso articulado e sedutor, com o intuito maior de levar o público a se interessar pela filosofia. Seu modo de trabalhar não era tão somente um exercício de retórica; pelo contrário, as suas aulas eram todas apoiadas num extenso rol de referências teóricas que ele, sempre que podia, explicitava aos ouvintes. Todavia, Ulpiano cuidava para que sua erudição não se tornasse um obstáculo, como acontece com tantos teóricos perdidos em questões bizantinas. Ele conseguia dar um direcionamento geral aos seus cursos, em sua maioria de história da filosofia, subordinando as informações que transmitia à referência, para ele fundamental, do pensamento de Gilles Deleuze.

Formado em um tempo no qual o magistério era atividade viável e desejável, no qual inexistia pesquisa em filosofia, como se pratica atualmente nos moldes exigidos pelas agências de fomento, foi plenamente justificável a opção de Claudio Ulpiano pela expressão verbal. Era aí que centrava todas as suas forças e revelava suas melhores qualidades. Seus escritos, portanto, não são muitos. A força de seu estilo, aliada à generosidade de sua pessoa, levaram Claudio Ulpiano muito além dos muros das universidades onde trabalhava (UERJ e UFF). Durante muitos anos, conduziu um considerável número de grupos de estudo, todos com enorme público, das mais diversas formações, e sempre com invejável sucesso. Destacaram-se, dentre seus alunos, muitos artistas, criadores e formadores de opinião, o que torna Ulpiano o mais importante formador do olhar cultivado no Rio de Janeiro, na área de filosofia, dos últimos decênios. Na cultura do Rio de Janeiro, sem dúvida, Claudio Ulpiano conseguiu a proeza de realizar o que nenhum curso universitário conseguiu: aglutinar a adesão voluntária de uma multidão de interessados em seus cursos, desde então afetados, de maneira incontornável, pelo discurso filosófico.

A opção pela expressão verbal, com certeza, não vinha de uma incapacidade em escrever. Claudio Ulpiano valorizava, como poucos, os bons livros e artigos. Lia muito, e não apenas textos filosóficos. Mas tinha restrições ao ato de escrever: sabia que nenhuma questão filosófica importante poderia ser produto de um ato voluntário ou de mera opção acadêmica. A seu ver, as questões filosóficas só poderiam ser inquietantes e cruciais. Por este motivo, Ulpiano via com muita reserva a filosofia acadêmica e as interferências das agências de fomento na produção filosófica das universidades. Ele não podia admitir que uma questão, elaborada formalmente e organizada comodamente num projeto de pesquisa, depois aceita como relevante por um parecerista qualquer, pudesse resultar num trabalho radical e original de filosofia, pelo simples fato de não ser, verdadeiramente, uma questão filosófica. Considerava este tipo de afazer mera burocracia teórica, inútil e inócua, justificando apenas uma estrutura de poder construída exatamente por aqueles que não poderiam ser mais que burocratas do saber, que tão somente mensuram atividades e textos. Não foram poucas as vezes em que Claudio Ulpiano brincou comigo afirmando que estávamos perto do dia em que seríamos obrigados a publicar até mesmo bilhetes... Obstinado em sua ética, recusou-se a escrever somente para contabilizar número de trabalhos publicados. Esta obstinação o levou a defender sua tese de doutoramento bem tardiamente, à beira da morte. Os títulos, em verdade, não o encantavam ou fascinavam, tanto quanto tinha verdadeiro horror pela triste disputa em torno dos cargos universitários e pelas estruturas de poder acadêmicas. Pagou o preço da liberdade, mas manteve-se incólume. Morreu cercado de respeito e admiração.

Os cursos de Claudio Ulpiano visavam, deliberadamente, fornecer um quadro geral dos problemas filosóficos, de seus contextos históricos, sempre de modo a situar seus ouvintes, propiciando as bases para um posterior conhecimento mais aprofundado e especializado, se fosse o caso. Neste sentido, parece-me que era uma opção estratégica sua deixar a seus ouvintes a liberdade de escolha sobre o uso a ser feito do material de suas aulas: se usado na vida pessoal, numa teorização delimitada, num projeto acadêmico, numa estética da existência, etc., para ele o importante era que a filosofia pudesse ser, de alguma maneira, parte integrante de cada uma das singularidades que o escutava. Por esta razão, Ulpiano não poderia jamais ser classificado como apenas um professor de introdução à filosofia; na verdade, o que pretendia, e conseguiu como poucos, era afetar as diversas singularidades que tinha diante de si.

Sua paixão pela filosofia, aliada a uma dedicação ao estudo, que chegou a atingir, de forma crescente, sua saúde física, era perceptível. Levou um grupo expressivo de pessoas a seguir seus cursos anos a fio, dentro e fora da universidade. Muitos deles converteram-se em verdadeiros discípulos, que fizeram de Ulpiano um exemplo de intelectual. Não sei o que Claudio achava disto. O fato é que agora, depois de sua morte, num certo aspecto prematura, continuam a se fazer homenagens ao mestre. Torço para que seu legado perdure. O desafio de seus seguidores será o de manter o rigor acadêmico por trás dos discursos a serem proferidos. Sou cético quanto a isto, mas tenho as maiores esperanças de estar errado.

De todas as lições de Claudio Ulpiano, certamente o fio condutor foi a atenção à Idéia. Atitude maior de um verdadeiro aprendiz, lembrando Deleuze: "Aprender é o nome que convém aos atos subjetivos operados face à objetividade do problema (Idéia), enquanto que saber designa somente a generalidade do conceito ou a calma possessão de uma regra de soluções... Aprender é penetrar no universal das relações que constituem a Idéia, e nas singularidades que lhes correspondem". (Différence et Répétition, pág 214). Ulpiano, caso raro, soube vivenciar e procurava emanar o gosto pela espessura colorida dos problemas.

Os que fazem da filosofia uma causa, um alento e um sonho, um devir e uma vontade forte, agradecem àquele que se dissipou e está entre nós, como os rizomas, abrindo caminho.

Guilherme Castelo Branco
professor do Departamento de Filosofia da UFRJ
(Artigo publicado originalmente em Espaço Plural, nº 0, julho de 1999, Centro de Ciências Sociais/UERJ, RJ)

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2 opiniões sobre “Claudio Ulpiano: a sedução pela Idéia”

  1. Olá, fui aluna de Claudio Ulpiano por muito tempo e fiquei muito emocionada ao encontrar este site. Sou escritora e filósofa e também adoraria publicar meus textos aqui, como faço? Estou encantada com o trabalho de vocês.
    Um abraço,
    Marilia

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