Século XXI

Quem aparece diante da questão: que é esta realidade? O homem. O homem com suas categorias, com seus afetos, com suas ações e paixões, com suas regras. Este mesmo, que no alvorecer do século XI convivia com perturbações no fogo, no céu, nas profundezas da terra - e se submetia às anomalias das crônicas monásticas, este mesmo que se deixava envolver pela angústia devido à aproximação do ano 1000, que assinalava os mil anos da morte de Deus. E que tornava o céu uma turbulência, um desregramento colérico. Um preparativo para o fim do mundo. Este mesmo, que se aproxima do ano 2000, convivendo com a física quântica, penetrando no silêncio em movimento das proteínas e dos ácidos nucleicos; das viagens e das crônicas marcianas; que repensa o campo social em termos de ondas de repetição que se propagam nas diferenças do inconsciente produtivo; que faz da obra literária um convívio tenso com os cristais do tempo, com as formas virtuais; que comanda o som, a luz, e que viaja com as imagens, que implanta no mundo uma ótica espetacular e um sonoro múltiplo. Este mesmo homem, submetido à fragilidade de seu corpo, de seu organismo tecido pelas combinatórias das moléculas carboníferas. Em perplexidade com a morte, conjugado com a esperança que deserta dele, em desespero com a cisão imperativa do tempo, atormentado pela dor que contamina seu corpo frágil, contaminado pela perturbação de sua alma. Perseguido por fantasmas: por simulacros que atravessam seu sistema nervoso, que arrefecem sua coragem, que o entregam ao desespero e à loucura.

Este homem, entre o divino, e que alça os ares; e os pés presos, que serpenteia na terra. De um lado, fantasmático, inocente, foragido das cavernas; de outro, potente, guerreiro para lá do bronze - no silício: fabricando, maquinando, combinando, micro-computando - depara-se com o fora absoluto, com o impensado, com o século XXI, além de seus saberes e de seus poderes, mas já entendendo que a informação é o seu princípio, o que o individua, pela operação de troca energética, atualizando suas potências, criando disponibilidade e comunicação, que o envolve e o amplifica. Ser estranho e magnífico, sucessão e ressonância no tempo, que se duplica, que se desdobra na tecnologia, está em permanente crescimento de tensão e prolongamento.

[print_link] [email_link]

2 opiniões sobre “Século XXI”

    1. Olá, Leda

      Não achamos de jeito nenhum que o Claudio encontraria as respostas lá! Na verdade, ele sequer está procurando respostas; ele está, isto sim, pensando, e nos convidando a pensar junto com ele…
      Um abraço,
      Os Editores

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *