Susto metafísico

Seria muito difícil encontrarmos pessoas que nunca se assustaram. É comum ouvirmos alguém dizer: "que susto!". No entanto, se perguntássemos a uma pessoa se ela já levou um susto metafísico, ela com certeza não saberia o que responder. Provavelmente perguntaria o que vem a ser um susto metafísico. É um conceito novo, responderíamos, criado por um filósofo. É função do filósofo criar novos conceitos para expressar novos modos de pensar. E por causa disto o susto metafísico, antes de mais nada, marca a presença dele, do filósofo, no burburinho dos dias.

O filósofo que vive na cidade requer, para criar seus conceitos, meios que o impeçam de compartilhar, com os demais cidadãos, das opiniões homogêneas. Como fazer para que tais meios possam aparecer? Ora, mergulhando no confronto com aquilo que pode torná-lo louco ou tolo; ou ambos ao mesmo tempo. Não seria apenas apontar e denunciar que existe uma produção de falsa consciência, ou seja, de ideologia. É necessário o confronto interminável, uma vida que se lança num duplo embate contra a opinião e a turbulência do caos. Entretanto, o caos é muito mais próximo do filósofo do que a opinião. É a tentativa do filósofo de colher do caos o pensamento, em meio às insuportáveis vertigens ocasionadas pelas velocidades e movimentos infinitos, o que o faz rivalizar com ele; com o caos.

Como criar em meio aos ruídos da cidade, ao trânsito enlouquecido, aos problemas econômicos, ao calor excessivo, ao reino do senso comum? Não é uma tarefa amena e, para tentarmos compreendê-la, nos restaria, talvez, acompanhar um filósofo que aparece em pleno limite da cidade. Por que limite da cidade? Tentarei explicar-me. Esta narrativa se remete a um acontecimento, com local e data específicos. Onde se deu esse acontecimento? Na cidade do Rio de Janeiro. No dia (...). Claudio Ulpiano dava uma aula de filosofia no "Castelinho do Flamengo". Se falo limite da cidade é justamente por estar o Castelinho situado na Praia do Flamengo e, se atravessarmos as pistas do "Aterro", logo em frente encontraremos o mar. O limite geográfico da cidade serviu de palco para a narrativa que me proponho apresentar. Ali naquele local, em plena sala de aula, Claudio Ulpiano fazia uma exposição sobre o tema da dificuldade; poderíamos dizer, fazia um "cântico do difícil". A origem desta exposição nos remete ao próprio tema da aula que ministrava: filosofia e cinema. De repente ele coloca uma questão: "como está indo a aula?". De imediato exclama: "a aula tem que ser difícil". Naquele momento o trânsito lá fora era intenso, os motoristas freavam e buzinavam, a cidade fervilhava. No entanto, no âmago daquele burburinho acontecia algo, e o que ali acontecia levava-nos a constatar que a filosofia é filha da cidade. E o cinema? Ora, o cinema aparece como o meio mais rápido para a explicação de como a aula tem que ser difícil; de como é difícil a filosofia, não em termos de entendimento, mas de sensações.

O exemplo que utiliza, ele o retira do próprio filme que acabamos de assistir: Macbeth, de Orson Welles. "Em Macbeth não sabemos o que é céu, o que é terra, o que é lama, o que é sólido, de que é feita aquela caverna, a fumaça, os gritos. Os sussurros que estão ali são terríveis porque não escondem nada. Por traz deles só há o vazio. Sempre que vemos um filme realista, por traz da neblina está Jack O Estripador. Mas, neste filme, atrás da neblina só há o vazio. Os modelos se deslocam, inclusive os do susto. Tomamos um susto enorme quando a neblina acaba e Jack O Estripador aparece com o punhal na mão. É um susto orgânico. "Vai cortar a minha pele, vai cortar o meu estômago, vai me matar!" "Em Macbeth - ele continua -, "quando a neblina desaparece e o vazio surge, também tomamos um susto, mas não é mais o susto orgânico. É o susto metafísico".

Luiz Manoel Lopes
doutor em Filosofia pela UFSCAR/SP e professor de filosofia da Universidade Federal do Ceará

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