Claudio Ulpiano

Com suas barbas, Claudio Ulpiano mais parece um sábio medieval. Alguém que nos chegasse ontem da Idade Média, dir-se-ía até um alquimista, um ser noturno, na fronteira entre a realidade e o sonho. Sabedoria, um ser impregnado de sabedoria. Eis a primeira sensação quase física que ele nos dá, com suas barbas, o seu rosto algo melancólico, o seu olhar triste, a sua impaciência contida, a tensão do seu ser.

Leva toda uma biblioteca para Faxinal do Céu. E lê, lê constantemente, longamente, ansiosamente, interminavelmente. Lê ao longo das noites. É um grande leitor, infatigável. É um ser noturno, um ser que ama a solidão da noite, o silêncio da noite. E se entrega ao exercício da leitura, leitura filosófica, ao prazer da leitura, a essa volúpia do texto, que é de fato a grande alegria do intelectual. As núpcias com o texto.

Essa biblioteca o acompanha, lhe é essencial. Sem ela, não poderia viver, não saberia viver. E ali está ele, o filósofo, altas horas da noite, a ler os seus livros, a luz acesa, numa vigília que incessantemente se renova.

A filosofia de Gilles Deleuze o atrai. Deleuze é um nietzschiano. Há nele um frêmito de Nietzsche. A intensidade. Algo de pascaliano, num sentido antipascaliano. Sim, "eis o que é mais profundo em Nietzsche, a medida de sua ruptura com a filosofia, tal como ela aparece no aforismo: ter feito do pensamento uma máquina de guerra, ter feito do pensamento uma potência nômade". Mais: "E mesmo se a viagem for imóvel, mesmo se for feita num mesmo lugar, imperceptível, inesperada, subterrânea, devemos nós perguntar quais são os nossos nômades de hoje, quem são realmente os nossos nietzschianos?"

Neste exato sentido, Deleuze é um nietzschiano. E Claudio Ulpiano tem um interesse profundo pelas relações entre a filosofia e o cinema. Ele nos propõe uma nova atitude filosófica. Uma nova maneira de pensar, uma forma inteiramente nova de considerar a filosofia. Claudio Ulpiano, em termos filosóficos, realiza aqui e agora aquilo de Drummond - "Ó vida futura, nós te criaremos". Claudio Ulpiano cria a filosofia do futuro.

E em meio a que dificuldades de ordem física, a que resistências do corpo. Ele tem problemas com os pulmões. Problemas respiratórios. E enfrenta tudo isso, todas essas restrições orgânicas, todos esses desafios terríveis, com uma coragem, uma disposição de luta, um ânimo invencível, uma capacidade de combate verdadeiramente exemplar. A filosofia aceita, impávida, o duelo com a vida. E se enche de agressividade, e briga, e enfrenta, e vence.

Texto extraído do livro Diário de Faxinal do Céu, de autoria de Antonio Carlos Villaça, Lacerda Editores, Rio de Janeiro 1998.

Antônio Carlos Villaça

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